terça-feira, 17 de maio de 2011

POESIA CIENTÍFICA PARA OS MAIS NOVOS


Regina Gouveia foi durante muitos anos professora de Ciências Físico-Químicas no ensino secundário. A sua experiência profissional está bem evidente no livro Se eu não fosse professora de Física. Algumas reflexões sobre práticas lectivas (Areal, 2000) Colaborou com o Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, procurando sempre a melhor actualização científica e pedagógica. Em 2005, o Ano Mundial da Física, foi justamente distinguida com a Ordem da Instrução Pública.

Mas Regina Gouveia teve e tem uma second life, que poderia parecer desligada da sua first life, mas, vendo bem, não está. Ela é poeta. Encontram-se nas livrarias e nas bibliotecas vários livros da sua autoria, como Reflexões e Interferências (Palavra e Mutação, 2002) e Magnetismo Terrestre (Calendário, 2005). Os títulos dão conta da ligação entre as suas duas “vidas”: Os temas da sua predilecção são científicos. Poderemos, embora o nome possa enganar, falar de poesia científica. A autora tem-se, em particular, interessado pela poesia para os mais pequenos, como nas obras Era uma vez... Ciência e poesia no reino da fantasia (Campo das Letras, 2006) e Ciência para meninos em poemas pequeninos (Gatafunho, 2009), as duas com títulos elucidativos a respeito da temática dos poemas. Saiu no final do ano passado o seu terceiro livro de poesia científica infantil, Pelo sistema solar vamos todos viajar, com ilustrações do seu filho, o arquitecto Nuno Gouveia. Falemos dele, agora em que a literatura infantil está valorizada pela atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina.

O livro mais recente de Regina Gouveia está na linha das outras obras infantis, merecendo tal como a anterior figurar nas listas do Plano Nacional de Leitura. A editora, que o incluiu na colecção Ciência e poesia de mãos dadas, foi a mesma que publicou Um Rapaz Invulgar, uma biografia ilustrada de Einstein para infantes, no Ano Mundial da Física. Pelo sistema solar vamos todos viajar, pequeno como convém para gente pequena (só tem 36 páginas), tem papel de boa qualidade, o que valoriza tanto o texto como os desenhos a cores. O conteúdo reparte-se por dois poemas: Era uma vez o Sol e Era uma vez a Lua. O primeiro é uma visita guiada ao sistema solar em que o guia é o próprio Sol, ao passo que o segundo trata das observações da Lua por uma menina, a Gabriela, dona da gata Fofinha (a propósito: a editora, que tem como logotipo uma gata, usa também o imprint de Gafafunho). Mas nada como transcrever um excerto de cada um dos poemas para o leitor se dar conta do estilo da autora.

Do primeiro:

“Como nasci?
Eu só sei aquilo que sempre ouvi,
Nasci de uma nuvem de gás e poeira
que rodopiava pelo espaço
em grande brincadeira.
À medida que rodava
A nuvem cada vez mais se condensava,
por causa da gravidade
mais redondinha ficava,
cada vez era mais quente
até que surgiu no céu
Uma estrelinha luzente”
Essa estrelinha era eu
e se pareço brilhante
é porque estou pouco distante
da Terra e de outros planetas
que giram em meu redor.
Em Neptuno, o mais distante,
eu pareço bem menor
e também menos brilhante
mas, em Mercúrio, mais próximo,
já pareço bem maior
e o brilho tem mais fulgor.”

E do segundo:

“Também a gata Fofinha
gosta da luz cheiinha.
Deve até imaginar
qaue é um novelo de lã
E mexe a sua patinha
C omo se o fosse apanhar.
Num aquário redondo,
um peixinho, é o Titã,
nada, nada com afã
e gosta de olhar a lua.
Pensará que é um aquário
com peixinhos a nadar?
Ambos estão enganados
já que a luz, como a Terra,
não é lá muito fofinha
e peixinhos, nem pensar,
pois a lua não tem rios,
não tem lagos, não tem mar.
Talvez por esta razão,
com a água quer brincar
e brinca com o mar da Terra
fazendo as marés baixar.
Não tem rios, não tem mar,
não tem lagos ar
para se poder respirar.”

Como se vê, a imaginação poética, aqui especialmente dirigida aos muito pequenos, surge aliada ao rigor científico (repare-se no pormenor da poesia já dar conta da “despromoção” de Plutão de planeta para planeta-anão) numa linguagem muito simples. Onde é que já vimos isso? Pois o nome de António Gedeão, pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho, também ele professor de Física do secundário, vem-nos à memória. Como afirma Ferreira da Silva, professor de Física da Universidade do Porto, na badana, “...a formação científica da autora transparece, como em António Gedeão, na obra poética”. Já muito se tem feito para motivar para a ciência os nossos petizes. Como bem mostra Regina Gouveia, a poesia é um meio onde com o qual se pode fazer ainda mais...

- Regina Gouveia, Pelo sistema solar vamos todos viajar, Ana Paula Faria Editora, 2010

4 comentários:

  1. Seja qual for em verdade
    a forma que ela revista
    dentro da auitenticidade,
    a Poesia não tem
    por qualquer ângulo vista
    idade para ninguém!

    JCN

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  2. Na sequência do comentário de JCN, cito Saramago.
    E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
    Obrigada Professor Fiolhais pelo seu comentário tão generoso.
    Regina Gouveia

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  3. Que bonita é a Poesia
    posta ao alcance das crianças:
    é criar-lhe esperanças
    de em tudo haver fantasia!

    JCN

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  4. Corrijo a gralha "criar-lhe" por "criar-lhes", bem como no poema anterior "auitenticidade" por "autenticidade". Deficiência visual ou falta de destreza manual. JCN

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