terça-feira, 15 de novembro de 2022

Nunca me disseste poesia

Nunca disseste poesia.

Nunca deitaste o rubor tímido

Nas águas impávidas do mar.

Nunca devolveste ao olhar

As lágrimas que perdi para o tempo.

Nunca encostaste ao peito

As flores e as folhinhas da olaia.

Só balbuciaste matéria erodida,

A que tilinta na superfície ou a poalha,

As rodas de pez do teu carro

Diante da minha acédia no passeio,

O esfacelamento das lentes,

O declínio da visão, 

Que não via sequer um estendal

Do outro lado da rua,

O caos que vias através das estrelas

E de um menino,

A ausência de império no asseio,

A alma nua e a inspiração

Ou a lívida lucidez ao vento.

A poesia diz-se para que ninguém espere.

Nunca disseste poesia.

Nem no início claro do nosso tempo,

Onde num dissimulado assomo de lascívia,

Querias ouvir a flauta e a intempérie. 

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