quinta-feira, 30 de abril de 2009

O “eclipse” de Einstein em Portugal




Post recebido de António Mota de Aguiar, cuja oportunidade resulta de, em 29 de Maio próximo, passarem 90 anos após o famoso eclipse solar na ilha do Príncipe que serviu para estabelecer a Teoria da Relatividade (na foto lápide comemorativa da presença de Eddington numa roça em S. Tomé no ano de 1919):

Num post anterior realcei que a Teoria da Relatividade teve audiência em Portugal num grupo restrito da comunidade científica. Décio Martins, físico da Universidade de Coimbra, referiu o desinteresse pela Relatividade em Portugal na década de 20: “Alguns trabalhos sobre este assunto, apenas esparsamente publicados nos anos 20, deixam transparecer uma notória indiferença inicial ao tema na comunidade científica portuguesa. [1]”

De facto, a indiferença que a comunidade científica revelou com a Relatividade soma-se à sua indiferença com Einstein quando este passou por Portugal. Numa viagem à América do Sul em 1925, Einstein passou no nosso país duas vezes, na ida a 11 de Março e na volta a 27 ou 28 de Maio, mas, nos dois casos, a sua estadia passou despercebida em Portugal, um facto tanto mais surpreendente quando ele era já uma figura muito conhecida, pois, além de Prémio Nobel, que recebera em 1922, vira a Teoria da Relatividade ser sustentada com as observações do eclipse do Sol de 29 de Maio de 1919, no Príncipe e no Brasil.

Aliás, a Royal Society of London, na pessoa de Arthur Eddington, astrónomo responsável pela missão britânica à ilha do Príncipe, manteve, ainda na Inglaterra, correspondência com a Sociedade de Geografia de Lisboa e com o Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), com os então director e vice-director, Campos Rodrigues e Frederico Oom [2], sobre os aspectos logísticos da missão.

Um só astrónomo português mostrou interesse em ir à ilha do Príncipe: Manuel Peres, director nessa altura do Observatório Campos Rodrigues de Lourenço Marques e posterior defensor da Relatividade. Porém, por razões burocráticas, não conseguiu autorização. Nos jornais portugueses da época só há uma curta referência num jornal sobre tão flamejante evento científico.[3] Acontece que a Teoria da Relatividade era mundialmente conhecida em 1925 e já nessa altura se antevia a sua futura relevância.

Mais significativo é o facto de Frederico Oom, desde 1920 director do OAL - Campos Rodrigues morrera em Dezembro de 1919 -, não ter dedicado um só artigo, quer à comprovação da Relatividade na ilha do Príncipe quer à passagem de Einstein por Lisboa. Sobre o primeiro caso, Elsa Mota argumenta o seguinte:

“A partir do início do século XX, o interesse principal das observações de eclipses solares totais passou a pertencer fundamentalmente ao domínio da astrofísica. Este facto ajuda-nos a perceber a razão pela qual Frederico Oom (1864-1930), promovido a director do Observatório de Lisboa em 1920, nunca se referiu à ocorrência da expedição, dos seus objectivos e finalidades, apesar de ter sido um dos astrónomos portugueses que, entre 1917 e 1920, mais artigos de divulgação científica publicou, em revistas como The Observatory e Astronomische Nachrichten. Aliás, ele próprio foi activo participante na observação de outros eclipses.[4]”


Num país subdesenvolvido como o nosso, onde todos estão de acordo sobre o atraso científico, o argumento de que as “observações de eclipses solares totais passou a pertencer fundamentalmente ao domínio da astrofísica” parece ser irrelevante. A nosso ver, é incompreensível que o Director do OAL não tenha divulgado tamanho acontecimento científico e não tenha, junto da comunidade científica portuguesa, preparado uma recepção a Einstein. Ele próprio tinha escrito um artigo n’O Instituto de 1917, no qual se referia ao futuro eclipse:

“Em 29 de Maio de 1919 haverá um eclipse total do Sol, em que a trajectória da sombra atravessa a América, de Arica a Paranaíba, bem como a África, de Libreville a Quionga. Ao percorrer o golfo da Guiné, essa trajectória passa pela nossa Ilha do Príncipe, e torna-se portanto, de interesse especial para nós, convindo-nos saber, desde já, em que condições se poderá ver ali êsse maravilhoso fenómeno, tão impolgante para simples curiosos como digno de atenção e estudo para os homens da ciência. (…) é provável que esta formosa ilha seja escolhida , como estação adequada, por muitos dos astrónomos que a esses fenómenos especialmente consagram a sua atenção (…). [5]”

Oom avançava, portanto, em 1917 a hipótese da expedição e da observação do eclipse solar ocorrer no Príncipe dois anos depois. Alguns meses mais tarde troca correspondência com Eddington. É, de facto, estranha a não divulgação posterior de um acontecimento tão marcante... O Director do OAL não só não escreveu sobre a ida ao Príncipe da missão inglesa e a comprovação da Relatividade, como ainda, seis anos depois, não disse uma palavra sobre a passagem de Einstein por Lisboa, ele que escrevia amiúde artigos em jornais portugueses e estrangeiros. Estranhamos o seu silêncio!

Acrescentamos uma achega. Em virtude de Portugal ter entrado na 1ª Grande Guerra Mundial contra a Alemanha, e ainda por várias outras razões políticas, a Alemanha não tinha entre nós uma boa reputação; veja-se, por exemplo, o que Costa Lobo escrevia em 1918: “A Alemanha é um elemento perigoso para a harmonia mundial…” “A Alemanha não possue as qualidades scientíficas e artisticas que pretende possuir, e muito menos o Estado prussiano que domina e só prevalece pelo valor militar… [6]”

Ter-se-á Oom sentido constrangido pelo facto de Einstein ser alemão, ele próprio ter raízes germânicas (a sua árvore genealógica tinha raízes em Hamburgo) e a Alemanha não gozar naqueles tempos de boa reputação entre nós? Ou seria ele anti-semita? Ou ter-se-ia sentido incomodado com as ideias anti-militaristas de Einstein? Por que não escreveu sobre a comprovação da Relatividade no Príncipe? Por outro lado, se não teve conhecimento da passagem em 1925 de Einstein por Lisboa, no regresso, depois do sucesso que Einstein alcançou no Brasil, não a podia ter ignorado...

Em História convém esclarecer os hiatos, porque às vezes eles nos revelam situações relevantes para o conhecimento dos factos históricos.

António Mota de Aguiar

NOTAS:
[1] Décio R. Martins, Einstein Entre Nós, p. 59, Coord. C. Fiolhais, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2005
[2] Elsa Mota, A Expedição ao Príncipe em 1919, tese de mestrado, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2006
[3] O Século , 15 de Novembro de 1919
[4] Elsa Mota, Einstein Entre Nós, ibid., p. 52
[5] Frederico Oom, O Eclipse do Sol em 29 Maio de 1919, O Instituto, (64) 1, Coimbra, 1917
[6] F. Costa Lobo, Portugal na Guerra e na Paz, O Instituto, (65) nº 1, p.14-15, 1918.

4 comentários:

  1. E a culpa seria de quem neste caso? Do rei que já não havia? Da Igreja que já não impunha e era perseguida? Do Salazar que ainda não ditava?
    Ou das elites intelectuais portuguesas que nos séculos XIX e XX competiam para serem as mais estúpidas do mundo?

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  2. Caso grave!!!

    URGENTE (caso concorde com este mail, por favor, reenvie-o para todos
    os seus contactos).

    VOTAÇÃO NO PARLAMENTO EUROPEU NO DIA 5 DE MAIO DE 2009

    Não deixe que o parlamento europeu lhe feche a Internet... não haverá
    volta atrás!

    Aja agora!
    O acesso à Internet não é condicional

    Todos os que têm um site, blog bem como todos aqueles que usam o
    Google ou o Skype, todos aqueles que gostam de expressar as suas
    opiniões livremente, investigarem do modo que entendem seja para
    questões pessoais, profissionais ou académicas, todos os que fazem
    compras online, fazem amigos online, ouvem música ou vêm vídeos...

    Milhões de europeus dependem da Internet quer seja directa ou
    indirectamente no seu estilo de vida. Tirá-la, limitá-la, restringi-la
    ou condicioná-la, terá um impacto directo naquilo que fazemos. E se um
    pequeno negócio depender da Internet para sobreviver, torná-la
    inacessível num período de crise como o que vivemos não pode ser bom.

    Pois a Internet que conhecemos está em vias de extinção através das
    novas regras que a União Europeia quer propor no final de Abril.
    Segundo estas leis, os provedores de serviço, ou seja as empresas que
    nos fornecem a Internet, PT, Zon, Clix entre muitas outras, vão poder
    legalmente limitar o número de websites que visitamos, além de nos
    poderem limitar o uso ou subscrição de quaisquer serviços que
    queiramos de algum site.

    As pessoas passarão a ter uma espécie pacotes de Internet parecidos
    com os da actual televisão. Será publicitada com muitos "novos
    serviços" mas estes serão exclusivamente controlados pelo fornecedor
    de Internet, e com opções de acesso a sites altamente restringidas.
    Isto significa que a Internet será empacotada e a sua capacidade de
    aceder e colocar conteúdo será severamente restringida. Criará pacotes
    de acessibilidade na Internet, que não se adequam ao uso actual que
    damos à Internet hoje.

    A razão é simples...

    Hoje a Internet permite trocas entre pessoas que não são controladas
    ou promovidas pelo intermediário (o estado ou uma grande empresa), e
    esta situação melhora de facto a vida das pessoas mas força as grandes
    corporações a perderem poder, controle e lucros. E é por isso que
    estas empresas forçam os políticos "amigos" a agirem perante esta
    situação.

    A desculpa é a pirataria de filmes e música, mas as verdadeiras
    vítimas seremos todos nós, a democracia e a independência cultural e
    informativa do cidadão.

    Recentemente, vieram com a ideia que a pirataria de vídeos e música
    promove o terrorismo
    (http://diario.iol.pt/tecnologia/mapinet-internet-pirataria-terrorismo-crime-tvi24/1058509-4069.html
    ) para que seja impensável ao cidadão comum não estar de acordo com as
    novas regras...

    Pense no modo como usa a Internet! Que significaria caso a sua
    liberdade de escolha lhe fosse retirada?

    Hoje em dia, a Internet é sobre a vida e liberdade. É sobre fazer
    compras online, reservar bilhetes de cinema, férias, aprendermos
    coisas novas, procurar emprego, acedermos ao nosso banco e fazermos
    comércio. Mas é também sobre coisas divertidas como namorar,
    conversar, convidar amigos, ouvir música, ver humor, ou mesmo ter uma
    segunda vida. Ela ajuda-nos a expressarmo-nos, inovarmos,
    colaborarmos, partilharmos, ajuda-nos a ter novas ideias e a
    prosperar... tudo sem a ajuda de intermediários.

    Mas com estas novas regras, os fornecedores de Internet escolherão
    onde faremos tudo isso, se é que nos deixarão fazer. Caso os sites que
    visitamos, ou que nós criámos não estejam incluídos nesses pacotes
    oferecidos por estas empresas, ninguém os poderá encontrar.

    Se somos donos de um site ou de um blog e não formos ricos ou tivermos
    amigos poderosos, teremos de fechar.

    Só os grandes prevalecerão, com a desculpa de que os pequenos não
    geram tráfego suficiente para justificar serem incluídos no pacote.

    Continuaremos a ter a Amazon, a Fnac ou o site das finanças, mas poucos mais.

    Os telefonemas gratuitos pela Internet decerto que acabarão (como já
    se passa nalguns países da Europa) e os pequenos negócios e grupos de
    discussão desaparecerão, sobretudo aqueles que mais interessam, os que
    podem e querem partilhar a sua sabedoria gratuitamente com o mundo.

    Se nada fizermos perderemos quase de certeza a nossa liberdade e uso
    livre da Internet.

    A proposta no Parlamento Europeu arrisca o nosso futuro porque está
    prestes a tornar-se lei, uma lei quase impossível de reverter.

    Muitas pessoas, incluindo deputados do Parlamento Europeu que a vão
    votar positivamente, não fazem a menor ideia do que isto pode querer
    dizer, nem se apercebem das implicações brutais que estas regras terão
    na economia, sociedade e liberdade.

    Estas medidas vêm embrulhadas numa coisa chamada "Pacote das
    Telecom's" disfarçando estas leis de algo que apenas é relativo à
    indústria das telecomunicações.

    Mas na verdade, tudo não passa de regras sobre o uso futuro da
    Internet. A liberdade está a ser riscada do mapa.

    Nestas leis propostas, estão incluídas regras que obrigam as Telecoms
    a informaram os cidadãos das condições em que o acesso à Internet é
    fornecido. Parece ser uma coisa boa, em nome da transparência, mas não
    passa de uma diversão para poderem afirmar que podem limitar o nosso
    acesso à liberdade na Internet, apenas terão é que informar-nos disso.

    O futuro da Internet está em jogo e precisamos de agir já para o salvar.
    Diga ao Parlamento Europeu que não quer que estas alterações sejam votadas.
    Lembre-os que as eleições europeias são em Junho e que a Internet
    ainda nos dá alguma liberdade para que possamos observar e julgar os
    seus actos no Parlamento.
    Saiba que não está sozinho(a) nesta luta... Enquanto lê isto, centenas
    e centenas de outras organizações estão a trabalhar para que esta
    mensagem chegue a quem de direito. Milhares de pessoas estão também a
    contactar os seus deputados neste sentido. Ajude-se a si mesmo,
    colabore e faça o que pode por esta causa...

    A Internet é tão sua como deles...

    Divulgue esta mensagem o mais que possa...

    Pode também escrever aos seus deputados...



    Estes são os nossos deputados no Parlamento Europeu:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Deputados_de_Portugal_no_Parlamento_Europeu_(2004-2009)


    ou


    http://www.europarl.europa.eu/members/expert/groupAndCountry/search.do;jsessionid=69ADF04943C000194117E9C7032EEC31.node1?country=PT&language=PT


    Para mais informações sobre a lei:

    http://www.laquadrature.net/en/telecoms-package-towards-a-bad-compromise-on-net-discrimination

    http://www.laquadrature.net/wiki/Telecoms_Package

    http://en.wikipedia.org/wiki/Telecoms_Package

    http://www.blackouteurope.eu/

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  3. Já agora, a lápide está localizada na Roça Sundy na ilha do Príncipe. A experiência teve lugar a 29 de Maio de 1919.

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  4. António Mota de Aguiar1 de maio de 2009 às 22:24

    Muito obrigado Mr. Lekker pela informação.

    ResponderEliminar

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