THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

O passado e o presente da avaliação docente. E o futuro?

“Sempre que se propõe uma reforma, é verdade que: Primeiro: a reforma não vai alterar em nada o que já existe. Segundo: a reforma vai produzir efeitos exactamente contrários aos que pretende ter. Terceiro: a reforma vai prejudicar o que havia de positivo na reforma anterior” – Albert O. Hirschman.

Nem sempre a falta de nuvens no horizonte prenuncia a continuação de bom tempo. Isto para dizer que o aparente clima de entendimento entre o Ministério da Educação e os sindicatos docentes pode não querer significar uma luz ao fundo do túnel para os primeiros dias de Setembro perante a declarada intransigência sindical em pretender que todos os docentes possam chegar ao topo da carreira docente sob a alegação de que todos os professores fazem a mesma coisa. Isto é, traduzido por miúdos, que o professor que cumpre e tenha maior habilitação académica deva ter o mesmo tratamento daquele que não cumpre e tenha feito complemento de habilitações a martelo, fazendo crer, outrossim, que professor excepcional é a regra da carreira docente.

Mas façamos um flash-back para informar a opinião pública e avivar a memória dos professores que foram vítimas da derrogação de um sistema de avaliação que distinguia os professores em três escalões na chegada ao topo da carreira docente: escalão A para licenciados, escalão B para bacharéis e escalão C para diplomados com cursos médios. Depois de 25 de Abril, surgiu o sistema de avaliação que apenas diferenciava os docentes em dois escalões de chegada ao topo: 9º. escalão para bacharéis e 10.º escalão para licenciados, mas em que, estes, andando de cavalo para burro, regrediram para o 8.º escalão. Ou seja, na escuridão da noite e de baionetas caladas, foram os bacharéis e diplomados com cursos médios amplamente beneficiados com este novo estatuto docente e os licenciados severamente castigados. Acresce que os próprios equiparados a bacharéis logo deixaram de o ser numa espécie de pós de perlimpimpim pela abertura de escolas (ditas) superiores privadas que, em meia dúzia de meses, lhes venderam uma qualquer licenciatura. Desta abstrusa forma se igualaram desiguais, situação que o movimento sindical pretende ver repetida com a chegada dos docentes ao escalão máximo, chegada essa dependente apenas de classificações de excelência a granel. É este, portanto, o desafio que espera o actual Ministro da Educação perante um sindicalismo que tudo joga para que a reforma da avaliação docente tenha efeitos exactamente contrários aos que pretende ter para obstar à injustiça de uma igualdade escandalosamente desigual.

Adiar os problemas com reuniões que nada resolvem é uma situação que tem de ter os dias contados para que a própria opinião pública (como aliás já se tem expressado) e os pais dos alunos não tenham motivos para continuar a julgar que os problemas da educação se esgotam em questões meramente laborais. Ora, como é sabido, quem não quer ser lobo não lhe veste a pele!

Last but not least,
uma questão não tanto ao lado como possa parecer à primeira vista: quem avalia, ou como foram avaliados, os sindicalistas que se encontram no topo da carreira docente depois de terem posto na prateleira o exercício docente, alguns deles, de há várias décadas para cá? Pode ser que aqui se possa encontrar a argumentação para a defesa teimosa de uma avaliação docente identificada com a dos dirigentes sindicais de diversas conotações políticas ou clientelas associativas de formações académicas deveras díspares uma vez que, como diz o povo, ou "há moralidade ou comem todos". Aliás, só há um grande senão, como escreveu Henry Becque (1837-1899), em jeito premonitório: “O mal da igualdade é que nós só a queremos ter em relação aos nossos superiores”.

NUNO CRATO NA TERRA DE GARCIA DE ORTA



Está à porta o novo ano lectivo e o ministro da Educação foi a Castelo de Vide dizer para que serve a escola: aqui a reportagem da SIC.

Um decreto de 1919



Ilustração Portuguesa n.º 699, 14.07.1919

"Por que é que o pacato povo português tem de saber quem é o Camões e o que são Os Lusíadas?"

No De Rerum Natura tem-se dado largo destaque à ideia de que a escola deve proporcionar aos alunos, desde idades muito precoces, textos e livros clássicos, tanto da literatura nacional como universal. Ideia que tem, de resto, larga confirmação empírica no quadro teórico cognitivista, estando confirmadas vantagens decorrentes da sua prática, nomeadamente, na extensão do vocabulário e no aperfeiçoamento das estruturas frásicas, bem como nas linhas de raciocínio que proporciona. Além, claro, de ter justificação em termos de manutenção e ampliação cultural, de acesso a sentimentos, pensamentos e comportamentos diversificados, do debate e condução axiológica e, não menos importante, da fruição estética a que dá acessso.

Assim, é estranho constatar que aqueles que mais responsabilidades têm na difusão e desenvolvimento desta ideia – professores, pedagogos, investigadores, construtores de currículos e manuais, literatos de nome firmado... – a declinem de um modo que, as mais das vezes, me parece ligeiro e pessoal, pouco informado sob o ponto de vista do conhecimento sério disponível.

Dou um exemplo que me chegou recentemente às mãos. Trata-se de um licenciado e doutorado em Humanidades, docente ligado a um departamento de Letras duma universidade portuguesa com responsabilidade na formação de educadores e professores, orientador de dissertações académicas na área da educação, com responsabilidade na organização de encontros sobre literatura para a infância. E, não menos importante, escritor.

Um texto, já antigo, da sua autoria começava da seguinte maneira: "A literatura não é para toda a gente, e muito menos para crianças e adolescentes (falamos de literatura no seu pleno sentido, independentemente das suas manifestações especiais). A literatura exige maturidade, sensibilidade e competência cultural e linguística. É contraproducente impor o seu estudo no ensino básico e secundário nas escolas portuguesas."

E, mais adiante: "Como dizia Eugénio de Andrade, «a poesia é subversiva». E como tal não deveria ser ensinada às crianças e aos adolescentes. Nem eles a podem entender, nem ela foi escrita para ser dissecada, desvirtuada por professores que, na sua maioria, ou se ficam pela rama na análise, ou a destroem (...) Camões, Bocage, Pessoa não precisam de ser tratados nas nossas escolas para não caírem no esquecimento. Estão acima de tudo isso. Causa mais estragos à sua memória e estéticas o ensino, pois afunda-os na vulgaridade e no «já passou de moda»."

Quase a terminar: "À aprendizagem da literatura no ensino básico e secundário, preferimos o ensino da mesma nos cursos de letras das universidades. Como dizíamos no início, a literatura não é para todos; é apenas para alguns. Se já é difícil para os especialistas, tanto escritores como críticos e teóricos compreenderem a totalidade de um texto literário criado por si próprios ou por outrem, quanto mais para crianças e adolescentes que mal sabem ler o português!"

Curiosa, tentei perceber se a tese da pessoa em causa se mantinha. E contatei que sim numa entrevista, não datada mas que se me afigura posterior ao texto em causa. Dela retirei o seguinte extracto:

- "Quais são as suas referências literárias? São tantas... Eça, Camilo, Vergílio Ferreira e Saramago. Zola, Flaubert, Shakespeare... A Bíblia, Homero e Virgílio...

- De que lado se situa na polémica sobre «Os Lusíadas»? Eu sou muito realista. Acabava com Os Lusíadas e com o Pessoa e outras obras no secundário. No secundário não há maturidade para a cultura erudita. É como dar pérolas a porcos. Na universidade é que devem aparecer.
E aqueles que não forem para a universidade? Há uma grande parte da população que não vai
contactar com obras como essa ou outras que se consideram de qualidade, importantes.
Por que é que o pacato povo português tem de saber quem é o Camões e o que são Os Lusíadas? Já dizia o Fernando Pessoa: «a cultura não é para todos», a cultura erudita. Não podemos obrigar toda a gente a gostar de música clássica
.

- E o que é que se lhes vai dar então? É que as obras de qualidade são difíceis. Os miúdos vêem-se à nora para ler aquilo. Aquilo não os entusiasma. Muitas vezes estraga-se o incentivo à leitura. Os miúdos devem começar a ler coisas simples. O gozo pela leitura vai crescendo. A partir de determinada altura vamos tendo necessidade de ler coisas mais importantes. Darmos aos miúdos de 14, 15 anos uma obra como Os Lusíadas é desmotivá-los.
Camões e essas obras complicadas são cultura erudita, não são cultura popular. É por isso que a literatura popular tem muito êxito, a música pimba tem êxito, o escritor pimba tem êxito, as novelas pimba têm êxito... O povo gosta de coisas simples, que entenda. Depois, se ele entender essas coisas simples, pode partir para coisas mais complicadas. Isto é a minha visão das coisas. E na escola devia ser assim.

- Mas há uma parte (pequena, é certo) do público estudantil que já tem, naturalmente, o gosto pela leitura aos quinze anos. Esses são excepções.

- Mas assim ainda vão ser mais excepções... Se não forem confrontados com essas obras e não tiverem pais com boas referências, acabamos por perder essa pequena percentagem de excepções. E por outro lado, não se cairá numa estupidificação do ensino secundário, que fará com que os alunos cheguem à universidade sem conhecimentos mínimos? Mas é que neste momento isso está a acontecer. Mesmo com os programas que há. Eles chegam à universidade e não vêem nada. À excepção de um caso ou outro.

- Então é uma desistência? Eu acho que a questão é muito complicada. As escolas públicas são más. Os bons alunos nos EUA, na Inglaterra, na França, na Espanha não vão para as escolas normais. Aqueles alunos que sobressaem da média vão, desde cedo, para escolas especiais e são acompanhados duma forma diferente. A "cambada", digamos assim, vai para a escola normal. Esses são a força de trabalho. A "elite" (e a "elite" não significa os filhos dos ricos; a selecção, por exemplo nos EUA, é pelo mérito próprio) vai para escolas especiais. Aqui em Portugal misturam tudo. Neste momento até os deficientes andam nas escolas normais. É uma tentativa de integrar o deficiente. Mas isso é negativo porque o deficiente não consegue aprender da mesma forma que aprende o outro. Em Portugal é muito difícil um bom aluno alcançar aquilo que deseja. Porque tem de estar à espera dos outros, perde muito tempo. E se estivesse numa escola especial...

- É por isso que o nosso país não tem a mesma massa cinzenta que outros têm em termos científicos, por exemplo? Em Portugal começamos tudo muito tarde, muito lento... Porque a sociedade é lenta. Quando vou ao estrangeiro e depois volto, chego aqui e vejo tudo muito lento, muito pacato. A tentativa de democratizar o ensino pode ser perniciosa, negativa.

- Voltemos a «Os Lusíadas». Ajudará substituir «Os Lusíadas» pelo «Memorial do Convento»? O Memorial do Convento não é também uma obra difícil? E se, para acabar com as obras difíceis, as substituem por obras más? Pois... Mas uma coisa é literatura da escola e outra coisa é a literatura que a gente lê. O miúdo tem que descobri-la, não é o professor. Tem de haver já uma certa sensibilidade na pessoa. Agora esta conversa dava pano para mangas..."

Fica ao critério do leitor retirar as suas próprias ilações do que acima leu.

terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Furacão!




AINDA O EDUQUÊS

A um artigo recente de António Mouzinho aqui publicado, um leitor de nome Manuel (sem mais!), deixou na caixa de comentários este que aqui destacamos. Publicamos também em baixo, embora com algum atraso, devido ao tempo de férias, a resposta de António Mouzinho.

Caro António Mouzinho:

De facto, o chamado «eduquês» tem sido muito pernicioso. Concordo absolutamente consigo. Mas pior ainda tem sido a «vulgata» do chamado «eduquês», tal como perniciosa se arrisca a ser a «vulgata» do «anti-eduquês», promovida por tanta gente do calibre dos vulgares «eduquêses», e que tende a generalizar-se como cartilha adoptada. Outra coisa é a compreensão da sociedade em que vivemos (em todas as suas componentes), a compreensão da realidade do Ensino e das Escolas e a análise funda e fundada dos problemas de que padecem; só assim se poderá fazer a sua inventariação objectiva e pormenorizada com vista à descoberta dos eventuais remédios. Temo que nos limitemos a transitar de «vulgata» em «vulgata».

Apesar de provavelmente já conhecer tudo o que lhe deixo abaixo, mesmo assim arrisco, esperando que, pelo menos, sorria e reflicta. Entre as dicotomias que nos limitam o pensamento, a compreensão e a acção, eu prefiro a aparentemente absurda 3.ª margem do rio (qual feliz formulação de Guimarães Rosa), por achá-la uma forma muito mais promissora de compreender, analisar e agir sobre a realidade. Desculpe-me o aparente paternalismo que a explicação possa conter, não é essa a minha intenção para consigo, mesmo assim clarifico porque também ajuda a clarificar o meu entendimento. A 1.ª margem representará, p. ex., o chamado «eduquês», a 2.ª margem o chamado «anti-eduquês», a 3.ª margem a vida na sua globalidade, diversidade, riqueza e potencialidades.

Mas podemos adoptar esta «fórmula» e colocar lá dentro o que quisermos, é bastante operatória para toda a realidade.

Aqui fica então o que lhe referi antes:

-PRÓXIMO ORIENTE
«O nosso mundo atingiu um estado crítico. Os filhos não escutam os seus pais. O fim do mundo não pode estar longe». (Sacerdote egípcio, 2000 a.C.)

«Esta juventude está podre desde o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Não serão nunca a juventude de outrora. Os de hoje não são capazes de manter a nossa cultura.» (Frase descoberta nas ruínas de uma olaria babilónica datada de 1000 a.C.)

GRÉCIA:
«A juventude ama o luxo, é mal-educada, zomba da autoridade e não tem nenhuma espécie de respeito pelos velhos. As crianças de hoje são tiranas. Não se levantam quando um velho entra numa sala, respondem a seus pais e são simplesmente más». (Sócrates, 470-399 a.C.)

«Não tenho nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje toma o mando amanhã, porque esta juventude é insuportável, sem moderação, simplesmente terrível». (Hesíodo, 720 a.C.)

ROMA:
Onde é que isto vai parar? «Outrora, um desonesto era algo incrível. E agora, um tipo verdadeiramente íntegro é visto como um prodígio. Quanto aos jovens, é melhor nem falar. Onde já vai o tempo em que era visto como um sacrilégio um jovem não se levantar perante um idoso? Em resumo, devoção, correcção, rectidão, palavra de honra, respeito, valor, civismo, património cultural, etc. Tudo isso desapareceu. (...) Já não há em Roma mais lugar para um bravo Romano.» (Juvenal, séc. II d.C.)

PORTUGAL:
«A maioria dos estudantes […] desfalece perante o mais rudimentar trabalho analítico; raciocina errado, se raciocina; não sabe classificar; deduz mal, induz pior» (Decreto de 1894).
«Em Portugal, o aluno sai da escola primária um verdadeiro ignorante» (Albano Ramalho, inspector primário, 1909).
«Verifica-se nas respostas de muitos examinandos uma ignorância absoluta de certas matérias e lêem-se em muitas delas os disparates mais fantásticos» (Alves de Moura, 1939).
«O nível mental da maioria dos alunos do ensino liceal é muito baixo» (Fernando Pinho de Almeida, 1955).

Manuel

Manuel (...?):

Tenho 61 anos e estou de férias.

Apesar disto, duas palavrinhas: não desculpo o paternalismo, claro que não – não conheço a citação do Guimarães Rosa, não conheço o contexto, não tenho de conhecer, e as metáforas são tramadas: por exemplo, se imaginarmos a secção de um rio como se de uma caleira de alumínio se tratasse, temos a margem direita à nossa direita, quando virados para o tubo de queda; a margem esquerda oposta; a terceira margem no fundo, onde se juntam a vasa e o verdete. É intragável. As metáforas podem ser escorregadias, arriscamos o traumatismo craniano a derrapar nas metáforas: os limos não perdoam. Quando chegamos à «vida na sua globalidade, diversidade, riqueza e potencialidades», atordoados com o trambolhão, já não pensamos coisa com coisa.

No entanto, não brindei ninguém com um amontoado de citações descontextualizadas. Não penso autofagicamente, e dei-me ao trabalho de propor duas traduções que falam da «vida na sua globalidade, diversidade, riqueza e potencialidades»: uma que refere b-a-ba, tabuada, operações aritméticas, etc.; a outra que avança com um sucinto, mas não menos real, projecto educativo, que poderia vantajosamente (quer dizer, para benefício de alunos concretos, pais concretos, uma educação concreta) substituir muita ganga que já vi, que há pelas escolas tout court e é empurrada para a frente pelas escolas de formação de formadores e um ministério intelectualmente agonizante.

Juntei um conjunto de obras que acho que merecem ser lidas inteiras, e sobre as quais o senhor não diz palavra. Falam da «vida na sua globalidade, diversidade, riqueza e potencialidades». Não são dicotómicas.

Sugeri trabalho «de exteriores», de leitura e reflexão, não me pus a pensar por fórmulas fazendo puzzles com o que já todos sabemos.

Não utilizei o termo «anti-eduquês», porque nem entendo o que é.

Poderia juntar mais umas frases do teor das suas; junto, em vez disso, mais um título, para esclarecer o que acho do pensamento lateral e das «terceiras» vias:

BONO, Edward de — Po: Beyond Yes And No. Harmondsworth: Penguin Books, 1973.

É um clássico do género.

E, por favor, não entenda isto tudo como um início de polémica: é o fim da resposta.

Como já dizia lá atrás: tenho 61 anos e estou de férias.

Respeitosamente,

António Mouzinho

Xarope para almas sensíveis que não entendem o que se passou em Londres, Manchester, etc.


Texto de LE BRIS, Marc — Et vos enfants ne sauront pas lire... ni compter; la faillite obstinée de l'école française. Paris: Stock, 2009. pp.184-8, traduzido
por António Mouzinho (para ler com aspirina e um copo de água à mão e um exemplar dos «Dois anos de férias», de Júlio Verne, por perto)

«[...] Um romance conta como crianças puseram a funcionar uma povoação inteira após o desaparecimento dos adultos. É um romance para crianças: «As crianças de Timpelbach», de Henry Winterfeld [na versão franco-belga; «Timpetill — a cidade sem pais», no original alemão]. Esta ficção agrada bastante aos miúdos de dez-doze anos. A escola possui vinte cinco volumes, para permitir a utilização na leitura de seguida — em voz alta! [...]

[...], para apimentar a história, paramos de vez em quando a leitura para discutir o que fariam, o que gostariam de fazer, se... «Imaginem que os vossos pais a sério tinham desaparecido uma manhã da nossa terra, daqui, sem mais nem menos... Nenhum adulto à vista, nem mesmo a mamã ou o papá para preparar o pequeno almoço, nem carros, nem padeiro, nem professor, ninguém...»

Propus esta discussão três vezes, a turmas diferentes. A primeira vez por acaso, as seguintes para verificar. Das três vezes, passou-se exactamente a mesma coisa.
Eles apoderam-se da ideia. Sozinhos na terra... não se lembram logo do padeiro. A sua vez só chega quando começam a reflectir, a afinar a sua eficácia. A primeira acção geral é quebrar as loiças da casa — não invento nada, fui o primeiro a surpreender-me. Porquê? Porque fazem o que quiserem, podem fazer asneiras. Partem jarras. Penso que é o primeiro disparate que lhes vem à cabeça, que quebrar recipientes deve ser um dos fantasmas habituais... Não sei, não entendo porquê partir loiça. Depois, a seguir às jarras, organizam-se: os vidros e, logo a seguir, as montras. Incluindo, rapidamente, a montra do padeiro, cujo conteúdo interessa. São sobretudo os rapazes que propõem. E a excitação colectiva sobe. Querem todos falar, esticam os corpinhos, poisam um joelho na cadeira, para se fazerem maiores, levantam a mão, esticando o braço para o tecto para falar antes dos outros, ou falando sem levantar a mão… Depois das montras, as vidraças da Câmara, os vitrais da igreja, os vidros da escola, a seguir o carro do presidente da Câmara, que é bem bonito, o meu, os computadores da escola! Todos os símbolos são atacados — da autoridade, a princípio; de seguida, sem parar, de riqueza, porque, no nosso mundo moderno, essas coisas confundem-se. Os computadores da escola, de que gostam tanto, escavacam-nos.

As meninas — não faço sexismo, não tento vergar-me a uma problemática pré-definida, politicamente correcta —, essas, são mais calmas, contentam-se com rir das incongruências dos rapazes, chamam a atenção para o facto de ter sido o gordo guloso que se lembrou da montra do padeiro… Rapidamente, logo que conseguem falar, propõem procurar os pais desaparecidos, preocupam-se com o que vão comer ao almoço, acham estúpido partir os computadores porque mais vale guardá-los para fazer jogos. E pensar que são os rapazes que gostam tanto disso.

De todas as vezes há mesmo um ou outro que resolve os seus problemas de segundo filho, que se propõe matar o mano mais novo ou mais velho, atando-o ao poste de tortura, atirando-o pela janela, ou com a espingarda do papá… Chamo-os à realidade, ao realismo, mas eles mantêm a história. Fico de rastos.

Esse assassinato é fictício. A história de partida é um romance, eles sabem que é uma ficção. Aí, podem matar o mano. É ficção, mas as pulsões estão lá, são brutais, são violentas, imponderadas, poderosas, terríveis. É impressionante, muito animal. Tento tranquilizar-me: eles exprimem-se num quadro imaginário, como em sonhos. Freud explicaria facilmente a questão.

Mas depois lembro-me do Maio de 68, quando o meu liceu [os três anos finais: o complementar, na educação francesa] se pôs a eleger uma comissão de greve e que educadamente, colectivamente mas a frio, conscientes dessa força novinha em folha da massa que se organiza e da importância do precedente, recusámos obedecer ao vice-reitor [«censeur», no original] que nos intimava a voltar às aulas. O irmão mais novo de um externo foi dizer aos amigos do 3.º ciclo do básico [«collège», no original] que o liceu estava em revolução. A época era de agitação. Os colegas deduziram… não, eles não deduziram nada. Partiram tudo. Começaram pelos interruptores, depois os vidros e as portas, não obedecendo a ninguém, entregues às suas pulsões infantis que são tudo menos franzinas, correndo em grupos ululantes duma turma para outra, mudando de direcção como os estorninhos no Outono, seguindo o último comando sedutor gritado por este ou aquele... A directora do ciclo só conseguiu salvar o estabelecimento ao ir buscar representantes da dita comissão de greve do complementar que alcançaram, como única autoridade reconhecida, a reposição da ordem. A comissão de greve não pedia que se partissem interruptores.
Aqui está o que crianças de onze anos querem fazer, se foram autónomas… Isto não corresponde, de forma alguma, às teorias que eu tinha. É o que querem fazer, virtualmente, ficticiamente, escondidos sob o véu do imaginário. Mas talvez, se fossem entregues a si próprios, numa verdadeira autonomia infantil, na minha escola, durante uma hora em Maio de 68, ou nos nossos dias, perante um automóvel qualquer a arder — talvez passassem aos actos.

Estou persuadido de que crianças modernas de dez anos, entregues vinte e quatro horas a si mesmas, sem adultos, em grupo, estão em perigo: à noite haverá um ferido, no dia seguinte um morto. É isto a autonomia da criança. A autonomia da criança é uma mentira. Esta mentira é um crime.»

Marc Le Bris

QUERIDA JÚLIA ACABA COM O MUNDO


Júlia Pinheiro, no seu programa da SIC "Querida Júlia", tratou do fim do mundo no final de 2012 com entrevistas de ruas e um painel de comentadores: ver aqui o filme e o comentário do astrobiólogo Carlos Oliveira publicado no seu blog astro.pt.

HUMOR - EVOLUÇÃO 3



HUMOR - EVOLUÇÃO 2



HUMOR - EVOLUÇÃO 1



segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

NOVOS LIVROS DA GRADIVA


Informação recebida da editora Gradiva sobre novos livros:

Glenn Murphy
Porque é Que o Ranho é Verde? e outras perguntas (e respostas) extremamente importantes

«Porque é que o ranho é verde? As aranhas têm ouvidos? Os coelhos soltam traques? De que tamanho é o universo? Glenn Murphy, do Museu da Ciência de Londres, mostra-te de maneira original o mundo (e o universo) em que vives, sem partes chatas e com montes de factos divertidos. Experimenta explicar alguns deles aos teus amigos!

Editado com a colaboração do Exploratório Infante D. Henrique Centro Ciência Viva de Coimbra.

Gradiva Júnior . 234 pp. 10 €

E uma reedição há muito esperada:

O Ponto Azul-Claro. Uma Visão do Futuro do Homem no Espaço

Carl Sagan

O livro em que um autor único, realmente insubstituível — Carl Sagan —, relata como a ciência revolucionou o nosso entendimento sobre onde estamos e quem somos e nos desafia a avaliar o que faremos com esse conhecimento adquirido. Subjacente à nossa ideia, por vezes relutante, do verdadeiro lugar que ocupamos no cosmos existe uma visão de um futuro fascinante, com um impacto surpreendentemente espiritual. Esta é mais uma obra fascinante, de um divulgador de ciência ímpar, que obriga à reflexão e, simultaneamente, à humildade e à grandeza.

Obras de Carl Sagan, 392 pp., € 24,00

HOMEOPATHY: THE DILUTION LIMIT AND THE CULTURE OF CREDULITY


Da última coluna WHAT'S NEW do físico Robert L Park Friday, 19 Aug 11 Washington, DC:

"Based in France, Boiron, a huge multinational maker of homeopathic-remedies, is suing an Italian blogger, Samuele Riva, for saying oscillococcinum, the company’s featured flu medication, has no active ingredient. Congratulations Sam, I gave up trying to get Boiron to sue me, years ago but the Center for Inquiry, of which I'm a member, is pleading «with Boiron to sue us. "Anas barbariae hepatis et cordis extractum," is listed as the active ingredient by the company. It’s prepared at a concentration of 200CK HPUS from the liver of the Barbary duck. The 200CK means the solution has been diluted 1 part in 100, shaken, and repeated sequentially 200 times. HPUS means the medication is listed in the Homeopathic Pharmacopeia of the United States, and prepared according to 1938 federal guidelines. It’s a national disgrace that the antiquated law sanctioning homeopathy, introduced by Sen. Royal Copeland, himself a homeopathist, is still be on the books. The dilution claim is totally meaningless. Somewhere around the 30th of the 200 sequential dilutions, the dilution limit of Earth would be reached, with the entire Earth becoming the solute. That is, the possibility of even one molecule of the duck-liver extract remaining in the solution beyond that point would be negligible. Long before the 200th dilution, the dilution limit of the entire visible universe would have been reached. This is all quite meaningless. Astronomers put the number of atoms in the visible universe at about 10 to the 80th power. It would take many universes to get to a dilution of 200 C."

Robert Park

HOMEM SEM FIM – Metáfora do pescador


Nova crónica da escritora Cristina Carvalho:

Como um pescador sentado na praia ao lado da sua cana amarela espetada na areia. Como esse pescador experimenta uma imensa alegria ao observar de soslaio, meio adormecido, que a cana vibra, que a cana treme, que a cana oscila. Como essa visão se torna realidade. Como o grande peixe lhe escapou, o enganou, o iludiu por momentos e de como o pescador, num salto, olhos arregalados e mãos areadas pega na cana, levanta-a, sente-lhe o peso e a inclinação, rejubila, arfa, transpira, empurra-a, iça-a, ergue-a, ajuda-a, levanta-a, está quase, quase na vertical, a linha transparente muito esticada quase, quase, quase parte e guincha, a cana guincha, a cana dobra, a cana verga, parece mesmo, parece mas não parece, o mar é fundo, o mar é doido, é mentiroso, é ladrão. E ele, o pescador, de pé, pés bem vincados em traço profundo na areia, a crer no que não quer, a querer no que não crê, ora, ora, hora a hora, apenas vê ilusão, vê peixe que não existe, o peixe espreita-o e não pica, não vem, não se revela. Ainda não.

Volta a espetar a cana na areia, aponta-a, ajeita-lhe o melhor dos melhores iscos, atira-a, arremessa-a, a linha escorrega num delírio de água, a água a benzer, a água a encher, a marulhar as mais doces palavras da vida.

Agora o dia quase que finda, o dia quase que morre. O homem sem fim. Deitado na areia, junto da fímbria do mar e o traço profundo num horizonte traçado separa águas e céus. Separa vidas e mortes. Separa esperanças inúteis das vis certezas.

É vontade, é abandono, é um querer, revoltear, volta e meia acreditar. Mas nada, nada se passa.

É vontade num só grito, adoecer de infinito e abocanhar a tristeza, arredondar a beleza, são milagres por cumprir, promessas para julgar.

Estica a linha e puxa a linha. O homem sem fim. Sentado ao lado da sua cana de pesca, imagina o que mais ninguém no mundo poderá imaginar: a sua sorte. Tanta sorte, tenta a sorte! Ralha a pesca, ralha o peixe, finge que vem e não vem. No final deste dia tão comprido, o homem sem fim sentado na praia espera pelo grande peixe. Não interessa quem lá vem. Não interessa quem lá vai. Aconchegando as ideias já a noite vai cerrada, já nada mais acontece. O manto do mar é negro, o profundo azul esmorece. A linha de transparências que termina em aflição desliza agora inexoravelmente para fora da boca do mar. Arrastada lentamente, trazida por mão tremente, desenhando ligeiros contornos ali, ali mesmo na superfície tingida que é água de calmaria. O homem finda e já sem sombra e já sem nada, enrola com precisão mais um dia desta vida, tristeza de coração.

E assim tudo se passa. Termina sem começar.

Vale para a pesca e vale pra tudo. O desejo é aflição, o desejo mata e mói e os recados que se perdem deixam um sulco que fere, que grita e rompe tal como a linha da cana que vai solta e vem vazia.

O que é, é. O que não é, nunca poderá ser.

CRISTINA CARVALHO

JARDIM BOTÂNICO DO RIO




Outro sítio imperdível do Rio de janeiro é o luxuriante Jardim Botânico, que remonta a 1808, quando o Príncipe Regente, D. João VI, aqui aportou.

REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA




Recém-chegado do Rio de Janeiro não posso deixar de partilhar algumas fotografias de uma das bibliotecas mais bonitas do mundo (depois da Joanina, claro): o Real Gabinete Português de Leitura.

sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

CIÊNCIA NA IMPRENSA LOCAL E REGIONAL



Lembro-me bem da ligação afectiva que o meu pai, enquanto emigrante, mantinha com o jornal regional “A Voz de Loulé”, que assinava e que o informava das notícias da sua terra natal, a milhares de quilómetros de distância.

Assim como o meu pai, o mesmo aconteceu e acontece com milhões de portugueses aquém e além terras lusitanas. Para além de muitos outros aspectos, esta ligação afectiva a inúmeros jornais locais e regionais amenizou a saudade, fortaleceu a esperança do regresso, mantém elos nativos, é por ventura para muitos o primeiro contacto com as notícias escritas.

Disse inúmeros. Mas sabemos quantos são. Segundo um relatório sobre a “Imprensa Local e Regional em Portugal” (obter aqui), efectuado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), e no ano de 2009, estavam recenseadas “728 publicações periódicas de âmbito local e regional nos 18 distritos de Portugal Continental e nas duas Regiões Autónomas”. Desses, apenas 18 títulos têm periodicidade diária (2,5 %). A periodicidade predominante é a mensal (37,5%), seguida da semanal (29,4 %) e por último os quinzenário/bimensais (23,9%).

Ressalve-se que o número de publicações periódicas registadas na ERC, em 2009 , era muito superior àquele utilizado para o estudo mencionado. De facto, e ainda segundo o mesmo relatório, o número registado era igual a 2942, apresentando diversos perfis e características que saiam fora do âmbito do estudo. Refira-se, a propósito, que este documento é uma ferramenta útil para compreender a realidade da imprensa local e regional portuguesa no século XXI.

Por outro lado, o documento mencionado baseou-se também no estudo Bareme Imprensa Regional, efectuado pela Marktest. Segundo este, 49,7 por cento dos portugueses tem por hábito ler jornais regionais, sendo os de periodicidade semanal os mais lidos, com 28,3 por cento do total. O número foi, para mim, surpreendente. Mais de cinco milhões de portugueses lêem, folheiam jornais locais e regionais.

(Curiosamente, o distrito de Castelo Branco, cuja cidade vai receber o 29º Encontro da Associação Juvenil de Ciência (ver notícia relacionada aqui) é o que apresentava um maior número de leitores de jornais regionais: 71,3 % da população!)

A notícia da actualidade local e regional é do maior interesse dos cidadãos que assim melhor se vêm identificados com ela, sendo este, entre outros aspectos, um elemento propiciador para uma melhor democracia pluralista, para uma maior consciência de cidadania participativa.

Aqueles números indicam-me também que a imprensa local e regional é de extrema importância para os hábitos de leitura dos portugueses, muitos deles com um grau de literacia muito baixa, num país que conquistou na última década um número significativo de doutorados. Será que estes últimos também lêem jornais locais e regionais?

E surge então a pergunta que me move: no universo de periódicos estudados, qual a percentagem de conteúdos sobre ciência e tecnologia em relação ao total de notícias publicadas? Qual a proximidade que 49,7 % dos portugueses tem com notícias, conteúdos sobre, ou relacionados, com ciência e tecnologia?

A resposta: o espaço dedicado a temáticas relacionadas com ciência e tecnologia foi inferior a 0,7% em 2009, no universo composto por toda a temática publicada no universo da imprensa local e regional estudada, incluindo todas as temáticas de manchete, chamadas na primeira página, textos e/ou crónicas de informação e/ou opinião. Este valor sobe para 0,9% quando a temática saúde é incorporada na análise.

(De momento, não tenho dados sobre a imprensa dita nacional)

Ou seja, a imprensa local e regional é muito insatisfatória no que respeita a aproximar os seus leitores com a ciência e tecnologia.

O que é que isto significa? Que os leitores não têm interesse, curiosidade, pela ciência?

Estudos recentes mostram que não há desinteresse dos “públicos portugueses” por assuntos relacionados com o conhecimento científico e tecnológico (e.g., A.F. Costa, P. Ávila e S. Mateus, Públicos da Ciência em Portugal, ed. Gradiva, 2002).

Numa primeira formulação, pode dizer-se que a insignificante publicação pode encontrar explicação, mesmo que parcial, na dificuldade da imprensa regional em ter acesso a conteúdos sobre ciência e tecnologia dedicados e ajustados às suas especificidades. Se esta for uma pergunta, temos de verificar o que aconteceria se o acesso a conteúdos, atractivos mas cientificamente rigorosos, de boa escrita, em bom português, fosse, de alguma forma, facilitado.

Em parte, a experiência editorial dedicada à ciência, de que a Gradiva é, e foi, pioneira, responde positivamente: se houver conteúdos de qualidade disponíveis em português, há público para eles, os projectos são viáveis, atraem publicidade e outras formas de financiamento para a inserção desses mesmos conteúdos.

O que acontecerá na imprensa local e regional?

António Piedade

Lançado no Brasil livro sobre o Padre Inventor


Notícia saída no jornal Público na passada segunda-feira:

"Coimbra, 22 ago (Lusa) - O primeiro livro da coleção “Brasiliana da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra”, destinada a divulgar documentos desta biblioteca que interessam à História do Brasil, é lançado terça-feira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Intitulado “Bartolomeu Lourenço de Gusmão - o padre inventor”, o volume “compila toda a documentação manuscrita existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) de e sobre” o sacerdote e cientista, “numa edição bastante cuidada enriquecida com os preciosos fac-símiles das várias dezenas de documentos incluídos” - lê-se numa nota.

A obra contém textos do professor português Carlos Fiolhais e dos académicos brasileiros Francisco Caruso, Adílio Jorge Marques, Lorelai Brilhante Kury e Célia Cristina da Silva Tavares, refere ainda a nota, ao adiantar que se prevê que a obra possa ser também distribuída em Portugal pela Imprensa da Universidade de Coimbra (UC).

“O padre Bartolome Lourenço de Gusmão é uma personagem fascinante da História de Portugal e é venerado no Brasil”, disse hoje à Agência Lusa o diretor da BGUC, José Cardoso Bernardes.

Um dos manuscritos reproduzidos é o “Manifesto Sumário para os Que Ignoram Poder-se Navegar pelo Elemento do Ar”, escrito pelo “padre voador” em 1709, e no qual pretendia “mostrar a possibilidade da aeronáutica”.

Esta edição integra-se nas comemorações dos 60 anos da UERJ, “mas a série prosseguirá com a edição de mais documentos inéditos conservados nos ricos fundos” da Biblioteca Joanina e da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

A coleção resulta de uma parceria entre a UERJ e a BGUC e será produzida pela editora Andrea Jakobsson Estúdio.

“Há um grande acervo na Biblioteca Joanina de estudantes brasileiros da Universidade de Coimbra, que se destacaram mais tarde”, referiu o diretor da BGUC.

Segundo José Cardoso Bernardes, no século XVIII os estudantes brasileiros chegaram a ser 10 por cento do total de alunos da Universidade de Coimbra.

O catedrático da Faculdade de Letras adiantou à Lusa que os dois próximos volumes da “Brasiliana” serão sobre uma confraria brasileira sediada em Coimbra e acerca do papel de brasileiros na reforma pombalina da UC.

De acordo com José Cardoso Bernardes, o projeto foi lançado pelo anterior diretor da BGUC, o físico Carlos Fiolhais, e surgiu no âmbito do denominado Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras. "

SUPERCOMPUTADORES ORIENTAIS


Minha crónica no "Sol" de hoje:

O mundo está a mudar, com o eixo do crescimento económico a deslocar-se do Ocidente para o Oriente. Como hoje a economia resulta em grande medida do conhecimento científico, não admira que o eixo desse conhecimento esteja também a mudar para o Oriente. Prevê-se que por volta de 2016 a economia da China ultrapasse a dos Estados Unidos e prevê-se ainda que, antes desse ano, o número de artigos científicos chineses ultrapasse o dos americanos.

Quem tem mais e melhores instrumentos pode fazer mais e melhor ciência. E o computador é hoje um instrumento essencial em todas as áreas da investigação científica e tecnológica. Um bom indicador do crescimento da China na ciência é, por isso, o número de computadores chineses na lista top 500 dos supercomputadores em todo o mundo: são já 61. E, nos cinco lugares da frente, têm duas máquinas, que partilham o pódio com duas máquinas japonesas e uma só americana. Até Junho passado a China dispunha mesmo do maior supercomputador mundial, o Tianhe-1, situado em Tianjin. Essa máquina foi então ultrapassada por outra japonesa, chamada simplesmente K, em Kobe, que tem um poder de cálculo equivalente a um milhão de computadores pessoais e consome a energia equivalente a dez mil lares.

Como se fazem e para que servem os supercomputadores? Os supercomputadores constroem-se, actualmente, juntando milhares de processadores que trabalham em paralelo. Os computadores, em geral, e os supercomputadores, em particular, efectuam simulações, isto é, obtêm modelos do mundo, cujo conhecimento nos permite antecipar o futuro, por exemplo conhecer o tempo que vai fazer amanhã, ou o clima nas próximas décadas. De facto, o boletim meteorológico que vemos na televisão ou nos jornais resulta de supercálculos. Por sua vez, para saber ao certo como será o clima daqui a meio século, supondo diversos cenários económicos, é necessário ter mais poder de cálculo do que existe hoje. Por ocasião do Tratado de Quioto, em 1997, começou a ser desenvolvido um supercomputador japonês que esteve no topo do top 500 e que se destinava a prever o clima da Terra. Hoje o K bate-o, mas não chega. Quem tiver mais poder de cálculo conseguirá saber melhor como vai ser o dia de amanhã e, portanto, estar mais prevenido. O filósofo inglês Francis Bacon disse que “saber é poder”. Ora esse processo acontece cada vez mais em duas fases: saber é prever e, evidentemente, prever é poder.

Portugal não aparece na lista do top 500, mas tem crescido nessa área. Está em curso a substituição do supercomputador Milipeia da Universidade de Coimbra por outro bem mais poderoso. A nova máquina, tal como a anterior, vai estar aberta à comunidade científica que precisa de cálculo intensivo. Em Portugal também se vai poder mais…

quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

CIENTISTAS DE PÉ: SALVAR O MUNDO OU RIR A TENTAR


Os Cientistas de Pé, um projecto de stand-up comedy com cientistas, têm em preparação um novo espectáculo intitulado "SALVAR O MUNDO OU RIR A TENTAR", que irá estrear em Setembro. Em 2010 os Cientistas de Pé venceram o Prémio Ideias Verdes, atribuído pela Fundação Luso e pelo Jornal Expresso, cuja concretização é a criação deste novo espectáculo sobre ambiente.

Sinopse
Sete cientistas das mais diversas áreas falam sobre o assunto de que menos percebem: ambiente. Um biólogo marinho queixa-se da quantidade de protector solar que gasta durante os picos de trabalho, a marquise como solução para o meio planeta que nos falta, a eficácia do speed dating com arroz hermafrodita, como a capacidade de planeamento pode prejudicar o desenrascanço e um tocante peditório para financiar o programa de reprodução de ideias ameaçadas em cativeiro. E fica a pergunta: será que estamos a deixar lixo suficiente para que os arqueólogos do futuro saibam como nós vivemos ou seremos sempre um mistério?

Ficha técnica
Direcção de texto: David Marçal | Direcção de actores: Romeu Costa | Interpretação: Bruno Pinto, João Cruz, Joaquim Paulo Nogueira, Leonor Medeiros, Sónia Negrão, Ricardo Sequeira e Sofia Guedes Vaz

Enquanto não está pronto o novo espectáculo, podem ser vistas duas actuações completas dos Cientistas de Pé Bruno Pinto (biólogo) e Daniel Silva (informático) no site da Visão: aqui.

A Avaliação Docente para as Calendas Gregas?


Novamente se discute o problema da avaliação docente que tem o problema de sempre: não agradar a gregos e a troianos. Correndo, assim, o perigo de se transformar numa discussão sem fim à vista por sofrer do pecado capital de se dirigir a uma actividade profissional que nunca se constituiu num corpus profissional, a exemplo de outras actividades profissionais tidas de interesse público pela exigência de formação, atribuição de título profissional e, principalmente, responsabilidade perante a sociedade dos actos técnicos e éticos (repito, éticos) dos seus agentes.

Ou seja, uma actividade profissional representada perante os poderes públicos a uma só voz em questões que não se esgotam (ou deviam esgotar) em fronteiras meramente sindicais, como sejam, questões meramente laborais: horários de trabalho e grelhas salariais, por exemplo.

Um dos cavalos de batalha dos sindicatos para que o acesso ao topo da careira docente seja um canal aberto de acesso a todos os professores, por desempenharem as mesmas funções e por isso deverem ter tratamento igual (e que tanto aceitação teve da classe docente no antigo regime de avaliação docente), sofreu o revés de se desdizer a si própria quando a ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues estabeleceu quotas de acesso aos escalões superiores e os professores se rebelaram contra o facto de serem preteridos os melhores pelos piores. Ou seja, aqui deixaram os professores de ser todos iguais! Dito de outra maneira, os sindicatos mostram-se receptivos a um sistema de avaliação em moldes da avaliação que igualava desiguais, a maior injustiça social que um estado democrático deve consentir.

E neste diz-tu-direi-eu, entre o Ministério da Educação e mais de dezena e meia de sindicatos docentes, numa mesa de negociações qual Torre de Babel, o desenlace do desentendimento negocial corre o risco de nunca mais ser alcançado. Et pour cause, os interesses da Educação Nacional correm o risco de se esgotarem aqui deixando para trás os verdadeiros problemas que respeitam aos alunos, suas famílias (que se vêem gregas para esticar o orçamento familiar para a compra dos simples manuais escolares) e à própria sociedade portuguesa que não pode continuar refém destas tricas que se não compaginam com o interesse público que deveria estar estabelecido para o exercício da actividade.

Já é tempo de ser posto cobro a esta situação de verdadeiro banho-maria procurando soluções outras de, entre elas, a decisão final competir ao Ministério da Educação que não pode continuar refém de interesses meramente sindicais que pretendem alastrar as negociações para além de limites toleráveis. Como tudo na vida, a tolerância tem os seus limites.

Steve Jobs sai de cena

Steve Jobs, histórico CEO da Apple, abandona o cargo por motivos de saúde. Goste-se ou não dos computadores macintosh é inegável que se tornaram referências e que os iPod's, iPhone's e iPad's definiram novas classes de produtos. Steve Jobs não é certamente uma figura consensual, mas o seu perfil empreendedor genial é uma coisa que faz falta em Portugal.

O que acontecerá à Apple, à beira da falência em 1997 quando Steve Jobs regressou à empresa, agora novamente sem Jobs?

Aqui, num discurso na Universidade de Stanford em 2005:

terça-feira, 23 de Agosto de 2011

NOVO LIVRO: DARWIN AOS TIROS E OUTRAS HISTÓRIAS DE CIÊNCIA


"DARWIN AOS TIROS E OUTRAS HISTÓRIAS DE CIÊNCIA" é o título do novo livro da autoria de dois (também) autores deste blogue, Carlos Fiolhais e David Marçal, que será publicado no Outono pela Gradiva. Como se dá conta nas primeiras páginas:

"Este livro conta histórias, mais ou menos divertidas (quando não são divertidas, serão pelo menos curiosas) da ciência, cujos temas foram extraídos tanto da longa história da ciência como da actualidade científica. Foram precisos dois autores, porque a ciência hoje, mais do que ontem, é especializada."

São histórias de matemática, astronomia, física e ciências da Terra, medicina, química, biologia e pseudociência. Aqui fica uma delas, a que dá o título ao livro.

DARWIN AOS TIROS E OSSOS NA CAIXA DO CORREIO

O inglês Charles Darwin (1809 - 1882) foi uma criança apaixonada pelo mundo natural. Adorava coleccionar espécimes e passear pelo campo e esse gosto foi cultivado nas duas Universidade onde estudou (Edimburgo e Cambridge), na companhia de professores cuja influência foi determinante no seu pensamento futuro, como Robert Grant (1793 - 1874) e John Henslow (1796 - 1861). Fruto das suas frequentes saídas de campo fez a sua primeira descoberta científica com apenas 18 anos: descobriu que os ovos de flustra (um invertebrado que forma uma espécie de tapete marinho) não eram ovos de flustra, mas sim larvas de flustra (porque nadavam e os ovos não nadam).

Durante os cinco anos em que viajou à volta do mundo a bordo do HMS Beagle o seu entusiasmo pela história natural fê-lo acumular diversas colecções que expedia regularmente para Inglaterra, para não afundar o Beagle com tanto lastro. Se o leitor se aborrece com publicidade na caixa do correio, já imaginou tentar encontrar a sua correspondência importante, notificações das finanças e contas da luz, no meio de aves, organismos marinhos, insectos, plantas, fósseis e até rochas? Foi o que aconteceu a John Henslow, professor e amigo de Darwin.

Mas o estilo naturalista de Darwin não seria provavelmente aprovado pelos padrões de muitos amantes da natureza actuais. Darwin era um entusiasta da caça e um excelente atirador, o que dava muito jeito porque os tripulantes do Beagle tinham que comer e não seria possível trazer de Inglaterra latas de feijoada de seitan suficientes para alimentar 74 homens durante toda a viagem. E não imaginemos Darwin a suspender redes em canas de bambu na vertical para as aves caírem suavemente, e a libertá-las posteriormente com uma anilha identificadora na patinha e uma lágrima emocionada. Mais realista será a visão de Darwin aos tiros na esperança de atingir uma espécie desconhecida. Tivesse Darwin uma metralhadora e talvez o seu contributo para o entendimento do mundo natural fosse ainda maior!

Um dos episódios mais ilustrativos desta dimensão cinegética e gastronómica dos seu trabalho de investigação passou-se no Sul da actual Argentina. A tripulação tinha caçado uma ave para cozinhar e só depois de estar no prato e parcialmente comida é que Darwin se apercebeu de que se tratava de uma espécie desconhecida, uma ema mais pequena do que a que se encontrava nas regiões mais a Norte, e que queria preservar para a sua colecção. Os pedaços retirados do prato (não se sabe se passaram pelo interior da boca de algum dos comensais) foram poupados e, claro, enviados para a caixa de correio de Henslow!

"Instrução e Educação"

Gustave Le Bon (1841-1931), multifacetado intelectual, um dos primeiros e mais influentes psicólogos sociais, captou, como poucos, inúmeras ideias dominantes da sua época, dissertou sobre elas e, com as suas dissertações, influenciou o pensamento europeu, sobretudo aquele que se expressava em francês.

No livro La psychologie des foules, publicado em 1895, atreveu-se a questionar uma ideia que se tinha por segura e que, nessa medida, sustentava a escolarização para todos: essa ideia, optimista na sua essência, é que "a instrução é capaz de mudar consideravelmente os homens, sendo o seu resultado a melhorá-los e torná-los iguais".

"Ilusão pura", declara Le Bon. "Por tanto se repetir, esta asserção acabou por se tornar um dos dogmas mais inabaláveis da democracia (…) [dogma que] está em profundo desacordo com os dados da psicologia e da experiência".

E explica:

"Vários filósofos eminentes, Herbert Spencer entre outros, não tiveram dificuldade em mostrar que a instrução não torna o homem mais moral nem mais feliz (…). As estatísticas confirmam estes pontos de vista, indicando-nos que a criminalidade aumenta com a generalização da instrução; que os piores inimigos da sociedade, os anarquistas, são recrutados entre os melhores alunos das escolas (…)."

De seguida, faz uma anotação de extrema importância, na qual, passado mais de um século, é preciso manter a concrentração:

"Não é certo, e ninguém ainda o defendeu, que a instrução bem dirigida não possa dar resultados práticos relevantes, ainda que não levando a moralidade, ao menos desenvolvendo capacidades profissionais (…)."

Pois, relembra:

"O ensino proporcionado à juventude de um país permite saber o que será, um dia, esse país. A educação dada à geração actual justifica as previsões mais sombrias. É, em parte, com a instrução e a educação que me melhora ou se altera a alma das multidões."

Apesar de polémico no seu tempo e depois dele, Le Bon tocou uma questão educativa ancestral e essencial que não pode perder-se de vista. Efectivamente, é preciso perceber porque é que sistemas de ensino ocidentais, em que tanto se investe, parecem "produzirem", em certas ocasiões, efeitos contrários aos princípios de cidadania que propagam.

Referência da obra consultada:
- Le Bon, G. (Edição de 1900). La psychologie des foules. Paris: Félix Alcan, Éditeur, pp. 79-88.

segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

Reformas estruturais

«A democracia devia encontrar meios de os cidadãos poderem disciplinar instituições que, no segredo dos deuses, nos tramam a vida e se estão marimbando». Assim terminava um artigo anterior.

Penso que a democracia tem que ir por este caminho. Os cidadãos estão muitas vezes desprotegidos face às instituições, por muita razão que tenham. E raramente podem fazer sentir a sua vontade e a sua justiça. É claro que não compete a um cidadão qualquer interferir no conselho de administração ou na gestão de uma empresa.

Mas se esta interfere com a sua vida, não deve uma instituição fugir às responsabilidades, e, muito menos, adotar comportamentos de saloia esperteza para fugir às pessoas e assim acrescentar os seus lucros. Se o poder judicial é difícil, arrogante, lento, caro, sinuoso e imprevisível, é óbvio que os pequenos casos ficam “na conta” do cidadão, que não pode recorrer à Justiça sempre que precisa. E assim as instituições aumentam os lucros, quando deviam responsabilizar-se pelos erros. É claro que estas artimanhas são propositadas e valem muito dinheiro; mas para entrarem nos cofres de uns saem dos bolsos dos outros, o que é injusto e revoltante.

As reformas estruturais de que precisamos terão pois que tocar em muitos casos. O que é que tornou os cidadãos desconfiados e descrentes? E pouco motivados? E abstencionistas? Lembram-se das percentagens das primeiras votações depois do 25 de Abril? E em que medida isto degrada as pessoas e a sociedade? Eis um tema para as ciências sociais e humanas compreenderem e tentarem resolver.

Querem outra mudança necessária? Uma coisa que indigna qualquer atento cidadão de Coimbra é verificar como a sua cidade é continuamente mal tratada pelos serviços camarários em geral. Basta ir visitar, no Norte, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, para verificar como estão muitos furos acima na limpeza de ruas, no cuidado com os espaços públicos, na recuperação de património, no tratamento de jardins e de árvores, na qualidade dos materiais utilizados, etc., etc. Muitos furos acima. Mas se compararmos com as cidades da Região Centro, a evidência é igual. E o mesmo se poderá dizer na agilidade dos serviços administrativos, na facilidade para fixação de empresas, ou para quem queira recuperar prédios na zona histórica, etc. etc. Ou seja, salvo honrosas exceções – conheço até algumas - os serviços transbordam de funcionários sem brio nem gosto, que se devem sentir donos dos lugares, e com débil noção de obrigações e deveres.

Entram e saem presidentes e vereadores e, em Coimbra, tudo continua mais ou menos na mesma. Há, pois, por certo, muito boicote a boas ideias, porque dão trabalho, e muita resistência passiva à qualidade, porque a mediocridade é cómoda.

Sendo assim, por que não irem também os funcionários camarários a votos com os candidatos a presidente? Que grande reforma estrutural! Já que ninguém quer ser avaliado ou, quando o é, são todos excelentes, parece ser a única solução. A proposta de reforma é pois esta: toda a estrutura camarária seria escrutinada nas eleições autárquicas. Se tivesse bons resultados mantinha-se, se não tivesse, era substituída: Uma nova equipa, do presidente aos almeidas. As cidades ganhariam rapidamente amor-próprio. Sobretudo as mal amadas, como Coimbra, onde a Autarquia não merece a cidade que tem. Haverá alguém com inteligência e coragem para legislar neste sentido?

João Boavida

A um poeta que deixou de comparecer nas antologias

Na sequência do post anterior, seleccionou-se um poema de Alexandre O´Neill, um poema prenunciador do esquecimento, do afastamento dos nossos clássicos da educação escolar.

A UM POETA QUE DEIXOU DE COMPARECER NAS ANTOLOGIAS

Tinha de suceder deixares de suceder
a ti próprio.

Já Bocage não és? - claro! -

e quem sabe se alguma vez o foste?

Digo-te mais : nunca o serás,
nem apocrifamente
Não almejavas tanto?
Bravo, rapaz, parece que caíste
em ti!

Como queres que uma antologia se acrescente
sem, tarde ou cedo, se diminuir?

Sabes por que se diz « gemem os prelos»?

Não penses que é por ti.

Sê razoável!
Teus versos hão-de espiritualizar muita família.
Entre netos, uma velha senhora esquecerá a meio
um soneto dos teus.

Se a sorte não te for de todo adversa,
um lusófilo, algures,
citará entre barras versos da tua lavra
uma elegante nota de rodapé


In Alexandre O'Neill (1995). Poesias Completas. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p. 529.

O projecto de O´Neill

As datas pessoais pouco mais são do que pretextos para relembrar pessoas e quando as pessoas produziram obra, para relembrar essa obra.

Passaram vinte e cinco anos sobre a morte de Alexandre O´Neill e, por isso, aqui se deixam as palavras de Clara Rocha acerca do projecto inovador que perseguiu.

"E qual é o projecto de O´Neill? À partida, ele coincide com o programa do Surrealismo: a libertação total do homem e a libertação total da arte. O que implica: primeiro, uma poesia de «intervenção», exortando os homens a libertarem-se dos constrangimentos de toda a ordem que os tolhem e oprimem (familiares, sociais, morais, políticos, psicológicos, quotidianos, etc.); segundo, a libertação da palavra de todas as formas de censura (estética, moral, lógica, de bom-senso). Como se vê, um projecto revolucionário. E tanto mais revolucionário quanto sabemos que a recepção literária em Portugal se mostra pouco aberta às vanguardas (...). Consciente dessas limitações, O´Neill sente-as dramaticamente e, por um reflexo de desafio, exacerba a provocação."

In Alexandre O'Neill (1995). Poesias Completas. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p.15.

sábado, 20 de Agosto de 2011

Os impostos não se pagam em roupa


Estamos na chamada silly season, quando os jornais publicam inquéritos de Verão. Respondi ao do Correio da Manhã intitulado "Freud na Praia" (saiu no dia 1 de Agosto):

1- Descobre que o nadador-salvador da sua praia tirou o diploma ao domingo. Continua a confiar nele?

Sim. As praias estão abertas ao domingo e poderá haver exames nesse dia. Já se fosse diploma de engenheiro-salvador desconfiava...

2- Paulo Futre está numa esplanada ‘concentradíssimo’ com um chinês. O que lhe diz?

Se ele já encontrou o chinês de que andava à procura, pergunto-lhe se ele não quer um sócio para o negócio da China.

3- Está com uma t-shirt que diz ‘Troika-Troika só à Noite’, quando se cruza com Passos Coelho. Oferece-lha?

Não. Pelo menos por enquanto os impostos são pagos em cheque ou numerário e não em peças de roupa!

4- Irina Shayk pede-lhe para por creme nas costas. Cristiano Ronaldo está dentro de água com dois seguranças. O que faz?

Não. Creme? Seguranças? Os seguranças devem lá estar para apanhar o creminoso. Dizem que o creminoso volta sempre ao local do creme...

5- Jorge Mendes elogia os dotes futebolísticos do seu filho (sobrinho) de dez anos e oferece-lhe um contrato nos infantis do Real Madrid. Aceita?

Não. Sou contra a exploração do pé-de-obra infantil.

Bartolomeu de Gusmão e o seu balão


Capítulo, da minha autoria (aqui sem as notas) do livro "Bartolomeu Lourenço de Gusmão - o Padre Inventor", publicado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e pelos estúdios Andrea Jakobsson, e que será apresentado no Rio de Janeiro na próxima terça-feira:

A quem passa os umbrais da grande porta da Biblioteca Joanina, no Pátio das Escolas, no coração da Universidade de Coimbra, pode parecer que entra num templo, tal é o esplendor da arte barroca que enche o seu interior e que rapidamente enche o olho. Há até turistas incautos que, em gesto reflexo, pensando que estão a entrar numa igreja se persignam. Mas o altar está substituído pelo grande retrato de D. João V, o monarca que, em 1716, mandou construir o edifício da Biblioteca, chamado na época Casa da Livraria, merecendo assim deixar o seu nome associado à que é considerada uma das bibliotecas mais belas do mundo. O reinado do monarca que ficou conhecido como O Magnânimo foi um período de ouro da história portuguesa ou, pelo menos, um período de “folha dourada”, pelo brilho com que o Rei Sol português gostava de tudo cobrir para ser mais admirado. Nessa ostentação imitava o Rei Sol verdadeiro, Luís XIV, soberano da França quando D. João V foi, em 1707, com apenas 18 anos, entronizado em Portugal. Em boa verdade, foi um período de ouro não só da história de Portugal mas sim da história luso-brasileira, pois nessa altura o grande império lusitano abarcava o Brasil, de onde vinha afinal o ouro que serviu para pagar as avultadas despesas de construção (foi no início do século XVIII que se deu a corrida ao ouro nos ribeirões de Minas Gerais).

Com exceção da universidade jesuítica de Évora durante exatamente duzentos anos entre os séculos XVI e XVIII, a Universidade de Coimbra, fundada em 1290, permaneceu até à implantação da República em 1910 a única Universidade em todo o vasto Império português. Por isso, os jovens mais talentosos do Brasil que procuravam a continuação dos estudos eram obrigados a vir para Coimbra, após terem feito os estudos secundários na sua terra natal. Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido em Santos em 1685, e que deve ter sido uma “criança-prodígio”, não foi o primeiro e esteve longe de ser o último: para só falar de cientistas, depois dele passaram por Coimbra como alunos ou professores personagens tão ilustres como o químico Vicente Coelho de Seabra, natural de Congonhas do Campo (Minas Gerais), o mineralogista e metalúrgico José Bonifácio de Andrada e Silva, natural de Santos tal como Gusmão, e o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, natural de Salvador, capital do atual estado da Bahia. O reitor que empreendeu a notável Reforma da Universidade de Coimbra ordenada pelo Marquês de Pombal em 1772 era também um brasileiro: D. Francisco de Lemos, natural do Rio de Janeiro.

Passados escassos dois anos do longo reinado de D. João V (que, nascido em 1689, morreu em 1750), um evento científico-tecnológico veio reforçar o intenso brilho desse tempo luso-brasileiro das luzes. O padre Bartolomeu Lourenço, que mais tarde haveria de tomar o nome de Gusmão em homenagem ao seu antigo mentor brasileiro (o jesuíta Alexandre de Gusmão, que não deve ser confundido com um irmão de Bartolomeu com o memso nome), estudante na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra na altura com apenas 23 anos, escreveu ao rei (quatro anos mais novo do que ele!), uma petição para construir um “instrumento para se andar pelo ar”, da qual se conserva uma cópia, feita por mão anónima, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Reza assim, logo no início, essa solicitação, escrita numa linguagem deliciosa (a grafia deste e doutros documentos setecentistas citados a seguir foi actualizada para maior comodidade de leitura):

Senhor, diz Bartolomeu Lourenço que ele tem descoberto um instrumento para se andar pelo ar, da mesma sorte que pela terra, e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia, no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e terras muito remotas quase no mesmo tempo em que se resolverem: em que interessa Vossa Majestade muito mais que nenhum dos outros Príncipes pela maior distância do seu domínio, evitando-se desta sorte os desgovernos das conquistas, que procedem em grande parte de chegar muito tarde a notícia deles a Vossa Majestade. Além do que poderá Vossa Majestade mandar vir todo o precioso delas muito mais brevemente e mais seguro. Poderão os homens de negócio passar letras de cabedais com a mesma brevidade. Todas as Praças sitiadas poderão ser socorridas tanto de gente como de munições e víveres a todo o tempo, e retirar-se delas as passoas que quiserem sem que o inimigo o possa impedir. Descobrir-se-ão as Regiões que ficam mais vizinhas aos Pólos do Mundo, sendo da Nação Portuguesa a glória deste descobrimento que tantas vezes têm intentado, inutilmente, os estrangeiros.

Não havia decerto toda a burocracia que há hoje ou então o peticionário era protegido da corte, pois a solicitação foi logo deferida por alvará de 19 de Abril de 1709, bem guardado hoje nos preciosos depósitos da Torre do Tombo, o Arquivo Nacional português:

Hei por bem fazer-lhe mercê ao Suplicante de lhe conceder o privilégio de que, pondo por obra o invento, de que trata, nenhuma pessoa de qualidade que for, possa usar dele em nenhum tempo deste Reino e suas Conquistas, com qualquer pretexto, sem licença do Suplicante, ou de seus herdeiros.

Foi, sem dúvida, de uma das primeiras “patentes” concedidas na área aeronáutica, então ainda na sua pré-história.

O anunciado era, de facto, inaudito. As notícias do invento atravessaram logo as fronteiras nacionais suscitando não só estupefação, como era natural, mas também, e sobretudo, o que também era natural, abundante chacota. O jornal Wiennerisches Diarium (Diário de Viena), datado de de 1 a 4 de junho, saído na capital da Áustria, que era a terra de D. Maria Ana, a esposa de D. João V, publicou a primeira tradução em alemão de um folheto português, num suplemento especial de quatro páginas, com figura e tudo, onde se exibia a “nova barca” que prometia atravessar célere os ares.

Gusmão, a quem o rei entregou, além do alvará, as chaves da sua quinta em Alcântara, Lisboa, para nela construir e testar o anunciado engenho, não demorou a “pô-lo por obra”. O balão de Gusmão – pois do meio de transporte que hoje chamamos balão se tratava – foi, finalmente, demonstrado com sucesso diante de D. João V, no Paço Real, no Terreiro do Paço em Lisboa, a 8 de agosto de 1709. Fez, portanto, em 2009 precisamente 300 anos esse sucesso. As primeiras tentativas falharam por combustão do objeto voador ou de adereços da cena, mas a primeira experiência de ascensão ao longo de alguns metros de um objeto mais pesado do que o ar foi coroada de êxito, num evento que está inequivocamente documentado. Entre as conceituadas testemunhas de uma das ascensões efectuadas no interior do palácio, além da família real, contava-se o núncio italiano Michelangelo Conti, que haveria mais tarde de se tornar papa, tomando o nome de Inocêncio XIII. Conti contou, a 16 de agosto, em carta enviada por mala diplomática ao Vaticano, o que tinha presenciado:

O sujeito, que se comunicou faz tempo pretendia de querer fabricar um engenho para voar, fez por estes dias a experiência na presença do Rei havendo formado um corpo esférico de pouco peso: mas como a virtude impulsiva ou atrativa parece ser constituída por espíritos [álcool], estes pegaram fogo, e queimou-se o engenho da primeira vez sem se mover da terra, e da segunda embora se elevasse duas canas, igualmente se queimou; onde ele, empenhado em fazer crer que que não corre perigo a sua invenção, está fabricando outro engenho maior.

Teriam sido realizados outros ensaios de largadas de balões, desta vez ao ar livre, mas a investigação histórica não pode oferecer grandes certezas sobre eles, por falta de documentação concordante sobre locais e datas. Perseguido pela maledicência da vox populi, tanto em prosa como em verso, e talvez desanimado pela descomunal discrepância entre o que havia sido prometido na sua Petição – um engenho tripulado necessariamente grande e capaz de longas viagens – e o realizado na prática – um minúsculo balão que subia no ar durante um tempo muito reduzido – Gusmão desistiu de prosseguir o seu ambicioso empreendimento, pelo que não chegou a enriquecer com a “patente” concedida pelo rei.

Certo é, porém, que os livros de história da ciência e tecnologia são hoje quase unânimes em reconhecer que as primeiras experiências de ascensão em balão, embora não tripulado, foram efetuadas por Bartolomeu de Gusmão, com as suas demonstrações de protótipos de ar quente realizadas em 1709. E isso não impede que a glória da construção dos primeiros balões tripulados vá, com inteira justiça, para os irmãos Joseph-Michel e Jacques-Étienne Montgolfier, que a souberam merecer em Paris, no ano de 1783, muitas décadas depois dos ensaios de Gusmão, ao conseguirem concretizar a primeira ascensão com seres humanos a bordo, após terem experimentado com sucesso a ascensão de balões sem tripulação (Luís XIV e a sua esposa Maria Antonieta foram testemunhas oculares). Para Portugal e para o Brasil é, decerto, motivo de orgulho enfileirar nos registos dos grandes inventos mundiais. Bem pode dizer-se que o ano de 2009, além do Ano Darwin, celebrando os 200 anos do nascimento do naturalista inglês Charles Darwin, e do Ano Galileu, assinalando os 400 anos das primeiras observações com o telescópio efetuadas pelo astrónomo e físico italiano Galileu Galilei, foi também o Ano Gusmão, em homenagem aos 300 anos das primeiras ascensões aeronáuticas (pelo menos no mundo ocidental, porque a China sempre foi um outro mundo) por um brasileiro em Lisboa.

Contada que foi em traços muito gerais a história do invento do jovem brasileiro, cumpre agora responder a algumas questões sobre Gusmão e o seu balão, que por zombaria cedo foi denominado Passarola:

1. Que conhecimentos possuía o padre brasileiro sobre a ciência e a tecnologia da sua época que lhe permitissem avançar e sustentar a inovação que propôs e produziu?

2. Qual foi a sua motivação para propor ao rei a Passarola? E por que é que o monarca não hesitou em apoiar tão pronta e prodigamente um jovem ultramarino que para ele devia ser quase desconhecido?

3. Que diferenças havia entre o balão que foi demonstrado na prática e a extraordinária nave que havia sido prometida? De onde veio a fantasiosa gravura que o jornal austríaco publicou em primeira mão e que depois haveria de ser reproduzida em Portugal?

Embora seja dificil responder cabalmente, vejamos, por ordem, as explicações que me parecem mais plausíveis:

1. Gusmão não foi propriamente um cientista, mas sim um inventor, isto é, um autor de artefatos que visam intervir no mundo para obter maior conforto à vida humana. De resto, a tecnologia não estava na época tão intimamente associada à ciência como está hoje. Apesar da qualidade do ensino nas escolas onde o jovem Bartolomeu estudou, em particular o Colégio Jesuíta em S. Salvador da Bahia (que fazia parte de uma vasta rede de escolas da Companhia de Jesus, da qual o Colégio de Jesus, em Coimbra, tinha sido um dos primeiros nós), não se pode dizer que ele, nos seus estudos de preparação para a função eclesiástica, tivesse ficado a par do que de mais recente se fazia na ciência no alvorecer do século das luzes. Tão pouco terá adquirido conhecimentos de índole científica na Universidade de Coimbra, uma vez que se inscreveu no curso de Cânones (isto é, Leis da Igreja Católica), que só bem mais tarde viria a concluir. A ciência em Coimbra, dominada pelos jesuítas, não estava na época especialmente avançada. Mas, ainda no Brasil, antes de rumar a Coimbra, Bartolomeu tinha revelado o seu espírito inventivo ao propor uma bomba hidráulica para resolver uma questão prática no Seminário de Belém, na Cachoeira, Bahia, que frequentava.

Um Manifesto atribuído ao próprio Gusmão e que, tal como a cópia da Petição, se conserva na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, faz luz a respeito da interrogação colocada. Nele se defende a ideia de voar, numa linguagem em que a ciência é inseparável da filosofia (abstendo-se, porém, de considerações teológicas, que seriam naturais num clérigo, mas poderiam ser mal interpretadas). Lembre-se aliás que a física era, na época, chamada filosofia natural e o seu discurso estava eivado de retórica filosófica. Vejamos um excerto, que lembra a cadenciada linguagem barroca do padre jesuíta António Vieira:

Três coisas pois são necessarias à ave para voar, convém a saber: asas, vida e ar; asas para subir; vida para as mover; e ar para as sustentar. De sorte que faltando um destes três requesitos, ficam inúteis os dois; porque asas sem vida não podem ter movimento; vida sem asas não pode ter elevação: ar sem estes indivíduos não pode ser sulcado. Porém, dando-se estas três circunstâncias de asas, vida e ar, a qualquer artefício conforme a necessária proporção, é infalível o voo no lenho, como o estamos vendo na ave. Entra agora o nosso invento com as mesmas três circunstâncias, em que infalivelmente devemos dar lhe o voo por certo. O nosso invento tem asas, tem ar e tem vida. Tem asas porque lhas formamos à mesma imitação e proporção das da ave; tem ar porque este se acha em toda a parte, e tem vida, nas pessoas que o hão-de animar para o movimento. É logo infalível que não pode ser frustraneo este artefício, supostos nele os três requesitos necessários para o voo: que se a esta fábrica se podem dar estas três circunstâncias por factíveis, de que não há dúvida, infalivelmente delas se lhe hão-de produzir as mesmas operações, que vemos na ave, como efeito produzido da causa. E não fazemos menção das aves, que costumam andar na terra, porque suposto tenham estas três circunstâncias, ou não voam, ou têm o voo violento, como a galinha, o peru, o pato, a perdiz, etc., o que lhe procede de terem as asas defeituosas, em quanto à proporção necessária ao peso do corpo.

Mas, depois do triunfo no século anterior da mecânica de Galileu e Newton, a física mais moderna, no século XVIII, dizia mais respeito à eletricidade do que ao voo das aves... Nos salões reais e aristocráticos começavam-se a realizar divertidas experiências baseadas na eletricidade estática que desafiavam as mentes mais curiosas. É elucidativo que o ano de 1709 tenha ficado marcado, na história das ciências físicas, pela publicação do tratado da autoria do inglês Francis Hauksbee, um membro da Royal Society, intitulado Physico-Mechanical Experiments on Various Subjects Several Surprizing Phenomena Touching Light and Electricity, Producible on the Attrition of Bodies, contendo numerosas experiências de eletricidade (a Biblioteca Joanina conserva uma tradução francesa de 1754). O Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, fundado pelo Marquês de Pombal em 1772, por altura da sua Reforma da Universidade, alberga algumas máquinas eletroestáticas do século XVIII.

Não consta, porém, que Gusmão se tenha interessado tanto pela eletricidade como pela física dos fluidos. É certo que os princípios da impulsão tinham sido estabelecidos por Arquimedes, muitos séculos antes de Gusmão, e tinham sido revisitados por Galileu, um século antes, quando este efetuou experiências sobre corpos flutuantes, mas a impulsão desses autores dizia respeito a objetos imersos em líquidos e não em gases. O estudo dos gases ainda estava, em pormenor, por ser feito...

2. Assegurar a coesão e a unidade do império português que era proporcionada por um meio rápido de locomoção (a velocidade sugerida na Petição ultrapassava provavelmente os 50 quilómetros por hora) talvez tenha sido subjacente à ideia do jovem padre. As duas viagens que ele já tinha então empreendido de barco do Brasil até Portugal tinham sido demoradas e cansativas. E a ideia utópica do Quinto Império, tão cara ao padre António Vieira e tão bem expressa na sua História do futuro, não lhe era estranha. Ao fim e ao cabo, esse famoso jesuíta, embora não tivesse sido professor de Gusmão, passou poucos anos antes dele pelo mesmo colégio, onde o inventor da Passarola estudou e aí terá deixado com certeza marcas. Quanto à proteção especial de que Gusmão gozou em Portugal tal poder-se-á ter devido ao facto de terem causado espanto as suas capacidades intelectuais (designadamente, de memória) logo na sua primeira vinda à metrópole, em 1707, ao 3º Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Menezes, um dos nobres mais poderosos do reino e, por isso, muito próximo do rei. O marquês não hesitou em nomeá-lo preceptor de matemática do seu filho adolescente.

3. Como outrém já afirmou, julgo que se deve distinguir claramente entre o “instrumento de voar pelos ares” para a qual foi concedido o alvará e o “corpo esférico de pouco peso”, que, com os meios postos à sua disposição pela coroa, Gusmão foi capaz de construir e demonstrar. Há a Passarola, que nunca voou, e o balãozinho, que começou por se incendiar e a seguir se elevou no Paço Real. A primeira é retratada de um modo caricatural na gravura austríaca, que terá sido congeminada pelo próprio Gusmão, com a ajuda do filho do marquês (que o assessorava nos trabalhos oficinais de preparação dos ensaios aeronáuticos), com o intuito de iludir a curiosidade geral instalada. Conta-se que, numa “manobra de diversão”, o desenho terá sido abandonado de propósito numa via pública para circular como se fosse autêntico. Se foi isso que aconteceu na realidade, tal acabou por se revelar contraproducente para o inventor, pois o desenho de um enorme pássaro, semelhante às criaturas imaginárias que apareciam representadas em mapas e atlas fantasiosos, mais não serviu do que para descredibilizar o respectivo autor. Por outro lado, o balão de ar quente foi descrito pelo núncio como “um corpo esférico com pouco peso”. Este não seria muito diferente, embora em escala reduzida, dos balões de hoje, servindo uma pequena barquinha de vaso da combustão para produzir o ar quente. Se a Passarola era um “instrumento” enorme que, tal como foi representado, nunca poderia voar, já o balãozinho o conseguia fazer com relativa facilidade. É impossível reproduzir o primeiro para uma experiência atual de ascensão, mas é relativamente fácil fazer o mesmo com o segundo.

Uma gravura cuja antiguidade é desconhecida anexa, embora solta, a um volume manuscrito setecentista, conservada na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, será porventura uma extrapolação mais plausível para a escala humana do modelo do balão esférico. Tem, de facto, parecenças com um “barco voador”, embora a vela tenha sido substituída por uma pirâmide insuflada. Mas nenhum engenho com tripulante, semelhante a essa gravura, deve ter voado. Trata-se, a avaliar pela escala da figura humana, de um aparelho algo menor do que a Passarola impressa no diário vienense. Mas será pouco mais exequível do que esta.

O fim de Bartolomeu de Gusmão foi, infelizmente, tão trágico como o dos seus primeiros balões. Com apenas 39 anos, morreu, de doença e inanição, na cidade de Toledo, Espanha, durante uma apressada fuga da Inquisição, que o levou a atravessar a pé a fronteira portuguesa sob nome falso. Esse perseguição nada teve a ver com as suas invenções (fez outras além da bomba hidráulica e do balão, como um dispositivo para drenar água dos barcos, que registou em 1713 nos Países Baixos, durante uma longa viagem que empreendeu pela Europa Central e do Norte). Nem tinha a ver com uma eventual paixão por uma amante real tal como já foi, com alguma imaginação, aventado (de facto, D. João V, além de ter sido O Magnânimo, ficou também conhecido por O Freirático, por ter mantido relações com várias freiras, entre as quais a Madre Paula, do Mosteiro de Odivelas, a quem terá oferecido uma banheira de ouro). Sabemos hoje, graças a documentos guardados em Madrid – designadamente o testemunho deixado à Inquisição por Frei João Álvares de Santa Maria, um irmão mais novo que acompanhou Gusmão na fuga –, que pendia uma acusação de prática de judaísmo, um libelo muito perigoso numa época em que o rei se comprazia em assistir a autos-de-fé. Essa suspeita seria, aliás, bem justificada, pois tudo indica que Gusmão, numa fase tardia da sua vida, abandonou a religião católica para aderir ao judaísmo (apesar de ter estudado num colégio dos jesuítas no Brasil, ele nunca concluiu os estudos necessários para ingressar na Companhia de Jesus, pelo que não pode ser considerado um padre jesuíta, mas antes um padre secular). Pelo depoimento do irmão carmelita se depreende que as ideias utópicas do Quinto Império português lhe assaltavam a mente nesses seus dias finais de vida...

Quem contou, com inexcedível mestria, a história da vida de Bartolomeu de Gusmão e dos primeiros balões foi Rómulo de Carvalho, o professor português de Física e Química, grande pedagogo, historiador da ciência e da cultura, divulgador da ciência e, além de tudo isso, poeta sob o pseudónimo de António Gedeão (Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida são versos do que será talvez o seu poema mais conhecido, A pedra filosofal, o qual também fala da Passarola voadora). As gerações portuguesas que estudaram na segunda metade do século XX ficaram marcadas pela sua obra vasta e plural, que tem tanto de sábia como de imaginativa. Pela minha parte, leitor em jovem da sua História dos balões, publicada em primeira edição pela Atlântida de Coimbra, um livro que foi entretanto reeditado pela Relógio d’Água por não ter perdido actualidade, estou-lhe extremamente grato por tudo aquilo que dele recebi. Este texto não poderia ter sido escrito sem o seu exemplo e a sua inspiração.