The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

domingo, 28 de Fevereiro de 2010

EINSTEIN E A ARTE 3



Muito se tem discutido sobre a relação entre a teoria da relatividade restrita de Einstein, de 1905, e o cubismo, inaugurado com o quadro "Les Demoiselles d'Avignon" de Picasso. Se influência houve terá sido indirecta.

Mas uma influência directa das ideias relativistas numa obra artística ocorreu decerto no quadro "A persistência da memória" de Salvador Dali, o surrealista que se interessou muito por temas científicos. Nesse quadro, de 1931, aparecem relógios em fusão, sugerindo a deformação que a gravidade causa no tempo. O ser adormecido no meio será o próprio Dali a dormir e, claro, a sonhar. Numa recreação do mesmo quadro feita muito mais tarde (1952-1954), "A desintegração da persistência da memória", surge uma paisagem aquática, com o fundo coberto de numerosos pequenos blocos. Este quadro sugere a fusão da teoria da relatividade com a teoria quântica, portanto uma representação artística de uma teoria unificada.

Ensino e aprendizagem em sala de aula

Informação recebida pelo De Rerum Natura.

Tertúlia em torno do livro Comportamento, aprendizagem e ensinagem na sala de aula, com o seu autor João A. Lopes, organizada pela Psiquilibros Edições e Fnac.

Será no dia 3 de Março, pelas 21.30h, no Fórum Fnac Braga.

Sobre o livro: O ensino é em si mesmo terapêutico, pelo que uma das melhores formas de promover a saúde mental dos alunos é ensiná-los bem, com entusiasmo e persistência. Alienar as responsabilidades dos professores em terapeutas, assistentes sociais, administradores, etc. é a forma mais directa de exibir impotência e incapacidade perante os alunos (os quais, como se sabe, raramente perdoam as fraquezas alheias) e abrir uma caixa de Pandora de (im)previsíveis consequências

Sobre o autor: João A. Lopes é Professor na Escola de Psicologia da Universidade do Minho, e é Director dos Mestrados em Psicologia desta Universidade. Autor ou co-autor de artigos, capítulos e livros sobre problemas comportamentais e de aprendizagem

EINSTEIN E A ARTE 2


A primeira entrada da cara de Einstein na Arte foi, talvez, esta colagem de 1919 da dadaísta alemã Hannah Hoech (1889-1983), que aproveitou o retrato de Einstein que saiu na capa da revista "Berliner Illustrierte Zeitung" no mesmo ano (o recorte com o retrato está em cima à esquerda). Lembre-se que esse foi o ano em que Einstein se tornou mundialmente famoso graças à confirmação, por observações de um eclipse solar o Príncipe e em Sobral, das suas previsões para o encurvamento dos raios de luz. A composição, uma das primeiras fotomontagens, intitula-se: "Golpe com uma faca de cozinha Dada na última cultura de barriga de cerveja da República de Weimar na Alemanha". A artista, declaradamente feminista, passou os tempos do nazismo retirada na Alemanha, sem nenhum protagonismo, para reaparecer no fim da guerra.

EINSTEIN E A ARTE 1


Andy Warhol, o artista pop norte-americano, autor entre muitos outras de uma famosa gravura de Marilyn Monroe, efectuou em 1980 uma gravura com o retrato de Albert Einstein, numa série intitulada "Dez judeus do século XX" (que incluiu, além de Einstein, Franz Kafka, Gertrude Stein, Martin Buber, George Gershwin, os irmãos Marx, Golda Meir, Sarah Bernhardt, George Gershwin e Louis Brandeis). Ver aqui esta galeria de judeus.

Sobreposto ao desenho da face está uma composição geométrica, que se pode pensar ser abstracta e resultado da livre imaginação do artista. Mas não: a composição foi inspirada em diagramas do espaço-tempo da autoria de Hermann Minkowski, o matemático que foi professor de Einstein e Zurique e que desenvolveu a geometria do espaço-tempo que tem o seu nome.

Aquilo que nos negaram

Recentemente, três alunos de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra fundaram uma associação designada por Origem da Comédia, da qual já aqui demos notícia.

São eles Miguel Monteiro de Sena, do 3.º ano do 1.º ciclo, e João Loureiro e Sophia de Carvalho, ambos do 1.º ano do 2.º ciclo.

A atitude que subjaz à sua inciativa é afirmada e construtivamente rebelde face ao apagamento da cultura clássica na nossa sociedade, em geral, e no sistema de ensino, em particular. O seu lema é dar a conhecer "aquilo que é negado" à esmagadora maioria das crianças e jovens: a cultura artística, filosófica, política, científica, fundacional da nossa civilização.

O De Rerum Natura tratou de os encontrar e falar com eles.

P: Porquê a designação Origem da Comédia para a vossa associação?

R: É imediatamente um jogo com aquela obra magistral da filosofia, A Origem da Tragédia, de Nietzsche. Mas, além dessa brincadeira referencial, inspirámo-nos ainda nessa obra para, simultaneamente, reclamar a herança duma filologia clássica apaixonada e apaixonante, que olha para a realidade greco-latina não dum modo seco e fechado, mas que busca e descobre elementos fundamentalmente humanos que esta exprimiu, intemporais, e desse modo revela o seu irresistível encantamento. E o que é mais, uma das diferenças que Aristóteles apontou para diferenciar a Tragédia da Comédia é que esta última acaba bem. Queiram os deuses que o mesmo aconteça neste nosso caso.

P: Que sentido tem a vossa associação, numa altura em que a expressão da cultura clássica é tão diminuta na nossa sociedade, mesmo em círculos onde deveria estar bem presente, como a escola básico e secundária e a universidade?

R: A Origem da Comédia surgiu, em grande medida, como resposta a esse apagamento da cultura clássica, que, como estudantes da área, sentíamos de forma particularmente aguda e perante o qual não poderíamos permanecer impávidos. Acreditamos francamente que a Antiguidade tem um profundo interesse e actualidade. Veja-se, a título de exemplo, a recentíssima encenação de A Cidade, pela Cornucópia, ou a nova versão do Rei Édipo, em cena no Teatro Nacional Dona Maria II (e no Porto prepara-se a Antígona, no São João). Porém, só é possível amar aquilo que se conhece. Ora os alunos, seja do básico, do secundário ou da universidade, pouco contacto têm, ao longo da sua formação, com o universo greco-romano que, em todos os campos, se nos impõe como primordial, peça matriz do puzzle de nós. De pouco vale aqui lamentar o desaparecimento do Latim em Portugal, quando em tantos outros países da Europa o número de alunos da disciplina aumenta. Há sim que agir para garantir à nossa geração, e às futuras, aquilo que nos negaram. A Origem da Comédia, por isso, faz todo o sentido, procurando ser uma associação de jovens para jovens (sem prejuízo das outras faixas etárias), em que, por um conjunto de iniciativas que se querem, em maior ou menor grau, diferentes do habitual e apelativas, se partilhe o tesouro que herdámos de gregos e romanos.

P: Quem é pertence e quem pode pertencer à vossa associação?

R: A associação está aberta a todos os jovens, sobretudo (mas não só) universitários. Importante é, claro, que partilhem do nosso gosto e entusiasmo pela Antiguidade Clássica, nas suas mais variadas manifestações. O processo formal de ingresso na Origem é algo que estamos ainda a estudar: encontramo-nos a redigir o regulamento da associação. Por ora, portanto, somos um grupo informal de cerca de quinze pessoas, maioritariamente de Coimbra, mas não só, todas, por enquanto, de Estudos Clássicos.

P: Ficámos a saber na nota de divulgação da associação que a actividade que organizaram para estreia são as Tertúlias Pré-Socráticas. Significa isto que pretendem revisitar, desde o seu início, o pensamento clássico?

R: Não temos qualquer plano para cobrir exaustivamente e desde os seus primórdios o pensamento grego e romano, nem queremos, de resto, focarmo-nos exclusivamente na herança filosófica ou científica da Antiguidade, pois que isso seria redutor. É até provável que a nossa próxima actividade não tenha nada a ver com esta área e que funcione em moldes bem diferentes. Temos já outras ideias, algumas, cremos, assaz arrojadas, mas, por ora, são as Tertúlias que ocupam o nosso espírito. Que não restem dúvidas, porém: mais tarde ou mais cedo, é inevitável que regressemos à filosofia, afinal é uma das maiores criações do génio grego.

P: Na nota de divulgação, referem-se aos pensadores pré-socráticos como os pais do pensamento racional, o qual veio a estabelecer as bases da ciência. Que ponte, pretendem fazer entre aquilo que, talvez erradamente, se chama humanidades e ciências?

R: O divórcio entre as ciências e as humanidades é uma realidade sobre a qual já tivemos, entre nós, ampla oportunidade de discutir e lamentar. Não deixa de ser simbólico que, na nossa primeira actividade, abordemos figuras que ambas as áreas podem, com igual orgulho, reivindicar para si. A reflexão cosmológica constitui parte inalienável e tantas vezes central da filosofia destes primeiríssimos pensadores. Será talvez de relembrar que Platão ainda inscreve, na fachada da sua Academia, o famoso dito, que se encontra embutido na entrada do nosso Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra: não entre quem não sabe geometria. As Tertúlias apresentam-se, por isso, como um exercício de memória: tempos houve em que as “duas culturas”, na designação de Snow, eram uma. Não será possível já regressar a eles: a complexidade avassaladora das matérias não o permite mais. Isso, porém, não deve impedir um diálogo que, a ocorrer, se revelaria, por certo, frutuoso. A Antiguidade, aqui, como em tantos outros aspectos, tem uma lição para quantos queiram aprender com ela, pois que não se julgue que parte do brilho deste tão fecundo período do pensamento humano não resultou, precisamente, deste cruzamento de saberes, desta curiosidade mútua.

Como disseram, "queiram os deuses" que tudo vos corra como bem, na comédia. Muito obrigada aos três.

sábado, 27 de Fevereiro de 2010

Johnny Depp e Alice



Está quase a estrear entre nós o filme de Tim Burton "Alice no País das Maravilhas", com Johnny Depp, baseado no famoso romance do matemático Lewis Carrol.

Filipe de Sousa Folque (1800-1874)

Post do historiador de ciência António Mota de Aguiar sobre o astrónomo e engenheiro Filipe Folque, cuja vida e obra está contemplada numa exposição no Museu da Ciência da Universidade de Lisboa:

Nem julgue Vossa Excelencia que por um astronomo contemplar mais o cêo que a terra lhe deixa esta de merecer muitos cuidados e séria attenção… (Filipe Folque)

A historiografia da astronomia portuguesa tem como figuras principais para os primeiros 50 anos do século XIX, dois importantes homens, que embora não sendo certamente os únicos, marcam indelevelmente estes anos da astronomia portuguesa. São eles Filipe de Sousa Folque e César Augusto de Campos Rodrigues. A primeira figura que se nos apresenta é Filipe Folque, nascido em Portalegre, em 1801, filho de um homem ilustre do seu tempo, também cientista, Pedro Folque, um espanhol refugiado ainda jovem em Portugal por razões religiosas, astrónomo a bordo da Marinha de Guerra portuguesa e, mais tarde, engenheiro geodésico do reino. Filipe Folque seguiu os passos do pai nos estudos científicos. Fez os seus primeiros estudos na Congregação dos Oratorianos, no Hospício das Necessidades. Cursou os estudos superiores na Academia da Marinha e terminou-os na Universidade de Coimbra, onde se doutorou em Matemática. Durante algum tempo leccionou Matemática na Universidade de Coimbra de onde foi demitido por razões políticas, tendo vivido alguns anos com dificuldades financeiras (tinha mulher e dois filhos), dando classes privadas até 1833, altura em que o regime liberal se implantou em Portugal e Filipe Folque foi nomeado professor de Matemática em 1837 na Real Academia da Marinha.

A Escola Politécnica foi criada pelo decreto de 11 de Fevereiro de 1837. No artº 74 deste decreto lia-se: “o Observatório Real da Marinha ficará anexo á Escola Polytechnica (...).” Filipe Folque foi neste estabelecimento de ensino nomeado professor de Astronomia e Geodesia, a 4ª cadeira das onze leccionadas na Escola Politécnica (onze, contando a cadeira não curricular de Navegação). As actas das reuniões do Conselho da Escola descrevem vários problemas na contratação de professores, especialmente nas áreas de Química e Filosofia, por não os haver com as habilitações requeridas para o exercício da actividade docente. Todavia, o provimento do docente da 4ª cadeira não encontrou nenhum obstáculo. Folque foi aceite sem nenhuma oposição, a sua docência já vinha aliás da Academia da Marinha.

Folque foi um eminente cientista na área da geodesia, tendo publicado vários trabalhos, com realce para a “Carta Geodésica” do reino, publicada em 1867, a “Carta Corográfica” do país, minucioso trabalho de todos os acidentes geográficos do território nacional, os “Planos Hidrográficos” dos principais portos e barras do reino e a “Carta Geográfica” das costas de Portugal. Homem viajado, fez parte por duas vezes da comitiva que acompanhou os reis D. Pedro V e D. Luís I, nas viagens de instrução pela Europa dos dois, na altura, ainda príncipes, tendo tido a oportunidade de visitar os principais observatórios astronómicos da Europa; além destas viagens como, diríamos hoje, conselheiro científico do Rei, coube-lhe também a tarefa de preceptor dos dois príncipes.

Em 12 de Dezembro de 1875, um ano após a sua morte, ocorrida em 24 de Novembro de 1874, o lente de Astronomia da Escola Politécnica, José Maria da Ponte Horta, lia na sessão pública da Real Academia das Ciências o seu elogio histórico, enumerando os “sucessos humanos” que em vida o cientista tinha obtido:

Filipe Folque, general de divisão; doutor em mathematica; gran-cruz da ordem de S.Thiago da Espada; commendador da ordem de Nossa Senhora da Conceição de Villa Viçosa, de Aviz, e de diversas ordens estrangeiras; par do reino; director geral dos trabalhos geodesicos, hydrographicos, chorographicos e geologicos; organisador e chefe do observatorio astronomico da Ajuda; lente jubilado da Escola Polythecnica de Lisboa; socio effectivo d’esta Real Academia (...).”

Folque foi também um grande astrónomo; não foi um homem inclinado para a investigação astronómica de ponta, que se fazia na Europa, nem tão pouco um seguidor da astronomia de posição, no sentido que tenha deixado observações dos astros e que as mesmas, como veremos mais adiante, tenham sido transferidas para grandes centros internacionais de observação astronómica. Filipe Folque não foi o observador astronómico atento, como foi Campos Rodrigues, foi sim um eminente professor de Astronomia, na Academia da Marinha e na Escola Politécnica, tendo nesta última elaborado o curso de Astronomia, escrito pela sua própria mão. Segundo Horta:

“Se o talento do dr. Filippe Folque não foi inventivo, foi por ventura mais util no sentido social, por que foi pratico e assimilador,” e “cujos attributos principaes são o methodo, a lucidez, o rigor (…)”

Folque foi também um importante cientista geodésico do reino, a quem o Portugal de hoje deve as primeiras importantes medições do país: a forma, a natureza, a posição, e as dimensões de Portugal, tendo aplicado em astronomia a mesma lucidez e rigor que utilizou em geodesia. Devemos, por isso, destacar o seu empenho como professor da Academia da Marinha e da Escola Politécnica, a luta travada na dignificação do Observatório da Marinha, do qual se tornou o director por decreto de 24 de Dezembro de 1855 e, anos mais tarde, principal mentor da construção do Observatório da Ajuda.

Folque foi um intelectual honesto e competente, zeloso cumpridor das suas tarefas profissionais. Foi também um divulgador da ciência, sobretudo da astronomia, tendo lutado para a criação de um observatório astronómico em Portugal; foi por isso, como dissemos, um mentor importante da criação, na Tapada da Ajuda, do Observatório Astronómico de Lisboa. Foi um atento divulgador e dinamizador da Astronomia em Portugal, e não tem comparação no terceiro quartel do século XIX com nenhum outro astrónomo, exceptuando Campos Rodrigues.

Pelo esforço que empenhou na recuperação do Observatório da Marinha e na criação do Observatório da Tapada da Ajuda, pelos conhecimentos que colocou como professor ao serviço da astronomia, vemo-lo como o grande impulsionador da astronomia em Portugal neste quarto de século XIX.

Em 1866, escrevia:

“Depois de tudo quanto acabâmos de referir, parece impossível que Lisboa, a capital dos descobridores do oriente, continuasse a ter por observatório astronómico em 1856 o mesmo observatorio real da marinha, no estado de abatimento em que ficou no anno de 1809, em que os seus instrumentos e biblioteca, tudo foi conduzido para o Rio de Janeiro.”

E, fazendo o ponto da situação dos estudos astronómicos em Portugal, escrevia:

“Emquanto que em Portugal, por imperdoavel incuria do governo, o estudo das praticas superiores da astronomia continuava em completo esquecimento, pelo contrario em todos os mais estados da Europa progredia com enthusiasmo o gosto pelo estudo pratico desta sciencia: os instrumentos aperfeiçoavam-se, novas maravilhas se manifestam; a sciencia astronomica sempre exigente, porque mira a perfeição, inspira na alta mecanica (...), a adquirir a quasi ideal exactidão mathematica, medindo a pequenissima grandeza de um segundo, e até das fracções de segundo! (...) os astronomos não contentes de haverem conhecido os fundamentos do systema do mundo, pretendem agora investigar quaes sejam os do universo inteiro; tentam medir a distancia da Terra ás estrellas, precisam conhecer os seus effeitos parallaticos;”

Folque encaminha aqui o seu pensamento para a observação do “muito pequeno,” que iria chegar em breve. Ele sabe que se pode estudar o “mundo,” o que aqui só pode significar o sistema solar, por oposição ao “universo inteiro,” o todo. Bateu-se pela “ideia inicial da fundação d’um observatório astronómico em Lisboa, dotado de edificio especial; instrumentos apropriados; de observadores nacionaes, e instruídos, para que também com os seus recursos Portugal podesse concorrer com os institutos, congéneres estrangeiros na resolução dos grandes problemas do estudo do céu.”

É por isso a ele que ficámos a dever em grande parte o Observatório da Tapada da Ajuda.
No seu curso de Astronomia para a Escola Politécnica, escrito em 1840, Folque chama a atenção do utilizador do mesmo para o seguinte:

“Este trabalho que sahe hoje lithographado, não pode ser tido como um Curso d’Astronomia de minha composição: he uma compilação das obras de Herschel, Delambre, Puissant, e mais que tudo de Biot: será talvez um resumo deste ultimo,” (...) “não duvido dos seus deffeitos, porque he emprehendido por um Professor, que tem tido ao mesmo tempo muitos outros deveres a desempenhar; o meu fim porem he principalmente proporcionar os meios de estudo, e diminuir o trabalho a meus descipulos.”

De facto, Folque, teve ao longo da sua vida múltiplas actividades profissionais, como a de recuperar o Observatório da Marinha, dar aulas de astronomia e geodesia, levar a cabo o seu trabalho de geodésico em várias partes do país, além de ter escrito nas décadas de 40 e 50 várias Memórias na Academia das Ciências sobre trabalhos geodésicos executados em Portugal, e além ainda de ter sido preceptor dos infantes D. Pedro e D. Luís; todo este trabalho revela os muitos afazeres que tinha, sendo por isso louváveis as preocupações didácticas do divulgador de astronomia, ao compor este curso.

António Mota de Aguiar

Estórias Republicadas

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra.

A cerimónia inaugural da Exposição Estórias Republicadas. Impressões que fazem História, terá lugar no próximo dia 3 de Março (4.ª feira), pelas 17 horas, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra.

Esta exposição pretende ser um roteiro dos momentos mais marcantes da história da Imprensa da Universidade de Coimbra, desde a sua fundação (c. 1770) até à actualidade.

NÓS IREMOS A JERUSALÉM


Novo texto do historiador João Gouveia Monteiro sobre uma outra grande derrota militar (saiu no dia 19 de Fevereiro no "Diário de Coimbra"):

A história passa-se no Egipto e na Tunísia, no séc. XIII. O protagonista é o rei de França, Luís IX, conhecido por São Luís, monarca emblemático da história francesa (na fachada principal da basílica do Sacré Coeur, em Paris, é ele quem aparece representado em estátua equestre, ao lado de Joana d’Arc).

Nos finais do séc. XI, a Igreja, saturada da indisciplina dos senhores feudais, tinha lançado o projecto das Cruzadas. A ideia era canalizar para a Síria-Palestina a energia destruidora dos cavaleiros, propondo-lhes um ideal muito mais nobre: a conquista dos Lugares Santos, então nas mãos de Árabes e de Turcos. A Primeira Cruzada (1097-1099) foi um sucesso e permitiu recuperar Jerusalém. Mas as seguintes foram um fiasco e uma delas redundou mesmo na pilhagem da maior cidade cristã do Mundo (Constantinopla, em 1204)!

São Luís (rei entre 1226 e 1270) era um bom diplomata, um excelente administrador mas também um monarca bastante piedoso. Em 1248, resolveu encabeçar a Sétima Cruzada, que dirigiu contra o Egipto por considerar que era no Cairo que residia o verdadeiro poder do Islão. Reuniu 25.000 homens que embarcaram em Aigues-Mortes (pequena cidade do sul da França onde o rei criou um sistema de canais ligando o rio Ródano ao Mediterrâneo). Em meados de Setembro, a hoste, transportada em navios genoveses, aportou no Chipre e passou aí o Inverno. Em inícios de Junho de 1249, os Cruzados atacaram finalmente Damieta, no Norte do Egipto. Animados com o sucesso, recusaram as ofertas generosas do sultão egípcio, que prometia devolver Jerusalém, Ascalon (a norte da faixa de Gaza) e o território a leste da Galileia aos cristãos, caso estes retirassem. Em Novembro, os Cruzados avançam e, em Fevereiro de 1250, faz agora precisamente 760 anos, cruzam o rio Nilo num vau. Mas, logo a seguir, um irmão de São Luís desobedece à ordem de espera para reagrupar e conduz a vanguarda francesa por um combate desastroso nas ruelas da fortaleza de Mansurá. O destroço é grande e a Cruzada sobrevive a custo. O novo sultão acorre e os muçulmanos fazem tudo para debilitar o exército cristão. Carente de alimentos e munições, enfraquecido pela doença, o exército cruzado acantona-se entre Damieta e o Cairo. Em Abril, junto a Sharamsah, São Luís é encurralado pelos Egípcios e rende-se. Um mês depois, seria libertado contra a entrega de Damieta e o pagamento de um avultado resgate. Uma trégua de 10 anos seria também concluída com os temíveis Mamelucos, que então tomaram o poder no Egipto. Derrotado, São Luís não quis todavia regressar a França sem fazer nada de útil à causa dos Cruzados. Passaria os quatro anos seguintes na Síria-Palestina, reorganizando o governo dos territórios latinos que subsistiam e restaurando as fortalezas francas da região (Acre, Jafa, Cesareia e Sídon).

Depois sim, regressou a França, mas em 1270 voltou a tomar a cruz e conduziu a Oitava Cruzada, que se desmembrou logo na Tunísia, vítima de uma epidemia de disenteria ou de tifo que roubou a vida ao próprio rei. Segundo as crónicas, São Luís teria murmurado, na noite que precedeu a sua morte, estendido num leito de cinzas espalhadas em forma de cruz: “Nós iremos a Jerusalém”

João Gouveia Monteiro

PELA CAUSA DA POESIA


Texto recebido da Editora Alma Azul:

A Poesia tem um lugar reduzido nas Livrarias. O seu espaço é cada vez mais consequente com a sua comercialização. Pouca diversidade e reduzidas vendas. E, no entanto, a quantidade de pessoas que quer editar versos é assombrosa. Parece que em Portugal se substitui a leitura de poesia pela escrita de versos.

E faz sentido. Só quem nunca leu Giánnis Ritsos, Paul Celan ou Herberto Helder, para só dar três exemplos, é que pode cair na ilusão de que a Poesia está ao alcance de qualquer um. Que ter jeito para rimas e metáforas é meio caminho para a fama e o Olimpo.

As palavras têm outra casca
lá mais para dentro como as amêndoas
e a paciência.


escreve Giánnis Ritsos, que só descobrimos através da incansável tarefa da leitura e da releitura da Poesia.

A Poesia é, pois, um exercício de leitura difícil mas compensador. Acreditem. Neste século XXI em que julgamos tudo perdido, há pelo menos algo que continua inalterado no valor, na riqueza e no conhecimento do homem e do que o rodeia: a Poesia.

Se sempre - desde a sua fundação - a Poesia foi uma causa da Alma Azul, hoje, pela força das circunstâncias, é a sua principal Causa.

Contra a mediocridade e contra o desalento é altura de regressar à Casa da Poesia, lugar onde - como um dia escreveu Sophia de Mello Breyner - ontem como hoje, (ainda) existe o Esplendor da Linguagem (ler em www.alma-azul.pt)

Elsa Ligeiro

MARILYN EINSTEIN


Por detrás de cada grande homem há uma grande mulher. Imagem preparada por Aude OLiva, do MIT, para o "New Scientist" de 31 de Março 2007. Ao perto vê-se Albert Einstein, ao longe (pode-se semicerrar os olhos, em vez de recuar) vê-se Marilyn Monroe.

quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

“VARO: DEVOLVE AS MINHAS LEGIÕES!”


Texto o historiador João de Gouveia Monteiro, especialista em história militar, saído antes no "Diário de Coimbra" (em cima início de um documentário do "Learning Channel" sobre o mesmo tema):

O acontecimento histórico que evoco hoje teve lugar há dois mil anos. Corria o ano 9 da era de Cristo quando o fabuloso exército romano (que consumia cerca de 90% dos recursos do orçamento do Estado romano!) sofreu uma das maiores humilhações da sua história. Aconteceu em Teutoburgwald (ou floresta de Teutoberg), na parte noroeste da Alemanha, perto de Osnabrück e da fronteira com a actual Holanda. Nada mais, nada menos do que três legiões romanas (cerca de 15.000 homens, quase todos peões), acompanhadas por seis coortes de infantaria auxiliar e por três alas de cavalaria auxiliar (tropas de origem bárbara recrutadas nas fronteiras do Império) foram surpreendidas e aniquiladas por uma força de Germanos chefiada pelo líder rebelde Armínio, príncipe dos Queruscos. A operação, além de brutal (nela pereceram uns 20.000 soldados), teve algo de insólito. O exército romano era chefiado por Públio Quintílio Varo, legado provincial da Germânia, antigo governador da Síria e parente de Octávio Augusto, o primeiro imperador romano (27 a.C.–14 d.C.). A marcha florestal que Varo levava a cabo na Germânia inseria-se no projecto de Augusto para fazer chegar as fronteiras do colossal Império até às margens do rio Elba. Os riscos eram conhecidos, mas havia um pelo qual Varo decerto não esperava: ser surpreendido e dizimado durante a marcha por uma emboscada planeada e liderada pelo seu amigo pessoal Armínio, um antigo servidor do exército romano e um homem que chegara a receber a cidadania romana e o estatuto de cavaleiro de Roma… Não se conhecem demasiados detalhes da operação, mas os arqueólogos identificaram o local da emboscada e têm revelado elementos impressionantes para o conhecimento da verdadeira dimensão da chacina. Sabe-se também que Varo, desesperado com a surpresa do ataque germânico, se suicidou antes de consumado o massacre (algo bastante contrário ao procedimento habitual dos generais romanos). Nos dias seguintes, muitos pequenos destacamentos de tropas romanas espalhados pela região sofreram ataques violentos dos bárbaros, entusiasmados com o sucesso da operação de Teutoburgwald, sendo poucos os legionários e auxiliares que conseguiram alcançar em segurança a região do rio Reno, para aí ficarem ao abrigo de outras legiões do Império. O desastre configurou um dos poucos fracassos do projecto militar de Augusto, cujo exército (contando perto de 300.000 efectivos, distribuídos por 25 legiões, tropas auxiliares, guarnição de Roma e marinha) conquistara o Noroeste da Península Ibérica, os Alpes e os seus grandes vales, que submetera a Judeia e o Egipto e que ousara até promover expedições militares na Arábia (actual Jordânia) e na Etiópia. Compreende-se, por isso, o que as fontes literárias nos relatam acerca da reacção de Augusto, quando informado do desastre na floresta alemã: já bastante idoso, conta-se que deixou crescer o cabelo e a barba durante um mês, em sinal de luto, e que passou a vaguear pelo seu palácio, em Roma, batendo com a cabeça nas paredes e gritando: “Quintílio Varo, devolve as minhas legiões!”.

João Gouveia Monteiro

Professores: deixem os alunos em paz!

O "grito" de libertação, de emancipação cantado pelos Pink Floyd já me serviu para outro ou outros textos que publiquei no De Rerum Natura. A razão é simples: ele resume exemplarmente a concepção de ensino que se produziu e imperou no século XX, e na qual se tende a insistir.

Essa concepção é a seguinte: os professores não devem organizar as aulas com base na palavra, (sobretudo se a palavra for a sua), estruturar a relação pedagógico-didáctica (a relação com fins precisos de transmissão da informação e de desenvolvimento cognitivo), nem usar quadro de giz, livros ou outros documentos em papel (que são recursos tradicionais). E não devem fazer tudo isto porquê? Porque os alunos aprendem (ou seja, desenvolvem competências) ao trabalharem sozinhos ou uns com outros (ou seja de forma autónoma e colaborativa), através da pesquisa de assuntos do seu interesse vivencial e, muito importante, recorrendo (sempre) às novas tecnologias da informação e comunicação.

E haverá estudos que corroborem tal concepção? Sim, há. Mão amiga fez-me chegar a divulgação de um que parece ser de revisão da literatura e que inclui dados relativos ao sucesso nos níveis de escolaridade básica, secundária e superior. O título do texto que li e que apresento de seguida é sugestivo: Ensino online produz melhores resultados do que as aulas convencionais.

"Os resultados deste estudo, realizado em colaboração com o instituto de investigação SRI International, revelam que 6 de cada 10 jovens que utilizam métodos de ensino online aprovam com boas notas as provas curriculares, face a 5 de cada 10 que que recorrem unicamente ao modelo tradicional de classes presenciais.

Apesar do método online registar uma taxa de sucesso mais elevada, os investigadores constataram que o êxito foi ainda mais notório quando se combinam os dois modelos - online e presencial - mediante o sistema de Blended-learning.

Os estudantes que recebem toda ou parte da sua formação através da internet obtêm, em geral, um melhor desempenho do que aqueles que simplesmente assistem às aulas presenciais. Esta é a conclusão de um grupo de investigadores norte-americanos do Departamento de Educação dos E.U.A., que analisou 99 estudos sobre esta temática entre os anos de 1996 e 2008.

A (...) directora docente da Master.D Portugal, refere a este respeito que “as novas tecnologias de informação e comunicação oferecem enormes potencialidades ao ser humano no decurso do seu processo de aprendizagem. Entre todas as vantagens que a educação online congrega, penso que a mais importante é a criação de experiências individuais de formação que despertam o interesse e curiosidade do indivíduo e que fomentam, simultaneamente, uma maior autonomia, espírito crítico e ânsia por novos conhecimentos.”

Por outro lado, os especialistas da empresa de formação à distância Master.D, afirmam que os jovens portugueses recorrem pouco às novas tecnologias de informação como ferramenta auxiliar de estudo. “As instituições de ensino desempenham um papel fundamental na educação e formação dos alunos e devem ajudá-los a explorar as potencialidades das TIC enquanto suporte pedagógico. As novas metodologias e sistemas de ensino são fundamentais para garantir um nível de formação mais elevado e o desenvolvimento das aptidões da nossa comunidade de estudantes.”

Como David Marçal explicou em texto recente é preciso ter algum sentido crítico em relação aos estudos científicos: sendo feitos por pessoas, podem enfermar de erros. Neste que destaquei e tal como está apresentado, insinua-se pelo menos um erro de conceptualização teórica: o erro de que a aprendizagem dispensa os professores.

Representações da Cidade Antiga

Informação recebida pelo De Rerum Natura.

A biblioteca digital Classica Digitalia têm o gosto de anunciar a última novidade editorial. Trata-se do livro organizado por Gabriele Cornelli e intitulado Representações da Cidade Antiga: Categorias históricas e discursos filosóficos.

Trata-se de um livro feito em parceria com o Grupo Archai e a Universidade de Brasília, iniciando assim, de forma altamente simbólica, a colaboração lusófona global do braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos.

Conforme é prática dos Classica Digitalia, tanto o acesso à biblioteca digital como o descarregamento dos e-books são gratuitos. Os preços indicados (PVP) dizem respeito aos mesmos volumes, mas editados em formato tradicional de papel.

Referência completa: Gabriele Cornelli (Org.) (2010). Representações da Cidade Antiga. Categorias históricas e discursos filosóficos. Coimbra: Classica Digitalia/ CECH/ Grupo Archai. 173 p. PVP: 19 Euros [capa dura]

Deus não se queixa

Os actos de Deus são realmente muito convenientes para desresponsabilizar os homens, porque Deus em geral não se queixa. Uma reportagem do programa Biosfera, já com dois anos, em que se faz uma antevisão bastante detalhada da tragédia na Madeira.

Lançamento dos "Tesouros" hoje na Joanina

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra:

Hoje, dia 25 de Fevereiro de 2010, pelas 17h30m, terá lugar na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra a apresentação pública da obra Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, com coordenação de A. E. Maia do Amaral. A apresentação do livro estará a cargo do Doutor Jorge Couto, Director-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal.

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra guarda tesouros que nos trazem a memória de cinco séculos do tempo português e mundial. O livro a ser lançado mostra alguns dos muitos tesouros que a Biblioteca Geral alberga. É obrigatório referir a colecção de mais de 3500 manuscritos, que por sua própria natureza são únicos; a Sala do Visconde, com a colecção de folhetos raros do tempo da Restauração; a Sala Oliveira Martins, com o espólio bibliográfico do grande historiador e escritor da “geração de 70”; e a Sala de São Pedro, na qual a rica colecção de livros do Colégio de São Pedro se conserva nas suas estantes de origem e onde tantas e tão notáveis exposições já se realizaram.

Beneficiária dos favores reais e do Depósito Legal desde os tempos da República, hoje na Biblioteca Geral pode o leitor encontrar todo o tipo de monografias e de publicações periódicas. Com as novas tecnologias da informação e da comunicação deram-se nos últimos anos passos decisivos para construir uma biblioteca moderna.

De tudo isto e muito mais se dá conta pormenorizada neste livro, através dos textos de António Filipe Pimentel sobre a arquitectura e a arte dos dois edifícios, de A. E. Maia do Amaral sobre as bibliotecas eruditas e espólios literários e científicos, num capítulo, e marcas bibliográficas, noutro capítulo, de Saul Gomes sobre os manuscritos iluminados, de Maria da Graça Pericão sobre a tipografia quatrocentista e quinhentista, de Flávio Pinho sobre os documentos musicais, de Iuliana Gonçalves sobre a imprensa periódica portuguesa, de Alexandre Ramires sobre a fotografia antiga, e de Carlos Fiolhais e seus colaboradores sobre o Instituto de Coimbra e sobre a rede de bibliotecas da Universidade. De referir, também a arte do físico e fotógrafo Paulo Mendes, que, com grande cuidado e rigor, fixou aspectos e obras de uma maneira por vezes surpreendente. A coordenação esteve a cargo de A. E. Maia do Amaral, Director Adjunto da Biblioteca.

Contamos com a vossa presença.

Imprensa da Universidade de Coimbra
Rua da Ilha - 3000-214 Coimbra
Tel. (+351) 239 410 098
Fax: (+351) 239 410 043
E-mail: imprensauc@ci.uc.pt
URL: www.uc.pt/imprensa_uc
Compras online: http://siglv.uc.pt/imprensa

Loja de Matemática on line

Informação recebida da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM):

As novidades da loja da SPM já estão à distância de um clique. A partir de agora já pode efectuar todas as suas consultas e encomendas através do site. A SPM criou este espaço especialmente a pensar nos seus sócios, que, desta forma, podem fazer as suas encomendas com comodidade e a preços especiais. Num formato prático e funcional, a loja online permite-lhe estar sempre actualizado sobre o que é publicado em Portugal na área da matemática. Conheça as novidades, consulte as sinopses e não deixe de visitar as secções de VHS, CD e DVD e também de jogos didácticos. Faça a sua visita ainda hoje!

Memórias de Fragateiros


Informação recebida da Sociedade de Geografia de Lisboa (cclicar para ver melhor).

Regressar ao Livro


Depoimento de João Gouveia Monteiro, director da Imprensa da Universidade de Coimbra, prestado à Newsletter daquela Universidade sobre as mais recentes actividades daquela editora:

A Imprensa da Universidade de Coimbra (IUC) tem estado a promover uma série de iniciativas com diversos parceiros dentro da Universidade de Coimbra (Associação Académica, Biblioteca Geral - BGUC, Arquivo, Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras, Teatro Gil Vicente, Secção de Comunicação do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da Faculdade de Letras, etc.) cujo objectivo prioritário é trazer os jovens (e os menos jovens!) de volta à leitura convencional! Assim, após uma Feira do Livro Universitário nos Jardins da Associação Académica e um Colóquio muito participado que teve lugar em Novembro (sobre “O livro e a leitura entre os Jovens”) a IUC decidiu promover um concurso intitulado “10 Paixões em forma de Romance”. Até 31 de Março, cada docente, estudante e funcionário da UC pode eleger os três romances escritos em língua portuguesa que mais gostou de ler ao longo da sua vida. Podem ser considerados romances de todas as épocas, escritos por autores de Portugal, do Brasil ou da África de expressão portuguesa. O link directo para aceder a esta votação é este. Em princípios de Abril, a IUC e os seu parceiros neste projecto (Biblioteca Geral e Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras) vãoapurar quais as 30 obras mais votadas (até agora, “Os Maias”, de Eça de Queiroz, e “Memorial do Convento”, de José Saramago, encabeçam a votação, mas muitas dezenas de obras foram já votadas por perto de duas centenas de pessoas). Depois disso, um júri composto por escritores, professores e críticos literários seleccionará, de entre essas 30, uma shortlist de 10 obras. Estarão então encontrados os “10 mais” da história da literatura de língua portuguesa, que servirão de pretexto para tertúlias e conferências diversas e para uma exposição na BGUC, ao longo do ano lectivo de 2010-2011.

Por outro lado, visando levar mais longe a história da IUC e participar nas comemorações do centenário da Republica portuguesa, estamos a preparar (com a Secção de Comunicação do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da FLUC e com o TAGV) uma exposição itinerante intitulada “Estórias Republicadas”. Trata-se aqui de evocar a história da Imprensa da UC desde as suas origens (1772/73, com o Marquês de Pombal) até aos dias de hoje. Por aqui desfilarão momentos como a reforma pombalina da UC, as Invasões Francesas e a resistência do Batalhão Académico, o aparecimento da imprensa periódica em Coimbra (com o jornal “Minerva Lusitana”), as lutas liberais, a Lei das Rolhas, a implantação da República, o Estado Novo e a extinção da IUC, etc. Esta exposição, composta por cerca de duas dezenas e meia de painéis com pouco texto e muita imagem, acompanhados por um CD-Rom que permitirá grande actividade com o público e que ajudará a explorar diversos temas relacionados com os núcleos citados, circulará a partir de Abril por 25 bibliotecas municipais e escolares e por muitas escolas do ensino básico e secundário da Região Centro de Portugal. Mas, mais tarde, em 2010-2011, a sua itinerância levá-la-á ainda mais longe, a Portugal inteiro e, se possível, ao Brasil e a Angola.

Em 15 e 16 de Abril, a IUC organizará também, na sua sede na Rua da Ilha e na Fundação Cultural Universidade de Coimbra (FCUC: Palácio Sacadura Botte, à Sé Velha), um Colóquio sobre Gestão Editorial e Marketing do Livro, uma iniciativa nunca antes realizada em Coimbra. Trata-se, no primeiro dia, de reunir os melhores editores portugueses, de escutar o balanço e os segredos das suas experiências de sucesso e de discutir com eles temas tão actuais quanto a divulgação do livro, a era do digital, a distribuição ou o próprio futuro do livro!... No segundo dia, na FCUC, o evento funcionará em regime de workshop sobre Mercado Editorial Português e Estratégias de Valorização do Livro, com o apoio dos Booktailors. A iniciativa reúne a IUC ao Mestrado em Estudos Editoriais da Universidade de Aveiro e à Associação Portuguesa de Editoras do Ensino Superior. As inscrições poderão ser feitas através deste sítio.

Na segunda quinzena de Abril, a IUC também estará presente na Feira do Livro de Coimbra. Aí poderemos exibir as nossas novidades editoriais (temos já mais de 200 títulos em Catálogo e estamos a publicar cerca de um livro por semana), arrumadas em 3 séries (Investigação, Ensino e Documentos) e em 14 colecções temáticas. Destas, destacamos a nova colecção “Estado da Arte”, virada para o grande público: livros de bolso versando temas de interesse geral abordados por especialistas reputados com capacidade para escrever de forma didáctica (e quase sem notas e bibliografia!). Depois de “A Crise Financeira Internacional” (João Sousa Andrade et alii) e de “Músicas do Mundo”, de José Eduardo Braga (os últimos títulos a serem editados, em finais de 2009), esta colecção prosseguirá com pequenos livros sobre a aventura da hominização (Eugénia Cunha), sobre violência doméstica (Teresa Magalhães), sobre empreendedorismo (Pedro Saraiva e Jorge Figueira), sobre infertilidade (Teresa Almeida Santos), sobre o envelhecimento (Margarida Pedroso de Lima), sobre a ciência em Portugal (Carlos Fiolhais e Décio Martins), sobre a pintura ocidental (Fernando Montesino), sobre o diálogo inter-religioso (Anselmo Borges), sobre a música erudita ocidental (J. M. Pedrosa Cardoso) e sobre muitos outros temas que oportunamente confirmaremos. Por menos de 8 euros por livrinho, poderemos todos formar uma colecção excelente, diversificada e muito actualizada!

De modo a apoiar o mais possível os seus autores, a IUC acaba de decidir oferecer-lhes um desconto de 45% na aquisição de qualquer título do nosso Catálogo (desde que a aquisição se faça através de cheque, na nossa sede da Rua da Ilha, n.º 1, bem juntinho à Sé Velha). Além disso, 2010 será o ano da 1.ª edição do Prémio Joaquim de Carvalho, que visa distinguir a melhor obra editada pela IUC no ano anterior. O vencedor deste Prémio (no valor de 3000 euros e que contará com um mecenas: Sr. Carlos Dias), será anunciado em finais de Março, no termo dos trabalhos de um júri rotativo nomeado pelo Conselho Editorial da IUC e que reúne em 2010 os Doutores Alexandre Sá (Letras), Manuel Godinho (Ciências e Tecnologia), Fernando Ramos (Farmácia), Joaquim Feio (Economia) e Salomé Marivoet (Desporto e Educação Física). O galardão será entregue em cerimónia a anunciar oportunamente, durante o 1.º semestre de 2010.

2010 será também um ano importante para a expansão das livrarias da IUC. Juntamente com o nosso parceiro comercial (a Coimbra Editora, que assegura também a distribuição das nossas obras em todo o país) abriremos duas novas livrarias: uma no Pólo 2, no edifício central da Faculdade de Ciências e Tecnologia (mesmo ao lado do balcão do Banco Santander que já lá está instalado) e no Pólo 3 (no edifício da Biblioteca de Ciências da Saúde). Esperamos poder fazer chegar as nossas novidades editoriais cada vez mais longe, cobrindo o melhor possível toda a comunidade universitária. A IUC deseja ser a Casa-editora de toda a UC e também por isso aposta na diversificação das áreas científicas cobertas pelas suas edições. Entretanto, animaremos também a nossa livraria virtual, em fase de grande expansão e à qual todos podem aceder através deste sítio .

Por fim, já podemos também divulgar a realização, em Novembro de 2010, em dia a anunciar, de um importante Colóquio sobre “As três Religiões do Livro”. Queremos discutir em profundidade e em conjunto as premissas e a viabilidade de um verdadeiro diálogo entre culturas religiosas que têm uma matriz comum (as três religiões abraâmicas: Judaísmo, Cristianismo e Islão) mas tantas diferenças cultuais e entendimentos e propostas aparentemente tão distintas para o futuro da Humanidade. Estimamos poder contar com presenças muito relevantes nesta iniciativa, que decerto irá animar na próxima rentrée a comunidade universitária e a própria cidade de Coimbra!

João Gouveia Monteiro
Director da Imprensa da Universidade de Coimbra

LIVRARIA IDEAL

Dei uma entrevista ao programa "Livraria Ideal", da responsabilidade do jornalista João paulo Sacadura, que passou an TVI24, mas que pode ser visto na Internet: aqui (clicar em vídeo).

quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

Ciência e Religião: Mais próximas do que parece


Com a devida vénia transcrevemos artigo de Camilo Soldado no último jornal universitário "A Cabra":

Desde a origem do pensamento científico, percebeu-se que religião e iência seriam dois campos paralelos embora com coincidências, até aos dias de hoje. “Ciência e a religião partem de necessidades diferentes do homem”. Quem o diz é o docente do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, Carlos Fiolhais.

Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra mas também teólogo e filósofo, Anselmo Borges considera que as duas áreas “não se incompatibilizam”, mas admite que a ideia do contrário possa existir devido ao “facto de ter havido conflitos de parte a parte” ao longo da história.

Moisés Espírito Santo, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa (UNL) e especialista em sociologia e etnologia, considera que os domínios da religião e da ciência são “paralelos, mas não forçosamente contraditórios”. O sociólogo esclarece que “a prática religiosa tem um fundo da utopia, do ideal, enquanto a ciência nos permite encontrar os objectivos”.

Se Moisés Espírito Santo afirma que há domínios comuns aos dois temas, Carlos Fiolhais sustenta que tanto a doutrina religiosa como o pensamento científico “têm obviamente o homem como denominador comum”.Precisamente devido a esse factor humano em comum é que a relação entre fé e ciência nem sempre foi a mais pacífica. O exemplo mais célebre será o de Galileu Galilei, que defendia um modelo solar contrário ao defendido pela Igreja Católica e, por isso, foi perseguido. Anselmo Borges defende que, neste caso, “houve uma má interpretação da Bíblia”. O cientista vai mais longe e afirma que, quando a religião é confrontada com a ciência, geralmente “sai a perder desse embate”. “A tensão entre ciência e religião começou com o próprio início da ciência moderna”, afirma o cientista. Sobejamente conhecido é também a oposição da Igreja face à teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. É consensual que estes são apenas dois exemplos do choque entre dois campos distintos que não devem ser misturados.

No mundo ocidental, regista-se cada vez mais um abandono da fé, pelo menos da forma como esta é praticada. Estará este facto relacionado com o avanço da tecnologia? Tanto Moisés Espírito Santo como Carlos Fiolhais acreditam que não. O professor da UNL considera que “se a ideia de Deus se perde na história da humanidade, é por culpa das diversas crenças que confundem religião com culturas locais e costumes de uma determinada época”. Carlos Fiolhais entende que “pode haver uma perda de fiéis presentes em cerimónias, mas isso pode ser contrabalançado por outras formas mais difusas de religiosidade” e que “a crença tem muito a ver com a aculturação num dado meio.” Já Anselmo Borges acredita que tal pode ser possível, nomeadamente “por causa do avanço das neurociências”, que pode fazer com que “alguns pensem que fica em causa toda a dimensão espiritual”.

A ciência tem uma base empírica que “recorre à racionalidade e à experimentação, pronta a corrigir os erros se houver evidência para eles. Isso assegura-lhe a capacidade de progressão ao longo dos tempos”, explica Fiolhais. O docente da FCTUC esclarece que “quando um cientista é dogmático não está decerto a ser científico. E quando um religioso está disposto a rever continuamente as verdades da sua religião não está decerto a ser religioso”. “As religiões são mutantes, a ciência é inflexível”, acrescenta Espírito Santo, que entende que apenas a “liberdade individual permite a criação e a evolução do pensamento científico”. É nesta tese que se apoia para dizer que o pensamento científico apenas existe nos continentes europeu e americano, pois afirma que no exemplo do Islão isso não acontece: “a condição para o desenvolvimento científico é a religião não interferir no pensamento individual. O Islão é incompatível com a ciência por causa disso”.

Pode então afirmar-se que a crença religiosa não constitui um entrave ao desenvolvimento do pensamento científico, mas depende muito do contexto cultural no qual o indivíduo está inserido e, como conclui Carlos Fiolhais, “a eventual crença religiosa de um cientista não o limita ou retira objectividade e valor à ciência que faz”.

HUMOR: Investigação em células estaminais vai ter que apresentar facturas de gasolina e restaurantes


Os ministros da União Europeia conseguiram chegar a acordo para continuar a financiar a investigação com células estaminais, após os oito países que ameaçaram bloquear os fundos concordarem, desde que a investigação não aparecesse como "células estaminais". Assim, por exemplo, em vez de uma factura de "Estudo para reconstituição de tecido neuronal com vista o tratamento de Parkinson e Alzheimer" deve aparecer "aluguer automóvel", "despesas de representação" ou "disquetes de cinco e um quarto".

(do baú do Inimigo Público)

Ciência no cinema de animação



Informação recebida da Universidade do Porto:

Informação sobre 3 eventos a decorrer no ciclo Nomadic.0910 - Encontros Arte e Ciência, nas unidades orgânicas da Universidade do Porto e outros locais emblemáticos da Cidade Invicta, com a premissa de entrecruzar arte e ciência, numa relação nem sempre óbvia, mas sempre impressionante:

- Screenlabs - a segunda sessão do ciclo traz ao público em geral, de forma gratuita, cinema de animação premiado, com um forte enfoque na ciência.

- Medidas entre Barras - reposição da performance pelos Sem Palco, na Faculdade de Direito, sobre os efeitos do enclausuramento e do isolamento humano.

- Conversa e Visita Guiada da Exposição Retrospectiva de Yuriy Pogorelov - a primeira exposição de ilustração do professor de Física da Faculdade de Ciências da UPorto, há 14 anos em Portugal, será dada a conhecer por quem a ilustrou. O próprio Yuriy Pogorelov fará uma visita guiada.

A comissariar o ciclo de eventos estão Heitor Alvelos (também comissário do Festival Future Places e docente da Faculdade de Belas Artes da U.Porto) e Maria Strecht Almeida, docente no ICBAS. O ciclo tem como base a Reitoria da Universidade e conta com a participação das faculdades e laboratórios associados à Univ. Porto, através de Iniciativas Locais, promovidas pelas unidades orgânicas e apoiadas pela Reitoria. O comissariado do Nomadic.0910 propõe também programação, em paralelo com as unidades orgânicas, para um output diferenciado, que leve a reflexões multidisciplinares no âmbito do Ciclo.

Entre os eventos já apresentados,com início a 17 de Setembro com Stories of Art and Science, conferência que deu o mote de abertura a Nomadic.0910, e com a inauguração da exposição premiada Design 4 Science, da Universidade de Sunderlandencontram-se performances, concertos, jam sessions, exposições, colóquios, instalações, sessões de improviso e conferências. Outros ainda estão para acontecer, até 25 de Março, com a conferência de encerramento do ciclo.

terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

O trabalho dos que repõem a ordem

Se para os "Actos de Deus", como Carlos Fiolhais lembrou em texto antes publicado, podem contribuir, e muitas vezes contribuem, erros, negligências, precipitações, bem como interesses menos confessáveis, também é verdade que, para socorrer as pessoas que são vítimas desses “Actos” e para repor alguma ordem na Natureza, vemos intervir, equipas de excelência composta por técnicos discretos e dedicados, que percebemos dominarem saberes especializadíssimos.

Digo isto lembrando-me, em concreto, da leitura dum livro sobre as operações de resgate dos mortos que a queda da Ponte de Entre-os-Rios causou. Os seus autores são o capitão-de-fragata e engenheiro hidrográfico Augusto Ezequiel, e o jornalista António Vieira.

Sobre a escrita deste livro, escreveu o sociólogo António Barreto em Setembro de 2001, no Prefácio:

"Descrever acontecimentos dramáticos, mas sem explorar os sentimentos fáceis. Falar da dor sem pieguices. Narrar um empreendimento, de todos conhecido, mas de modo a que, ao ler este texto, ficamos com a impressão de que não sabemos o fim (...).

Creio não temos, em toda a literatura contemporânea portuguesa, nada que se lhe pareça. Sob o olhar obsessivo de toda a população, aqueles marinheiro tinham tarefas particularmente difíceis a executar. A pressão das emoções, da política, das televisões, da imprensa, dos “directos”, da concorrência entre empresas de informação e de toda a opinião pública era tal que se corria o risco de fazer mal o trabalho. Mas, para bem cumprir a sua missão também se corriam riscos: os de contrariar a dor de alguns e de atentar contra os direitos de muitos. Era preciso ser eficaz, competente e rigoroso; e, ao mesmo tempo, aberto transparente e sensível. Podia consolar-se quem sofria, mas se devia dar esperança de vida (…).

Não se pense que o Comandante Ezequiel e seus colaboradores quiseram sobrepor, a todos os direitos e a todos os sentimentos, a lógica implacável de eficiência militar, do rigor científico e do império da técnica. Não ! Quem ler o livro perceberá rapidamente que o seu problema era bem diferente e bem mais difícil. Queriam combinar o melhor possível direitos e eficiência, sentimentos e técnica, informação e segurança. Não foi trabalho fácil."

Referência completa: Ezequiel, A. & Vieira, A. (2001). Missão em Castelo de Paiva: Relato de um participante na operações de resgate. Lisboa: Editorial Caminho.

15 dias a comer iogurtes

Não passa pela cabeça de ninguém que todas a músicas sejam boas, só pelo simples facto de serem músicas. Mas, por alguma razão, há uma convicção subliminar difusa de que todos "estudos científicos" são iguais. E todos bons. Há uma razão para isso, que é o sistema de revisão pelos pares. Ou seja, um conjunto de investigadores escreve um artigo em que descreve um trabalho e respectivas conclusões. Este artigo é lido por outros cientistas, que podem sugerir alterações ou esclarecimentos adicionais e que propõem ou não a sua publicação. O editor, com base nas opiniões dos vários revisores, decide ou não publicar o artigo. É um sistema que tem provado os seus méritos, um pouco como a democracia (é o pior sistema, à excepção de todos os outros). É inegável que o conhecimento tem avançado com este sistema, havendo evidentemente alguns problemas. Pode-se dizer que funciona tão bem como a qualidade dos seus intervenientes, tal como a democracia. Por isso, nem todos os artigos (ou "estudos") são iguais. Há estudos melhores que outros. Uns são publicados em revistas mais prestigiadas e rigorosas (nem sempre a relação entre as duas é linear) que outros. E o sistema de revisão não é à prova de falhas. Os resultados podem ser sempre de algum modo "penteados" pelos investigadores sem que os revisores (que não repetem as experiências) dêem por isso. Ou mesmo falseados. Portanto, se cientistas sérios escreverem artigos que são revistos por revisores empenhados e publicados por editores responsáveis, temos um estudo credível (e revistas que publicam frequentemente estudos assim são tendencialmente mais lidas e têm um maior impacto). Tendo em conta que todos os intervenientes são seres humanos, é evidente que isto nem sempre funciona bem. Ou seja, há trabalhos com erros metodológicos graves e conclusões abusivas ou erradas, que podem perfeitamente ser publicados. Claro que, se for um assunto relevante, em que trabalhem vários grupos independentes, há uma tendência natural para as coisas serem esclarecidas. E esta penso que é uma das grandes virtudes da ciência: o auto-escrutínio da comunidade científica.

Quando se recorrem aos "estudos" nos meios de comunicação o problema é mais grave. Por vezes nem sequer há a necessidade de explicitar de que "estudos" é que estamos a falar, bastando a sua evocação vaga. Mais frequentemente não há referências aos métodos utilizados (se estamos a falar de uma amostra estatisticamente significativa, se foi feito um controlo negativo, etc.), se o estudo está de acordo com a restante literatura (ou se é um forasteiro e nesse caso, porquê?), se há uma revisão sobre o tema (e como esse trabalho se enquadra), ou uma perspectiva crítica de outros cientistas. Compreendo que (por experiência própria, já fui jornalista de ciência no Público por três meses) nem sempre isto é compatível com os tempos de produção noticiosa. Em qualquer dos casos julgo que os jornalistas deveriam optar por uma escrita defensiva, atribuindo as afirmações aos seus autores (e não assumindo-as como "certas"), mantendo uma certa sobriedade. O deslumbramento com "coisas giras" é o motor para a amplificação do disparate. E nada disto é inocente: as máquinas de marketing das companhias farmacêuticas e indústria de suplementos alimentares sabem muito bem como uma perspectiva "que interessa às pessoas" pode muito bem disfarçar a falta de solidez dos estudos e de consenso científico acerca de questões de interesse comercial (como iogurtes com pro-bióticos).

Isto a propósito de um artigo publicado no Público de hoje. O jornalista viajou a convite da Danone até Paris para ser bombardeado com propaganda acerca dos iogurtes que contém suplementos para regularizar o "trânsito intestinal". O facto de ter ido não tem nada de mal (eu teria ido também, se tivesse o tempo e a oportunidade!). A sua ida não implica nenhum compromisso quanto ao conteúdo ou mesmo publicação de um artigo sobre o assunto (a decisão de publicar até nem é do jornalista).

Lendo o texto todo, reconheço que há um algum esforço de fazer um trabalho jornalístico algo distanciado do folheto de publicidade da Danone (ouvindo outras partes), mas transpira vários equívocos e incoerências. Escolhi alguns para comentar:
"20 anos de história e artigos científicos que credibilizam a publicidade"
Mais à frente no próprio artigo é possível ler que "os estudos actuais mostram alguma falta de consenso (...)". E, quanto à história, não credibiliza nada. A homeopatia tem mais de 150 anos e isso não faz com que tenha uma acção fisiológica real. A mitologia propaga-se muito bem pelo tempo.
"Um iogurte com milhões de bactérias especiais que o P2 resolveu testar."
(....) Foi o médico que deu a prescrição certa ao P2, referindo que estava comprovado que os resultados do Activia eram sentidos após a primeira semana, mas que só ao fim de 15 dias de consumo diário de um iogurte por dia é que as bactérias funcionavam a valer."
Portanto, tudo isto configuraria um ensaio clínico, com uma amostra de um (ou dois?), com as conclusões tiradas previamente. Nicolau Ferreira escreve à frente (e bem) que é um estudo muito pouco científico. Então para quê todo este "embrulho"?
"Assim, se alguém nos perguntar se o Activia resulta, responderemos com um encolher dos ombros pouco científico: "Durante estes 15 dias não, mas também não tivemos uma dieta especialmente butirogénica [rica nas tais fibras que são o alimento das bactérias]." O iogurte, no entanto, come-se bem."
A percepção dos jornalistas se o Activia "resulta" não seria nunca prova se resulta ou não (aliás, depois de toda a doutrinação a que foi sujeito pela Danone, o estranho é que não conclua pelos extremos benefícios do iogurte). Por exemplo, eu até acredito que a Bárbara Guimarães esteja plenamente convencida de que o creme anti-rugas que anuncia na televisão funcione lindamente. Mas isso não é uma demonstração da sua acção. E o simples facto de a Bárbara Guimarães pensar que funciona possivelmente é o suficiente para induzir nas suas (mencionadas) amigas a mesma convicção. E, nos espectadores do anúncio, espera a empresa que o vende. E o facto de pensarmos que temos menos rugas se usarmos um creme hidratante mais caro,possivelmente até tem um efeito positivo no nosso bem estar e valerá o dinheiro (para quem o possa pagar). Mas isso não significa que tenha uma acção fisiológica melhor do que um outro creme hidratante mais barato.

O que está aqui em causa é a convicção veiculada pelo marketing, de que podemos ter todos vidas miseráveis (sem tempos livres, actividades de lazer ao ar livre, prática desportiva ou uma alimentação equilibrada), mas que de algum modo vamos ser todos felizes se tomarmos uns comprimidos ou ingerirmos alimentos com certos suplementos.

Para terminar, tenho curiosidade sobre estas indicações da Associação Portuguesa de Nutricionistas (APN), transcritas no artigo:
"Alguns dos efeitos benéficos das bactérias como a Lactobacillus e a Bifidobacterium - o género a que pertence a espécie da bactéria do Activia - são, segundo a APN, "a melhoria da flora intestinal (...), a diminuição de diarreias, gases e obstipação, o reforço das defesas do organismo, a prevenção de alergias e facilitarem o processo digestivo".
Que defesas naturais do organismo estamos a falar? Glóbulos brancos? Anti-corpos? Coagulação mais rápida?

As fracturas morais

Novo texto de João Boavida, antes saído no diário As Beiras.

Há poucos dias ocorreu no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa o XVIII Colóquio da AFIRSE (Associaction Francophone Internationale de la Recherche Scientifique en Education) cujo tema foi Deontologia, ética e valores na Educação – utopia e realidade. Talvez não haja hoje tema mais actual e mais pertinente, mas o subtítulo - utopia e realidade - dá que pensar.
«Considerado por uns como um caminho de esperança fundamentada para um mundo melhor e mais equilibrado, embora considerado por outros como uma utopia inócua, o apelo ao reforço ou retorno à reflexão ética tem-se multiplicado em várias instâncias da vida social. Este apelo ganha particular pertinência perante a actual crise que assola o mundo em que a quebra de ética e de valores desempenha um papel considerável».
Foi esta a ideia com que os organizadores apresentaram e justificaram o congresso. É uma ideia já corrente: A actual crise económica, que tantos dramas está a provocar em todo o Mundo, é o resultado da quebra de regras, da falta de prudência, da ganância sem limites, da total falta de consideração pelas necessidades e direitos dos outros, etc. Enfim, coisas que no ultra-liberalismo económico nada contam, porque os mercados tudo mandam, apesar de, afinal, estarem a destruir-se a si próprios.

Durante três dias, portugueses, franceses, brasileiros, espanhóis fizeram conferências, debateram em mesas redondas, discutiram em simpósios, num total de mais de duzentas comunicações. Tudo à volta dos valores no ensino, do básico ao superior, nas empresas, nos serviços, nas comunidades, segundo as mais variadas perspectivas e experiências, mas todos com a mesma preocupação e pressupondo a mesma ideia: sem moral nem bons costumes não é possível viver.

Os que pensam, que tudo isto é conversa de moralistas (termo hoje pejorativo) de retrógrados (como se a fuga em frente fosse solução) ou de reaccionários (como se não fosse necessário, em certas situações, reagir, lutar contra) devem perceber que o mundo só funciona porque há regras e porque a maioria as vai cumprindo, e vai tendo noção do justo e do injusto, do correcto e do incorrecto, do bem e do mal.

E os educadores ao debaterem e analisarem situações, casos, experiências, investigações, procuram contribuir para melhorar as coisas, aliviar o mundo dos negros presságios. Mais uma vez está na mão deles trabalharem para um mundo que vá melhorando. Se todos, aos mais diversos níveis em que se situassem, tivessem consciência da sua responsabilidade e bom senso suficiente para educar bem, a utopia tornar-se-ia realidade.

Mas as coisas não são bem assim. E, portanto, é mais fácil aos gananciosos sem moral alcançar o poder e ter força, dando maus exemplos e deseducando, que aos justos e compreensivos mostrarem e imensa vantagem das suas acções.

Uns impõem a si mesmo as regras da justiça, os outros não. Portugal é hoje um bom teatro desta eterna guerra do Mundo.

DE NOVO OS "ACTOS DE DEUS"



"Actos de Deus" era o nome que tinham nas antigas apólices de seguro as tragédias naturais como as cheias do Douro que estiveram na base do acidente de Entre-os-Rios ou a recentes cheias na ilha da Madeira que, infelizmente, levaram pessoas e bens. Mas, em geral, às circunstâncias naturais acrescem os erros humanos, por acção ou omissão. Tudo leva a crer que também existiram erros desse tipo na Madeira, tal como no desastre da ponte de Entre-os-Rios. Julgo, por isso, oportuno recuperar o meu texto "Porque caem as pontes?" que saiu no meu livro "A coisa mais preciosa que temos" (Gradiva):

Desde que o homem existe sobre a Terra que vê os objectos caírem para a superfície do planeta, atraídos sem dó nem piedade pela força da gravidade. Mas só desde há cerca de trezentos anos, com os trabalhos de Galileu e Newton, é que se conseguiu, em primeiro lugar, descrever os movimentos de queda e, em segundo lugar, compreender as causas desses movimentos.

Também desde que o homem existe sobre a Terra que faz edifícios e pontes de modo que eles não caiam logo. A tecnologia da construção que permitiu as pontes romanas ou as catedrais da Idade Média foi de base empírica. Construía-se e, se a construção não caísse, então... ficava de pé. Experimentava-se tal como se faz ao provar um produto culinário. O conto de Alexandre Herculano sobre a abóbada da Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha é elucidativo: o arquitecto Afonso Domingues teria permanecido debaixo da abóbada para se certificar da respectiva segurança. Segundo um estudioso das catedrais góticas, as construções que não caem nos primeiros cinco minutos não cairão nos seguintes quinhentos anos... Talvez seja verdade para edifícios de pedra fundados em rocha firme. Mas há excepções, como a Torre de Pisa, erguida no século XVI e emblematicamente associada a Galileu, que não caiu nos primeiros cinco minutos mas, que devido a inconsistências do solo, tem vindo a cair desde então. Não fora a tecnologia moderna que hoje a segura e cairia rapidamente.

A tecnologia de fazer e manter edifícios e pontes – a Engenharia Civil – conheceu forte expansão nos séculos XVIII e XIX pelo simples facto de se ter percebido que a mecânica de Galileu e Newton, com as mais-valias introduzidas por outros cientistas como Hooke, Cauchy, Young, etc., permitia efectuar cálculos de forças e, portanto, conhecer antecipadamente a estabilidade estrutural de uma dada “obra de arte” (curiosa esta expressão usada em Engenharia Civil mesmo para as obras cuja fealdade é evidente). A física, cuja linguagem natural é a matemática, permitiu prever não só se uma obra teria a devida segurança mas também escolher os materiais mais adequados para a construir e a melhor maneira de ligar a forma com a função (assegurando uma verdadeira vertente estética). Como disse Franklin Guerra, em “História da Engenharia em Portugal”, edição do autor de 1995, o Eng. Edgar Cardoso passou de comboio na primeira travessia da sua ponte de S. João, no Porto, com a mesma segurança com que Afonso Domingues se teria colocado no centro da sala capitular (manda a verdade dizer que foi o mestre francês Huguet o provável autor da abóbada onde Herculano decidiu colocar Domingues, o arquitecto-geral da obra).

No século XIX, o ferro passou a ser material de construção das pontes, complementarmente à pedra ou mesmo substituindo-a totalmente. Sintomático da importação que fizemos da Revolução Industrial chegou cá talvez seja o facto de terem sido engenheiros franceses (vide o caso de Gustave Eiffel, autor da ponte de Maria Pia, no Porto) e ingleses que projectaram muitas das pontes portuguesas erguidas nesse século (a ponte de Entre-os-Rios, em Castelo de Paiva, que desabou em 2001 não é excepção). Segundo Franklin Guerra:

“Durante todo o século do ferro, o país vegetou numa quase total dependência em matérias-primas, equipamentos mecânicos e matéria cinzenta.”

Claro que avançámos... mas os outros países avançaram ainda mais. Talvez seja também sintomático das nossas debilidades estruturais o facto daquela que até há pouco era a maior das nossas pontes – a Ponte 25 de Abril - ter sido erguida, durante o Estado Novo, por tecnologia norte-americana, incorporando embora uma parcela nacional. E é também elucidativo o facto de, no desastre ocorrido durante a construção da ponte Vasco da Gama, terem morrido quase só engenheiros e operários estrangeiros (os últimos africanos).

A velha ponte de Maria Pia não caiu, embora tenha sido substituída pela ponte de São João. As modernas Ponte 25 de Abril e Ponte Vasco da Gama (esta última é a nossa maior e a segunda maior da Europa) aí estão impecavelmente de pé. Assim como estão no ar as outras pontes do Eng. Edgar Cardoso. Por que caiu então a ponte de Entre-os-Rios?

Caiu porque nada é eterno, nem as pontes. Os materiais corroem. Os defeitos alastram. As fundações fragilizam. O remédio é estar atento e vigiar, reparar e substituir. No Porto, a ponte de Maria Pia foi substituída a tempo e, em Lisboa, a Ponte 25 de Abril tem sido reparada (de resto, tem alternativa na Ponte Vasco da Gama). O engenheiro J. E. Gordon, autor do interessante livro Structures or Why Things Don’t Fall Down”, Penguin, 1978, põe o dedo na ferida:

“Todas as estruturas acabam quebradas ou destruídas – tal e qual como as pessoas, que acabam por morrer. O propósito da medicina e da engenharia é adiar estas ocorrências por um intervalo de tempo decente”.


A ponte de Entre-os-Rios viveu mais de cinco minutos e menos do que quinhentos anos: apenas pouco mais de cem anos. Será um tempo de vida decente? Não. Foi indecente a morte que teve e as mortes que causou. O acidente, como muitos outros, foi perfeitamente escusado. Não tendo havido defeito óbvio de construção nem sendo os materiais desadequados de todo, a vigilância e a reparação da ponte foram pura e simplesmente insuficientes. Não serve dizer que a ponte foi feita há mais de um século para diligências a cavalo: a ponte de Maria Pia também não foi feita para os modernos comboios, mas foi primeiro reparada e depois substituída. Também não serve dizer que há desastres naturais imprevisíveis (“os actos de Deus”, como se dizia nas antigas apólices de seguro), pois as cheias do mesmo rio não levaram outras pontes, obviamente mais preparadas para as intempéries. O que aconteceu era, pelo menos para alguns, perfeitamente previsível. O fim da velha ponte era tão previsível que havia planos, infelizmente adiados, para erguer uma nova ponte.

A queda da ponte é, afinal, um indicador da falta de cultura científica e tecnológica. Importámos a ciência e a tecnologia mas não as interiorizámos, não as colocámos de forma consequente ao serviço das nossas vidas. Confiamos demais na sorte. Ignoramos que a ciência e a tecnologia fazem previsões a respeito do mundo e que, com isso, podemos acautelar o nosso futuro. Claro que não se faz isso com absoluta certeza mas sim, o que já chega, com suficiente probabilidade. O engenheiro J. E. Gordon, muito antes da queda de pontes portuguesas, tem no livro citado uma secção intitulada “O design do engenheiro como teologia aplicada”, cuja adequação ao caso da ponte de Entre os Rios é evidente. Apesar do extracto ser longo, vale a pena trancrever:

“Em quase todos os acidentes temos de distinguir dois níveis de causas. O primeiro é a razão imediata, técnica ou mecânica para o acidente; o segundo é a razão humana subjacente. É bem verdade que o design não é uma coisa muito precisa, que acontecem coisas inesperadas, que ocorrem erros genuínos, etc., mas na maior parte dos casos a razão ‘real’ de um acidente é um erro humano que se pode prevenir.

Está hoje na moda supor que o erro é uma das coisas pelas quais não é justo acusar as pessoas, que, no fim de contas, fazem ‘o seu melhor’ ou são vítimas da sua educação e do seu ambiente, ou do sistema social, etc. Mas o erro oculta-se naquilo que não está na moda chamar ‘pecado’ (...) Muitos poucos acidentes ‘acontecem’ de um modo moralmente neutro. Nove em cada dez acidentes são causados não por efeitos técnicos mais ou menos abstrusos, mas pelo velho e relho pecado humano, que às vezes roça a pura malvadez.

(...) São pecados sórdidos como o descuido, a inacção, o não-pergunto-nem-preciso-de-aprender, o ninguém-me-pode-dizer-nada-sobre-o-meu-trabalho, o orgulho, a inveja e a cupidez que matam as pessoas (...) Sob a pressão do orgulho e da inveja, da cupidez e da rivalidade política, só se atende às miudezas do quotidiano. As avaliações gerais, o primado da engenharia, acabam por se tornar impossíveis. As coisas tornam-se imparáveis e deslizam para o desastre à vista de todos. Assim se cumprem os desígnios de Zeus”
.

No rio Douro não se passou uma tragédia grega mas uma tragédia portuguesa. Passou-se uma tragédia muito nossa, que tem raízes fundas na nossa história. Se fizermos uma avaliação geral, reconheceremos tratar-se apenas e infelizmente de parte de uma tragédia maior que é a ignorância continuada das leis do funcionamento do mundo.