quinta-feira, 31 de outubro de 2019

APOCALIPSE AGORA?

Meu prefácio ao livro de David Wallace-Wells Terra Inabitável (Lua de Papel), que acaba de sair:

Os relatos do apocalipse sempre inquietaram a humanidade. A inquietação que nos lança David Wallace-Wells, jornalista norte-americano da revista New York, neste livro ora publicado em português numa boa tradução, é que os tempos do aquecimento global que vivemos – o aquecimento do planeta devido à emissão pelos seres humanos de gases de efeito de estufa – poderão dar lugar a tempos de apocalipse, se não fizermos desde já o que é preciso fazer.

Ele escreve num estilo muito vivo – o estilo de quem não quer morrer tão cedo –, compondo uma narrativa bem informada pelos dados da ciência a respeito da nossa casa comum.

O mundo parece lançado num caminho de destruição? Pois temos a obrigação de o salvar e, acrescenta o autor com base nas fontes seguras que recolheu, é ainda possível salvá-lo.  Como ele sumaria, a nossa geração permitiu que o clima entrasse num caminho agonizante. Mas a próxima pode ainda evitar o pior.

Tal como a Primavera Silenciosa, de Rachel Carson (Pórtico, 1966) chamou em 1962 a atenção para a destruição química da natureza, tal como o Fim da Natureza de Bill McKibben (Terramar, 1990) chamou, logo em 1989, a atenção para os perigos das alterações climáticas, perigos amplificados social e politicamente em 2006 com o filme e o livro Uma Verdade Inconveniente (Esfera do Caos, 2006) de Al Gore, o presente A Terra Inabitável surge como um grito de alerta. Humanos: tereis de mudar de vida, se quereis evitar o fim bastante próximo.

Há quem o tenha ouvido – o ensaio da New York, publicado em 2017, que foi a semente para o presente livro teve mais de seis milhões de leitores não só nos Estados Unidos como em todo o mundo. A controvérsia estalou. Participou nela uma parte da comunidade científica que trabalha em alterações climáticas, que, não tendo grande coisa a apontar quanto aos factos transmitidos, achou que a narrativa construída sobre eles era exagerada, que o tom era desnecessariamente alarmista. O autor defendeu-se, numa entrevista ao site Gothamist, dizendo que não lhe “parecia plausível que existisse um risco maior em assustar demasiado as pessoas do que em não as assustar suficientemente… Mas, na minha opinião, se houver a mínima hipótese, um por cento que seja, de o ser humano desencadear uma reacção em cadeia capaz de extinguir a sua espécie, então essa informação devia ser tornada pública e as pessoas deviam reflectir sobre isso.” Parece-me difícil contrariá-lo.

Algumas das informações deste livro que podem e devem fazer-nos pensar: um voo de ida e volta entre Londres e Nova Iorque causa a fusão de três metros cúbicos de gelo do Árctico; estamos hoje a queimar 80 por cento mais carvão do que estávamos no ano 2000; a produção de plástico no mundo está a aumentar a tal ponto que, em 2050, deverá haver mais plástico do que peixe nos oceanos.
Apesar de ainda existirem alguns negacionistas isolados (o mais relevante dos quais é Donald Trump, aparentemente um caso perdido), eminentes vozes globais têm chamado a atenção da população do planeta para as ameaças que pairam sobre ele.

O papa Francisco, que tem formação superior em Química, publicou em 2015, precisamente no ano do Tratado de Paris, a encíclica Laudato si’. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, de resto citado por Wallace-Wells, apareceu recentemente na capa da Time como um náufrago com água pelos joelhos, na costa de Tuvalu, na Polinésia, uma terra que parece condenada à submersão. Começaram a aparecer vozes da nova geração, a geração que terá de reparar os estragos para viver uma vida longeva: a sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que iniciou uma greve em defesa do clima, uma greve que teve eco em Portugal, e o movimento de desobediência civil Extinction Rebellion, que suscitou a atenção entre nós quando um jovem invadiu, em Abril passado, o palco onde estava António Costa a festejar o aniversário do PS.

Portugal, por estar à beira-mar e no Sul da Europa, é um país bastante vulnerável às alterações climáticas. A Agência Europeia do Ambiente calculou, há dois anos, que Portugal já teve 7 mil milhões de euros de prejuízo entre 1980 e 2013. Os prejuízos depois disso agravaram-se muito. Os efeitos são conhecidos: erosão costeira, vagas de calor e, nos últimos anos, grandes incêndios, com perdas de dezenas de vidas humanas. Os fogos de 15 de Outubro de 2017 foram despoletados pelo furacão Ophelia, o maior de sempre no Atlântico Oriental, cujos efeitos, conforme assinala Wallace-Wells, chegaram até à Irlanda. E o jornal britânico The Guardian encabeçou um artigo sobre A Terra Inabitável com uma tenebrosa fotografia do grande incêndio de Monchique de Agosto de 2018.
A ciência identificou, sem dúvidas, o problema e forneceu algumas pistas para uma eventual solução (há já na história um exemplo notável: todos os países do mundo ratificaram o Protocolo de Montreal, de 1987, que baniu os clorofluorcarbonetos, fazendo diminuir gradualmente o buraco na camada de ozono). Mas a questão está longe de ser do domínio da ciência. Convoca, como bem narra Wallace-Wells, a sociedade, a cultura, a economia, a política e até a religião. Como a ameaça é global, só uma resposta global poderá ser verdadeiramente eficaz. Apocalipse agora? Como termina o autor: “Cada um pode escolher a sua metáfora. Não podemos é escolher o planeta, que é o único a que cada um de nós algum dia chamará casa.”

Carlos Fiolhais
Professor de Física da Universidade de Coimbra

HOJE É O DIA DA MATÉRIA NEGRA - E HÁ PALESTRA EM COIMBRA


Na próxima quinta-feira, dia 31 de Outubro, pelas 18h, realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, no âmbito do Dia Internacional da Matéria Escura, a palestra "Dark Matter Day 2019: Finding the Missing Matter" com Cláudio Pascoal da Silva, professor no Departamento de Física e investigador do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas da Universidade de Coimbra. A entrada é livre e destinada ao público em geral.

 RESUMO DA PALESTRA:

 No próximo dia 31 de Outubro celebra-se o dia internacional da matéria escura - um dos maiores enigmas da ciência contemporânea. A matéria escura é conhecida apenas pelo seu efeito gravitacional no universo e é essencial para manter as galáxias agregadas. Apesar de ser quatro vezes mais abundante do que a matéria conhecida, continua a escapar a todas as tentativas de deteção. Nesta palestra discutir-se-á o que é a matéria escura, porque acreditamos na sua existência e como a pretendemos detectar no futuro. O LIP-Coimbra participa desde 2004 em experiências de deteção direta de matéria escura e conta actualmente com uma equipa de 13 investigadores e estudantes envolvidos na construção e operação do detector LUX-ZEPLIN (LZ). LZ funcionará numa mina de ouro nos Estados Unidos a 1500 m de profundidade e vai ser o maior e mais sensível detector de matéria escura jamais construído. Iniciará a sua operação no próximo ano e poderá pela primeira vez detectar esta matéria misteriosa.

NOVIDADES DA GRADIVA DE OUTUBRO


O Homem de Neandertal. Em Busca dos Genomas Perdidos
Svante PääboEste livro conta a extraordinária história do geneticista Svante Pääbo na sua tentativa de responder à questão: o que podemos aprender com os genomas dos nossos parentes mais próximos na árvore da evolução? Descreve os eventos, as intrigas, os falhanços e os triunfos da investigação pelo prisma de um pioneiro e descobridor no campo do ADN antigo. As descobertas de Pääbo, além de redesenharem a nossa árvore genealógica, ajudaram a reescrever os fundamentos da história humana: o início biológico do moderno Homo sapiens.
Como nos tornámos humanos? Nesta obra, encontra as respostas.

«Ciência Aberta», 432 pp., 18,00€
https://www.gradiva.pt/catalogo/46998/o-homem-de-neandertal


A Civilização do Peixe­-Vermelho*
Como peixesvermelhos presos aos ecrãs dos nossos smartphones | Bruno Patino

Um livro que é um pequeno tratado sobre o mercado da atenção. 136 páginas em que o autor, director do canal Arte France e da escola de jornalismo do Instituto de Estudos Políticos de Paris que tem dedicado o seu tempo a estudar a relação que mantemos com dispositivos digitais, faz um diagnóstico assustador dos efeitos que o permanente contacto notificações, alertas, mensagens, aplicações e afins está a ter na nossa capacidade de concentração. Uma atenção que excede apenas em 1 segundo o tempo de atenção que um peixinho vermelho mantém enquanto dá uma volta ao aquário - 8 segundos apenas.
O livro revela ainda que em 24 horas diárias, 5 são passadas a olhar para os smartphones que nos «brindam» com cerca de 30 activações por hora. Entre mensagens, notificações, 'likes' ou solicitações digitais de todos os tipos, são centenas os apelos digitais de que somos alvo diariamente. O que está a conduzir-nos uma espécie de "terreno movediço de desatenção"… que nos deixa apenas 9 segundos de «liberdade». Nove segundos esses que, segundo Patino, são cuidadosamente monitorizados pelas GAFA (Google Amazon Facebook Apple) que nunca nos «deixam cair» em privação digital. O livro avança com muito mais dados nomeadamente a forma como nos relacionamos com a informação, o espaço público, o conhecimento e a verdade e o modo como tomamos decisões cada vez mais passionais e fruto de reflexos e não de reflexão.
Como peixes‑vermelhos presos aos ecrãs dos nossos smartphones. Um livro com dados aterradores.


*Excerto de A Civilização do PeixeVermelho

Todos conhecem o peixe­vermelho, que anda às voltas no aquário e que se considera ter fraca memória e reduzida atenção. A cada volta, o mundo é novo! Preso num espaço pequeno, a sua memória não é um problema, é uma boa notícia. E se os seres humanos forem comparados a um peixe­vermelho? Os engenheiros da Google calcularam: o tempo de atenção do peixe­vermelho é 8 segundos. A geração Y, que nasceu e cresceu com o digital, tem 9 segundos de atenção.

Um estudo do Journal of Social and Clinical Psychology estima em 30 minutos o tempo máximo de exposição às redes sociais e à Internet sem que a saúde mental fique ameaçada. Estamos todos no caminho da dependência: crianças, jovens e adultos.
A economia da atenção destrói a pouco e pouco todas as nossas referências. A nossa relação com os meios de comunicação, o espaço público, o conhecimento, a verdade, a informação, nada lhe escapa: prefere os reflexos à reflexão e as paixões à razão. As luzes filosóficas apagam­se em benefício dos sinais digitais.
Para Patino, os lamentos são inúteis. «Chegou a hora do combate, não para rejeitar a civilização digital, mas transformar a sua natureza económica e torná­la um projecto que abandona o pesadelo transhumanista para encontrar o ideal humano.»
Um livro com dados aterradores!

«Claro, é um googler, um funcionário da Google. Com muitos outros, veio de Mountain View, sede da empresa mais poderosa do mundo, para transmitir a boa­nova do gigante digital a um grupo de europeus que trabalham em diferentes órgãos de comunicação. É o método da Google: organizar, várias vezes por ano, em todos os continentes, «encontros» com profissionais.
[...]
A sala aguarda a revelação do funcionário da empresa. Manifestamente, há­de ter exigido imaginação, tempo e, obviamente, o formidável poder de cálculo informático necessário à «inteligência artificial». Por trás desta expressão mágica, não há mais que dados e fórmulas matemáticas que permitem, aos poucos, que uma máquina aprenda a reconhecer, a analisar, a encontrar explicações. Porém, para que funcione, são precisos milhares e milhares de milhões de dados, sabiamente geridos por milhares de engenheiros.
O homem fala do peixe­vermelho no ecrã gigante.
[...]
Só que o homem não acabou de fazer os seus anúncios. Os computadores da Google conseguiram igualmente estimar o tempo de atenção da geração Y. Aqueles que nasceram com a conexão permanente e cresceram com um ecrã táctil sob os dedos. Aqueles que, como nós, não conseguem evitar sentir uma vibração ao fundo do bolso; aqueles que, nos transportes públicos, não desviam o olhar do smartphone, concentrados no espaço­tempo do ecrã. O tempo de atenção, a capacidade de concentração desta geração, anuncia o homem, é de nove segundos. Depois disso, o seu cérebro, o nosso cérebro, desliga.»

O Futuro das Profissões. Como a Tecnologia Transformará o Trabalho dos Especialistas HumanosRichard Susskind e Daniel Susskind

Apresentam­se dois cenários para o futuro das profissões, baseados na tecnologia. De um lado, uma versão mais eficiente do que temos. Do outro, uma transformação, com a substituição gradual dos profissionais por sistemas mais eficientes. O impacto da tecnologia é elevado, deve ser discutido e, sobretudo, conhecido. Baseado na investigação dos autores sobre mais de dez profissões, este livro avalia a importância das profissões no século xxi e o desafio que a tecnologia coloca aos postos de trabalho. Um sucesso de vendas internacional justificado pela enormíssima relevância das suas conclusões.

«Trajectos», 456 pp., 26,00€
Introdução à Economia em BD, vol. 1: Microeconomia Grady Klein e Yoram Bauman

Divertir­se a aprender economia é um feito para muitos. Este livro consegue­o. Primeiro, é feito por dois mestres: um ilustrador reconhecido e um especialista em economia, que é ao mesmo tempo o primeiro e único economista stand­up do mundo. Segundo, junta rigor informativo ao bom humor. Terceiro, fala do que interessa, de um modo simples e fácil de perceber. A teoria dos leilões, a selecção adversa e o dilema do prisioneiro são alguns dos temas abordados. Um livro muito útil para o público em geral. Imprescindível para os jovens. Uma inspiração para professores.

«Fora de colecção», 224 pp., 14,00€
https://www.gradiva.pt/catalogo/46988/introducao-a-economia-em-banda-desenhada-vol.-1

Churchill, Vol. 1Vincent Delmas, Christophe Regnault, Alessio Cammardella e François Kersaudy

Churchill foi uma das personalidades com maior notoriedade no século xx. Mas não foi apenas o ter sido determinante na vitória contra a Alemanha nazi que o torna relevante e interessante. Na realidade, teve uma vida digna de romance: foi militar nas Índias, jornalista na África do Sul, orador apaixonado no Parlamento, escritor prolixo e nobelizado... Além disso, era senhor de uma personalidade marcante, de forte vontade e com uma capacidade pouco comum de ultrapassar fracassos. Não perca esta BD sobre a vida de um estadista que continua a inspirar muitos, e que junta informação séria ao brilhante desenho.
Em Novembro, o segundo e último volume sobre Churchill.«Gradiva BD», 56 pp., 16,50€
https://www.gradiva.pt/catalogo/46981/churchill-vol.-1

Imortal | José Rodrigues dos Santos Um cientista chinês anuncia de surpresa o nascimento de dois bebés geneticamente modificados. Logo a seguir é raptado. A imprensa internacional interroga­se, os serviços secretos mexem­se. Tomás Noronha é interpelado em Lisboa por um desconhecido. Pertence à agência americana de tecnologia, DARPA, e revela­lhe um projecto secreto inspirado no Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci. Os acontecimentos precipitam­se: o ­apartamento onde ambos se encontram explode, o metro para onde fogem sofre uma colisão mortífera. O mundo parece enlouquecer.
Baseando­se na pesquisa científica mais avançada, o autor revela neste romance a superação do homem pela máquina.

Estará a humanidade à beira do fim? Ou perante um novo início?

Numa aventura de cortar a respiração, Imortal mostra­nos como a ciência está perto de acabar com a morte.

Obras de José Rodrigues dos Santos, 512 pp., 22,00€ https://www.gradiva.pt/catalogo/46949/imortal

EXPOSIÇÃO "PLASTICIDADE" RECEBE PRÉMIO INTERNACIONAL

Parabéns à Elvira Calapez!



A exposição Plasticidade – uma História dos Plásticos em Portugal acaba de receber o prestigiado Dibner Award for Excellence in Museum Exhibits, atribuído pela Society for the History of Technology (SHOT). O prémio destina-se ao reconhecimento de museus e exposições que informem e comuniquem ao público em geral, os feitos da história da tecnologia, da indústria, e da engenharia.

 A exposição decorre de uma parceria entre o Museu de Leiria, a Câmara Municipal de Leiria, e o projecto de investigação O Triunfo da Baquelite: Contributos para uma História dos Plásticos em Portugal, coordenado pela investigadora do CIUHCT Maria Elvira Callapez. Plasticidade teve a sua inauguração na primeira metade deste ano, e continuará em exibição até Dezembro de 2020.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

A CORRESPONDÊNCIA DE JORGE DE SENA

Publicado no "Jornal de Letras", pelo grande prazer colhido na sua leitura, transcrevo o resumo da conferência, proferida pelo ensaísta Eugénio Lisboa, no colóquio, realizado na Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa (17, 18/10/2019): 

"A epistolografia portuguesa não é, como outras, de outras nações, particularmente rica, embora se possam assinalar alguns exemplos de escritores que nos deixaram espécies significativas: a Marquesa de Alorna, o Cavaleiro de Oliveira, Herculano, Garrett, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Antero de Quental, Manuel Laranjeira e Mário de Sá-Carneiro deixaram-nos um legado não totalmente despiciendo.

Mas nenhum nos deixou um volume de epístolas que possa medir-se com os legados imponentes de um Rousseau (2500 cartas), Voltaire (20 000) ou Flaubert, com os seus cinco sumarentos volumes na Bibliothèque de la Pléiade, ou, mais próxima de nós, a correspondência abundante de um André Gide ou de um Roger Martin du Gard ou de um George Bernard Shaw, entre outros.

No caso de alguns destes escritores, há mesmo quem neles prefira a sua correspondência (pelo seu vigor, proximidade e vivacidade) ao restante da obra de criação literária.

É o caso de Voltaire e também o de Flaubert. Prefaciando uma recolha de 906 cartas do autor do Dicionário Filosófico, Jacqueline Hellegouarc’h não hesitou em afirmar que considerava a correspondência deste grande agitador de ideias e defensor de causas célebres como “um dos monumentos mais imponentes da nossa literatura”.

O mesmo se poderia dizer da vitalíssima correspondência de Flaubert. Seja como for, estes monumentais acervos fazem parte integrante do canon literário dos seus autores e não são apenas um anexo à obra de criação que eles produziram.

A correspondência de Flaubert está, no mínimo, em pé de igualdade com a Madame Bovary ou a Educação Sentimental. O mesmo se poderia, até certo ponto, dizer de Voltaire, de Roger Martin du Gard, de Antero ou de Eça de Queirós. As cartas destes, se serviram um propósito de comunicação, têm também o estatuto da mais elevada literatura.

Então, pergunto: e o que se passa com a volumosa correspondência que nos legou Jorge de Sena e que foi sendo publicada, postumamente, graças ao esforço empenhado da sua viúva Mécia de Sena? 

De Jorge de Sena, conhecemos, actualmente, tomos de correspondência dirigidos a treze destinatários: Guilherme de Castilho, Mécia de Sena, José Régio, Vergílio Ferreira, Taborda de Vasconcelos, Eduardo Lourenço, Duarte Moreira Leite, Sophia de Mello Breyner, José-Augusto França, Raul Leal, Delfim Santos, António Ramos Rosa e João Gaspar Simões.

A maioria destas cartas foi escrita sobretudo depois de Sena ter saído de Portugal, para ir viver, primeiro no Brasil, depois, nos Estados Unidos da América, nunca mais tendo regressado ao seu país natal. Afastado dos seus amigos e confrades de literatura, restava-lhe, como meio de comunicação, a epístola. A ela recorria destemidamente, apesar da repetidamente alegada falta de tempo.

De facto, tanto no Brasil como nos EUA, Jorge de Sena entregou-se a fundo às suas funções de docente, investigador e escritor, não se poupando, em nenhum destes pelouros. Mesmo assim, fazendo das fraquezas forças, deu-se igualmente à epistolografia, não raro caracterizada por longuíssimas e pormenorizadíssimas missivas, nas quais se explicava, se defendia de alegados ataques enviesados, dava conta, miudamente, do seu emprego do tempo, dava curso à sua amargura crescente, no que respeitava ao Portugal que deixara para trás, invectivando, acusando, lamentando-se…

Tudo, numa prosa direita, vigorosa, cheia de circunvoluções bem congeminadas, embora nem sempre, aqui e ali encolerizada e vingativa, mas nunca flácida ou morna.

Será isto literatura? Será isto arte, susceptível de se medir com a estatura do poeta, do ficcionista, do ensaísta e do historiador? Creio bem que sim.

Cito uma passagem de uma recensão crítica que fiz à correspondência de Sena com João Gaspar Simões:
“Há, no vastíssimo acervo epistolográfico de Sena, cartas admiráveis, de densidade informativa, de vigor, de penetração crítica, de generosidade na entrega de si, de reflexão teórica, de observação fina e aturada; e há outras onde, não tudo, mas algumas passagens são claramente de antologia, a reter, para estudo e divulgação.”
No entanto, desde logo, acrescentava:
“Mas há, por outro lado, momentos de mau feitio, de ressaca, de ressentimento agressivo, de ajuste de contas, de grande violência, que deixam mau travo na boca e desfeiam, de algum modo, o conjunto, que seria, de outro modo, inigualável.” 
Tudo visto, mesmo com estes senões, o conjunto epistolográfico de Jorge de Sena mantém-se de pé, inteiro, vigoroso, destemidamente interpelativo e desarrumador – e deve, fora de qualquer dúvida, ser inserido no canon literário do autor de Sinais de Fogo, por serem, indiscutivelmente, exercícios de exímia criação literária.

As cartas de Jorge de Sena são de uma grande riqueza e variedade de tópicos e pontos de vista. E, sempre, de uma grande intensidade ou, se preferirem uma imagem eléctrica, de uma grande amperagem. O brasileiro António Cândido, que Sena muito estimava, caracterizou assim a correspondência do autor de Metamorfoses:
“Sena escrevia cartas longas, vibrantes, de uma qualidade que as tornava verdadeiros textos literários, abrindo-se nelas frequentemente com a veemência que o caracterizava.” 
A estas características altamente positivas poder-se-ia opor, no que diz respeito à escrita de Sena, uma certa tendência para um estilo às vezes demasiado hermético, quando não à beira do opaco – o que se verifica, aliás, não só na sua correspondência, mas em toda a sua obra. José Régio, por mais de uma vez lhe fez essa reserva, como por exemplo, numa carta que lhe dirigiu em 20.02.1947, nestes termos:
“Quem tem um pensamento rico – e o Sena tem-no – pode bem procurar ser um bocadinho mais claro, que nada tem a perder.” 
E continua a sua crítica, acusando Jorge de Sena de
“fechar-se nessa forma de uma economia às vezes quase desdenhosa”. 
Cinco anos mais tarde, numa carta de 13.03.1952, Régio voltará à carga, o que não deixa de ser significativo:
“Pelo menos no sentido corrente do qualificativo - , Você nem sempre é suficientemente claro; a até às vezes parece comprazer-se num hermetismo que nem sempre lhe assegura uma pronta compreensão.” 
Outra característica a que já atrás aludimos, de passagem, incomodava também o autor de As Encruzilhadas de Deus, que em carta de 09.02.1947, lhe observa frontalmente:
"Quando conversarmos lhe direi que só me desagrada, às vezes, nos seus escritos, um tom de azedume, desconfiança, não sei quê, que acho impróprios de um rapaz que ainda não vi ter razões de queixa contra a Natureza ou o Destino.” 
O isolamento em que Sena se sentia viver, no Brasil e, sobretudo, nos EUA, e a falta de reconhecimento dos seus pares, em Portugal, induzem nele, algumas vezes, reacções de auto-afirmação claramente desafiadora e desproporcionada. Numa carta a Eduardo Lourenço, de Madison, por exemplo, Sena desabafa com mais do que alguma incontinência:
“Eu não preciso que ninguém me diga que sou um dos maiores poetas da língua portuguesa, um dos contistas mais originais, um dos críticos mais sérios e importantes, autor de algum do teatro mais significativo do século. Eu sei que sou.” 
Não admira que Régio, em carta de 1952, lhe tenha atirado o remoque:
“Nós dois, meu caro Sena, a respeito de megalomania, batemo-nos bem.” 
 As cartas de Jorge de Sena são ricas em impressões acutilantes sobre o Brasil e os EUA e também em tópicos como o exílio, o estilo, o romantismo e o neo-classicismo, a crítica de livros, Portugal e a saudade de amigos, prémios literários, a impossibilidade do regresso, a morte (meditações sobre), a proibição de publicar em Portugal, Lisboa revisitada em 1968, etc., além dos que já ventilei. E seja dito de passagem que anoto aqui apenas a ponta visível do iceberg, deixando de lado, por falta de espaço, a imensa parte que fica submersa.

Dizia Goethe – e já citei isto noutra ocasião – que, ao pormos de lado cartas que nunca voltamos a ler e que acabamos por destruir, estamos a fazer desaparecer
“a mais bela e e a mais imediata respiração da vida.”
No caso de Sena, felizmente, essa bela respiração da vida foi salva graças ao cuidado do escritor em guardar as cartas que escreveu e as que recebeu e ao esforçado empenho de Mécia de Sena em as publicar postumamente”.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

"Original é a cultura" - "Playing list"



Lista de programas "Original é a Cultura" emitidos até hoje na SIC e SIC Notícias:

1- O que é a cultura? (28/9)

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2019-09-28-Original-e-a-Cultura

2- O futuro do planeta (5/10)

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2019-10-05-Original-e-a-Cultura

3- A escola (15/10)

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2019-10-15-Original-e-a-Cultura---A-Escola

4- Voltar a ler (19/10)

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2019-10-19-Original-e-a-Cultura---Voltar-a-Ler

5. As cidades (26/10)
https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2019-10-26-Original-e-a-Cultura---As-Cidades

ComceptCon 2019: Evolução Humana

Evento: ComceptCon 2019: Evolução Humana
Local: Museu de Leiria
Data: 2 de Novembro, a partir das 10h
Entrada gratuita
Programa e inscriçõeshttp://comcept.org/comceptcon-2019/

Mais informações:

A COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa, associação de promoção da ciência, vai realizar a sua oitava convenção anual, a ComceptCon 2019, que irá decorrer a partir das 10h00 do dia 2 de Novembro, no Museu de Leiria.
O título da convenção deste ano será “Evolução: o ser humano na árvore da vida”.

Durante a ComceptCon irão decorrer quatro conferências dirigidas a todas as pessoas que se interessem pela relação entre a ciência e a sociedade. A manhã começará com uma palestra sobre o ABC da Evolução, pela bióloga Diana Barbosa, Presidente da COMCEPT, seguida de uma intervenção sobre as novidades da Evolução Humana, tendo como oradora Eugénia Cunha, Professora Catedrática convidada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e Directora da Delegação Sul do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses.

Depois de uma pausa para o almoço, João Pedro Tereso, investigador em arqueobotânica no CIBIO-InBIO, falará da Evolução da paisagem e mudanças nas sociedades humanas antes do Antropocénico. A última palestra será dedicada à variação genética humana e ficará a cargo de Jorge Rocha, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e coordenador do grupo de Genética Evolutiva Humana, no CIBIO-InBIO.

No final, haverá um debate com os quatro oradores em torno do tema O que nos dizem os testes genéticos comerciais. Será dada a possibilidade intervenção do público, de modo a proporcionar uma aproximação entre estes e os cientistas.

Mas este ano traz uma novidade: devido ao evento calhar num fim-de-semana prolongado, o Museu de Leiria irá proporcionar uma visita ao Vale do Lapedo e ao Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho, para conhecer a história da descoberta do Menino do Lapedo. A vista terá lugar no dia anterior, dia 1 de Novembro, às 15h.

Numa época de nacionalismos e de extremismos, importa conhecer a história do percurso da humanidade para compreender a sua origem comum, o seu percurso migratório e entender que apesar das diferenças morfológicas não há diversidade genética suficiente para falar de raças humanas.

Neste evento, os participantes poderão conversar directamente com os cientistas e esclarecer as suas dúvidas, seja durante o período de perguntas, seja durante o intervalo.
Para mais informações sobre o evento, pode consultar a página do evento: http://comcept.org/comceptcon-2019/


Ainda sobre os incêndios

Recentemente foi publicado na revista Algarve Vivo, o meu texto Incêndios: entre a tragédia e a oportunidade, em que defendo que uma das soluções possíveis passa por actuar simultaneamente em três níveis: individual, político e colectivo. No mesmo texto dou exemplos do que se pode fazer e do que já está a ser feito.

Créditos: Pixabay

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

AINDA O ENSINO TÉCNICO EM TERRA DE SANTA CRUZ


Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras", com substituição do último parágrafo:


“A diplomocracia, analisada filosoficamente, presta-se ao riso. Mas infelizmente é uma das característica estruturais da sociedade portuguesa” (José António Saraiva, 1917-1993).

Escrevo este artigo confiante nas opiniões por mim emitidas, em vários artigos de opinião (v.g. “Público”) e no blogue “De Rerum Natura”, nos quais assumi um papel altamente crítico relativamente à extinção  das escola técnicas que formavam excelentes diplomados com conhecimentos teórico-práticos. Exemplifico com os nomes dos diplomados por escolas industriais: António Saraiva, presidente da CIPP, Maldonado Gonelha e Medina Carreira, posteriormente licenciado em Direito, tendo os dois últimos desempenhado cargos ministeriais.

A minha avaliação a este “statu quo” encontrou respaldo sólido num comentário a um dos meus  textos  de um prestigiado académico brasileiro, Jarbas Novelino Barato, detentor do mestrado em Tecnologia Educacional pela “San Diego State University” e  doutorado em Educação pela Unicamp que me ofereceu, poucos dias depois, com um grande abraço,  o seu livro “Saberes do ócio e do Trabalho”. Escreveu ele no supracitado comentário:

“Rui, Muito bom ler sua crítica à desfiguração do ensino técnico aí em Portugal. Com pequenas mudanças, para tropicalizar a linguagem, tudo o que você escreve cai como luva para as bobagens que fizeram como ensino técnico no Brasil. Não vou muito longe. Começo com a história da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1971. Essa lei, que profissionalizou todo o ensino secundário no Brasil, sucateou o ensino técnico. Académicos que nunca tinham visto uma oficina em suas vidas começaram a ditar regras para a formação profissional nas escolas. Resultado: um desastre, acompanhado pelo desmonte do ensino técnico que foi construído por gente que entendia de trabalho e gostava do que fazia em oficinas e empresas de aplicação (fazendas, lojas e hotéis escolas, por exemplo).

Conto uma história acontecida logo depois da Lei 5692/71. Com a unificação do ensino, carreiras de dirigentes do ensino geral e profissional foram equiparadas. Graças a tal equiparação, diretores de escolas primárias [formados em pedagogia por onde o trabalho não passa] puderam candidatar-se a cargos de direção das antigas escolas técnicas. Uma senhora, com muito tempo de experiência na educação de crianças, assumiu uma das escolas técnicas, da área de tecnologia agrária, situada numa fazenda. Ao inspeccionar as instalações, a nova diretora viu um touro magnífico, bem nutrido de carnes. Ordenou que o animal fosse sacrificado para churrasco de posse. O touro da história era uma matriz importada, produtor de material genético que vinha sendo utilizado em experiências de reprodução em todas as escolas técnicas agrárias do Estado de São Paulo. Atualmente está em curso um projeto de educação integrada no ensino técnico brasileiro. A proposta é liderada por acadêmicos cujo saber sobre formação profissional é, quando muito, livresco. A consequência é uma desvalorização da técnica enquanto saber. Há muito que comentar sobre isso, mas fica para uma outra ocasião.”

E se, como escreveu o filósofo Alfred Montapert, ”tudo o que excede o limite da moderação tem uma base instável”,a actualidade brasileira e portuguesa de ensino técnico, hoje denominado em terra lusitana de ensino secundário que o geminou com o antigo ensino liceal em obediência a um paradigma de verdadeira desgraça em escombros de  um edifício  projectado por  perigosos arrivistas da política educativa nacional!

Mês da Ciência e da Educação

InformaMÊS DA CIÊNCIA E DA EDUCAÇÃO
ASSISTA EM DIRECTO
O conhecimento evolui porque o cérebro é capaz de aprender. A educação garante a transmissão do conhecimento às novas gerações, mas as ciências cognitivas e as neurociências podem ajudar-nos a aprender melhor.
Esta quarta-feira, às 15h, não perca a conferência “Como aprende o cérebro?”. Com o psicólogo especialista na aprendizagem da leitura e na dislexia, Johannes Ziegler, o médico e especialista em neurociências Alexandre Castro Caldas e a investigadora nas áreas da aprendizagem e memória Célia Oliveira. A moderação será feita pela jornalista e editora de ciência do jornal Público, Teresa Firmino.
No Liceu Camões, em Lisboa, o auditório já está cheio. Mas pode seguir todas as intervenções em directo no site da Fundação. Não perca uma conferência única.
Como aprende o cérebro
Ainda no Mês da Ciência e da Educação...
Aproveite os últimos lugares disponíveis para assistir à conferência “O que é Ciência e o que não é?”, no dia 7 de Novembro, às 15h, na Universidade de Aveiro.
A atitude cientifica

ORIGINAL É A CULTURA: AS CIDADES

O último programa da SIC "Original é a Cultura" que passou na noite de sexta para sábado (00h40) teve mais de 250.000 espectadores, mais do triplo da audiência do programa inicial. Participo nesse programa com a escritora Dulce Maria Cardoso e o musicólogo Rui Vieira Nery.

https://www.msn.com/pt-pt/motor/videos/original-%C3%A9-a-cultura-as-cidades/vp-AAJniCK

O NOBEL DA FÍSICA DE 2019: BIG BANG E EXOPLANETAS


Meu artigo no último As Artes entre as Letras (na imagem, vista do Universo aos 300.00 anos possibilitada pela radiação cósmica de fundo):


Em 1929 o astrónomo norte-americano Edwin Powell Hubble, baseado nas suas observações no que era então o maior telescópio do mundo, o telescópio de Monte Wilson, em Pasadena, na Califórnia, chegou á conclusão que as galáxias se estavam a afastar, em média, uma das outras, e que a velocidade de afastamento era maior para as mais distantes. Foi o início da teoria do Big Bang (ou grande explosão), segundo a qual o Universo teve início há cerca de 14 mil milhões de anos. A lei de Hubble diz que há uma relação de proporcionalidade directa entre velocidade das galáxias, que se pode medir graças a um efeito óptico chamado “desvio para o vermelho” e a distância à Via Láctea, a nossa Galáxia.

Parece óbvia a ideia de que um Universo muito denso é muito quente e que, á medida que o tempo passa, esse universo arrefece enquanto se expande. O físico americano de origem russa George Gamow avançou com essa ideia em 1946. Mas demorou até 1948 para que dois astrofísicos norte-americanos (Robert Herman e Ralph Alpher) aparecerem a afirmar que havia uma maneira de provar a origem do Universo a partir do Big Bang. Segundo eles devia existir  um “fundo de radiação cósmica”, isto é, uma radiação com o comprimento de onda na zona das de micro-ondas (o tipo de radiação que é usada pelos nossos telemóveis) preenchendo todo o espaço.. A sua detecção seria uma marca inequívoca da formação dos primeiros átomos, por todo o lado, pouco depois do instante inicial (cerca de 300.000 anos depois). Essa mesma radiação foi detectada inadvertidamente em 1965 pelos físicos americanos  Arno  Penzias e Robert Wilson, que estavam a montar antenas de microndas para telecomunicações quando repararam na existência de um estranho “ruído de fundo”.  Foi o astrofísico Robert Dicke que lhes chamou a atenção para o facto desta radiação poder ser a que tinha prevista por Hermann e Alpher.  Hubble, Gamow, Herman e Alpher não ganharam o prémio Nobel, mas sim Penzias e Wilson, em 1978. O  estudo desse fundo de microondas através de uma missão da NASA usando um satélite  denominada COBE  (Cosmic Background Explorer) deu o prémio Nobel da Física de 2006 aos físicos americanos George Smoot e John Matter, que dirigiram o projecto. O registo do fundo de radiação cósmica é a imagem mais antiga que temos do Universo, uma vez que este era completamente opaco antes da formação dos átomos.

O cosmólogo norte-americano (de origem canadiana) James Peebles, professor da Universidade de Princeton, que recebeu metade do Prémio Nobel da Física deste ano, forneceu contributos notáveis para a decifração dos sinais recolhidos, ao chamar a atenção para pequenas inomogeneidades, que são devidas a pequenas diferenças densidade de átomos num fundo que é bastante uniforme em todas as direcções. Segundo Peebles, que estudou a distribuição angular do fundo de radiação cósmica, não apenas tal radiação nos permite concluir que o Universo é, em larga escala, essencialmente plano – isto é, vale a geometria de Euclides – como nos permite tirar conclusões acerca da existência de “matéria negra” e de “energia negra”. A primeira é matéria que não vemos directamente, por não emitir luz, mas que se manifesta pela força da gravidade. Não fazemos ideia nenhuma do que é. A segunda é a manifestação de uma força cósmica em larga escala que também não vemos, e sobre cuja natureza também não fazemos qualquer ideia. Sabemos hoje, graças aos trabalhos pioneiros de Peebles, que a matéria normal, a matéria de que somos feitos, não representa mais do que cinco por cento de toda a matéria e energia do cosmos. O resto é matéria escura (26%) e energia escura (69%). Sabemos, portanto, que há muita coisa no Universo que não sabemos. Na resolução destes dois mistérios, o da matéria escura e da energia escura, talvez esteja a chave para chegarmos a uma nova física.

A segunda metade do prémio premiou a descoberta de novos planetas, astros que andam à volta de estrelas. Até 1995 só conhecíamos os nove planetas do sistema solar (de Mercúrio a Plutão; Plutão foi relegado para “planeta-anão” já neste século). Mas, nesse ano, os astrónomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, da Universidade de Genebra, identificaram um planeta semelhante a Júpiter, de seu nome 51 Pegasi b, que circula à volta de um estrela semelhante ao Sol (essa estrela, chamada 51 Pegasi, está a cerca de 50 anos-luz da Terra, o que, na nossa Galáxia, é mesmo perto de nós). Foi um marco notável na história da Astronomia, pois inaugurou o estudo dos exoplanetas ou planetas fora do sistema solar. Hoje conhecemos mais de 4100 exoplanetas e, com a sua sistematização, começámos a perceber melhor como se formam os sistemas planetários como o nosso: estrela e planetas formam-se ao mesmo tempo à medida quando um disco de matéria, girando a grande velocidade, arrefece. O 51 Pegasi b está muito próximo de 51 Pegasi, pelo que é extremamente quente. É por isso que lhe chamamos um “Júpiter quente”.

Há uma questão que nos preocupa sobremaneira:  Haverá outros planetas semelhantes à Terra, mais pequenos e mais frios do que 51 Pegasi b ? Hoje sabemos que há. Falta, porém, saber se algum deles albergará alguma forma de vida, seja esta semelhante à que povoa à Terra ou não. Investigadores de todo o mundo, incluindo Portugal, estão a olhar para essas “novas Terras” e a procurar novos planetas (os físicos Nuno Santos, da Universidade do Porto, e Alexandre Correia, da Universidade de Coimbra, que têm trabalhos conjuntos com Mayor e Queloz, são protagonistas desses esforços). Eles estão a “dar novos mundos ao mundo”. Uma das questões mais importantes da ciência contemporânea é a de saber a origem da vida. Indicações vindas de outros sistemas solares poderão ajudar a esclarecer esse mistério.

Novo “Linguarejar” (“Pérolas” do Novo Acordo Ortográfico)

 Carta de um leitor no jornal As Beiras de hoje, contra o Acordo Ortográfico:

Para dar a vitalidade devida a esta resenha, quero partir do princípio de que a língua, na verdadeira acepção da palavra, é a identificação de um povo. É a sua alma que lhe dá essência e que promove a sua união, o elo do seu entendimento e o catalisador e transmissor dos seus usos, costumes e tradições, dentro de uma mesma pátria.

Não estou em desacordo com a evolução linguística, pois esta deve-se à inserção de novos termos, intitulados de neologismos, que são naturalmente captados por osmose, procedentes de outras culturas, de outras gentes. Já não poderei estar em inteira anuência quando são cavacadas ou enxertadas nas palavras alterações na sua estrutura gráfica susceptíveis de mudar parcial ou radicalmente o seu sentido em relação ao que era usual e que a muitos tanto custou a aprender – com recurso, por vezes abusivo, à prestimosa ajuda de uma abnegada e austera “professora“, apelidada de, palmatória.

A “alporquia” confeccionada na nossa língua e escriturada no Novo Acordo Ortográfico, a meu ver, é tida como uma metamorfose que resultou numa evolução no sentido inverso da palavra, “involução”, contribuindo deste modo para fraccionar determinada credibilidade no espírito linguístico, com recurso à coerção de uma injecção de hibridismo no ADN da tradição do nosso povo. A língua.

Posso não entender patavina da língua portuguesa, mas julgo saber o bastante, para proceder à tecelagem da presente crítica, onde a minha revolta, agreste e ironicamente se manifesta. Neste alvalade, que congrega o educacional, e consequentemente o cultural, procuro ser um intransigente puritano.

Afinal, não houve acréscimo de novos vocábulos, porém, uma alteração substancial na estructura dos já existentes, que, em vez promover uma suposta facilidade no leccionamento e no aprendizado, veio gerar uma barafunda tempestuosa, que por sua vez provocou um aluimento nas práticas doutrinais há muitos anos ministradas, para a formação das palavras, que ficaram a boiar em terreno lodacento, perdendo algum vínculo entre si.

Chamo à colação alguns exemplos, que só os “puristas”, obreiros das alterações alusivas ao referido acordo podem justificar, e não eu, um simples e artesanal arranhador do nosso idioma, a quem o moderno “polimento” abastardou o seu parco saber e abanou o seu orgulho, no que concerne à ortografia e fiel interpretação da Língua Portuguesa:

Acto = Ato - (Se te apanho outra vez no acto, ato-te todo!).
Facto = Fato - (Pelo facto de o fato ter sido executado por um bom alfaiate, até assenta bem!).
Pára = Para - (Pára aí! Para onde vais?!)
Pêlo = Pelo - (Olha que eu passo-te a mão pelo pêlo!).
Espectador = Espetador (Sou um espectador condoído, pelo triste e sádico espectáculo que está a ofertar o espetador, ao espetar o animal).
Pacto = Pato - (Arroz de pacto, nunca provei; mas de pato, até é muito bom.
Falámos = Falamos - (Já falámos uma vez, ou falamos novamente?).
Pôde= Pode - (Se não pôde, é porque não pôde; mas já que pode, vamos a isso).
Pôr = Por - (Será um verbo, ou uma preposição? São tão idênticos, que fico a oscilar entre a certeza e a dúvida de como pôr o por, no seu devido lugar).
Prática = Pratica - (Quem não tem prática, pratica; só tem prática quem pratica).

É engraçado, “atão num” é?! É “dificientemente difrente e tamém devertido”.

Antes de ultimar, e a título de caçoada, vou expor ainda os dois minúsculos parágrafos sequentes, que, apesar do seu reduzido espaço, poderão albergar um enorme significado nas entrelinhas:

Estava eu sentado sobre um calhau a matutar na porca da vida com a minha observação direcionada para as águas borbulhantes de um riacho, quando, um quase imperceptível ruído de qualquer coisa que se arrastava me chegou aos tímpanos, “clamando” pela minha atenção; procurei localizar a sua proveniência, e, para meu espanto, observei que era um cagado; olhei bem, e era um cagado de fato, acabado de sair da correnteza ribeirinha.

 Muito engraçado por sinal, lá ia ele vagarosamente vencendo a inércia da sua dura e luzidia carapaça, como se tivesse todo o tempo do mundo para chegar ao seu destino. Após minuciosa observação, concluí que era de facto um cágado, e por causa das dúvidas, pude certificar também, que o seu “fato” não ia nada borrado (cagado).

Para muitos que mal sabem escrever, como eu, surgiram agora no céu estrelado da linguística, uns “iluminados” que, com a imposição de novas regras, vieram “infernizar” o universo da existência literária com palavras, cuja estrutura foi alterada, ou por forma “distinta”, adulterada, na sua “fisionomia” gráfica e fonética, cunhando algumas, dos díspares significados.

Logo, como ainda estamos com as mãos na massa e o estrugido para arroz de pato, ou de pacto (ortográfico), ainda não está bem apurado, poder-se-ia – sugestão minha – proceder à substituição da palavra linguistas por linguiças; claro que não têm o mesmo significado nem a mesma ortografia, contudo, como na língua lusófona o seu timbre é aproximado, este, requintado por congeminada analogia adulterada, lá irá dar ao mesmo.

 Quero manifestar a minha discordância inerente ao Novo Acordo Ortográfico, sublinhando a revogação do mesmo.

António Figueiredo

PETIÇÃO À ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA PORTUGUESA EM DEFESA DA REVISÃO URGENTE DO RJIES

Informação recebida dos promotores:


A "PETIÇÃO À ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA PORTUGUESA EM DEFESA DA REVISÃO URGENTE DO RJIES" 
já se encontra online.
Pode ser lida e subscrita nestas duas moradas:
peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT94833
ou
bit.do\rjies
.
Quando atingirmos as 1000 assinaturas poderemos pedir a discussão do assunto 
na Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República e quando atingirmos 
as 4000 poderemos  exigir a sua discussão no Plenário do Parlamento.

Texto do documento:

Sr/a. Presidente da Assembleia da República.

O Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) é inadequado, sendo urgente a sua revisão. A sua publicação em 2007 impôs às instituições de ensino superior uma dependência de interesses que lhes são alheios ou, inclusivamente, conflituantes, obrigando a um regime rígido de organização interna em que os papéis de funcionário, estudante, docente e/ou investigador são passados para segundo plano.

Existe, assim, a necessidade de uma avaliação profunda dos resultados e impactos que o RJIES teve desde a sua criação, identificando os principais efeitos negativos deste instrumento jurídico. Apresentam-se de seguida alguns desses efeitos.

Concentrando os poderes em órgãos unipessoais (Reitores, Presidentes, Diretores) ou de dimensão muito reduzida (Conselhos de Escola, Científico, Pedagógico), o RJIES restringiu fortemente a participação dos docentes e investigadores nos órgãos de governo e de gestão. O RJIES compromete, assim, a gestão democrática e participada das universidades. Os Conselhos Científicos não espelham a diversidade de opiniões, nem promovem o diálogo, funcionando quase sempre como órgãos que se limitam a dar o aval às decisões tomadas pelos diretores ou presidentes. Os Conselhos Pedagógicos também não têm autonomia de decisão. As listas para os Conselhos de Escola e Científicos são frequentemente elaboradas pelos próprios Presidentes/Diretores, que têm uma posição privilegiada de concentração de todos os poderes, já que o RJIES permite que estes sejam em simultâneo Diretores das escolas e Presidentes dos Conselhos Científicos. Por sua vez, muitos dos regulamentos eleitorais das escolas não permitem na prática, pelas suas exigências, a apresentação de mais do que uma lista, impedindo assim o exercício democrático e reduzindo os processos eleitorais a meros atos burocráticos e previamente controlados.

O RJIES condiciona a separação de poderes e a independência dos órgãos nas instituições, pondo em causa a transparência da gestão. A informação e o debate são subtraídos às comunidades académicas. 

O RJIES veio também alterar por completo a forma como os Reitores são eleitos, funcionando estes muitas vezes como instrumento de pressão do funcionamento do Conselho Geral e da sua própria reeleição. Desta forma, os Conselhos Gerais não escrutinam os Reitores, mas o contrário, havendo Reitores que promovem, em conjunto com alguns órgãos unipessoais das escolas, os seus “próprios” candidatos, o que representa uma subversão da lógica democrática e colegial e a construção (e a consagração) de um órgão não independente.

O RJIES alimenta ainda a confusão entre interesse público e interesse privado, ao criar a figura jurídica da fundação pública com regime de direito privado. As facilidades anunciadas pelos governantes sobre financiamento, contratação e carreiras ao abrigo desta figura jurídica foram em larga medida uma miragem.

 O RJIES acentuou a desregulamentação da Academia e promoveu a livre criação de instituições privadas a funcionar na órbita das escolas, muitas delas criadas para legitimar formas de contratualização precária de investigadores, assim acentuando a desigualdade e afastando os seus contratados da participação democrática na vida académica.

Assim, os subscritores desta petição creem ser tempo de proceder à avaliação do RJIES, tal como previsto no próprio diploma, de modo a criar as condições necessárias para avançar com a sua revisão, no sentido da garantia dos princípios democráticos da colegialidade, da transparência e da equidade. Solicitamos à Assembleia da República Portuguesa as diligências necessárias para que a revisão em apreço se inicie o mais brevemente possível e se conclua antes de 2023.

Debate sobre ambiente e economia em Coimbra

Foi na quinta-feira passada no Seminário Maior de Coimbra este debate, em que partipei com João Vila-Chã SJ e Helena Freitas:

https://observador.pt/2019/10/21/entidade-para-investigar-e-punir-crimes-ambientais-proposta-em-coimbra/

Eis o documento de reflexão apresentado nessa reunião pela Comissão de Justiça e Paz:



Na efervescência dos dias que correm, é cada vez maior atenção e a consciência, assim se espera, da Humanidade sobre o estado do ambiente, a crise climática e a necessidade de, com urgência, enfrentar as suas consequências. Como afirmou o Secretário-Geral da ONU tudo indica que a realidade é pior do que as piores previsões feitas e as metas sobre as alterações climáticas definidas no Acordo de Paris já não são suficientes. "Se forem cumpridas, chegaremos ao final do século com mais três graus, o que é uma catástrofe absoluta", salienta António Guterres.

Também o Papa Francisco denunciou a situação actual ao referir que “criámos uma emergência climática, que ameaça gravemente a natureza e a vida, inclusive a nossa” e que, portanto, nos deve mobilizar para a imperiosa necessidade duma transformação global orientada para uma ecologia integral ao serviço do Homem, como já tinha expressado na Carta Encíclica LAUDATO SI’, datada de 24 de maio de 2015, sobre “O Cuidado da Causa Comum[1]”.

Carta que, aliás, recorda as palavras e alertas do Papa Paulo VI no discurso à FAO, no seu XXV aniversário (16 de Novembro de 1970), chamando a atenção para a “possibilidade duma «catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial» e «necessidade urgente duma mudança radical no comportamento da humanidade», porque «os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento económico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem» ”;

-A resolução desta «crise ecológica e emergência climática» é essencial – importa sempre recordar - para assegurar a justiça e a paz no mundo.

É neste contexto e porque “nada deste mundo nos é [pode ser] indiferente” que, no âmbito da preparação e objectivos que se pretendem com este colóquio tendo por tema “Um Planeta Doente-Uma Economia que Mata”, os organizadores-Comissão Diocesana Justiça e Paz; Coimbra Business School/ISCAC e ACEGE colocam à discussão no espaço público e na sociedade civil os seguintes pontos e propostas de/para reflexão:

I-                    Elaboração e aplicação duma Lei-quadro de combate à Alteração Climática e Transição Energética que permitam efectivar[2] medidas e politicas integradas (e não meras boas intenções) e garantam medidas de adaptação, conservação e gestão de recursos (seja á água, o solo, agricultura, energéticos não fósseis …) e adequado enquadramento social.
II-                  Necessidade duma urgente implementação do de um Plano Estratégico de Combate Desertificação humana e física, com relevo para a prevista penúria da água e a necessidade duma gestão eficaz do sistema hídrico nacional (reconhecendo a água como um recurso e bem publico essencial à vida e que exige o cuidado de todos) e protecção dos solos, coberto vegetal e ecossistemas.
III-                 O que exige a efectivação de uma estratégia de fixação de pessoas nas áreas de menor densidade e mesmo a seu reconhecimento como os primeiros agentes de protecção e valorização dos valores e património natural existente Considera-se relevante a necessidade duma política integrada de protecção do solo e gestão sustentada, modernizada e eficaz da agricultura e da floresta, privilegiando (prioritariamente) as zonas mais desfavorecidas e desertificadas, física e humanamente, assegurando um impacto positivo no ambiente; apoiar e executar um plano de reflorestação que assegure o reforço de áreas florestadas com espécies autóctones (p.e. assumindo desde já o objectivo de plantar 10 árvores autóctones por cada português até 2025.
IV-                Promoção da “saúde” do mar e dos rios com um plano de protecção, limpeza e despoluição adequado, eliminando descargas descontroladas e recolhendo os resíduos e detritos acumulados, nomeadamente com origem no plástico.
V-                  Implementação duma economia circular com vista à adequada utilização dos recursos naturais locais e redução ao mínimo os resíduos não recicláveis.
VI-                Realça-se a importância de as medidas fiscais apoio que visam o incentivo à eficiência energética na edificação (formas passivas de conservação de energia) e reabilitação urbana, bem como de planos de desenvolvimento e qualificação urbana, fundados num urbanismo de rosto humano, que introduzam objectivamente medidas e soluções de gestão adequada de recursos (em particular água e solo) e mobilidade sustentada; bem como à transição para sistemas de energia renovável de pequena escala, focados localmente e ecologicamente sustentáveis.
VII-              Julga-se relevante a promoção da utilização do transporte público e a mobilidade suave e a penalização do transporte motorizado privado.
VIII-            Apoiar (incluindo financeiramente) e difundir projectos industriais que promovam a investigação tecnológica e soluções práticas de adaptação do sector aos desafios da digitalização da descarbonização, da transição ecológica e da globalização.
IX-                É igualmente necessária a criação duma entidade capaz de cobrir eficazmente a integralidade do território do país[3] e de cada região, dotada de adequados recursos humanos e materiais, altamente especializada, vocacionada para a investigação e punição dos delitos e desperdícios ambientais (incluindo energéticos), protegendo o solo, o ar e a água, tornando efectivo os princípios do utilizador-pagador e do poluidor-pagador.
X-                  Salienta-se a importância da inclusão, em todas as escolas secundárias, profissionais e superiores de “uma unidade curricular” obrigatória dedicada à emergência ambiental e à transição energética, ajudando a preparar cidadãos informados e quadros de todas as áreas do saber para dar uma resposta global a este desafio.

Em última análise,

Todas as ideias e iniciativas são importantes desde que falem e se centrem na solidariedade entre todos os seres humanos e da responsabilidade geracional, convocados pelo bem comum e respeitando o planeta em que vivemos.

Os desafios são conhecidos e exigem respostas e acções imediatas.

A resolução desta «crise ecológica e emergência climática» é essencial – importa sempre recordar - para assegurar a justiça e a paz no mundo.

Todos nós, cidadãos e comunidades, temos um papel fundamental a desempenhar, mas a situação actual reforça o sentir de que os nossos esforços só serão eficazes com uma mudança global sistémica, apoiada por políticas transformadoras globais, integradas e “orientada para uma ecologia integral ao serviço do Homem” e aplicadas de forma persistente.

Na esteira da declaração da Declaração Conjunta para a Cimeira de Alteração Climática das Nações Unidas da CIDSE temos inteira consciência de que 75% do esforço necessário para cumprir o Acordo de Paris advém da acção dos governos e 25% de iniciativas individuais. Essa circunstância deve-nos interpelar para o papel fundamental dos cidadãos e das comunidades, mas também da importância da exigência de acção aos governantes. Importa que estes assumam as suas responsabilidades históricas e, entre estas, é fundamental que as emissões de carbono sejam reduzidas para, pelo menos 65% até 2030, para permanecer no caminho do aumento da temperatura até 1,5°.

Como refere aquela Declaração não basta organizar uma Cimeira, fazer alguns apelos e reconhecer a emergência, enquanto pouco se faz para resolvê-la. O compromisso real é demonstrado, pela nossa acção pessoal e colectiva concreta e pelas metas políticas, financeiras e pela implementação de medidas de emissões reduzidas.

A real integridade é demonstrada na coerência na implementação de políticas socialmente justas, requisito básico para alcançar os objectivos necessários e a paz.

O dever moral de agir é sem precedentes.

                       
 NOTAS:


[1] “A nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços”, como São Francisco de Assis no início do século XIII se referia num gracioso cântico.
[2]   A questão essencial a nosso ver é efectivar e medidas e políticas, sem prejuízo de se conhecerem e referir os Programas mais recentes, como se refere abaixo (entre outras). Exigem-se acções integradas, horizontais e menos sectoriais.
Na verdade, não será por falta de diagnóstico e identificação de cenário e medidas. A questão está mesmo na forma de decisão e concretização, nos meios de regulação, técnicos e de investimento disponíveis.
Agenda 2030.
A RCM 130/2019 aprova o Programa de Acção para a Adaptação às Alterações Climáticas (P-3AC) com objectivos de curto e médio prazo para 2020 e 2030,resolução do Conselho de Ministros n.º 37/2012,; Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas (ENAAC), aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 24/2010, de 1 de Abril, sustentada nos primeiros estudos sobre esta matéria em Portugal (projectos SIAM I e SIAM II) posteriormente revista pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/2015, de 30 de Julho, que aprovou a ENAAC 2020,
O Fundo Ambiental criado pelo Decreto-Lei n.º 42-A/2016 de 12 de agosto (que sucede e procede à extinção do Fundo Português de Carbono, do Fundo de Intervenção Ambiental, do Fundo de Protecção dos Recursos Hídricos e do Fundo para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade, criados pelo Decreto-Lei n.º 71/2006, de 24 de Março, pelo artigo 69.º da Lei n.º 50/2006, de 29 de agosto, pelo Decreto-Lei n.º 172/2009, de 3 de agosto, e pelo Decreto-Lei n.º 171/2009, de 3 de agosto, respectivamente).
[3] Defende-se que os seus serviços centrais se devam localizar fora das áreas metropolitanas.