sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

DESCONCERTO EDUCATIVO


Minha crónica no "Público" de hoje (aqui emendei pequenas gralhas):

Se fosse possível que um governo se lembrasse um dia, por aversão às artes, de acabar com o ensino da música, não faria muito diferente do que este governo se prepara para fazer. De acordo com o novo plano do ensino da música, surgirão as seguintes mudanças: 1. Extinção do ensino musical especializado no 1.º ciclo. 2. Mesmo para os maiores de 10 anos, os conservatórios só irão oferecer ensino de música em regime integrado e não supletivo.

A primeira medida só por si é o fim do ensino musical especializado porque as crianças do 1º ciclo do ensino básico deixam de poder frequentar o conservatório. Ora, na música em particular é de pequenino que se torce o pepino. Tal significa o desaparecimento a breve prazo dos instrumentistas portugueses, pianistas e violinistas, flautistas e clarinetistas, pois, para se ser muito bom num instrumento, é preciso começar cedo a aprendê-lo. Com esta lei, se o leitor quiser que o seu talentoso filho de seis a nove anos aprenda um instrumento, só mesmo no ensino particular (pagando bem mais, claro, do que no conservatório). A segunda medida não é melhor. A maioria dos alunos do conservatório está no regime supletivo porque, dada a exigência da carrreira musical e o escasso número de oportunidades profissionais nessa área, não querem ficar limitados muito cedo à opção pela música. A decisão sobre o seu futuro poderá, naturalmente, levar algum tempo a amadurecer. E eles podem seguir outra carreira sendo bons músicos amadores.

Diz o Ministério da Educação que, ao mesmo tempo que reforma os conservatórios, quer fazer chegar a música a todas as escolas, na forma de actividades extra-curriculares. À primeira vista, parece uma óptima ideia. Música para todos e não apenas para meia dúzia? Quem não concordará? Mas trata-se de uma enorme demagogia que só não surpreende por já estarmos habituados a esse tipo de dislates. Essas actividades ninguém sabe o que são mas devem ser uma brincadeira para ocupar alguns tempos livres. Seria o mesmo que substituir os professores de língua portuguesa em tempos lectivos por contadores de histórias em tempos extralectivos. Há quem diga que o Ministério pretende, com o esvaziamento dos conservatórios, arranjar mão-de-obra para as tais actividades musicais nas escolas. Será assim? De facto, as crianças e jovens que estão nos conservatórios são ricos mas apenas no seu talento, pois passaram rigorosas provas de admissão e praticam com rigor: eles farão parte da nossa elite artística. Aposto dobrado contra singelo que essas actividades extra curriculares não vão ter exigência nenhuma, pois nem sequer haverá exames.

O documento de avaliação do ensino artístico foi, para nosso espanto, feito por um especialista em educação matemática, pelo que podemos presumir que os documentos do ensino da matemática foram feitos por professores de música. É um completo desconcerto! Vendo bem, o que se está a fazer no ensino das artes é o que já se fez no ensino das ciências (vide a desvalorização da física, que já está a conduzir ao fecho de cursos superiores dessa disciplina) e das letras (vide o ataque à filosofia no secundário). A responsabilidade não é só do actual governo, são governos sucessivos que conduziram ao evidente estado de laxismo. E, se o governo, nesta área, é o que é, a oposição não se ouve. A oposição são os alunos e professores que fazem concertos à porta do Ministério e os pais que fazem petições na Internet.

É preciso conservar o que os nossos conservatórios têm de melhor. Reforçá-los em vez de os diminuir (o de Coimbra está há anos em instalações precárias, com o novo edifício por construir). Eles são ainda um reduto de qualidade num sistema educativo que desdenha da qualidade. Essa de dar música a todos é “dar-nos música” a todos: significa a uniformização pelo mínimo. Parece que é tirar aos ricos para dar aos pobres, mas é ao contrário. Tira-se aos pobres algumas das oportunidades que os seus genes e o seu esforço lhes davam. E os ricos terão sempre o privado e o estrangeiro.

4 comentários:

  1. Nada é assim tão óbvio, conheço a realidade do conservatório de Coimbra e muitos dos miudos que lá andam, andam mesmo "a ocupar os tempos livres". Aliás de uma assembleia de pais desta semana ficou que, quer muitos pais quer muitos professores, acham que um ensino de qualidade só pode passar por um regime integrado para a maioria dos alunos. Obviamente não se pode é para obter o desejável ensino generalizado ir retirar ao ensino especializado. A questão vergonhosa das instalações do conservatório de Coimbra já atravessou muitos governos e prende-se não só com o abandono a que sempre foi votado o ensino das artes como com a macrocefalia da capital.

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  2. Eu ainda estou para perceber como irão funcionar os ensinos democratizados de música nas escolas. É com AEC's e reforço da disciplina de Educação Musical?

    E dadas por quem? Neste momento os professores de AEC são miseravelmente pagos, a recibos verdes sem contrato e, muitos deles, com fracas habilitações porque não há gente suficiente em Portugal com habilitações superiores para termos música especializada em todas as primárias e secundários do país - logo tem de se recorrer a pessoas sem curso superior para suprir as lacunas.

    Para além disso as turmas do secundário já se sabe como são: 15 a 30 alunos. Onde é que uma aula de 90 minutos, por semana, dada a um batalhão de crianças em simultâneo é comparável a um "ensino especializado"?

    E mesmo na primária, vamos passar a ter um professor com não sei quantas crianças cada uma com seu violoncelo, clarinete, fagote e piano de cauda na sala de aula?...

    Ou continuamos a fazer a apologia das flautas de bisel de plástico do liedl porque são a única coisa que toda a gente pode levar?

    Isto não é ensino democratizado da música, isto é pura palhaçada demagógica.
    Quem quer aprender música a sério que vá para o privado ou para o estrangeiro. Lindo serviço!...

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  3. Ofereço a minha solidariedade à EMCN como ex-aluno, pela despromoção do ensino da música e pela forma como se avizinha um linchamento dos seus professores. Está mal.

    Mas:

    Fui aluno no regime que julgo chamar-se "articulado", liceu + conservatório, por ter tido a sorte de passar num exame de selecção em que havia 12 vagas e centenas de candidatos para o instrumento. Consegui a proeza porque tinha já vários anos de ensino privado antes de fazer o exame, claramente proibitivo para estreantes, razão da aura elitista e discriminatória que tinha o conservatório quanto entrei. Também está mal.

    Falando-se na "democratização" do ensino da música, e lendo que os conservatórios são como um reduto de qualidade num sistema educativo que desdenha da qualidade lamento recordar um dos artistas docentes cujos hábitos, tal como eu, outros terão que suportar abundantemente por esses conservatórios fora. Uma professora auto-intitulada vedeta de renome inexpugnável, velhaca execrável e completamente incompatível com a prática pedagógica em animais superiores à cascavel, conseguiu sortir-me tal desgosto ao vê-la que poucos anos depois dei por mim autodidacta.

    Julgo que quanto mais divorciados estiverem o conservatório e o ensino geral, mais liberdade e prestígio haverá para este tipo de excêntricos que encontram na escola de música uma capelinha eterna para práticas satânicas, na vez do necessário reduto de qualidade que corresponde, ainda assim, à ideia que guardo do conservatório.

    Por todos os motivos, lamento as alterações trazidas pela decisão ministerial.

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  4. A propósito destas e de outras coisas da "Cultura", já alguém se lembrou de ir ver o que fizeram com a casa onde viveu e morreu Almeida Garrett? Eu fui até lá e fotografei - ver [aqui].
    .

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