sexta-feira, 25 de maio de 2007

O FIM DO MUNDO ESTÁ PRÓXIMO?


Já há muito tempo que não via um título tão bom como este. Os títulos servem para despertar o apetite para a leitura e este dá-nos vontade de devorar o conteúdo... De resto, já tínhamos saudades dos livros do Jorge Buescu. Tínha-nos dado dois, “O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias”, em 2001, e “Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos”, em 2003, ambos tal como o mais recente na Gradiva, mas já se tinham passado quatro anos desde o último. Não há duas sem três... E temos de novo Jorge Buescu no seu melhor, com um título ainda melhor que os anteriores. E com a mão mais apurada pelo treino da escrita. “O Fim do Mundo está próximo?” já saiu do prelo, sendo apresentado na próxima quarta-feira, 30 de Maio, pelas 18h30 na FNAC do Colombo em Lisboa.

Não, não é só da melhor divulgação da matemática que se faz em Portugal, é da melhor que se faz no mundo. O Jorge ainda vai ser traduzido! Eu tive o grato privilégio de ler o novo livro em provas e sei do que estou a falar. Buescu alia ao evidente conhecimento pormenorizado dos assuntos sobre os quais escreve uma não menos evidente paixão da escrita. A pena flui-lhe fácil, com as analogias e metáforas a jorrarem dela para nosso deleite. O mais intrincado dos assuntos matemáticos torna-se fácil para nós se passar pela pena dele.

Eu já sei o que alguns vão dizer nas caixas de comentários ou noutro lado. Que este blog é um grupo de amigos, que dizem bem uns dos outros. Pois é verdade. Somos. E dizemos. Não faria, de resto, sentido que um grupo de inimigos se juntasse para dizerem mal uns dos outros. Pela minha parte, sou um admirador da escrita do Jorge e bem gostaria, nos meus melhores momentos, de me aproximar do seu estilo inconfundível. É sempre um prazer lê-lo, porque nos seus textos a inteligência surge aliada à arte da escrita... Faz da melhor divulgação científica em língua portuguesa!

Além disso o meu percurso na divulgação científica começou com ele. Eu posso contar aqui uma pequena história que já contei noutro lado. Apesar de ser mais jovem do que eu, o Jorge é o responsável pela minha entrada no mundo da divulgação científica. Pois foi ele, no início dos anos 80, como estudante activo na Associação Juvenil de Ciência (associação da qual hoje tenho o gosto de ser sócio honorário), o primeiro a convidar-me a dar uma palestra de divulgação para estudantes. A lição foi no Porto, num Encontro Juvenil de Ciência, versou a termodinâmica (na altura dava aulas dessa cadeira para um anfiteatro cheio na Universidade de Coimbra), e o “puto” da primeira fila, com as duas orelhas em pé, era o Jorge. Passados mais de 20 anos, aconteceu que o Reitor da minha Universidade me pediu para receber o Prof. Dr. Jorge Buescu como orador convidado no ciclo “Despertar para a Ciência”. E eu então, depois de lhe oferecer um bom almoço (onde, como sempre, nos divertimos imenso a falar deste mundo e do outro!), fiz o que ele tinha feito anos antes. Isto é, fui o “puto” da primeira fila, com as orelhas levantadas, a ouvir o que ele dizia... Foi a minha “vingança”!

Neste blog, as intervenções do Jorge têm sido poucas, mas muito boas. E, lá por ele ser meu amigo, isso não me impede que discorde, em parte, das posições que ele tomou sobre o aquecimento global. Não é que eu seja especialista do assunto (ele será mais do que eu, fiquei muito admirado com a quantidade de coisas que ele estudou...), mas a mim parece-me que existe actualmente um consenso na comunidade científica especializada nestas questões (e consenso não significa de forma nenhuma unanimidade), consenso esse que chega até mim através das “reviews”, notícias e editoriais da “Science” e da “Nature”. Não acredito, por exemplo, que os cientistas que estudam o clima cometam erros triviais de confundir correlação com causalidade.

O tempo é um bem muito escasso, pois se o não fosse já há muito teria escrito sobre esse tão interessante assunto da controvérsia científica. Conto fazê-lo ainda. Mas poderei adiantar já o que penso dos anónimos que povoam a blogosfera com tentativas idiotas e sempre vãs de assassinato de carácter. Quase nunca têm razão, mas mesmo que a tivessem, perdiam-na ao usar maneiras soezes e expressões grosseiras. Quando não respeitam as pessoas. Quando não aceitam diferenças de opinião. Quando não sabem sequer trocar argumentos, mas querem impor os seus de uma forma violenta.

Eu posso não concordar com o Jorge na questão das alterações climáticas, mas estou, inspirado em Voltaire, disposto a lutar para que quem de mim discorde possa exprimir com correcção os seus pontos de vista. Pugno pela liberdade de pensamento e de expressão. Eu quero que o Jorge exprima livremente as suas posições, da maneira correcta que é seu timbre, neste blog ou em qualquer lugar, porque a ciência vive da discussão e da crítica. E a controvérsia é salutar: estou disposto a ouvir com atenção quem o contrarie de um modo educado, de um modo que esteja à altura do seu antagonista intelectual. A ciência assenta no reconhecimento dos erros e só podemos apurar o erro se ele nos for apontado... Devemos agradecer a quem nos chama a atenção para eventuais erros e procurar verificar se, de facto, não estamos errados. A cultura científica, para a qual o último livro do Jorge contribui e para a qual este blog quer contribuir, deve transmitir essa “natureza viva” da ciência.

Viva o último livro do Jorge! Espero bem que o fim do mundo não esteja próximo para haver mais livros dele...

6 comentários:

  1. Sei que a frase «I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it.» é habitualmente atribuída a Voltaire, mas creio que foi proferida por Evelyn Beatrice Hall.

    http://en.wikiquote.org/wiki/Evelyn_Beatrice_Hall

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  2. (...) a mim parece-me que existe actualmente um consenso na comunidade científica especializada nestas questões (...)

    Caro Prof. Fiolhais

    A comunidade a que alude é a mesma que, levianamente, para dizer o mínimo, patrocinou uma fraude, que dá pelo nome de “Hockey Stick”, praticada por três colaboradores do IPCC, destinada a provar que o século XX e sua década de 90 foram os períodos mais quentes do milénio. O trabalho era uma miséria pseudo científica e foi prontamente desmascarado.

    Mas ainda há quem queira acreditar nas tretas propaladas por essa comunidade. Infelizmente, não é só esta. Há muitas outras tretas em que as pessoas gostam de acreditar.

    Todavia, deixe-me dizer-lhe que não me parece prudente aceitar uma teoria apenas porque parece existir um consenso na comunidade científica. Eu penso que a Ciência não se faz por consensos, mas disso o caro Prof. sabe mais do que eu, um simples engenheiro devidamente inscrito na Ordem.

    No caso do chamado aquecimento global há até muitos cientistas que não alinham mesmo nada nesse putativo consenso.

    Os meus cumprimentos
    Jorge Pacheco de Oliveira

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  3. Permito-me ocupar aqui algum espaço porque, entre outros, leio com interesse Livros traduzidos e textos apresentados por alguns dos autores deste Blogue.
    Assim, além de lhes agradecer o que com eles tenho aprendido e o gosto que me têm proporcionado em alguns espaços da minha vida, vou acrescentar um desabafo:
    - Os Livros aqui recomendados são realmente interessantes. Só que nem sempre se conseguem.
    Por exemplo, o Livro de António Manuel Baptista - O Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência, procurei-o em algumas das mais populares Livrarias das minhas redondezas, logo que aqui foi recomendado, e todas me «mandaram dar meia-volta», isto é, ir aos alfarrabistas.
    Será que alguns (desses) Livros só «saem» para uns compinchas?

    Muito obrigado a todos, incluindo os comentadores.

    Tupamaro

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  4. :-)

    Com um elogio destes, o livro tem de ser um best-seller. Espero que o seja, antes do fim do mundo.

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  5. eu gostei dos ultimos dois, este também vou comprá-lo, espero que anunciem onde e quando irá haver seesão de autografos, Já tive o desplante de ir ao IST, e tentar cruzar-me com o autor. O dito teve a sorte de eu não o ter encontrado.

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  6. A sessão da FNAC não vai ser o lançamento nacional... acabei de chegar de uma 1ª sessão de lançamento na improvável localidade de Castelo de Vide, no interior alentejano. Foi um prazer partilhar uma tarde com algumas dezenas de jovens (e também menos jovens) sequiosos de conhecimento e a quem tão pouco é oferecido. Tudo rodeado de um calor humano difícil de descrever.

    Como prazer será o tempo que partilhar no dia 30, na FNAC, com um público sem dúvida _muito_ diferente.

    Não estava à espera, depois de fazer 500 km, deste "ataque de surpresa" do Carlos Fiolhais.

    Para lá dos exageros óbvios que nem me vou dar ao trabalho de desmontar, há pelos vistos uma coisa de que me posso orgulhar a sério: a de ter ajudado a despertar o bichinho da divulgação (que já lá estava) no nosso melhor divulgador científico: Carlos Fiolhais. Todo o Universo ficou a ganhar. 23 anos depois, até existe o DRN!

    Do outro lado do espelho, como a Alice, lembro-me de, ainda "puto", me terem dito "Queres uma palestra sobre Física? Parece que há um professor novinho, muito bom, acabadinho de doutorar e cheio de gás, um tal Carlos Fiolhais. Porque não o convidas?".

    Pelos vistos foi o melhor que podia ter feito!

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