quarta-feira, 25 de maio de 2011

Direita ou Esquerda?


Com a devida vénia publicamos aqui mais um excerto (já publicámos um) do livro "A Nossa Vez" de Hugo Penedones, que se pode ler na íntegra aqui:

Quando me perguntam se sou de Direita ou de Esquerda, respondo sempre: “Não sei. Eu quero é andar para a frente!”.

Depois de algumas gargalhadas, a pessoa em face começa a mostrar uma expressão de perplexidade: “Como assim? Existe mais alguma coisa?”.

Passo a explicar: ser de Direita ou de Esquerda é como ser médico e prescrever sempre a mesma receita, independentemente do doente. “Tem uma infeção? Tome antibióticos. Doem-lhe as costas? Tome antibióticos. Vê mal ao longe? Tome antibióticos. Está deprimido?”.

O corpo humano é um sistema muito complexo, constituído por dezenas de órgãos diferentes. Cada órgão pode ter milhares de milhões de pequenas células e cada célula tem ainda inúmeros componentes e mecanismos de regulação. Compreensivelmente, quando uma pessoa se sente mal, o diagnóstico médico e a escolha de um tratamento são tarefas muito difíceis. Por essa razão é que os médicos passam anos a aprender a fazer isso.

As sociedades não são menos complexas do que o corpo humano. Existem indivíduos, famílias, empresas, partidos, religiões, países, federações, etc. Tudo isto tem de ser coordenado e o bom funcionamento da sociedade é um equilíbrio difícil e instável. Por vezes corre mal e há pobreza, há desemprego, há guerras, há crime, há conflitos sociais, e por aí fora.

Portanto, como é que alguém minimamente realista e pragmático, pode esperar que uma ideologia política ou económica cure todos os males? Os problemas têm de ser diagnosticados caso por caso e as soluções têm de ser adaptadas ao “paciente”.

Vou dar-vos um exemplo. No parágrafo seguinte, sem nunca me contradizer, vou dizer bem e mal sobre a revolução socialista Cubana.

Em 1959, Cuba era fundamentalmente uma pequena ilhota dominada por interesses americanos. Era essencialmente um destino para gente rica ir jogar a casinos e ficar em hotéis luxuosos. Ao mesmo tempo, a população local era muito pobre e não tinha acesso a serviços essenciais como a educação ou sistema de saúde pública.

Façamos o seguinte exercício: dadas as condições sociais, o contexto histórico e as ferramentas ao dispor, o que é que um bom médico poderia receitar para esse doente em 1959? “Façam uma revolução socialista, nacionalizem os centros de produção, comecem programas de alfabetização e criem cooperativas agrícolas.” Ótima receita, dadas as condições de partida. Talvez o medicamento, mesmo na altura, não tivesse sido perfeito, mas fizeram o que estava ao seu alcance.

Mas, tal como o paciente que toma um antibiótico para eliminar bactérias ou fungos que causam uma infeção, se ele continuar a tomar antibióticos por muito tempo, vai fazer mais mal do que bem. Vai talvez matar a flora intestinal que lhe é benéfica e o paciente vai sentir-se muito fraco.

Do mesmo modo, a Cuba da atualidade já tomou antibióticos de mais. Muitos cubanos pedem desesperadamente por mais liberdades e maior abertura dos mercados. Querem criar pequenos negócios para combater a pobreza. Em Cuba, a quase totalidade da população tem acesso à educação (mesmo superior) e à saúde. Isso é ótimo. O problema é que depois de estudarem, as pessoas não têm a liberdade para aplicar aquilo que aprenderam na Universidade aos problemas reais. O empreendedorismo é castrado (será que a palavra deriva de “Castro”?). Numa visita que fiz à ilha em 2007, conheci um jovem que tinha estudado Engenharia Civil, mas o Estado alocou-o a um trabalho burocrático sem interesse, onde não usa o que aprendeu. Ao mesmo tempo, Havana cai de podre. As casas estão quase todas muito degradadas, com a exceção do pequeno centro histórico, essencialmente feito para os turistas. Que pena, que desperdício de potencial humano!

Da próxima vez que lhe perguntarem: “É de Direita ou de Esquerda?”, pense se quer andar às voltas, ou se prefere andar para a frente.

Hugo Penedones

Leitura recomendada:

- “The End of Poverty”, de Jeffrey Sachs, 2006. O autor é professor de Economia e dirige o “Earth Institute” na “Columbia University” nos EUA. Foi um dos propulsores das metas de desenvolvimento do Milénio, programa das Nações Unidas para o desenvolvimento.

5 comentários:

  1. As soluções radicais nunca funcionam bem numa sociedade, pela exclusão e discriminação extremas que criam, mesmo que em pequenos grupos.

    Eu costumo dizer que sou mais de direita do que de esquerda. Mas concordo com o ensino público gratuito, o SNS, e não só.

    Todas as sociedades têm políticas de direita e de esquerda. Por exemplo, nos EUA, uma sociedade maioritariamente de direita, o serviço telefónico residencial tem um preço abaixo de custo que é subsidiado por um preço mais elevado do serviço empresarial. A bem da igualdade de oportunidades.

    A classificação esquerda-direita está talvez um pouco ultrapassada ou a perder importância. Há quem se choque quando partidos de esquerda têm políticas de direita e vice-versa. Eu, digo "ainda bem".
    Preocupemo-nos mais com que tipo de sociedade queremos construir e menos com o "como". Sejamos mais pelos valores dos direitos humanos do que os de esquerda ou direita.

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  2. Eu gosto mesmo deste blogue quando se dedicam a falar apenas das ciências naturais...

    Este artigo é apenas a demonstração de que quem o escreveu nunca deve ter lido uma linha que fosse sobre economia ou sobre teoria política.

    As coisas não surgem por acaso. A Direita e a Esquerda não são como clubes de futebol. São duas formas distintas de ver as coisas e para as quais, infelizmente, não existe um meio termo.

    Existem umas soluções hibridas, mas que devem àquilo que é a direita e àquilo que é a esquerda a sua génese.

    Ir em frente?Pois, eu também quero ir em frente, mas isso implica perguntar se o sistema de saúde deve ou não ser público, se a escola deve ou não ser pública, se devemos apostar mais em polícia ou mais em assistentes sociais, se o governo deve ou não apoiar a indústria, etc...

    Se cada caso é um caso? É verdade...mas até isso é uma ideia política que se insere mais numa ideologia do que noutras. (Sim, porque depois existe mais do que esquerda e direita, o que complica ainda mais as coisas).

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  3. De inteiro acordo consigo, caro Tiago Santos. Isto anda cada vez mais infestado por analfabetos e ... ingénuos. Se calhar quem escreveu o artigo estudou nas Novas Oportunidades.

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  4. Também me parece que não faz sentido nenhum essa ideia do "andar para a frente" e mais nada. A questão é: como ir para a frente? Porque é que autor acha que o socialismo foi o melhor no início e agora é preciso corrigir? Será que no início não teria sido melhor seguir logo por outro caminho?

    É na altura de tomar decisões que se segue pela esquerda ou direita! Também há quem pense hoje em dia que o melhor continua a ser mais socialismo e, para esses, esse é que é o caminho para "andar para a frente"...

    Enfim, há que ver as coisas como elas são e não como gostaríamos que elas fossem.

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  5. "A questão é: como ir para afrente". Claro é aí que está o ponto bem como na definição do que é frente e trás nestas matérias. O que para uns é frente para outros é trás. É que há valores, mesmo que se finja que não ou se pretenda esconder isso. Como fazem os ideólogos do "já não há ideologias". E como pretende, desajeitadamente, fazer o post acima.

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