sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A universidade na mão dos putos

Em final de festas académicas cuja finalidade é a integração dos novos alunos que chegam à Universidade - a Latada - é um momento adequado para pensar no significado dessas mesmas festas e nas práticas que dela derivam. João Boavida escreveu um texto sobre o assunto, que foi publicado no diário As Beiras.

No dia 19 deste mês, apareceu no jornal universitário A Cabra um artigo de Elísio Estanque, sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, intitulado Praxe: socialização ou perversão?

É uma boa análise deste fenómeno das praxes académicas, quer na sua natureza - em geral, tanto mais rigorosa quanto mais fechada e elitista é a instituição, quer na sua evolução para a comercialização e a degradação, à vista de todos. Fenómeno que continua a assentar na humilhação do caloiro frente à “grandeza” do mais velho, no nosso caso o “doutor”, o qual é sobretudo, como se sabe, o aluno do 2.º ano que, segundo o código praxista, nem chega a ser um puto, é só meio (“semi-puto).

Note-se que a praxe entre os estudantes, e Elísio Estanque refere-o, é só a parte visível e chocarreira do formalismo que estruturou e continua a estruturar a Universidade. Mas que, curiosamente, as instituições mais recentes se apressaram a copiar numa tentativa de criar uma história e uma tradição que as justifique, lhes dê segurança, talvez até respeitabilidade.

É sabido que têm ocorrido em várias instituições cenas lamentáveis, como humilhações inadmissíveis, agressões físicas e psicológicas graves e até um caso, pelo menos, de violação. O que evidentemente entra na esfera criminal e deve – tem de ser – punido pelos tribunais. As vozes contra estas violências e a sua denúncia têm sido inúmeras, mas à onda de opinião se mantêm indiferentes, ou quase, as associações académicas, a maioria dos docentes e os responsáveis institucionais, que costumam desculpabilizar os abusos e fazer vista grossa.

Ora, a verdade é que as universidades sofreram uma profunda transformação social, democratizaram-se e massificaram-se. E, tendo-se alterado as condições sociais e económicas que faziam delas elites algo fechadas, grande parte destes ritos de iniciação, se alguma vez tiveram sentido, já o perderam de todo; até porque se ordinaziram, funcionando como modalidades deseducativas e até corrosivas. E o cidadão comum, que se habituou a encarar as praxes estudantis com uma certa bonomia, tem vindo a perceber o agravamento dos «contornos de futilidade e de irracionalidade», como diz Elísio Estanque. Face ao chocante e grotesco que é ouvir, por exemplo, bandos de jovens de leite entoar, rua fora, aos berros, cantigas e lenga-lengas obscenas, sem a mínima preocupação pela péssima imagem que dão de si e da Universidade, isto é, «exibindo em público a face mais ordinária da mentalidade juvenil, sob a batuta dos/das pseudo doutores/as», o que pensar? Que, obviamente, «não é a praxe nem é a tradição de Coimbra que ali estão». De facto, o que ali está é a imagem repugnante de uma boa parte da juventude que perdeu, e disso dá provas em todo o lado, a noção de algum decoro, ou seja, é «um retrato do vazio, da perda de rumo e de valores que caracteriza grande parte da actual geração universitária», como diz Elísio Estanque.

A ideia não é acabar com as praxes, já se viu que é difícil. Mas uma Universidade não pode estar na mão de uns tantos rapazinhos/ rapariguinhas que, com o traje de estudante debaixo do braço, quando está calor, ou sob floridos guarda-chuvas, quando chove, se fazem de estudantes sem noção do que isso significa nem respeito pela instituição a que pertencem. Por isso, como diz ainda Elísio Estanque, é «preciso uma refundação dos princípios da praxe, incutindo-lhes um novo sentido pedagógico, conteúdos informativos e comportamentos amigáveis e acolhedores», enfim, outro nível, porque «a praxe corre o risco de resvalar para perigosos comportamentos antisociais, e obrigar à acção repressiva». Compete ao corpo estudantil e às estruturas associativas, e, obviamente, às instituições que governam as universidades, «saber travar a tempo as formas “rascas” de que a mesma se vem revestindo nos últimos tempos». De facto, o que se vê e ouve é frequentemente uma vergonha, pública e privada; para eles e até para nós.

João Boavida

17 comentários:

  1. De facto, o que se vê e ouve é frequentemente uma vergonha, pública e privada;

    Basta pegar em algumas das frases do próprio Elísio Estanque, e referir que este circo também, desgraçadamente acontece nas Universidades do e no Porto, e é no minímo vergonhos!!!!!!!!!!!

    um retrato do vazio, da perda de rumo e de valores que caracteriza grande parte da actual geração universitária», como diz Elísio Estanque.
    rapazinhos/ rapariguinhas que, com o traje de estudante debaixo do braço, quando está calor, ou sob floridos guarda-chuvas, quando chove, se fazem de estudantes sem noção do que isso significa nem respeito pela instituição a que pertencem. Por isso, como diz ainda Elísio Estanque, é «preciso uma refundação dos princípios da praxe, incutindo-lhes um novo sentido pedagógico, conteúdos informativos e comportamentos amigáveis e acolhedores.

    Compete ao corpo estudantil e às estruturas associativas, e, obviamente, às instituições que governam as universidades, «saber travar a tempo as formas “rascas” de que a mesma se vem revestindo nos últimos tempos». De facto, o que se vê e ouve é frequentemente uma vergonha, pública e privada;

    Augusto Küttner de Magalhaes

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  2. José Batista da Ascenção29 de outubro de 2010 às 22:45

    O que há a fazer às praxes é repudiá-las com os adjectivos que mercem e com as acções consequentes que se jusitificam. Sem contemplações. As práticas que se vêem são indignas, também nas universidades mais novas em que se arremedam as mais antigas, numa competição pelo que é cada vez mais escabroso. E as estruturas que governam as universidades, designadamente os seus reitores, são miseravelmente coniventes, não merecendo outro epíteto que o de cobardes, por indiferentes à degradação do estatuto e do prestígio das instituições que representam e ao sofrimento de alguns alunos mais bem formados e menos dados a macadadas obscenas. Deixemo-nos de coisas.

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  3. José Batista, tem de perder esse hábito de me tirar as palavras do teclado... eheheh :)))

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  4. Caríssimos e caríssimas,

    Quando estudei na Universidade não quis praxe. Não senti nenhuma necessidade de insultar o noviço ou até de o ajudar formalmente.
    Quando fosse preciso integrar, pensava, fá-lo-ia na mesma. Apesar de não a ter feito (a praxe) sempre era convidado para tudo e para nada e raparigas nunca me faltaram (perdoe-se-me qualquer imodéstia).

    Mas, um dia três "doutores" quiseram praxar-me exercendo uma coacção psicológica magistralmente definida pelo sociólogo que Boavida aqui trouxe.
    Eu era um puto mas disse-lhe por tres vezes que não e expliquei por que razão. Não me ouviram e disseram que ia ser praxado na mesma. Falhado o diálogo restava-me a humilhação. Quase resignado lembrei-me que tinha músculos e disse (isto soa melhor em discurso directo): - Então venham lá, um de cada vez!
    O bluff resultou. Livrei-me. Mas nunca mais pude aceitar a praxe da mesma maneira.Tenho passado a mensagem aos meus alunos do ensino secundário. Que não se submetam a pressões intoleráveis. Falo-lhes de liberdade e de repressão, coisa de que os reitores se deviam lembrar (mesmo sabendo que podem perder alunos para outras instituições mais "benévolas".
    anónimo das velhas-oportunidades-mas-não ressabiado...

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  5. Engraçada a mentalidade do funcionário...
    Identifique-se com o seu...
    verdadeiro....
    Seja respeitoso e cordial
    (desde que subserviente)
    Argumente e pense com profundidade e seriedade
    (os que aqui escrevem a tal não são obrigados)

    tal como a praxe rituais de passagem e vassalagem abundam

    são próprios de mentes pequenas e de visões estreitas

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  6. é a geração de 50 que se vê ofendida nas indignidades que em tempos praticou?

    putos deixemo-nos de coisas alunos mais bem formados

    mais bem????
    formados na massificação das palavras

    nos lugares comuns dos ex-professores de liceu
    que a massificação fez catedráticos?

    deve ser isso...outro Mercês de Melo

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  7. José Batista da Ascenção30 de outubro de 2010 às 16:17

    Mais bem? Não.
    Mais "bem-formados" ou "benformados", pode admitir-se? Quem pode esclarecer é o Professor João de Castro Nunes.

    Devemos ter pena do Eça? Dele terá dito Camilo: "Este rapaz dá admiráveis erros de gramática". Adiante.

    Nunca enquanto aluno universitário presenciei indignidades e crimes como os que se vão vendo. Exemplos:

    Alunos que praticaram (e outros que sofreram) violações;
    Alunos que ficaram paraplégicos;
    Alunas que tiveram que fugir das instituições de ensino que frequentavam;
    Um aluno que morreu, na zona norte do país, depois de sujeito a tiranias da praxe (um caso devidamente esquecido);
    Alunos que entraram em magote numa agência bancária simulando um assalto (e para os quais depois se solicitou ajuda psicológica quando levados perante as autoridades!);
    Etc.

    Isto não agride e ofende? Aos praticantes, simpatizantes e "colaborantes", claramente não.
    A mim sim.

    Sempre à "Mercê"...

    Olhe Vani, já quase estamos promovidos a catedráticos.
    Porém, eu, humildemente, não aceito.

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  8. "Que, obviamente, «não é a praxe nem é a tradição de Coimbra que ali estão»." Desculpe mas desta eu discordo.

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  9. E no entanto, vemos tantos pós-doutorados, doutorados, mestres e licenciados pré-bolonha fazendo contas à vida... ou vivem bolsa a bolsa, ou leccionam nas INO, ou são caixas de supermercado, administrativos, etc, etc, etc... e a UE continua e pressionar o país para criar qualificações de que o mercado acaba por não conseguir dar conta...apesar de ter passado a exigir o 12º a todos. E que dizer de casos como o de uma doutorada que conseguiu uma bolsa de nível de mestrado (por falta de melhor) e à qual foi reduzido o valor mensal por esta não possuir nenhum mestrado?... (pois que devido a mérito académico, saltou directamente da licenciatura para o doutoramento)... estes casos são o pão nosso de cada dia, em todo o lado, em todas as instituições... :( e o que dizer de catedráticos da velha guarda que colocam os alunos de doutoramento e afins a fazer o trabalho por eles (e enriquecendo o currículo enquanto se aquece o lugar e a cadeira estofada...)? bem, desviei-me totalmente do assunto, mas... meu deus, como estamos podres e carcomidos em todo o lado... :(

    Qto às praxes, não me livrei delas. Era novita, ignorante, desejosa de ser aceite (devido a um handicap que possuo). Mas já algo esperta, acabando por usar o mesmo handicap para fazer feitiços virar-se contra feiticeiros eheheh. No entanto, à parte a parvoíce e a mania das grandezas, nunca presenciei casos extremos, intimidatórios ou graves.

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  10. "e o que dizer de catedráticos da velha guarda que colocam os alunos de doutoramento e afins a fazer o trabalho por eles (e enriquecendo o currículo enquanto se aquece o lugar e a cadeira estofada...)?" Isto é mais frequente entre os da nova guarda. Os da velha guarda (muitos, não direi todos) funcionavam ao contrário e os orientandos, devido a falta hábitos de investigação e publicação, por vezes nem punham nas publicações os nomes de quem os conduziu aos resultados. Agora é muito mais difícil que isso aconteça.

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  11. Anónimo, só posso conhecer as "velhas guardas" que respeitam à minha idade, certo? :) E o meio académico actual. Onde se colocam professores medíocres (cheguei a ter um professor oriundo da Rússia cuja pronúncia era de tal modo incompreensível que nem os melhores ouvintes o conseguiam entender...) por serem excelentes investigadores/cérebros. Note, não por serem excelentes professores ou comunicadores, mas sim pelo número de publicações e CV científico. O currículo pedagógico, esse, é irrelevante... logicamente que isso não invalida que excelentes investigadores/cérebros sejam excelentes professores. Mas, infelizmente, nem sempre é o caso... e conheço alguns casos de catedráticos a viver do trabalho e do suor das suas equipas, inclusive quando as suas competências são inexistentes e se reduzem à arte de bem disfarçar...enquanto que outros, professores associados, doutorandos, pós-doutorandos, dão as aulas por eles e executam as investigações por eles...infelizmente, esta realidade estende-se até às camadas dos 50 anos...

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  12. José Batista da Ascenção disse...
    aparentemente é pseudónimo de João Boavida

    "Este rapaz dá admiráveis erros de gramática".
    Logo é um novo Eça... Adiante.

    Nunca enquanto aluno universitário presenciei indignidades e crimes como os que se vão vendo. Exemplos:violações; falta de vista sempre as houve, mesmo quando as universidades e lyceus eram exclusivamente masculinos

    ou as praxes violentas na tropa e internatos

    Alunos que ficaram paraplégicos;1 ou dois

    alunos que ficavam em pior estado
    nas lutas contra os futricas, violência contra os miúdos nas escolas reguada de partir ossos varada de marmeleiro na cabeça de miúdos de 6 anos, 1 traumatismo craniano e provável morte
    6 dias depois 19 e tal

    e provavelmente centos de casos similares com desfechos pequerruchitos

    os académicos e a plebe nunca se deram bem

    Alunas que tiveram que fugir das instituições de ensino que frequentavam;machismo só deixa fugir alunas

    Olhe Vani, já quase estamos promovidos a catedráticos.
    Porém, eu, humildemente, não aceito
    ainda bem sempre se poupa um acréscimo de 12 mil por ano

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  13. José Batista da Ascenção31 de outubro de 2010 às 11:25

    Senhor ou senhora do nome em forma de arabescos (pseudónimo?...) e carranca esquisita:

    É com o meu nome verdadeiro que assino qualquer opinião escrita. E não permitiria que o meu nome (ou a minha pessoa) fosse pseudónimo (ou pseudo-duplicado) de ninguém.

    Gostava de replicar aos seus "argumentos", apesar de me parecem demasiado frágeis e inconsitentes.
    Mas só mo permitiria se soubesse, pelo menos, algum dos nomes do meu interlocutor.

    Ora, se não pode assumidamente revelar a sua graça, não posso falar consigo.

    Encerro, por isso, o assunto. Queira desculpar.

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  14. A praxe é como a primavera: é muito colorida também quando chegam as andorinhas de asas pretas e barriga branca que só aparecem nessa altura do ano.
    Algumas delas são mafarricas, sem dúvida. Mas que fazer... caçá-las com uma caçadeira?

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  15. Caro Ascenção: pois eu acho que o que interessa são os argumentos e menos o nome do autor.

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  16. Caro anónimo das 18:50 de 31 de outubro. Se o que interessa são os argumentos (ou a falta deles), o senhor do nome arabesco...enfim.

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  17. Já agora, ainda qto ao nome do autor: não faz qq sentido... :p

    Os cavalos são caros, são, mas o google translator não é perfeito e, nas palavras de um amigo árabe, o nome não faz qq sentido.

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