segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Purinas e gota

Carl Wilhelm Scheele, o farmacêutico sueco ligado à descoberta do oxigénio, descobriu uma lista enorme de novos compostos, entre eles a primeira purina isolada. A partir de cálculos urinários (calculus vesicae), Scheele isolou em 1776 o ácido úrico que utilizou para sintetizar murexida, o corante púrpura que tomou o nome do molusco que tingiu as elites da Antiguidade. William Prout, o cientista britânico que formulou a hipótese de Prout e foi homenageado por Ernest Rutherford quando este nomeou o protão, renovou o interesse pela murexida com um artigo de 1818 na Philosophical Transactions em que sugere que o corante poderia ser utilizado na «arte de tingir». A murexida, obtida primeiro a partir de excrementos de jibóias e depois de excrementos de pássaros, foi utilizada comercialmente para esse fim até à síntese da mauveína.

O ácido úrico necessário à síntese da murexida é a forma como a maioria dos pássaros e répteis excreta compostos azotados resultantes do metabolismo de proteínas. Nos mamíferos, é formado por degradação das purinas, metade das bases do ADN. As purinas sofrem um processo de degradação em hipoxantina e esta em xantina. Por sua vez, por acção da enzima xantina oxidase, a xantina é convertida em acido úrico. A maioria dos mamíferos dispõe de uma enzima hepática, a uricase, que converte o ácido úrico em alantoína e é este composto solúvel em água que excretam na urina. Mas algures durante a evolução dos primatas, perdeu-se esta enzima e o ácido úrico é o nosso produto final do metabolismo das purinas, o que pode causar problemas como o que permitiu Scheele o isolamento deste composto pouco solúvel em água.

De facto, a concentação normal de uratos no nosso organismo está próxima do limite da solubilidade dos uratos à temperatura normal do corpo humano. A solubilidade dos sais de ácido úrico diminui com a temperatura e estes depositam-se com facilidade nas articulações periféricas, joelhos, tornozelos, calcanhares ou dedos do pé, nos quais a temperatura é mais baixa, provocando inflamações. Quando o ácido úrico apresenta uma concentração superior ao limite de solubilidade no plasma sanguíneo à temperatura corporal, pode ocorrer deposição de sais de urato em qualquer tecido do organismo. Em situações de hiperuricémia, podem surgir, para além de cálculos, processos inflamatório como gota, artrite e nefrite.

A gota, que na maioria das vezes se manifesta inicialmente no hálux (dedo grande do pé), situação abundantemente representada e caricaturada, como ilustrado pelo cartoon de James Gillray que é quase obrigatório em livros de texto que tratam da gota, é uma doença muito bem documentada e é tão desafiadora quanto o metabolismo das purinas.

O incómodo causado pela doença, que Benjamin Franklin ilustra no seu diálogo com a gota, é relatado desde a Antiguidade, por exemplo, é mencionada por Aulus Cornelius Celsus no seu tratado De Medicina, uma das melhores fontes do conhecimento médico de Alexandria. Galeno considerava que a gota era uma descarga desiquilibrada nas articulações dos quatro humores.

Até há relativamente pouco tempo, a gota era considerada uma doença dos excessos, e apontava-se o dedo ao consumo de muita comida requintada e bebidas generosas como o vinho do Porto. As purinas constituem exactamente 50% das bases presentes no ADN pelo que todos os alimentos de origem vegetal e animal são fontes de purinas. Um estudo de 2004 (artigo em formato pdf) sugere que as fontes vegetais de purinas estão associadas a um menor risco de desenvolvimento de gota. Embora algumas pessoas possam apresentar problemas de síntese excessiva de purinas ou na excrecção dos seus metabolitos, parece existir uma correlação entre a gota e determinados tipos de alimentos.

Cerca de 90% dos que desenvolvem gota primária são homens e as mulheres com gota normalmente desenvolvem-na a partir dos sessenta anos pelo que não necessito contemplar, pelo menos tão cedo, a submissão à dieta pobre em purinas prescrita em 1954 (artigo em formato pdf) ou evitar os meus pratos favoritos, alguns omnipresentes na dieta nacional como o bacalhau ou as sardinhas.

6 comentários:

  1. Cinco estrelas na Palmira, a quem desejo saúde da boa por muitos anos.

    Deixo-lhe mais um excerto do meu estudo "O que fazem os primatas com teclados?", onde podemos ver um exemplar de polegar absolutamente oponível usufruindo de total eficiência no processamento das bases púricas ao nível do joelho e canela.

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  2. Cinco estrelas, sem dúvidas :)

    Os sistemas excretores e a eliminação de azoto são um assunto fascinante. Se os criacionistas soubessem um pouco destas funções "menores" tiravam logo a ideia de um designer da cabeça

    A desaminação dos aminoácidos envolve a formação de amónia, que é muito tóxica. nos seres unicelulares ou multicelulares simples os resíduos azotados são libertados para o meio por difusão através da superfície do corpo. No outros a razão superfície volume não o permite e mesmo os animais invertebrados apresentam sistemas excretores; normalmente sistemas tubulares e simples, com excepção dos cnidários, muito fininhos, em que a remoção de amónia é feita por difusão directa.

    Os peixes têm muita água à disposição para diluir a amónia, mas os restantes têm de transformar a amónia em alguma coisa menos tóxica.

    mamíferos, alguns anfíbios e cartilagíneos evoluiram o ciclo da ureia e as necessárias alterações fisiológicas.

    As aves e reptéis são uricotélicos e metabolizam os aminoácidos em ácido úrico e não em ureia como os mamíferos. O ácido úrico é muito insolúvel pelo que a sua produção não tem implicações osmóticas e não é preciso uma bexiga para o eliminar: as aves têm uma urina semi-sólida.

    A ureia é mais tóxica que o ácido úrico e precisa ser diluida.

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  3. Rita

    "Se os criacionistas soubessem um pouco destas funções "menores" tiravam logo a ideia de um designer da cabeça"

    És crente: podem saber, mas arranjam logo uma explicação alternativa. Algo como estar na mitologia dos gregos ou nas gravuras incas ou algo que ver com a degradação do material genético.

    Dito isto, o mundo da Ciência não gira à volta dos criacionistas. Há muitas mais coisas interessantes e os criacionistas nem chegam a interessantes. Há que escolher as batalhas e neste blogue há quem pense que a batalha é contra a religião. Não é: é contra a ignorância do não saber e contra a arrogância de não querer saber (e a de achar que se sabe tudo). Se está associado a religião é um relativo pormenor.

    Este post, por exemplo, está todo excelente (embora eu achasse piada a umas reacções químicas, só para ficar giro), mas acaba mal com a Palmira a recordar que não tem 6o anos e que não precisa de tomar medidas para evitar gota. Fica giro como remate, mas ficava mais giro uma nota sobre levar uma vida saudável para não ter que andar a remediar estas coisas.

    P.S: Este último parágrafo doi mera provocação. Eu sei que este não foi um post de saúde pública nem moralista.

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  4. No sentido de impressionar positivamente a Palmira, fui recordar em fonte bibliográfica que "bases púricas" são purinas substituídas (adenina e guanina).
    Parece-me, por isso, haver uma incoerência no post "ADN e evolução" (no quadro "Purinas"), mas longe de mim querer entrar por aí.

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  5. É fantástico mas paradoxal: um comentário da Rita faz mais pelo design inteligente do que mil comentários do Professor Perspectiva enquanto um comentário do Professor Perspectiva faz mais pelo ateísmo do que mil comentários da Rita.

    Bruce Lóse

    Compreendo a angústia e a tristeza que deve sentir por nem um oi da Palmira receber. A vida é ingrata: contribuimos para a glória fácil de um bloguer e depois passamos pela rua e nem nos conhecem.

    Um abraço cheio de solidariedade e compaixão cristã.

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