terça-feira, 28 de abril de 2009

ARTE, RELIGIÃO E CIÊNCIA



Recentemente participei com o Arquitecto Souto Moura e o Padre Jorge Cunha num debate organizado pelo "Porto Cidade de Ciência" sobre o triângulo "Arte - Religião - Ciência". Eis o resumo da minha intervenção:

O triângulo arte- religião - ciência, apesar de ter vértices bem definidos (a arte ligada à emoção, a religião à revelação e a ciência à razão), tem lados mal definidos: pode-se ir de um para outro vértice por um ou por outro caminho. Os vértices comunicam entre si de várias maneiras. Õ físico Albert Einstein compreendeu a unidade e virtuosidade desse triângulo, quando escreveu: “Todas as religiões, artes e ciências são ramos da mesma árvore. Todas elas são aspirações direccionadas ao enobrecimento da vida humana, elevando-a acima da esfera dam era existência física e conduzindo o indivíduo a um estado de maior liberdade”.

Vejamos em primeiro lugar o caminho que vai da religião para a arte ou vice-versa. São profundas as relações entre religião e arte. Basta tomar, por exemplo, a arquitectura: as catedrais são obras de arte que, na feliz expressão de um outro físico de ascendência judaica, tal como Einstein, Julius Robert Oppenheimer, pretendem “fazer chegar as torres até à altura de Deus, enquanto as portas permanecem da altura dos homens”.

Será preciso ter fé para projectar um tempo? A história da arquitectura mostra que não. Se há arquitectos extremamente crentes como Antoni Gaudí, autor da Igreja da Sagrada Família em Barcelona (um grupo de seus admiradores está a tentar até a sua beatificação e, se o conseguir, será a primeira vez que um arquitecto se torna beato), outros há que são ateus como Le Corbusier e Oscar Niemeyer (disse este arquitecto brasileiro: “Não acredito em nada. Acredito na Natureza: tudo começou não se sabe quando nem como. Eu bem que gostaria de acreditar em Deus".) Mas isso não impede que a religião tenha uma forte influência na arte. O arquitecto Daniel Libeskind (também judeu tal como Einstein e Oppenheimer), quando interrogado sobre o papel da arquitectura na religião, afirmou: "O primeiro nome que vem à mente é, obviamente, Antoni Gaudí. Mas em alguns aspectos, é demasiado óbvio. Eu sempre me fascinei com a inescapável espiritualidade de uma pessoa considerada um herege, como Le Corbusier, ou um místico, como Mies van de Rohe, que lêem São Tomás e Santo Agostinho e têm os seus livros na cabeceira. Gostaria de concluir dizendo que não houve um grande arquitecto, que não tenha tido um forte elemento de espiritualidade".

Com efeito, o ateísmo de Le Corbusier não o impediu de construir a bela, embora estranha, Chapelle de Notre Dame du Haut, em Ronchamp, assim como o Convento Dominicano de La Tourette, perto de Lyon. Por sua vez, o ateísmo de Niemeyer não o impediu de construir a bela igrejas como a de S. Francisco de Assis, em Belo Horizonte. As opções estéticas são individuais. Ao contrário de Le Corbusier e de algum modo à semelhança de Gaudi, Niemeyer privilegia a linha curva em relação à recta, invocando a ciência: "Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein."

O lado do triângulo, necessariamente curvo, entre ciência e arte, é muito rico. Que é possível ser simultaneamente cientista e artista mostra o caso de Abel Salazar (é conhecida a sua recusa positivista, ou melhor neo-positivista, da religião). No livro “Que é a Arte” chamou a atenção para a dupla leitura que se fazer de uma linha, seja esta recta ou curva, uma leitura científica e uma leitura estética, uma leitura racional e uma leitura emotiva: “A linha, pelas suas propriedades geométricas e analíticas é um ser autónomo, que pertence integralmente ao campo matemático: é um ser matemático. Mas, pela sua propriedade ’forma’, ela entra em relação com a emoção...: e é a síntese da ‘forma’ e da ‘emoção’ que estabelece a ligação entre a arte e a ciência.”

Para reconhecer que a ciência tem implicações na arte basta lembrar o caso da arquitectura, uma arte que muito deve à ciência, nomeadamente a procura de novos materiais e técnicas construtivas. Mas o mesmo podemos reconhecer se se analisarmos as tentativas, tão antigas como a ciência e de sucesso muito irregular, de cientifização da arte, nomeadamente a busca que se tem feito desde os antigos Gregos da matematização da estética. A chamada “razão dourada” é um bom exemplo da ligação entre ciência e arte. No Renascimento esse tema foi retomado no livro de há exactamente 500 anos, de Fra Luca de Pacioli, De Divina Proportione. E, desde então, os rectângulos e triângulos dourados têm sido procurados nos mais diversos edifícios (o Parténon de Atenas), esculturas (a Vénus de Milo, que para Álvaro de Campos era "tão bela como o binómio de Newton") e pinturas (a Gioconda, de Leonardo da Vinci, que aliás ilustrou o livro de Pacioli). Este tema da preferência humana pela razão dourada parece ser, por vezes, algo forçado: o belo contém sempre um lado que escapa à razão.

Le Corbusier foi um dos adeptos da razão dourada. Procurou usá-lo nos seus edifícios, nomeadamente na Unité d’Habitation à Marseille. Escreveu mesmo um livro teorizando essa proporção (“Le Modulor”). Em 1945, discutiu o assunto com Einstein em Princeton e foi este quem lhe disse que a escala de proporções, procurada pelo arquitecto, era “a que tornava o mau difícil e o belo fácil.” Einstein tinha abandonado a sua casa em Berlim antes da Segunda Guerra Mundial. Também já não ia visitar a estranha Torre Einstein, um observatório astronómico que o arquitecto Erich Mendelsohn tinha construído em Potsdam, nos arredores de Berlim, inspirado nas ideias relativistas. Ali a torre procurava subir não para Deus, mas para as estrelas, enquanto a porta ficava do tamanho do homem. Um tempo profano, portanto.

Menos conhecida que a influência da ciência na arte é a influência da arte na ciência. Einstein (que, apesar da sua ascendência judaica, não cultivava a religião dos seus avós, professando antes uma crença panteísta na Natureza, à la Espinosa, o judeu herege de origem portuguesa, e que, entre todas as artes, mais do que a arquitectura, apreciava a música) declarou: “Fazemos ciência quando reconstruímos na linguagem da lógica o que vimos e experimentámos; fazemos arte quando comunicamos por formas cujas ligações não são acessíveis à mente consciente mas, no entanto, reconhecemos intuitivamente nelas algum sentido.” As duas são bem diferentes, mas gostam de se relacionar. A busca da ciência é até muitas vezes informada por critérios estéticos: por vezes, as equações são escolhidas por serem ou parecerem mais bonitas...

As relações entre ciência e religião são também vastas. A crença religiosa muitas vezes precedeu a ciência. E, mesmo quando largou a religião, a ciência sempre precisou de crenças: os cientistas, religiosos ou ateus, acreditam, por exemplo, na existência de leis universais e acreditam no primado da lógica. Mas há, evidentemente, uma diferença entre a crença justificada racionalmente da ciência e as muitas crenças mais ou menos injustificadas que encontramos fora dela.

O que têm, enfim, em comum ciência, arte e religião? As três, cada uma a seu modo, poderão servir para elevar o homem, mas as três, também cada uma a seu modo, servem decerto para penetrar o mistério. Citemos de novo Einstein:

“A coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. É a emoção fundamental que está no berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência. Aquele que desconhece essa emoção, aquele que deixou de se maravilhar, que deixou de admirar, é como se estivesse morto, é uma vela apagada. Foi a experiência do mistério que... originou a religião. Saber que existe algo que não podemos captar, a percepção da razão mais profunda e da beleza mais radiante, que só são acessíveis à nossa mente nas suas formas mais primitivas – é a experiência dessa emoção que constitui a verdadeira religiosidade: e, neste sentido, e só neste sentido, sou um homem profundamente religioso.”

26 comentários:

  1. A sério, dedique-se à física, porque religião e arte não são, definitivamente, o seu forte.

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  2. A sério, dedique-se à tourada, porque os comentários em blogs não são, definitivamente, o seu forte.

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  3. «Será preciso ter fé para construir um tempo?».

    Aqui talvez ficasse melhor «projetar», em lugar de construir, porque quem erige um templo e, dependendo do ângulo de análise, pode ter fé ou não, ou seja, os construtores (operários) podem não ter fé, mas o que está na génese dessa construção é, efetivamente, a fé dos que a impulsionam (de uma ou outra maneira).

    Já agora, por uma questão de precisão -- embora sem importânciua -- o título do livro de Abel Salazar é «Que é a Arte?», e valeria a pena refletir sobre uma frase que lhe é atribuída (erroneamente) sobre o «médico», aplicando-a aos cientistas: «o cientista que só sabe [de] ciência, nem [de] ciência sabe».

    «A busca da ciência é até muitas vezes informada por critérios estéticos: por vezes, as equações são escolhidas por serem mais bonitas...». Hum?

    «O lado do triângulo, necessariamente curvo...».

    Euclides define um triângulo como sendo determinado por três segmentos de reta que se intersetam -- a que se chama lados.
    Se existe um lado curvo (e ainda que com «liberdade poética», isso só poderá advir da falsa ideia (cáspite!) de que o universo é curvo, tal como Einstein o «definiu».

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  4. Se me permite, penso que Nelson Goodman terá conseguido ligar/desligar estes três temas de forma magistral, ao dizer-nos que a arte, a religião e a ciência não passam de "Modos de Fazer Mundos".
    Não é, afinal, o que o Homem vem fazendo?

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  5. Sobre este interessante triângulo, escreveu Goethe este profundíssimo poema:

    «Wer Wissenschaft und Kunst besitzt,
    Hat auch Religion;
    Wer jene beiden nicht besitzt,
    Der habe Religion.»

    o que, traduzido por miúdos, dá mais ou menos:

    «Quem possui ciência e arte, possuiu também religião;
    Quem não tiver nenhuma delas, que [esse] tenha religião.»

    [e não como aparece em algumas traduções «tendenciosas» feitas por «especialistas» e divulgadas em pasquins -- ainda que de grande tiragem!].
    ---
    Uma vez um amigo meu perguntou-me: «e quem não tiver nem arte, nem ciência, nem religião?», ao que eu respondi: é um animal... (ou mais brandamente, uma pessoa sem capacidade de raciocínio...).

    Claro que o tema pode levar a uma discussão «retórica» (que é o pão nosso de cada dia de alguns «posts» deste blogue) com definições/precisão de conceitos e blá, blá, blá, mas assim «d'emblée», acho que o génio alemão que disse tudo...

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  6. DONOS DE ABRIL in http://maquinadelavax.blogspot.com

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  7. Agradeço os comentários relevantes, alguns dos quais me serviram para melhorar pequenas partes do texto. E agradeço a lembrança do poema de Goethe, que conhecia, mas que não me ocorreu quando escrevi.
    Carlos Fiolhais

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  8. A respeito desta parte do texto ("um grupo de seus admiradores está a tentar até a sua beatificação e, se o conseguir, será a primeira vez que um artista se torna beato") uma pequena correcção: fra Angelico, um monge da 1ª renascença foi beatificado em 1982.

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  9. Caro Rui:
    Tem toda a razão, obrigado. Já emendei o post, de modo a ressalvar o caso de Fra Angelico.
    Carlos Fiolhais

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  10. Religião e arte = Bach
    Religião e ciência = quando o génesis, recusando a criação momentânea, pôe por ordem a criação, como se de um processo evolutivo se tratasse, aparecendo primeiro os animais marinhos e voadores e só depois os terrestres!
    Religião, ciência e arte = as catedrais góticas(tão desprezadinhas nos tempos de hoje)
    Xico

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  11. ver o homem vitruviano de Da Vinci. O triângulo existe, mas foi tirado do quadrado e da circunferencia. Arte, religião e ciencia, não devem ser um triunvirato mas um todo. Quem me diz que um cientista não é mais artista que um religioso. ou vice versa. Que um artista não é mais cientista que um Fiolhais? Ou que Souto Moura não tem mais horizonte espiritual que o Padre Jorge Cunha? pensamento dum homem comum...

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  12. Lorena, on April 27th, 2009 at 9:44 pm Said:


    ...


    If God existed he would be clear. He wouldn’t want good-meaning followers majorly confused by obscure statements.


    Lorena, on April 27th, 2009 at 10:30 pm Said:

    People shouldn’t need to be apologists to understand the Bible, Eric.

    Try to publish a book as contradictory as the Bible today and editors will throw it on your face–for lack of credibility.

    You believe in God because you want to, not because the Bible is any help. You believe in spite of the Book, not because of it.

    If you had any intellectual honesty, you would admit that the Bible is anything but a divinely inspired book.

    But, hey, if you love fairy tales and imaginary friends, who am I to persuade you to leave it behind? Go on living your life as is, and one day, the disappointment will hit you. You will look for your God and he won’t be there, because he doesn’t exist. Imagination only serves to a point.


    http://proudatheists.wordpress.com:80/2009/04/27/three-overlooked-quotes-from-jesus/

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  13. Cardeal,
    não pesca nada de matemática e muito menos de física e portanto deduzo que deve ser mais um anafadinho de letras, todo ele profundo de páginas circulares.
    "A busca da ciência é até muitas vezes informada por critérios estéticos: por vezes, as equações são escolhidas por serem mais bonitas" e tem tudo que ver com este seu "Hum?".
    Se estudasse ciências saberia a estética da matemática ou de soluções físicas associadas muitas vezes a uma certa simplicidade como sejam os fractais mas este tipo de estética é muito mais que isso é algo que também se sente quando trabalhamos sobre as tais equações a que se refere e que nada tem de bonito tal como o interprtetou.
    arte

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  14. Digo melhor,
    Cardeal,
    não pesca nada de matemática e muito menos de física e portanto deduzo que deve ser mais um anafadinho de letras, todo ele profundo de páginas circulares.
    "A busca da ciência é até muitas vezes informada por critérios estéticos: por vezes, as equações são escolhidas por serem mais bonitas" e tem tudo que ver com este seu "Hum?".
    Se estudasse ciências saberia a estética da matemática(como sejam os fractais) ou de algumas soluções da física associadas muitas vezes a uma certa simplicidade; mas este tipo de estética é muito mais que isso é também algo que se sente quando trabalhamos sobre as tais equações a que se refere e que nada tem de bonito tal como interpretetou.
    arte

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  15. A questão é que o pessoal de ciências pode saber de letras e voçês só de letras porque as ciências é, para vós, um mundo estranhissimo e de dificial acesso!
    Sabe que mais, dá-nos um gozo!
    arte

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  16. A questão é que o pessoal de ciências podem saber de letras e voçês só de letras porque as ciências são, para vós, um mundo estranhíssimo e de dificil acesso!
    Sabe que mais, dá-nos um gozo!
    arte

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  17. No essencial, somos fantásticos e como alguém disse:
    "os Peter Pan deste planeta"
    acho que foi o Feynman
    arte

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  18. Depois deste «curto-circuito», vamos ao que interessa.
    [Não querendo ser o «dono» do tema aqui proposto (arte/ciência/religião) -- ou melhor, deste espaço --, acharia de bom tom que, quem pretenda discutir o tema/«problema» de Deus (ou de não-Deus), o faça no lugar apropriado, havendo para isso vários «posts» onde poderá dar as suas opiniões sobre essa temática...].
    ---
    No seu artigo, Carlos Fiolhais coloca a questão que está aqui em reflexão: «O que têm, enfim, em comum ciência, arte e religião?», respondendo, de seguida, com a possibilidade da elevação do homem (em vários planos, acrescentaria eu) e de penetração do mistério que nos rodeia, dando vários exemplos de pessoas em que é patente essa interpenetração (de pelo menos duas dessas áreas).

    Agora, se considerarmos o conjunto desses três vértices como sendo o «corpus» do saber humano, o que faz sentido, e assumindo que a filosofia, stricto sensu, é «um outro saber» que se rege por uma metodologia própria (com diferentes métodos), onde «encaixar», então, esta disciplina, se o triângulo («necessariamente») isósceles tem os lados todos ocupados?

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    Respostas
    1. ...é patente essa interpenetração...


      se permite: interpolação*

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  19. Augusto Cardeal
    A filosofia não poderá ocupar o espaço marginado pelos lados do triângulo? Afinal a filosofia não tratou sempre da religião, arte e ciência?

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