quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Interpretar um poema de Álvaro de Campos


«Na casa defronte de mim e dos meus sonhos» é o primeiro verso do poema de Álvaro de Campos objecto de questionamento na prova de Exame de Português de 12.º Ano (1.ª Fase de 2011).

Muito se falou e se escreveu sobre a escolha do poema e as perguntas feitas no Exame de Português do 12.º ano - 1.ª fase. Houve quem respigasse um ou outro aspecto de natureza interpretativa sobre o mesmo, mas não terá sido divulgada uma interpretação total do poema. Ora, sendo o poema representativo de Álvaro de Campos e de uma das suas fases indicadas no Programa do Ensino Secundário, aquela em que o vemos irmão de Fernando Pessoa ortónimo na dor de pensar e na nostalgia da infância (tem a data de 16.06.1934, sensivelmente ano e meio antes da morte do poeta), parece pertinente apresentar uma interpretação de todo o poema (e não, apenas, de versos soltos).

A interpretação que se segue (e que, apesar da sua extensão, optámos por apresentar num só post) é da autoria de Maria Regina Rocha, professora de Português.

Como ponto prévio, será de referir que devemos olhar para um poema como um todo coerente: o poeta escreveu 9 estrofes (e não 8 ou 10), porque considerou que elas traduziam um pensamento com uma determinada unidade e, quando lhe colocou uma data e o deu por terminado, é porque algo que para o poeta era coerente ali ficou plasmado. Importa, pois, que nós, os seus leitores, estejamos à altura de o compreender. As palavras do poema, os versos, a pontuação, nada ali está por acaso: são peças de um puzzle coerente. Tentaremos, então, perceber essa coerência de pensamento numa análise estrofe a estrofe e verso a verso. Segue-se a transcrição do poema.

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.

Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.


Nada! Não sei...
Um nada que dói...

Só é possível obter uma ideia geral precisa do poema no final da sua leitura e da análise verso a verso. No entanto, após uma leitura de todo o poema, apenas leitura, sem ainda se proceder a análise, sobressai a ideia geral de que o sujeito poético se sente diferente de outros que observa e que tal situação lhe causa sofrimento. Passemos, então, à interpretação do poema estrofe a estrofe.

1.ª estrofe - O sujeito poético diz que na casa defronte de si e dos seus sonhos existe felicidade.
A casa não está dentro dos seus sonhos (na sua imaginação), mas «defronte» de si e «defronte» dos seus sonhos. Tal significa que aquela casa está defronte do sujeito poético no momento em que ele sonha, em que ele divaga, em que deixa o pensamento correr. E que nessa casa existe felicidade. A referência a essa felicidade é expressa por um verso exclamativo («que felicidade há sempre!»), sugerindo a admiração do poeta, eventualmente a estranheza, pelo facto de haver felicidade, ou pela dimensão dessa felicidade («que felicidade»), ou pela sua perenidade («há sempre»).

2.ª estrofe - No primeiro verso da estrofe, o sujeito poético especifica quem vive na casa: são pessoas que o poeta já viu, mas que verdadeiramente não conhece («pessoas que desconheço, que já vi mas não vi»). É compreensível: são pessoas para as quais o poeta já olhou, mas que, propriamente, não conhece, não sabe quem são nem o que pensam (viu, mas não viu).No segundo verso da estrofe, retoma a ideia da felicidade referida na primeira estrofe: essas pessoas são felizes. E acrescenta que o são porque não são ele. Começa aqui a expressão da diferença: se as pessoas são felizes porque não são o poeta, tal significa, por um lado, que aquelas pessoas têm uma perspectiva da vida diferente da do poeta (e é porque a têm que conseguem ser felizes: se fossem como o poeta, não seriam felizes), e, por outro lado, que o poeta não é feliz.

3.ª, 4.ª e 5.ª estrofes - Estas três estrofes têm uma unidade: caracterizam a felicidade das pessoas que o poeta observa.
Na 3.ª estrofe são referidas crianças que brincam, sem consciência da passagem do tempo («eternamente»), numa alegria de quem é inconsciente, de quem vive «entre vasos de flores», ou seja, rodeado do que é belo, sem a noção da realidade, do sofrimento.
Na 4.ª estrofe, é referido o cantar que ecoa dentro da casa, também sugestivo da alegria de quem canta fechado no seu mundo, na simplicidade da felicidade doméstica.
Nestas duas estrofes, repete-se a expressão «sem dúvida» (vv. 7 e 9), um comentário do próprio sujeito poético, que dá como certas essas características da vida dos outros: não tem dúvidas de que as crianças usufruem da felicidade e de que as pessoas cantam (isso ele vê, é a sua certeza).
O verso 10 («Sim, devem cantar.») traduz a constatação da lógica daquele tipo de viver: sim, têm de cantar, é lógico que cantem («dever» significa aqui obrigação: é sinónimo de «ter de»)[1]. Essa lógica é explicada na 5.ª estrofe: para aquelas pessoas tudo se ajusta, tudo está certo (a festa que revelam exteriormente é a que sentem interiormente). O verbo «dever» do verso 10 tem correspondência, no verso 12, na expressão «ter que» («Assim tem que ser»).
Então, as pessoas que o sujeito poético observa seguem o que é natural, cumprem a sua função de pertença ao meio em que se inserem, a cidade. O verso «O homem [ajusta-se] à Natureza, porque a cidade é Natureza» poderá interpretar-se como a tradução da harmonia do mundo que o poeta observa: a cidade é, para o homem que nela vive e à qual pertence, a Natureza[2].

6.ª estrofe - significa o seguinte: que felicidade o poeta não ser como aquelas pessoas! Observe-se que o verbo ser não está na 3.ª pessoa do plural, mas no singular. Se o verso fosse «Que grande felicidade não serem eu!», tal significaria que as pessoas eram felizes por não serem o poeta, ou que o poeta se regozijava por elas não serem como ele, mas o que é dito é totalmente diferente: que bom o poeta não ser assim, como essas pessoas!
Campos recusa identificar-se com aqueles embotados ou inconscientes que conseguem ser felizes.

7.ª estrofe - Depois desse verso de afirmação consciente da diferença e da recusa de uma felicidade apenas apanágio dos inconscientes, o sujeito poético como que pára para se interrogar sobre o que acabou de pensar e de escrever: «Mas os outros não sentirão assim também?»[3] (v. 15). Este verso quer dizer o seguinte: Será que os outros não pensam como o sujeito poético? Isto é, será que os outros também não se sentem diferentes?
Esta interrogação retórica leva o poeta a reflectir sobre o facto de, afinal, ninguém saber o que se passa no íntimo dos outros, pois o sentimento de cada um é algo pessoal, não podendo ser vivenciado por mais ninguém (v. 16): existe incomunicabilidade entre os seres no que diz respeito à revelação dos sentimentos (v. 17 – a metáfora da «casa com a janela fechada»: as pessoas não revelam o que sentem).
O poeta acrescenta que, quando há indícios de revelação de sentimentos («quando se abre» a janela – v. 18), ou há um vislumbre da felicidade inerente a quem não tem consciência da vida, a quem não pensa (a metáfora das crianças que brincam na varanda de grades, entre vasos de flores – vv. 18-20) ou de uma felicidade aparente («vasos de flores que nunca vi quais eram» – v. 20).

8.ª estrofe - Nesta estrofe, o poeta conclui o raciocínio desenvolvido na anterior, especificando que desconhecemos o que se passa no íntimo de cada um (v. 21 – «os outros nunca sentem») e que só é possível sentir enquanto primeira pessoa («nós» – v. 22).
Especifica, então, que nesse «nós» se integra o «eu» do sujeito poético (v. 24), mas, em vez de referir o que está a sentir – que era aquilo de que o leitor estaria à espera, pois, se quem sente somos «nós» (vv. 22-23), o «eu» também sentiria –, afirma, inesperadamente, que naquele momento já não está sentindo nada. Neste verso final da penúltima estrofe são, assim, de salientar dois aspectos: o facto de o poeta já ter sentido, já se ter identificado com os que constituem «nós», e de, naquele momento, já não estar sentindo nada. Surge, aqui, subtilmente, a «inépcia congénita para os sentimentos humanos e simples»[4], característica de Álvaro de Campos.

9.ª estrofe - O sujeito poético interroga-se, então, sobre o facto de não estar sentindo nada («Nada?»), considerando não ter a certeza disso («Não sei…») e explicando esse reticente «Não sei…»: é que esse tal «nada», afinal, «dói». O último verso («Um nada que dói») consiste, pois, num oxímoro que pode ser interpretado de duas formas:
– o facto de não estar a sentir nada incomoda o sujeito poético, fá-lo sofrer;
– o sujeito poético não sabe se, realmente, não está a sentir nada, pois esse tal hipotético «nada» «dói», fá-lo sofrer, isto é, fá-lo sentir.
O sujeito poético sugere, na última estrofe, que sente amargura por se aperceber de que não tem a capacidade de sentir felicidade: recusa a hipotética felicidade que os outros parecem deixar transparecer nos raros momentos em que se revelam, mas não encontra alternativa. O sujeito poético opta pela clarividência da impossibilidade de se sentir feliz, mas, simultaneamente, sofre. É que não está na sua natureza ser capaz de ser inconsciente de tal modo que pudesse sentir-se feliz sem se aperceber de que tal sentimento seria revelador da ausência de consciência[5].

Concluindo,

este poema de Álvaro de Campos é característico da sua fase de tédio, estado de alma traduzido num dos textos do Livro do Desassossego[6] de que se podem seleccionar alguns excertos: «O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o cansaço de se ter vivido; o tédio é, deveras, a sensação carnal da vacuidade prolixa das coisas (…) o aborrecimento de outros mundos, quer existam quer não; o mal-estar de ter que viver, ainda que outro, ainda que de outro modo, ainda que noutro mundo (…)

O poema traduz, assim, a angústia existencial de quem está condenado a ver a felicidade dos outros, impossibilitado, pela sua natureza de ser pensante, de nela entrar e de usufruir qualquer bem-estar, dada a lucidez da percepção da inexistência de alternativa.

Poderá, naturalmente, haver outras interpretações do poema. O que importa é ensinar aos alunos que a interpretação tem de incidir na totalidade do poema, na compreensão de todas as peças que dele fazem parte e que se interligam num todo coerente, proporcionando-nos uma determinada revelação do mundo do «eu».

E, quando o «eu» é Fernando Pessoa em vertente de Álvaro de Campos, é sempre um desafio a sua interpretação.
__________________________

[1]No Livro do Desassossego, do heterónimo Bernardo Soares, o assunto é objecto de reflexão (os sublinhados são nossos):
«A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro, e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Há quarenta anos que aquela figura de homem vive quase todo o dia numa cozinha; tem umas breves folgas; dorme relativamente poucas horas; vai de vez em quando à terra, de onde volta sem hesitação e sem pena; armazena lentamente dinheiro lento, que se não propõe gastar; adoeceria se tivesse que retirar-se da sua cozinha (definitivamente) para os campos que comprou na Galiza; está em Lisboa há quarenta anos e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro, e há um só dia de Coliseu — palhaços nos vestígios interiores da sua vida. Casou não sei como nem porquê, tem quatro filhos e uma filha, e o seu sorriso, ao debruçar-se de lá do balcão em direcção a onde eu estou, exprime uma grande, uma solene, uma contente felicidade. E ele não disfarça, nem tem razão para que disfarce. Se a sente é porque verdadeiramente a tem. (…)
Revejo, com um pasmo assustado, o panorama destas vidas, e descubro, ao ir ter horror, pena, revolta delas, que quem não tem nem horror, nem pena, nem revolta, são os próprios que teriam direito a tê-las, são os mesmos que vivem essas vidas. É o erro central da imaginação literária: supor que os outros são nós e que devem sentir como nós. Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao génio, apenas, o ser mais alguns outros.
Tudo, afinal, é dado em relação àquilo em que é dado. Um pequeno incidente de rua, que chama à porta o cozinheiro desta casa, entretém-no mais que me entretém a mim a contemplação da ideia mais original, a leitura do melhor livro, o mais grato dos sonhos inúteis. E, se a vida é essencialmente monotonia, o facto é que ele escapou à monotonia mais do que eu. E escapa à monotonia mais facilmente do que eu. A verdade não está com ele nem comigo, porque não está com ninguém; mas a felicidade está com ele deveras.»
[2] Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de Morais, 10.ª edição, Natureza, substantivo próprio (com letra maiúscula) significa: «Conjunto de todos os seres de que se compõe o Universo e dos fenómenos que nele se produzem»; «O Mundo físico; o conjunto dos fenómenos físicos e das causas que os determinam»; «Conjunto das forças que presidem aos diversos fenómenos de que os seres criados são objecto no espaço e no tempo». Saliente-se esta última acepção.
[3] No poema que tem como verso inicial «Ao volante do Chevrolet, pela Estrada de Sintra», diz o poeta (vv. 19-21):
« À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.»
[4] Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Verbo, p. 121.
[5]O poeta traz consigo «o espinho essencial de ser consciente», como afirma no poema «Vilegiatura» (versos 12 a 15), escrito na mesma altura (1934):
«Vim para aqui repousar, Mas esqueci-me de me deixar lá em casa, Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente, A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir
[6] Bernardo Soares Pessoa, Livro do Desassossego, ed. Richard Zenith (1988), n.º 381, datado de 28.09.1932.

9 comentários:

  1. Haverá maneira coerente... de interpretar a incoerência?! JCN

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  2. ora inda bem

    se não explicassem como é que o maníaco depressivo se sentia eu nem mápercebia disso

    se calhar isto tamém s'aplicava ao Castilho e ao Camilo que escreviam por encomenda e ao metro...

    e ósdespois dizem que o português anda mal

    oviamente

    empastelar isto tudo numa criatura

    quem consegue fazer estas interpretações num teste ou tem boas cábulas ou é psicótico...

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  3. Interpretar poemas é a coisa mais idiota ainda por cima para avaliação, ainda se for prosa ou saber quem foi o autor, que tipo de obra, a sua época e influências ainda vá, mas um poema? coisa mais subjectiva! em que a interpretação de um aluno pode até estar correcta mas ser inválida por não estar de acordo com a cartilha do ministério da educação.
    Tenham juízo e façam avaliações com coisas que possam ser avaliáveis e deixem-se de masturbações intelectuais!

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  4. Quando num exame é pedida uma interpretação de um poema deste género, como saber o que responder? É assim que se fica a saber se o aluno sabe pensar?

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  5. Discordo do que foi dito no comentário acima acerca da interpretação de poemas ser a coisa mais idiota. É claro que há sempre um pouco de subjectividade na poesia, mas num poeta como Fernando Pessoa é possível haver uma interpretação geral aproximada, pois a sua poesia é inteligente, e como tal tem um fundo de lógica. Se se tratar de analisar poemas como os de grande parte dos poetas recentes, em que o objectivo parece ser escrever o maior número de coisas aleatórias para parecer que o poema é muito profundo, e que se as pessoas não o compreendem é por incapacidade da mesma, já se torna mais complicado unificar uma interpretação, mas isso é porque essa interpretação nem sequer era clara para quem escreveu o poema, o que claramente não ocorre no caso de Fernando Pessoa.

    Em segundo lugar, tendo eu realizado o mesmo exame este ano, considero que as perguntas nem sequer pediam que se aprofundasse demasiado na interpretação, o que até me aborreceu um bocado dado que perdi meia hora para interpretar o mais que pude do poema...
    Aliás, acho até que o problema das perguntas do exame foi exactamente serem pouco específicas, o que vem favorecer mais quem ficou só com uma ideia do poema do que quem de facto o interpretou. A primeira questão, por exemplo, que pedia para indicar as sensações do sujeito poético presentes nas 4 primeiras estrofes, era na minha opinião pouco explícita, no sentido em que é visível nessas mesmas 4 estrofes a evolução das sensações do poeta, na medida em que as sensações "meramente físicas" vão sendo fundidas com o interior do poeta. Isso é visível nos seguintes versos:
    - "As crianças, que brincam às sacadas altas,
    Vivem entre vasos de flores,
    Sem dúvida, eternamente." (dado que o s.poético começa por relatar uma sensação visual "exacta"/"física" (vivem entre vasos de flores), e essa sensação é moldada à medida que ele vai interiorizando o que vê, porquanto lhe parece que elas brincar "sem dúvida, eternamente".
    - As vozes, que sobem do interior do doméstico,
    Cantam sempre, sem dúvida.
    Sim, devem cantar. (aqui, novamente, começa-se por um relato do que se passa na "realidade objectiva" (mesmo que puramente abstracta e mental - não se sabe se o poeta de facto presenciou a situação ou se se trata de uma experiência puramente mental) e esse relato vai sendo fundido com a percepção do poeta, em "Cantam sempre, sem dúvida. Sim, devem cantar." (aqui revela-se uma certa incerteza quanto ao que presencia, o que implica que a realidade está já a ser modificada pelo observador)).
    Ou seja, existem dois estágios claros das sensações do poeta, embora na correcção do exame só exigissem o primeiro.

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  6. Só para finalizar...
    "Haverá maneira coerente... de interpretar a incoerência?!". Bom, se há poesia que não é incoerente é a de Fernando Pessoa! O problema, presumo, para a má interpretação da sua poesia por parte dos estudantes em geral está em ter um raciocínio suficientemente coerente para compreender como a sua poesia é de facto bastante lógica e coerente!

    "coisa mais subjectiva! em que a interpretação de um aluno pode até estar correcta". Pois, ora aqui está a incoerência de que falava... "Coisa mais SUBJECTIVA.. em que interpretação de um aluno pode até estar CORRECTA"?! Se é subjectiva então não há interpretação correcta...

    "Tenham juízo e façam avaliações com coisas que possam ser avaliáveis e deixem-se de masturbações intelectuais!" Tipo o quê? 'Bora lá fazer exames só com gramática?! Eu penso que por vezes deveria haver mais flexibilidade com os critérios de correcção dos exames, mas não acho que neste exame tenha havido esse problema. Há sempre um pouco de subjectividade, mas não se pode esperar do Português o mesmo que se espera da Matemática...

    E com isto tudo esqueci-me de felicitar a óptima interpretação da professora Maria Regina Rocha!
    E gostaria ainda de salientar, para os cépticos que consideram que a interpretação de poesia de Fernando Pessoa não tem sentido, a interpretação que fiz, no exame que realizei, do poema acima, foi semelhante, em termos de ideias, com a descrita pela professora. E cheguei a essa interpretação por mim mesma, sem uso de cábulas nem sequer com explicadora. Aliás, nem conhecia o poema antes de ter sido confrontada com ele no exame. Nesse caso, é somente coincidência? Pois, está bem...

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  7. Em interpretação de poesia não há nunca verdades absolutas, mas algumas interpretações são mais válidas do que outras, sem dúvida. Há também modos mais ou menos eficazes de testar essa interpretação e, num exame nacional, a opção deverá ser, naturalmente, a que se revelar mais eficaz e mais válida. Ora, e comentando apenas a primeira questão, talvez pudesse haver outra maneira de a colocar, pois sem dúvida que podia induzir em erro e induziu.
    Quanto a análises do poema, parece-me mais pertinente a de Teresa Rita Lopes (disponível em http://jornadasiemo2011.blogspot.com/2011/07/comentario-prova-escrita-de-portugues.html

    A carta de Álvaro de Campos é também interessante http://jornadasiemo2011.blogspot.com/2011/08/carta-de-alvaro-de-campos.html

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  8. Ao anónimo de 6 de Agosto de 2011 13:49

    Obrigado pelos links! Só é pena não estarem activos na caixa de comentários, o que seria aparentemente fácil.

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  9. muito engraçado os metros de letra que gastam em torno de uma coisa tão simples : tédio de viver. suponho que terá a ver com patatis do sagrado carácter da vida , um valor sem discussão. santa paciência.
    leiam o comboio da noite do amis , a melhor interpretação do tédio do pessoa e de todos os outros entediados. o mundo é deveras entediante , gabo a paciência de quem quer chegar a velho , e não são precisas nenhumas considerações xpto filosóficas para perceber que a páginas tantas já não há nada que mereça a pena aprender. e isso não quer dizer que se seja infeliz ou que se sofra , apenas um aborrecimento geral com cumprir horários e salamaleques até ao fim dos nossos dias. é é tão bom imaginar que se rompe o casulo e vamos partir para borboleta.

    e se querem que os putos leiam , excluam o pessoa. é chato até dizer chega.parece que a culpa do tédio dele é nossa. não temos de ser interessantes...ele não é . um frete que o caracter tuga acarinhador de depressivos transformou em mito. não há pessoa normal que ature o Pessoa. cada um que se aguente com o seu tédio.
    sugiro o aquilino. tem contos. os miúdos gostam de contos. e escreve ...de uma pessoa babar-se do bem que escreve.até apetece viver mais um dia pró ler.

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