terça-feira, 3 de março de 2009

"A EVOLUÇÃO DA BÍBLIA" - GUIÃO 2


Segunda e última parte do guião, escrito por António Eugénio Maia do Amaral, da exposição "A Evolução da Bíblia", patente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Séculos XVII-XVIII

O livro massifica-se e torna-se mais acessível porque passa a estar escrito em línguas que as pessoas conhecem. A primeira tradução para a língua portuguesa (feita a partir das línguas originais) é tardia, foi feita em Batávia (Jacarta) por João Ferreira Annes d'Almeida (1628-1691) e publicada em Amsterdam, em 1681 (Novo Testamento) e em Batávia, em 1748 e 1753 (Antigo Testamento), esta última terminada já após a sua morte (1691) por Op den Akker. Baseada no texto grego, a versão de Almeida discorda quase sempre da “Vulgata”. Tanto bastava para que o tribunal da Inquisição, não tendo podido queimá-lo vivo, o tivesse queimado em estátua, em Goa. A Biblioteca Geral não possui exemplares destas raras edições, mas possui a primeira, princeps, num só volume, feita em Londres, em 1819.

A segunda tradução do Antigo e do Novo Testamento, num português se não melhor pelo menos mais actual, baseia-se na “Vulgata” e consumiu 18 anos de trabalho ao Padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797). Esta tradução só foi possível graças ao enfraquecimento da Inquisição em Portugal no século XVIII. A versão em sete volumes (Edição Nova), que é considerada padrão, foi publicada entre 1794 e 1819, e veio a ser condensada num único volume em 1821.
A compactação extrema de grandes livros como a Bíblia só no século XIX se tornou possível, com a invenção de papéis extremamente finos (como o chamado exactamente “papel-bíblia”) produzidos mecanicamente, em contínuo e calandrados para permitir a impressão nítida de pequenos caracteres.

Séculos XIX-XX

Os séculos XIX e XX são o período do chamado “livro moderno”, em que o objecto-livro irá atingir a estrutura e as características estilísticas e formais que hoje conhecemos. Passa a ser um produto industrial com a mecanização e explosão de novos impressos (revistas e jornais), traduções para línguas exóticas, edições ilustradas, livros para crianças e a interminável multiplicação das tiragens. Só as sociedades missionárias americanas distribuem por ano mais de 500 milhões de Bíblias.

Em 1803, Roque Ferreira Lobo publica em Lisboa uma adaptação da história sagrada em verso, destinada a meninas “na primeira idade”. O resumo em prosa do francês Martinho de Noirlieu teve entre nós tanta aceitação – numa época tão carecida de livros concebidos especialmente para a infância – que se conhecem, pelo menos, seis edições em português, até 1898.

Podem acrescentar-se a esta lista a Historia sagrada (1850) de José Inácio Roquete e o Mimo à infância (de 1859) do diplomata e pedagogo Aquiles Monteverde, já ilustrado com 50 estampas. A mais conhecida adaptação em diálogos feita pela Condessa de Ségur (La Bible d’une grand-mère,) só saiu na Hachette, ilustrada com 30 gravuras de Carosfeld, em 1869. Note-se que a primeira revista criada para o público infantil, O amigo da Infância, editada no Porto a partir de 1873, era especialmente dedicada à divulgação bíblica.

A imagem acompanhou desde sempre a história do livro: As bíblias latinas manuscritas (a Bíblia românica desta Exposição já é ilustrada) já tinham ilustrações ou pequenas letras capitais iluminadas. Entre os impressos, depois do Apocalipse ilustrado por Dürer, a mais conhecida das bíblias ilustradas (e a primeira toda ilustrada pelo mesmo artista) será talvez a de Gustave Doré, publicada em 1865. A imagem, com efeito, torna-se determinante, no século vinte, em todos os esforços de divulgação do texto sagrado para novos públicos, que passam pelas condensações ilustradas, por alguma aproximação à banda desenhada e pelos produtos multimédia.

O texto original da Bíblia foi escrito em hebraico e aramaico (Antigo Testamento) e em grego (Novo Testamento). A versão latina mais conhecida deve-se a S. Jerónimo, no século IV. É a chamada “Vulgata”. Depois dos séculos de evolução que esta Exposição nos permitiu acompanhar, eis onde chegaram as várias civilizações do “Livro”: Sem entrar na questão histórica da definição dos cânones da Bíblia, mostram-se algumas versões diferentes, nas várias crenças e culturas servidas pelo livro: A latina (um incunábulo ilustrado, de 1493), a hebraica (uma edição venesiana do século XVI, acompanhada de uma Tora actual em português), um Novo Testamento grego (que tem a curiosidade de ter pertencido ao cardeal Mazzarino), uma ortodoxa (facsimile de original seiscentista) em caracteres cirílicos e latinos, a “Bíblia dos Capuchinhos” e outra tradução alegadamente “interconfessional”. A quem estranhe a falta neste núcleo da “Nova Vulgata”, diga-se que ela pode ser consultada a seguir, em texto electrónico. Estes volumes representam o culminar de uma história de séculos na fixação do texto e no aperfeiçoamento da forma da sua divulgação, desde os manuscritos até aos suportes digitais.

Séculos XX-XXI

Com a invenção dos computadores e o início da Internet, o texto bíblico foi das primeiras obras a ser digitalizada e, assim, desmaterializada. Numa transcrição feita pelo próprio Michael Hart, a Bíblia fez parte do lote inicial do Projecto Gutenberg, e fará parte todos os sucessivos repositórios de obras no domínio público, nas suas várias formas. A explicação que o fundador do Projecto Gutenberg dá para a inclusão precoce da obra não deixa de ser curiosa: Estava-se em 1971 e foi por razões de espaço ocupado em disco que transcreveu “primeiro a Declaração da Independência dos EUA (apenas 5 k). A isto seguiu-se a Carta de Direitos — e depois toda a Constituição dos EUA à medida que o espaço começava a ficar maior. Depois veio a Bíblia (já nos anos 80), uma vez que os livros individuais da Bíblia não eram muito grandes, depois Shakespeare (uma peça de cada vez), e Alice no país das Maravilhas”.

As bases de dados textuais e as técnicas de hipertexto vieram permitir novas visões sobre a Bíblia e novas “leituras” do seu texto. Toda a recente polémica sobre a existência de “códigos” escondidos seria impensável sem o recurso ao digital.

Os leitores de e-books (livros electrónicos) permitem-nos hoje transportar num aparelho portátil uma imensidade de livros, entre os quais – se o desejarmos – o texto bíblico. Ou transportar o som da sua leitura, num áudio-livro… Da grande diversidade de leitores disponíveis no mercado, mostram-se dois exemplos actualmente no mercado: o Papyre da empresa espanhola Grammata carregado com 500 obras integrais e um BeBook holandês que lê formatos diversos de texto e também de áudio. No entanto, acreditamos que este livro electrónico não poderá revolucionar o livro e a leitura sem a prévia massificação do “papel electrónico” (e-paper), flexível, escrevível e dobrável, de que também apresentámos um protótipo português, feito especialmente para esta ocasião pela investigadora Elvira Fortunato. Só tecnologias deste género nos podem remeter de novo para as formas de utilização mais cómodas, conhecidas e estabelecidas ao longo de uma história milenar do livro como suporte da informação. Independentemente dos suportes em que se apresentem, trata-se dos mesmos conteúdos pelo que, como Biblioteca, queremos continuar a conservá-los, sob qualquer das suas formas, durante os próximos 500 anos.

4 comentários:

  1. Um erro crasso, que cientistas como Leibniz,Pascal, Newton, Faraday ou Maxwell tiveram o cuidado de cometer, é ignorar a sabedoria profunda que se encerra nesse assombroso conjunto de 66 livros que se designa por Bíblia.

    Vejamos um exemplo.

    Como é sabido, ao apresentar a sua hipótese nebular Laplace afirmou que não existia nela qualquer lugar para Deus.

    Como é sabido, também, as recentes simulações computorizadas em três dimensões, dirigidas pelo astrofísico Joseph Barranco, mostram que a hipótese nebular pura e simplesmente não funciona, quando se trata de explicar a origem de planetas gasosos.

    Ou seja, parece hoje não haver na teoria divina qualquer lugar para a hipótese de Laplace.

    O filosofo ex-ateista Anthony Flew, no seu recente livro "There is a God", explica quais as linhas de evidência que tornam a existência de Deus irrefutável.

    Embora não se tenha convertido a Jesus Cristo, ele confessa que se há alguma religião digna de consideração séria, é o Cristianismo, com as figuras centrais de Jesus Cristo e do Apóstolo Paulo.

    Se Anthony Flew ousasse considerar seriamente a mensagem cristã, iria ver que ela tem muito a dizer sobre astronomia, astrofísica, biologia, genética, geologia, paleontologia, etc., e que em todas essas disciplinas abundam evidências que a corroboram.

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  2. Não podem pôr lá um espaço para o autor das linhas anteriores debitar as suas pérolas?

    É que merecia - tanto esforço para divulgar, como o capitão do Beagle, o Livro dos Livros merecia um espaço melhor...

    E ainda por cima é perto da FDUC...!

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  3. Refiro um "texto apócrifo" que vinha incluído no AT da Bíblia cristã, o “2” Esdras .

    Por vezes designado como um “aditamento grego”, não passava de uma manifestação da ”arte cristã” de forjar textos .

    “The book today termed 2 Esdras is not in the Jewish, Protestant, Catholic, or Orthodox canon. It was written too late to be included in the Septuagint, but it was in an appendix to the Vulgate, and it is also found among the Apocrypha in the King James Version and Revised Standard Version.”

    Considerem-se os versículos (2 Esdras 7:28-29):

    [28] For my son Jesus shall be revealed with those that be with him, and they that remain shall rejoice within four hundred years.

    [29] After these years shall my son Christ die, and all men that have life.


    Talvez se deva considerar como uma piedosa “alegoria” a referência a Jesus “Cristo” no AT ...

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  4. Não há charlatanice na Bíblia ?De facto, a charlatanice bíblica combina bem com a ignorância e a apologia de uma pretensa inerrância.

    Seria o mesmo que considerar o calhamaço dos embustes bíblicos como um exemplar livro científico .


    (Josué 10:12-13)12 - Então, Josué falou ao SENHOR, no dia em que o SENHOR deu os amorreus na mão dos filhos de Israel, e disse aos olhos dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeão, e tu lua, no vale de Aijalom.

    13 - E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Isso não está escrito no Livro do Reto? O sol, pois, se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro.


    Só mesmo com a "mãozinha" do omni-impotente, omni-incompetente e omni-ausente.

    O designer idiota - deus - faz parar o Sol, para que Josué pudesse matar todos os inimigos antes de escurecer.


    (II Reis 20:9-11)9 - E disse Isaías: Isto te será sinal, da parte do SENHOR, de que o SENHOR cumprirá a palavra que disse: Adiantar-se-á a sombra dez graus ou voltará dez graus atrás?

    10 - Então, disse Ezequias: É fácil que a sombra decline dez graus; não aconteça isso, mas volte a sombra dez graus.

    11 - Então, o profeta Isaías clamou ao SENHOR; e fez voltar a sombra dez graus, pelos graus que já tinha declinado no relógio de sol de Acaz.


    Isaías, com a ajuda do gazeteiro dos 6 dias, faz o Sol mover-se dez graus para trás.
    Isto sim, é que é "obra"! Fazer a Terra parar de girar e inverter a direcção de rotação.

    Ou talvez o Sol girasse em redor da Terra nos tempos do anedotário do AT.

    Inerrância ? Só para pobres de espírito (Mateus 5:3) !

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