Facts about the FCT/ESF science evaluation: the story so far

sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

UM MAPA DE ESTRADAS PARA O ESPAÇO


A Planetary Society, sociedade fundada por Carl Sagan, está a aproveitar este momento de mudança de Presidente no Estados Unidos para promover um novo alento na ciência e na exploração espacial. Este é o teor da declaração que a Sociedade tem no seu sítio para recolha de assinaturas:

The current U.S. Administration’s Vision for Space Exploration has been fatally compromised. But with the new Administration, the U.S. has an opportunity to embrace a new Roadmap to Space: one that will galvanize public support, reach out internationally and will be both politically and financially sustainable for years to come.

I support these Principles of the Roadmap to Space and have endorsed them below.

* Human exploration of Mars should be a primary goal. Mars poses extraordinary scientific opportunities, and offers tremendous potential benefits...including a long-term abode for humankind. Mars also commands public interest: it can unify and electrify mass public enthusiasm. The Moon is an international stepping stone to Mars.

* The United States’ human space flight program is an enduring symbol of global leadership, and an incomparable engine for technological innovation. It should be continued, but with robust international partnerships reflecting its importance to humanity everywhere.

* Science and exploration are inseparable. They complement and benefit each other, and one should not be sacrificed for the other. Robotic exploration is no less vital than human exploration: both are part of the great missions of discovery driven by our human need to reach out and explore the unknown.

* NASA’s mission—including the development of human space flight capabilities—needs to be realistic in scope and time. An arbitrary and unrealistic schedule in the current program has resulted in massive funding shortfalls, and the sacrifice of Earth and space sciences and other programs.

ATÉ QUE A CASA CAIA


Já saiu no passado dia 28 um artigo de Helena Matos na sua coluna de opinião no jornal "Público". Mas vale a pena recordar o que ela escreveu, sob o título que está em cima, republicando aqui um excerto da sua crónica:

"Nos últimos anos, nos ensinos básicos e secundário, institucionalizou-se uma espécie de loucura pedagógica. As disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Se eram difíceis, tornavam-se fáceis ou dispensáveis, como agora se viu com a Matemática. Simultaneamente todos os dias se repetia (e repete!) que os conteúdos têm de ser apelativos, pois supostamente o ensino deve ser lúdico e os alunos devem aprender sem esforço. À conta desta política de promoção do sucesso, entra-se em Engenharia sem ter estudado Matemática e a disciplina de Química corre o risco de desaparecer no ensino secundário porque os alunos não a escolhem. Idem para o Latim e para a Filosofia. Adeus equações, declinações e pensamento racional. Estuda-se um bocadinho de Psicologia e o resultado é o mesmo. Uma vez na faculdade, logo se vê. E se os engenheiros ainda vão estudando Matemática durante o curso - embora não a suficiente, porque mais de metade dos licenciados pelos 316 cursos de Engenharia existentes em Portugal chumbam no exame que a Ordem dos Engenheiros exige para o exercício da profissão - no caso dos antigos cursos de Letras, transformados cada vez mais numa versão literária das antropologias e sociologias, corre-se o risco de ver desaparecer os departamentos de Estudos Clássicos.

Noutras disciplinas, como a Física, baixou-se o nível de exigência nos exames nacionais de modo a que as estatísticas melhorassem. Mesmo nas línguas estrangeiras a opção pelo que se acha mais fácil pode levar a que se troque o francês pelo espanhol. A memorização tornou-se uma expressão maldita e arreigou-se a convicção de que o saber nasce das entranhas das crianças num fenómeno equivalente à intervenção do Espírito Santo que fez dos Apóstolos poliglotas. Os desaparecidos Trabalhos Manuais e Oficinais deram lugar às doutas tecnologias e áreas disto e daquilo, sendo que nestas disciplinas os alunos tanto podem levar o ano a fazer caixinhas de papel tipo pasteleiro, pintar cartazes para salvar a água, estudar, com detalhe, nas etiquetas da roupa a simbologia do torcer e lavar a seco, confeccionar bolos com pouco açúcar ou usar abundantemente as teclas "seleccionar-copiar-colar" da sala dos computadores. E para quê queimar as pestanas a estudar Química? Não existe, em alternativa, uma panóplia de disciplinas muito mais fáceis que, diz o "pedagoguês", desenvolvem "novas competências e dinâmicas de interactividade"? Quanto aos professores, sobretudo com o actual modelo de avaliação, é sem dúvida bem mais fácil e propiciador de sucesso na carreira ser "ensinante" de Área de Projecto, nas quais os alunos invariavelmente obtêm melhores resultados, do que meter mãos à tarefa de dar aulas de Física ou Matemática.

A degradação do ensino não começou com este Governo. O que este Governo trouxe de novo foi a capacidade de transformar essa degradação, que os anteriores procuravam negar, num sinal de modernidade e progresso. Entrar em Engenharia sem ter feito exame a Matemática deixa de ser uma aberração e passa a "inovação". Os conteúdos não contam, o que conta é o embrulho tecnológico com que chegam às mãos dos alunos. O Ministério da Educação há muito que vive num universo de ficção. O que Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu foi que assumíssemos que essa ficção é do domínio do grotesco e que já não nos indignemos com isso."

Helena Matos

Obrigado, Luís

O economista e professor universitário Luís Campos e Cunha escreve hoje no Público palavras simpáticas sobre a minha crónica das terças-feiras no mesmo jornal, intitulada "Pensar Outra Vez":
É sempre refrescante ler os artigos de Desidério Murcho, no P2 deste jornal. Têm o tamanho certo e levam-nos a pensar, o que é sempre útil, especialmente, neste mundo de sensações e de reacções. Um mundo de pouca ponderação e pouco pensamento e vivido mais pelo instinto do que pela razão. Aconselho a leitura e agradeço-lhe, mesmo sem o conhecer.
Obrigado, Luís! E obrigado ao Fernando Ferreira por me falar desta menção simpática.

PALIN E A IGNORÂNCIA CIENTÍFICA


Minha crónica do "Sol" de hoje, saído um dia antes do que é habitual por causa do feriado de 1 de Novembro:

Uma amiga minha chama-lhe a Sara Paula. Mas o nome dela é Sarah Palin e, se os republicanos perderem a eleição presidencial americana, não faltará quem lhe atribua uma boa parte das culpas. De facto, a senhora que foi por eles escolhida para candidata a vice-presidente não parece estar preparada para nenhum cargo político nacional. Isso manifesta-se, em particular, no campo da ciência, onde tem mostrado a maior das ignorâncias.

Já não bastavam as suas concepções criacionistas: ela defendeu que o criacionismo, a ideia abstrusa de que o mundo foi criado praticamente como o vemos hoje, com os fósseis já fossilizados e tudo, devia ter um lugar nas aulas de ciências ao lado da teoria da evolução (o pai de Palin, professor de ciências reformado, devia ser o primeiro a sentir-se incomodado). Agora aproveitou os microfones da campanha para atacar, ridicularizando-a, a investigação científica feita com base nas moscas da fruta, uma investigação que está na base de muitos dos nossos conhecimentos de biologia e de medicina. Já não bastava que Palin fosse defensora da arca de Noé, também é defensora das moscas. Parece, porém, que gosta de caçar focas. Ninguém diria que esta ex-dama de honor do concurso de Miss Alaska, que na escola passou completamente despercebida, tivesse agora a amplificação que está a ter a nível mundial.

Os cientistas nos Estados Unidos e não só esperam ansiosamente pelo próximo dia 4 de Novembro. Aguardam, acima de tudo, que George W. Bush saia de cena. Ele impediu a investigação com células estaminais, pouco ou nada fez pelo combate ao aquecimento global, não fomentou formas de energia alternativas ao petróleo e demais combustíveis fósseis e não desenvolveu suficientemente a exploração espacial. Mesmo no caso improvável da vitória de McCain-Palin, os cientistas ficariam contentes por verem Bush aposentar-se. A esmagadora maioria deles está, contudo, por Obama e Biden. Há até um abaixo-assinado de 63 Prémios Nobel de ciências a favor de Obama, não parecendo haver um só a favor de McCain.

Argumentos de autoridade

Usa-se muitas vezes a expressão «argumento de autoridade» como sinónimo de «mau argumento de autoridade». Todavia, nem todos os argumentos de autoridade são maus; o progresso do conhecimento é impossível sem recorrer a argumentos de autoridade; e pode-se distinguir com alguma proficiência os bons dos maus argumentos de autoridade.

Um argumento de autoridade é um argumento baseado na opinião de um especialista. Os argumentos de autoridade têm geralmente a seguinte forma lógica (ou são a ela redutíveis): «a disse que P; logo, P». Por exemplo: «Aristóteles disse que a Terra é plana; logo, a Terra é plana». Um argumento de autoridade pode ainda ter a seguinte forma lógica: «Todas as autoridades dizem que P; logo, P».

A maior parte do conhecimento que temos de física, matemática, história, economia ou qualquer outra área baseia-se no trabalho e opinião de especialistas. Os argumentos de autoridade resultam desta necessidade de nos apoiarmos nos especialistas. Por isso, uma das regras a que um argumento de autoridade tem de obedecer para poder ser bom é esta:

1) O especialista (a autoridade) invocado tem de ser um bom especialista da matéria em causa.

Esta é a regra violada no seguinte argumento de autoridade: «Einstein disse que a maneira de acabar com a guerra era ter um governo mundial; logo, a maneira de acabar com a guerra é ter um governo mundial». Dado que Einstein era um especialista em física, mas não em filosofia política, este argumento é mau.

Contudo, apesar de Marx ser um especialista em filosofia política, o seguinte argumento de autoridade também é mau: «Marx disse que a maneira de acabar com a guerra era ter um governo mundial; logo, a maneira de acabar com a guerra é ter um governo mundial». Neste caso, é mau porque viola outra regra:

2) Os especialistas da matéria em causa não podem discordar significativamente entre si quanto à afirmação em causa.

Dado que os especialistas em filosofia política discordam entre si quanto à afirmação em causa, o argumento é mau. É por causa desta regra que quase todos os argumentos de autoridade sobre questões substanciais de filosofia são maus: porque os filósofos discordam entre si sobre questões substanciais. Poucas são as afirmações filosóficas substanciais que a generalidade dos filósofos aceitam unanimemente e por isso não se pode usar a opinião de um filósofo para provar seja o que for de substancial em filosofia. Fazer isso é falacioso.

Os seguintes argumentos contra Galileu são igualmente maus: «Aristóteles disse que a Terra está imóvel; logo, a Terra está imóvel» e «A Bíblia diz que a Terra está imóvel; logo, a Terra está imóvel». O primeiro é mau porque nem todos os grandes especialistas da altura em astronomia, entre os quais se contava o próprio Galileu, concordavam com Aristóteles; o argumento viola a regra 2. O segundo é mau porque os autores da Bíblia não eram especialistas em astronomia; o argumento viola a regra 1.

Considere-se o seguinte argumento: «Todos os especialistas afirmam que a teoria de Einstein está errada; logo, a teoria de Einstein está errada». Qualquer pessoa poderia ter usado este argumento quando Einstein publicou pela primeira vez a teoria da relatividade. Este argumento é mau porque é derrotado pela força dos argumentos independentes que sustentam a teoria de Einstein. A regra violada é a seguinte:

3) Só podemos aceitar a conclusão de um argumento de autoridade se não existirem outros argumentos mais fortes ou de força igual a favor da conclusão contrária.

A regra 2 é redundante relativamente a 3. Não se aceita um argumento de autoridade baseado num filósofo quando há outros argumentos de igual força, baseados noutro filósofo, a favor da conclusão contrária. Mas 3 abrange o tipo de erro presente no último argumento sobre Einstein, ao passo que 2 não o faz. No caso do argumento de Einstein, o erro consiste no facto de o argumento de autoridade baseado em todos os especialistas em física ser mais fraco do que os próprios argumentos físicos e matemáticos que sustentam a teoria de Einstein.

Considere-se o seguinte argumento: «O psiquiatra X defende que toda a gente deve ir ao psiquiatra pelo menos três vezes por ano; logo, toda a gente deve ir ao psiquiatra pelo menos três vezes por ano». Admita-se que todos os especialistas em psiquiatria concordam com X, que é um grande especialista na área. A regra 3 diz-nos que este argumento é fraco porque há outros argumentos que colocam em causa a conclusão: dados estatísticos, por exemplo, que mostram que a percentagem de curas efectuadas pelos psiquiatras é diminuta, o que sugere que esta prática médica é muito diferente de outras práticas cujo sucesso real é muitíssimo superior. Além disso, este argumento viola outra regra:

4) Os especialistas da matéria em causa, no seu todo, não podem ter fortes interesses pessoais na afirmação em causa.

Quando Einstein afirma que a teoria da relatividade é verdadeira, tem certamente muito interesse pessoal na sua teoria. Mas os outros físicos não têm qualquer interesse em que a teoria da relatividade seja verdadeira; pelo contrário, até têm interesse em demonstrar que é falsa, pois nesse caso seriam eles a ficar famosos e não Einstein. Mas nenhum psiquiatra tem interesse em refutar o que diz X. E, por isso, a sua afirmação não tem qualquer valor — porque é a comunidade dos especialistas, no seu todo, que tem tudo a ganhar e nada a perder em concordar com X.

Os argumentos de autoridade são vácuos ou despropositados quando invocam correctamente um especialista para sustentar uma conclusão que pode ser provada por outros meios mais directos. Por exemplo: «Frege afirma que o modus ponens é válido; logo, o modus ponens é válido». Dado que a validade do modus ponens pode ser verificada por outros meios mais directos (nomeadamente através de um inspector de circunstâncias), este argumento é vácuo ou despropositado. Os argumentos de autoridade devem unicamente ser usados quando não se pode usar outras formas argumentativas mais directas.

Finalmente, note-se que nenhum argumento é verdadeiro ou falso, tal como nenhum conjunto de bananas tem casca; as bananas têm casca, mas não os conjuntos de bananas. Do mesmo modo, a verdade aplica-se às proposições que constituem os argumentos, mas não aos próprios argumentos porque estes são conjuntos de proposições. Os argumentos são válidos ou inválidos, além de poderem ser interessantes ou não, mas não podem ser verdadeiros nem falsos. E as proposições são verdadeiras ou falsas, mas não podem ser válidas nem inválidas. Quem não compreende isto, não sabe o que é um argumento. Tal como não sabe o que é um conjunto de bananas quem pensar que esse conjunto tem casca. 

OS PRIMÓRDIOS DA TSF E O INSTITUTO DE COIMBRA


Artigo escrito em colaboração com António José Leonardo e Décio Ruivo Martins e parte de um trabalho maior sobre a história da telegrafia eléctrica em Portugal vista nas páginas de "O Instituto", jornal da Academia coimbrã (na foto os aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho):

A telegrafia sem fios (TSF) interessou bastante os sócios do Instituto de Coimbra (IC), Academia ligada à Universidade de Coimbra, na viragem do século XIX para o XX. Os avanços efectuados na TSF, graças ao sistema patenteado em 1896 pelo físico italiano Guglielmo Marconi (1874-1937), mereceram particular atenção por parte do Professor Álvaro José da Silva Basto (1873-1924), catedrático da Faculdade de Filosofia (a Faculdade de Ciências só surgiria com a República) e sócio do IC, que publicou em 1903 um artigo em várias partes intitulado Os fenómenos e as disposições experimentais de telegrafia sem fios. A actividade deste académico abrangeu as mais diversas áreas da ciência. Licenciou-se em Matemática em 1895 com uma dissertação sobre geóides, abordando no acto de conclusões magnas a equação de Laplace; a sua dissertação de licenciatura em Filosofia, dois anos depois, teve como tema os Índices cefálicos dos portugueses e, no acto de conclusões magnas, abordou os Raios X de Roentgen. Tendo-se doutorado por duas Faculdades, de Filosofia e de Matemática, concorreu no mesmo ano ao magistério superior com um trabalho sobre a Teoria da dissociação electrolítica. Em 1902, foi nomeado lente catedrático de Mineralogia e, no ano seguinte, assumiu a docência da cadeira de Química Orgânica até 1906, ano em que iniciou o ensino da cadeira de Química Analítica, que manteve até à morte. Foi Director do Laboratório de Química em 1911, quando foi encarregue pela sua Faculdade efectuar uma viagem científica a várias escolas europeias.

No seu artigo de 1903 em O Instituto Silva Basto descrevia sistemas de telegrafia por indução electromagnética. Referiu-se aí à inovação de Marconi para aumentar a distância de transmissão: a substituição das lâminas metálicas por um fio vertical, com a extremidade inferior ligada ao solo (antena). A capacidade de recepção do sinal estava intimamente dependente das características de uma peça chamada coesor de Branly, nomeadamente do seu tamanho, da pressão a que estava sujeita a limalha, dos metais usados, etc. Este foi sofrendo sucessivas alterações e aperfeiçoamentos, surgindo um tipo de coesores que não necessitavam de nenhuma pancada para regressarem ao estado inicial, contando para isso com uma pequena gota de mercúrio que dilatava, quando electrizada pela radiação, e regressava ao tamanho inicial logo que a carga eléctrica se descarregasse por contacto nos eléctrodos.

Um português esteve envolvido nesta tarefa, desenvolvendo uma melhoria do aparelho de Branly (do nome do físico francês Édouard Branly, 1844-1940), que patenteou em 30 de Junho de 1900. Tratou-se do Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959), que ficaria conhecido pela primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada em 1922, com Sacadura Cabral, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Este militar e sócio do IC sempre foi um apaixonado pela ciência, tendo sido incluído por Sousa Viterbo na sua lista de inventores portugueses publicada n’ O Instituto em 1902. Contudo, Gago Coutinho não obteve prioridade na sua invenção. O Diário de Notícias de 19 de Março de 1902 descrevia um novo aparelho, exposto nas páginas da Nature, em que Branly substituía a limalha do seu dispositivo original por contactos de agulhas de aço, cujos vestígios invisíveis de oxidação são suficientes para impedirem a passagem de corrente eléctrica, o que se assemelhava muito ao rádio-condutor de Gago Coutinho, constituído por uma agulha de cozer e um alfinete de ouro e também muito sensível às ondulações eléctricas. Outros detectores foram sendo desenvolvidos, mas a invenção da válvula viria a traduzir-se no maior avanço tecnológico da TSF nas primeiras décadas do século XX.

Embora os avanços da TSF nessa época tenham feito aumentar muito o seu alcance (nem os obstáculos e elevações do terreno, nem as condições meteorológicas afectavam a propagação das ondas transmissoras), este ainda tinha vozes críticas que referiam os problemas da sintonização entre emissor e receptor. Alguns detractores do sistema de Marconi geraram, no final do século XIX, o boato de que Marconi seria capaz, com os seus emissores, de detonar paióis de navios. Um outro professor de Coimbra, Vellado Pereira da Fonseca (1873-1903), esclareceu, na sua tese de 1897, onde na parte final já apresentava a invenção de Marconi e discutia várias questões da TSF, que esta situação só seria possível se um ressoador, afinado com o excitador, fizesse parte do material embarcado. Fonseca foi catedrático de Filosofia em Coimbra, sócio do IC e deputado pelo Porto e Penafiel. Dele era de esperar uma brilhante carreira académica e política, mas faleceu em 1903, com apenas 30 anos.

Silva Basto concluía o seu artigo n' O Instituto revelando os últimos resultados e objectivos da TSF. Referiu-se os recentes sucessos de Marconi, nomeadamente a generalização das transmissões transatlânticas entre a estação de Poldhu na Irlanda, e o cabo bretão da Nova Escócia na América, depois do primeiro ensaio realizado em 1901, e a recepção de despachos por Marconi na sua viagem no navio Carlos Alberto, em Agosto de 1902, aos quais não pôde responder em face do pequeno alcance do emissor instalado no barco. Descreveu também um problema ainda sem solução, nomeadamente o aparente efeito prejudicial da luz diurna na transmissão, que era mais eficiente durante a noite. Foi preciso esperar vinte anos para desvendar o mistério: não era a luz do dia a afectar as transmissões, mas sim a reflexão das ondas curtas na ionosfera.

Silva Basto não era um grande adepto da TSF, não a vendo como uma ameaça à telegrafia com fios, embora reconhecendo a sua utilidade nas circunstâncias em que a última não era aplicável, nomeadamente à comunicação entre dois navios e entre um navio e a costa. Seria preciso esperar alguns anos para se assistir ao uso desta tecnologia no salvamento de vidas no mar, como aconteceu no naufrágio do Titanic na noite de 14 de Abril de 1912.

Em Portugal, as primeiras experiências de TSF foram realizadas em Março de 1901, decretando o governo, em 23 de Maio desse ano, o monopólio do estado dos sistemas classificados como telegrafia hertziana, telegrafia etérea ou semelhante. A primeira estação portuguesa de radiotelegrafia iniciou o serviço a 16 de Fevereiro de 1910 no Arsenal da Marinha. A utilização dos aparelhos de Marconi justificou a primeira visita do físico e empresário italiano a Portugal, a 22 de Maio de 1912, durante a qual foi assinado um contrato entre o governo português e a sua empresa para instalar postos radiotelegráficos em Portugal e Cabo Verde. Foi recebido na Sociedade de Geografia de Lisboa, para dar uma conferência, pelo seu presidente Bernardino Machado (1851-1944), um professor também ligado ao IC (foi presidente dessa instituição entre 1896 e 1908), e que foi mais tarde Presidente da República. Marconi, Prémio Nobel da Física de 1909, haveria de regressar a Portugal mais duas vezes, em 1920 e em 1929.

quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

O dever de educar para os Jesuítas

Segunda sessão do ciclo de Conferências O dever de educar, no próximo dia 4, pelas 18h15, na Livraria Minerva Coimbra.

A preparação do aluno para ser autónomo e participar no mundo de forma responsável, a sua centralidade na tarefa educativa, o respeito pela pessoa que é, a aula como um laboratório de vida, a necessidade de "aprender a aprender", parecem-nos ideias novas, mas... não são.

Uma incursão histórica pode fazer-nos atribuir essas ideias à pedagogia dos Jesuítas, pois elas estão já presentes nos seus primeiros passos. Porém, o seu mentor, Santo Inácio de Loyola, admitiu não ter inovado grandemente, uma vez que procurou inspiração noutros autores, na altura, tradicionais…

Para falar da influência dessa pedagogia na actualidade foi convidada Margarida Miranda, professora do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra que, além de ter realizado a primeira tradução moderna em Portugal da Ratio Studiorum, tem publicado estudos sobre esse currículo que presidiu à primeira rede escolar internacional com que os Jesuítas educaram a Europa, nomeadamente sobre o papel central que nele se reserva ao teatro.

Local: Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra

As sessões deste ciclo são quinzenais, e estão abertas ao público.

Próximas sessões: 18 de Novembro e a 2 e 16 de Dezembro.

O Terramoto e o tsunami de 1755














O Terramoto de 1 de Novembro de 1755 atingiu violentamente o país, destruiu o centro da cidade de Lisboa e abanou as consciências e o pensamento de inúmeros intelectuais europeus. Figuras com Kant ou Voltaire escreveram importantes reflexões sobre a génese de fenómenos naturais de tão grande escala e sobre as leis que governam a natureza. O que muitos não saberão é que ao terramoto seguiu-se um violento tsunami, ou maremoto, cuja dimensão e impacto é actualmente alvo de estudo por investigadores portugueses.

Estes e outros assuntos, em torno do Terramoto de 1755, serão apresentados e debatidos amanhã, dia 31, em um colóquio no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, a partir das 15:30h.

Programa:

http://www.museudaciencia.pt/index.php?iAction=Actividades&iArea=13&iId=34&iAreaFirstAccess=1#iItem_34

O FIM DAS REPROVAÇÕES

O Conselho Nacional da Educação apareceu a aconselhar o fim das reprovações dos alunos até aos 12 anos. Não me surpreenderia que o dito Conselho aparecesse qualquer dia a aconselhar o fim de todas reprovações. Ou mesmo a propor o fim de todas as notas escolares, invocando que os alunos com notas mais baixas podem ficar traumatizados. Só que há aqui um paradoxo. Porque é que o dito Conselho é a favor da avaliação das escolas (já nem falo da avaliação dos professores) se recusa a avaliação dos alunos?

"PARA A PRÓXIMA MAIS VALE FALAR MENOS"

Neste Portugal de hoje, já poucas coisas me surpreendem. Assim, não foi para mim nenhuma surpresa que o Presidente do Comité Olímpico Português (de quem falei aqui como símbolo do nacional-porreirrismo, numa das crónicas agora reunidas em livro) tenha anunciado a sua recandidatura a mais um mandato, desdizendo o que tinha dito durante os Jogos Olímpicos de Pequim. Agora, conforme foi divulgado pelo "Público" on line, faz uma promessa: "Para a próxima mais vale falar menos". Pois! Mas surpreender-me-ia se cumprisse esta promessa...

ENGENHO LUSO E OUTRAS CRÓNICAS


Informação recebida da Gradiva:

Já saiu, na Gradiva, o livro "Engenho Luso e Outras Crónicas" de Carlos Fiolhais. Para mais informações ver aqui.

NOVOS TRIÂNGULOS

Informação recebida da Câmara Municipal do Porto:

A Câmara Municipal do Porto, através do "Porto, Cidade de Ciência", vai promover de 31 de Outubro de 2008 a 16 de Abril de 2009, um Ciclo de Conferências intitulado "Novos Triângulos".

Com estes encontros, pretende-se o cruzamento de diferentes olhares sobre as relações entre ciência, sociedade e cultura e, ao mesmo tempo, criar um espaço de comunicação e divulgação que evidencie o potencial científico desta região.

1ª Conferência "Porto, Cidade de Ciência"
"Ciência - Autarquia - Academia"
por Nuno Crato (na foto), Rui Rio e José Marques dos Santos
Moderador: Luís Portela
Data: 31 de Outubro às 21h15
Local: Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett

As cidades têm, cada vez mais, de saber utilizar de uma forma inovadora as suas potencialidades como territórios de ciência. Tal só acontece através de uma estreita cooperação entre agentes e organizações dos diferentes domínios da sociedade: académico e científico; económico e empresarial; político e cultural.

Próximas conferências: 26 de Fevereiro e 16 de Abril de 2009.

ENTRADA LIVRE

À procura de outros planetas

Informação recebida do Observatório Astronómico de Lisboa:
O Observatório Astronómico de Lisboa (OAL) promove palestras públicas mensais que têm lugar no Edifício Central, pelas 21h30 da última sexta-feira de cada mês.

A próxima sessão decorrerá no dia 31 de Outubro e terá como título: "À procura de outros planetas: quantas terras existem na nossa Galáxia?", por Nuno Santos, CAUP

Nesta palestra serão revistos alguns dos principais resultados da procura e estudo de planetas extra-solares. Partindo dos resultados observacionais, complementados com estudos teóricos, vamos em seguida tentar perceber quantas estrelas de tipo solar têm planetas de tipo terrestre em órbita. A partir daí podemos estimar grosseiramente o
número de planetas que orbitam estrelas da nossa galáxia e que podem ter desenvolvido vida.

Como vem sendo hábito, o OAL fará a transmissão da sua Palestra Mensal através da Internet. No dia 31 de Outubro a partir das 21h30 visite o seguinte endereço:´http://live.fccn.pt/oal/

A entrada na Tapada da Ajuda faz-se pelo portão da Calçada da Tapada, em frente ao Instituto Superior de Agronomia. No final de cada palestra, e caso o estado do tempo o permita, fazem-se observações dos corpos celestes com telescópio. Convida-se o público a trazer os seus binóculos ou mesmo pequenos telescópios caso queiram realizar as suas próprias observações ou ser ajudados com o seu funcionamento.

Para mais informações use o telefone 213616730, ou veja: http://www.oal.ul.pt/palestras

ESTREIA DE "A TURMA"



Informação recebida da Midas Filmes:


A TURMA ("Entre les Murs"), o filme de Laurent Cantet, galardoado com a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, vai estrear em Portugal a 30 de Outubro em 18 salas de todo o país. O filme estreará também em cópia digital, sendo o primeiro filme independente europeu a ter estreia neste formato, graças ao apoio das salas da Zon Lusomundo, New Lineo e Socorama.


Um filme imprescindível no debate sobre a educação, A TURMA teve antestreia no DocLisboa e será o filme de abertura da Festa do Cinema Francês amanhã em Faro, amanhã. Em França, o filme fez já mais de um milhão de espectadores, em Itália, cerca de 150 mil espectadores, na Bélgica também já ultrapassou os 50 mil espectadores e na Suíça mais de 30 mil entradas.


A TURMA estreará em todo o país em 18 salas nas cidades de Lisboa, Porto, Matosinhos, Alfragide, Almada, Aveiro, Cascais, Castelo Branco, Coimbra, Faro, Figueira da Foz, Leiria, Loures, Paços de Ferreira, Seixal e Sintra.


Baseado num livro de François Bégaudeau, A TURMA segue um ano de um professor e da sua turma numa escola num bairro problemático de Paris, microcosmos da multietnicidade da população francesa, espelho dos contrates multiculturais dos grandes centros urbanos de todo o mundo. François, professor, e os seus colegas, preparam-se para um novo ano escolar. Cheios de boas intenções, estão decididos a não deixarem que o desencorajamento os impeça de tentar dar a melhor educação aos seus alunos. Mas as culturas e as atitudes diferentes frequentemente colidem dentro da sala de aula. François insiste num atmosfera de respeito e empenho. Mas a ética da sua sala de aula é posta à prova quando os estudantes começam a desafiar os seus métodos. O filme é protagonizado pelo professor que escreveu o livro que deu origem ao filme e os actores não-profissionais que compõem a turma de alunos foram escolhidos entre alunos de um liceu francês.


30 OUTUBRO / GRANDE ESTREIA NACIONAL

EM 18 CINEMAS DE TODO O PAÍS

LISBOA: Amoreiras, Londres, UCI El Corte Inglês - PORTO: UCI Arrábida 20 - MATOSINHOS: Mar Shopping - AVEIRO: Fórum – COIMBRA: Dolce Vita - LEIRIA: Cinema City - CASCAIS: Cascais Shopping - ALFRAGIDE: Alegro - FARO: Fórum Algarve


SEMANA ÚNICA - de 30 de Outubro a 5 de Novembro: ALMADA: Almada Shopping - PAÇOS DE FERREIRA: Ferrara Plaza - FIGUEIRA DA FOZ: Foz Plaza - CASTELO BRANCO: Fórum - SINTRA: Beloura Shopping - LOURES: LouresShopping - SEIXAL: Rio Sul Shopping


O filme estreará posteriormente noutras cidades. Consulte o blog

a-turma.blogs.sapo.pt para saber a data e o cinema em que o filme estará em exibição noutras localidades.


CINEMAS COM DESCONTO PARA GRUPOS ORGANIZADOS DE PROFESSORES E ALUNOS


Marta Fernandes

MIDAS FILMES www.midas-filmes.pt

Tel/Fax + 351 213479088 Mob + 351 919466309

Praça de S. Paulo, 19, 2ºE 1200-425 Lisboa PORTUGAL

ESTRANHO MUNDO NOVO


Da "Conclusão" do livro "Adeus às Esmolas. Uma breve história económica do mundo" do professor de Economia na Universidade da Califórnia Gregory Clark, que acaba de sair na Bizâncio, transcrevemos:

"É óbvio que Deus criou as leis do mundo económico para troçar um pouco dos economistas. Noutros domínios da investigação, como as ciências físicas, tem-se registado uma acumulação constante de conhecimentos nos últimos 400 anos. As teorias anteriores revelaram-se desadequadas, mas as que as substituíram integraram-nas e proporcionaram aos praticantes uma maior capacidade de prever resultados numa vasta gama de situações. Em economia, no entanto, verificamos que a nossa capacidade de descrever e prever o mundo económico atingiu o apogeu cerca de 1800. A partir da Revolução Industrial, os modelos económicos têm perdido, progressiva e continuamente, a capacidade de prever diferenças de rendimento e de riqueza ao longo do tempo e nos diversos países e regiões. Antes de 1800, as condições de vida diferiam substancialmente consoante as sociedades, mas o modelo malthusiano que se desenvolveu no interior da econmomia clássica analisa com êxito as causas dessas diferenças. Sabemos como o clima, a doença, os recursos naturais, a tecnologia e a fecundidade moldaram os níveis de vida material.

(...) Porém, a partir da Revolução Industrial entrámos num mundo novo no qual os embelezamentos rococós da teoria económica pouco ajudam a compreender as questões prementes que o indivíduo apresenta à economia: por que motivo há ricos e pobres? Viremos a fazer parte dos afortunados?

(...) A História mostra, como vimos repetidas vezes neste livro, que o Ocidente não possui nenhum modelo de desenvolvimento económico para oferecer aos países do mundo que ainda são pobres. Não existe nenhuma panaceia económica simples que garanta o crescimento nem sequer uma cirurgia económica complexa que proporcione alívio às sociedades afectadas pela pobreza. Até as ajudas directas se revelaram ineficazes enquanto estímulos ao crescimento. Neste contexto, a única política que o Ocidente podia seguir, capaz de beneficiar pelo menos alguns dos pobres do Terceiro Mundo, seria liberalizar a imigração proveniente deses países. temos alguns conhecimentos sobre as consequências económicas para os migrantes, retirados da história de países como a Inglaterra, os EUA, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, que receberam grandes fluxos de de migrantes na era moderna. Esses registos mostram que os migrantes, sobretudo os oriundos de países com rendimentos muito baixos, têm sido capazes de beneficiar enormemente da emigração. A ajuda ao Terceiro Mundo pode desaparecer nos bolsos dos consultores ocidentais e dos governantes corruptos dessas sociedades, mas qualquer migrante admitido nas cidades opulentas do mundo avançado é mais uma pessoa a quem foi assegurado um melhor estilo de vida material."

quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Criacionismo, ciência e política



Uma leitora que assina como Luísa mostra o seu espanto perante a atitude dos criacionistas, argumentando que uma pessoa pode evidentemente ser cristã ou de outra religião e aceitar a teoria da evolução. 

A explicação para esta estranheza é que o debate com os criacionistas não é intelectual ou teórico. Tal como o debate entre Galileu e a igreja católica não era intelectual ou teórico. A questão era puramente política no tempo de Galileu e é puramente política hoje. 

O que está em causa é haver pessoas que querem empurrar a sociedade numa dada direcção e outras que a querem empurrar noutra direcção. É pura política, suja como de costume. Nada tem a ver com ideias, teorias, concepções das coisas. É pura luta pelo poder. 

O objectivo do debate introduzido pelos criacionistas é apenas haver o próprio debate. Porque se existir o próprio debate o criacionista ganha tempo de antena -- e tudo o que ele quer é tempo de antena para empurrar o mundo na direcção desejada. O debate nada tem a ver com interesses teóricos genuínos, nem com interesses religiosos genuínos. 

Compare-se uma vez mais com Galileu: ele era católico e profundamente religioso. Acontecia apenas que tinha profundos interesses teóricos e intelectuais: estava, para sua desgraça, interessado na verdade. E foi vítima de maquinações políticas, sob a desculpa da religião — mas nada tinha a ver com religião. 

O mesmo acontece hoje. Provavelmente as pessoas genuinamente religiosas não têm, na sua esmagadora maioria, qualquer interesse no criacionismo; limitam-se a acreditar que Deus fez as leis da natureza, como Newton e Galileu acreditavam, e isso significa que Deus fez as leis da evolução. 

O criacionismo nada tem a ver com convicções religiosas; é pura luta política. E da pior espécie.

terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Segundo os criacionistas...

Regressa o humor científico de David Marçal, tal como apareceu no "Inimigo Público":

Segundo os criacionistas Darwin não propôs a teoria da evolução, apenas tomava notas para não se perder.

De acordo com a nova corrente criacionista, a famosa árvore da vida de Darwin não representa as relações evolutivas entre as espécies, que descendem umas das outras a partir de um antepassado comum, mas sim a dificuldade do cientista em memorizar caminhos. São apenas notas com cruzamentos e bifurcações, desde a sua casa até à dos sogros, à do capitão Fitzroy e ao porto onde está ancorado o Beagle. Também a maternidade (já que Darwin teve dez filhos) era um ponto importante.



Em cima, página do bloco de notas de Darwin rabiscada em 1837, que segundo os evolucionistas representa o conceito de evolução das espécies a partir de um antepassado comum.


Em cima, interpretação criacionista da árvore da vida de Darwin. A base do tronco não é a origem da vida (o antepassado comum), mas sim a origem das caminhadas de Darwin (a sua própria casa).

David Marçal

Realidade

Será toda a realidade empírica? Este é o tema da minha habitual crónica das terças-feiras do Público. E está aqui.

Orgasmo feminino, evolução e política

Stephen Crowley publicou na NDPR uma recensão do prometedor livro de Elisabeth A. Lloyd, uma das principais filósofas da ciência e da biologia, intitulado Science, Politics, and Evolution (Cambridge University Press, 2008, 301 pp.)

Ainda a guerra contra a ciência

Christopher Hitchens escreve um excelente artigo na Slate, que vale a pena ler na íntegra, sobre o que está em jogo nas próximas eleições norte-americanas. O artigo, que refere entre outras palinadas, o recente caso da mosca, resume num único artigo o que tem sido apontado no De Rerum Natura, sobre o anti-intelectualismo do ticket republicano, mesmo antes de ter sido divulgada a escolha de Sarah Palin para VP. Transcrevo a parte final do artigo «Sarah Palin's War on Science. The GOP ticket's appalling contempt for knowledge and learning».

«With Palin, however, the contempt for science may be something a little more sinister than the bluff, empty-headed plain-man's philistinism of McCain. We never get a chance to ask her in detail about these things, but she is known to favor the teaching of creationism in schools (smuggling this crazy idea through customs in the innocent disguise of "teaching the argument," as if there was an argument), and so it is at least probable that she believes all creatures from humans to fruit flies were created just as they are now. This would make DNA or any other kind of research pointless, whether conducted in Paris or not. Projects such as sequencing the DNA of the flu virus, the better to inoculate against it, would not need to be funded. We could all expire happily in the name of God.

Gov. Palin also says that she doesn't think humans are responsible for global warming; again, one would like to ask her whether, like some of her co-religionists, she is a "premillenial dispensationalist"—in other words, someone who believes that there is no point in protecting and preserving the natural world, since the end of days will soon be upon us. Videos taken in the Assembly of God church in Wasilla, Alaska, which she used to attend, show her nodding as a preacher says that Alaska will be "one of the refuge states in the Last Days." For the uninitiated, this is a reference to a crackpot belief, widely held among those who brood on the "End Times," that some parts of the world will end at different times from others, and Alaska will be a big draw as the heavens darken on account of its wide open spaces.

An article by Laurie Goodstein in the New York Times gives further gruesome details of the extreme Pentecostalism with which Palin has been associated in the past (perhaps moderating herself, at least in public, as a political career became more attractive). High points, also available on YouTube, show her being "anointed" by an African bishop who claims to cast out witches. The term used in the trade for this hysterical superstitious nonsense is "spiritual warfare," in which true Christian soldiers are trained to fight demons. Palin has spoken at "spiritual warfare" events as recently as June. And only last week the chiller from Wasilla spoke of "prayer warriors" in a radio interview with James Dobson of Focus on the Family, who said that he and his lovely wife, Shirley, had convened a prayer meeting to beseech that "God's perfect will be done on Nov. 4."


This is what the Republican Party has done to us this year: It has placed within reach of the Oval Office a woman who is a religious fanatic and a proud, boastful ignoramus. Those who despise science and learning are not anti-elitist. They are morally and intellectually slothful people who are secretly envious of the educated and the cultured. And those who prate of spiritual warfare and demons are not just "people of faith" but theocratic bullies.

On Nov. 4, anyone who cares for the Constitution has a clear duty to repudiate this wickedness and stupidity.
»

FESTIVAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA


O Festival de Banda Desenhada da Amadora deste ano é dedicado ao tema "Tecnologia e Ficção Científica". Para mais informações ver aqui.

URIEL DA COSTA, UM PORTUGUÊS ESQUECIDO

Do "Livro dos Portugueses Esquecidos" de Joaquim Fernandes (Círculo de Leitores), que já está nas livrarias, apresentamos a ficha de um judeu português que alguns conhecem, mas que merecia ser mais conhecido.

Costa, Uriel (Gabriel) da
(n. Porto, ca. 1585 – m. Amsterdão, 1640.)

Deste livre-pensador judaico-português, Carolina de Michaelis disse que “por causa da religião sofreu coisas inauditas” e a sua biografía evoca a de Espinosa, excepto no que toca ao seu trágico fim. Filho de pais cristãos abastados, descendentes de judeus, e de alma profundamente religiosa, mas dotado de raciocínio incapaz de acreditar no transcendente, Gabriel da Costa, o seu nome de baptismo católico, converteu-se primeiro ao judaísmo e, por fim, dos dois monoteísmos revelados que confessava, optou pela simples religiosidade “natural”.

Em 1600 matriculou-se na Universidade de Coimbra, decidido a estudar Direito Canónico, objectivo que interrompeu no ano seguinte, antes de abandonar em definitivo a Universidade em 1608. Aos 25 anos, Gabriel da Costa tomou posse do cargo de tesoureiro duma colegiada do Porto e, pouco tempo depois, abalado por uma crise de consciência que se arrastava há anos, trocou o cristianismo pelo judaísmo. Resignou aos bens que possuía, vendeu a casa paterna e embarcou clandestinamente para a Holanda, levando a mãe e cinco irmãos, já que seu pai, Bento da Costa havia entretanto falecido.

Ao que se julga, as primeiras dúvidas religiosas de Gabriel teriam surgido cerca de 1601, inicialmente desencadeadas pelo pavor da impossibilidade da salvação da sua alma, passando depois a duvidar de tais exigências e dos dogmas sobre a vida futura. Dessa primeira reacção racionalista regressara, contudo, à atitude teológica, desta vez sob a doutrina judaica em prejuízo da cristã. Ao tempo em, que fora tesoureiro da colegiada optou por ler o Velho Testamento, estudando a lei no Génesis e no Deuteronómio, identificando-se com o espírito dos Profetas, dos Salmos e do Livro de Job.

O pensador portuense entendeu, essencialmente, que a lei de Moisés era venerada tanto por judeus como por cristãos, ao passo que os Evangelhos e as doutrinas das Epístolas de S. Paulo não falavam senão aos povos cristianizados, de raça diversa da dele. Em segundo lugar, deduziu que a lei judaica, com prémios e castigos meramente temporais. sem salvação nem condenação eternas, sem Satanás nem mistérios, era mais simples e compreensível.

Chegado a Amsterdão, ingressou na comunidade judaica, sujeitou-se à circuncisão e mudou de nome de Gabriel para Uriel. Casou pouco depois, mas a esposa faleceu sem lhe poder dar descendência. Em breve, a desilusão instalou-se, porquanto o novo converso não lograra encontrar nos judeus a convergência das suas práticas com aquilo que pensava ser a lei de Moisés.

Uriel da Costa viu-se, assim, transformado num judeu hetereodoxo, combatendo os fariseus e o farisaismo e afastando das suas práticas. Comportamentos que lhe valeram a crítica dos rabinos que acabaram por declará-lo hereje em Veneza e Hamburgo e excomungaram-no em Amsterdão. Os seus textos foram rejeitados pelas congregações e o anátema da sociedade caiu sobre Uriel que, desautorizado e só, abandonado pelos próprios irmãos, passou a contar apenas com a mãe.

Inconformado, escreveu então uma obra de análise às Tradições farisaicas, em que expõe dúvidas acerca da imortalidade da alma, trabalho esse o médico Samuel da Silva irá contradizer, acusando Uriel de ateísmo. O heterodoxo português não se livra de ser acusado e preso pelas autoridades holandesas. Liberto, é obrigado a queimar os seus livros e sair de Amsterdão.

Todo este processo acaba por incutir no livre-pensador a ideia de que a lei de Moisés é uma criação humana e não fruto de uma revelação divina. Em 1633, porém, reconcilia-se com os rabinos e reingressa na comunidade judaica, num gesto de aparente conveniência e não de sincera convicção. Recusando a prática dos preceitos judaicos, Uriel acabou por ser denunciado por um sobrinho e novamente excomungado.

Durante nove anos resiste neste quadro degradante, que o novo anátema lhe impusera. Isolado e na miséria, não podendo suportar o infortúnio, Uriel da Costa aceitou sujeitar-se à penitência que lhe for imposta. Na sinagoga, o arrependido foi publicamente açoitado e sujeito a vexames colectivos da comunidade. No rescaldo da cerimónia, não suportando o que passara, Uriel suicidou-se.

Principal obra:
Exame das tradições farisaicas conferids com a lei escrita contra a imoirtalidade da alma. Amsterdão, 1623.

Referências bibliográficas:
Diogo Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana, Vol.II.
Inocêncio da Silva, Brito Aranha, Dicionário Bibliográfico Português, Vol. 7.
Menendez y Pelayo, La Ciência Española. Madrid, 1887.
Carolina de Michaelis de Vasconcelos, Uriel da Costa, notas relativas à sua vida e à sua obra. Coimbra, 1922.

Joaquim Fernandes

domingo, 26 de Outubro de 2008

Cientistas em saldos

Desta vez não é um texto de humor. Ampliamos a difusão do texto de opinião de David Marçal publicado no "Público" do passado sábado:

Sabia que há cientistas que ganham 745 euros? Que não têm direito a subsídio de desemprego, férias, Natal ou alimentação? E que não são aumentados há seis anos? Está naturalmente curioso de saber em que país, mas estou certo de que já adivinhou.

São os bolseiros de investigação científica, uma designação infeliz para os jovens (e menos jovens) investigadores, pois classifica-os pelo tipo de regime contratual com que exercem funções, secundarizando a natureza da actividade (investigação!). Faz tanto sentido como descrever um juiz como um "assalariado da justiça".

Os bolseiros podem-se distinguir segundo o tipo de bolsa que têm. Os BIC (Bolsa de Investigação Científica) são licenciados e, independentemente da sua experiência ou competências, ganham 745 euros. Os BD (Bolsa de Doutoramento) têm em geral um excelente percurso académico e científico (não é fácil ganhar a bolsa!), são investigadores experientes e motivados, ganham 980 euros. O mesmo valor desde 2002, o que representa face à inflação acumulada uma perda de 18% do poder de compra.

Pode-se argumentar que os bolseiros "estão em formação" e que "já é uma sorte estarem-lhes a pagar". Tratam-se de adultos (uma licenciatura não se acaba antes dos 22-23 anos) com contas para pagar e legítimo direito à emancipação (ou um cientista tem que viver em casa dos pais?). E quanto à formação, creio que qualquer bom profissional está sempre em formação. Todas as carreiras têm fases, e o doutoramento é uma fase da carreira de um cientista.

Os bolseiros têm direito ao chamado Seguro Social Voluntário. Que é uma espécie de não sei o quê. Basicamente, a entidade que concede a bolsa paga contribuições para a segurança social, equivalentes ao salário mínimo. Este é o regime pelo qual estão abrangidas as pessoas que não têm rendimentos. Porque raio enfiaram os jovens investigadores aqui? Fazendo o Governo gala de integrar todas as classes profissionais no regime geral de segurança social, que coerência tem não incluir os bolseiros? Esta reivindicação tem sido sucessivamente negada pela tutela. Para que não haja dúvidas: os jovens investigadores querem ser integrados num regime de segurança social que outros grupos profissionais não querem porque acham que é mau!

Penso que é necessário criar a percepção social deste problema e da necessidade de evolução. Começando pelos próprios investigadores e professores do quadro que trabalham com bolseiros. Que beneficiam do seu trabalho, com quem publicam artigos e escrevem patentes. Creio que seria de todo justo e adequado que os cientistas e investigadores estabelecidos tomassem publica e politicamente o partido dos jovens investigadores. A alternativa é continuar o choradinho da fuga de cérebros. Não há fuga de cérebros. Há expulsão de cérebros. Se não fazem falta, isso é outra história. Mas, sendo assim, digam.

David Marçal

Cantemos


Divulgamos a última crónica de José Luís Pio de Abreu no "Destak":

A Islândia afundou-se na sua riqueza, os trezentos mil habitantes que viviam dos rendimentos têm de se dedicar de novo à pesca, conforme indicou o primeiro-ministro. O país modelo dos ultra-liberais Friedman e von Hayek recebe agora a esmolada ajuda do Fundo Monetário Internacional. E nós, portugueses, o que fazemos?

A Lehman Brothers deu o sinal de que o dinheiro virtual já nada valia, permitindo entretanto que os seus altos gestores arrecadassem centenas de milhões em moeda. Os outros talvez sejam salvos pelos contribuintes norte-americanos porque George W. Bush se tornou generoso e intervencionista, mandando às urtigas as ideias liberais dos republicanos. E nós, portugueses, o que fazemos?

Toda a Europa virou social-democrata, prontificando-se a nacionalizar bancos e indústrias estratégicas. Durão Barroso, Sarkozy, Merkel, Berlusconi, são agora os paladinos da economia de esquerda. E nós, portugueses, o que fazemos?

Por todo o mundo, as bolsas descem teimosamente. Os predadores de empresas baratas andam por aí a salivar, mas ninguém sabe ao certo o que virá a seguir. E nós, portugueses, o que fazemos?

– Nós, portugueses, cantamos o Magalhães.

J. L. Pio Abreu

Sarah Palin e as moscas


Richard Wolfe no Countdown sobre as palavras de Palin: «the most mindless, ignorant, uninformed comment that we have seen from Governor Palin so far and there's been a lot of competition for that prize.»

No post «Sarah Palin: Ignorante e anti-ciência» dei conta da reacção de alguns membros da comunidade científica aos dislates de Sarah Palin sobre a investigação em moscas da fruta. Como seria expectável, a ignorância da governadora do Alasca não deixou muito contentes os cientistas que trabalham com estes insectos, em especial os que usam este modelo animal para investigar as causas génicas associadas a doenças como o autismo. Em particular, os autores do estudo da universidade da Carolina do Norte que referi reagiram com o comunicado «In defense of fruit flies and basic medical research»:
Vice presidential candidate Sarah Palin made reference to fruit fly research in a broad statement about wasteful earmark funding that has “little or nothing to do with the public good.” She specifically mentioned work in Paris, France. (Just Google it.)

MSNBC’s Keith Olbermann reported this, and mentioned, specifically, (Drosophila) fruit fly research at the University of North Carolina (”which is not in Paris,” Olbermann noted) that has led to advanced understanding in autism research. (We think you’ll be able to find this easily, too.)

That work, led by neuroscientist Manzoor Bhat, Ph.D., and autism researcher and clinician Joseph Piven, M.D., director of UNC’s Neurodevelopmental Disorders Research Center.

Their work was published in Neuron in September 2007.

This morning (Sunday, Oct. 26, 2008) Dr. Bhat and Dr. Piven made these comments about the importance of fruit fly studies in the realm of autism research:

Não podia acontecer na América

Sinclair Lewis foi o primeiro escritor americano a ser galardoado com o Nobel da Literatura, «pela sua vigorosa e gráfica arte de descrição e pela sua habilidade para criar, com humor e genialidade, novos tipos de personagens».

Lewis ficou conhecido pelos seus fantásticos trabalhos satíricos alguns deles distopias intemporais que paradoxalmente (ou não) continuam a ser excelentes caricaturas da América de hoje. Do seu universo ficcional destacam-se Main Street (1920), considerada uma das mais importantes obras de crítica social, Babbitt (1922) - uma sátira à cultura de «massas» -, Arrowsmith (1925), uma crítica da subordinação da ciência a desígnios imediatistas e materialistas ou Elmer Gantry (1927), uma excelente crítica do fanatismo religioso e da hipocrisia concomitante.

Gosto especialmente do Babbit, que alguém descreveu de uma forma que considero extraordinariamente bem aplicada a todos os Babbits que ainda hoje vivem em transição cultural, não aceitando que o mundo que gostariam de impor aos outros está morto para sempre: «lost between two worlds, the one dead to him forever and the other powerless to be born». Aliás, acho espantoso como esta obra prima parece desde as primeiras linhas, que poderiam perfeitamente descrever a génese da bolha do subprime, ter sido escrita ontem:
«His name was George F. Babbitt. He was 46 years old now, in April 1920, and he made nothing in particular, neither butter nor shoes nor poetry, but he was nimble in the calling of selling houses for more than people could afford to pay».
O livro permite-nos ainda um vislumbre do anti-intelectualismo que seria aprofundado noutras obras, nomeadamente o anti-intelectualismo latente naqueles que acreditam, com toda a força da ignorância, que uma estadia numa universidade estadual os transformou em iluminados ecléticos e pensadores independentes quando na realidade apenas seguem acefalamente a «manada», por exemplo quando declaram convictamente ser necessário silenciar radicais, acabar com a imigração e «manter os negros nos seus lugares».

Lewis explicita-nos este ponto noutro parágrafo que não perdeu a actualidade:

«Just as he was an Elk, a Booster, and a member of the Chamber of Commerce, just as the priests of the Presbyterian Church determined his every religious belief and the Senators who controlled the Republican Party decided in Washington what he should think about disarmament, tariff, and Germany, so did the large national advertiser fix the surface of his life, fixed what he believed to be his individuality».

Igualmente interessante é o breve período de rebelião em que Babbitt tentou fugir à insipidez da sua vida monótona e enfadonha. O livro foi escrito pouco depois do dealbar do projecto do novo liberalismo, que na altura não adquirira ainda a esquerdista conotoção actual, e é delicioso ler o que é quiçá o melhor exemplo da excelência acérbica e satírica do autor quando Lewis descreve como vários Babbitts se declaram liberais quasi como sinónimo de «modernos».

O Babbitt de Sinclair Lewis foi fonte de inspiração para muitos, em particular para outro nome grande da literatura, Philip Roth. Roth, que escreveu versões actualizadas sortidas do Babbitt de Lewis - um personagem de Roth em «A marca humana», pergunta-se mesmo «Será que ninguém leu Babbitt?» - inspirou-se noutra obra mais tardia de Lewis, publicada em 1936, para o seu «The Plot Against America».

Embora considerada uma obra menor de Lewis, It Can’t Happen Here (disponível no projecto Gutenberg), é talvez a obra mais interessante numa altura em que estamos a pouco mais de uma semana das eleições que escolherão o próximo presidente dos Estados Unidos.

O It Can’t Happen Here descreve o que acontece numa América alternativa em que nas eleições de 1936 não é o democrata Franklin Delano Roosevelt que foi (re)eleito com todos os votos eleitorais excepto os do Maine e do Vermont que perdeu para Alfred M. Landon. Nesta distopia, que tem início exactamente no Vermont, são outros os candidatos: o demagogo e populista Berzelius "Buzz" Windrip e o senador republicano Walt Trowbridge (o mau da fita nesta história de Lewis é um democrata, ao contrário do que acontece quer em Roth quer no Iron Heel de Jack London).

Escrito em apenas alguns meses, «Não podia acontecer na América» conta-nos a história focada no editor do jornal de uma pequena cidade do Vermont, Doremus Jessup, a voz do liberalismo - e da consciência - na sua área. Apoiado pelo clero católico mais retrógrado e orientado por um secretário maquiavélico, Buzz Windrip decide disputar com FDR a nomeação democrata. Windrip consegue a nomeação explorando o anti-intelectualismo da população e louvando a sapiência dos Babbits com a ajuda da Liga dos Homens Esquecidos (League of Forgotten Men) liderada pelo bispo Paul Peter Prang - inspirado literalmente no padre Charles E. Coughlin, o simpatizante de Hitler que fez da rádio um púlpito para os seus sermões anti-semitas e anti-comunistas ... e para ele, até Roosevelt era um malvado bolchevique.

O senador democrata concorre com um programa indisfarçavelmente totalitário, racista e chauvinista que os homens de bom senso, como Jessup, acreditavam não ter hipóteses de enganar ninguém. No entanto, Buzz ganha a eleição facilmente e a América, a terra dos homens livres, transforma-se numa ditadura fascista no espaço de dias.

Há três anos, por ocasião da reedição da obra de Lewis nos Estados Unidos, Joe Keohane escreveu uma coluna no Boston Globe que vale a pena ler na íntegra e de que o parágrafo, que transcrevo, não sei porquê me recordou o último livro de Primo Levi , «Os afogados e os sobreviventes»...
«When Windrip is elected, all hell breaks loose. Dissent is crushed, the Bill of Rights is gutted, war is declared (on Mexico), and labor camps are established to help shore up Windrip's vaunted ''New Freedom,'' which is more like a freedom from freedom. All that's really left of the old America are the flags and patriotic ditties, which for many is more than enough.

But to Lewis it's not entirely the fault of those who will gladly abide America's principles being gutted. The blame also falls on the ''it can't happen here'' crowd, those yet to realize that being American doesn't change your human nature; whatever it is that attracts people to tyranny is in Americans like it's in anyone else.»

sábado, 25 de Outubro de 2008

Sarah Palin: Ignorante e anti-ciência


A Drosophila melanogaster, a mosca do vinagre ou mosca da fruta cujo genoma foi completamente sequenciado no ano 2000, é o modelo biológico por excelência da análise genética e da hereditariedade, quer a nível do ensino quer da investigação de ponta. Este insecto é intensivamente estudado, até mesmo no espaço, há cerca de um século desde que Thomas Hunt Morgan, um dos nomes mais determinantes na genética, a notabilizou.

Morgan, doutorado em biologia pela Universidade Johns Hopkins sob orientação de H. Newell Martin, aluno de Michael Foster e assistente de Thomas Henry Huxley, começou a trabalhar com a drosófila a partir de ca. 1910 e, para explicar determinadas características herdadas exclusivamente pelos machos, formulou a hipótese segundo a qual certos caracteres hereditários presentes no cromossoma X das fêmeas eram «limitados pelo sexo». Para descrever as unidades ou factores hereditários do cromossoma X, Morgan adoptou o termo gene, criado em 1909 pelo botânico dinamarquês Wilhelm Johannsen, e concluiu que os genes se distribuíam de forma linear nos cromossomas. Morgan foi distinguido em 1933 com o Nobel da Medicina pelo seu trabalho na Drosófila

De 1928 até ao fim da vida, Thomas Morgan trabalhou no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) criando uma escola que marcou indelevelmente a genética, formando, entre outros, os Nobel George Wells Beadle, Edward B. Lewis e Hermann Joseph Muller. Em homenagem a Morgan, a Genetics Society of America condecora anualmente um dos seus membros com a medalha Thomas Hunt Morgan por contribuições significantes nesta área. Quiçá as palavras de outro prémio Nobel, Eric Richard Kandel, nos ajudem a perceber melhor o legado de Morgan (e indirectamente da drosófila):

«Assim como as descobertas de Charles Darwin sobre a evolução de espécies animais definiram a biologia do século XIX como uma ciência descritiva, as descobertas de Morgan sobre os genes e a sua localização nos cromossomas ajudaram a transformar a biologia numa ciência experimental.»

Tudo isto a propósito de um discurso de Sarah Palin que confirma tudo o que escrevi n'«O voto da Ciência». Palin, no seu primeiro discurso sobre as políticas que o ticket republicano pretenderia implementar se eleito (felizmente uma hipótese cada vez mais remota), explica que o dinheiro que se gasta em projectos ridículos poderia ser utilizado para coisas que realmente interessam, como seja o Individuals with Disabilities Education Act (IDEA), especialmente no que ao autismo diz respeito:
«You’ve heard about some of these pet projects they really don’t make a whole lot of sense and sometimes these dollars go to projects that have little or nothing to do with the public good. Things like fruit fly research in Paris, France. I kid you not.»


Ou seja, Palin considera que os projectos de investigação científica mais fundamental são projectos ridículos cujo financiamento merece ser cortado. A mesma investigação na Drosófila que a ignorante candidata desdenha como irrelevante que, reportando apenas à área sobre que demagogica e imbecilmente Palin discursou, no ano passado permitiu a cientistas da universidade da Carolina do Norte descobrir:
[S]cientists at the University of North Carolina at Chapel Hill School of Medicine have shown that a protein called neurexin is required for..nerve cell connections to form and function correctly.

The discovery, made in Drosophila fruit flies may lead to advances in understanding autism spectrum disorders, as recently, human neurexins have been identified as a genetic risk factor for autism.

Como refere Ben Armbruster, o estudo da mosca do vinagres tem sido providencial em outras decobertas importantes sobre autismo para além de ter «revolucionado” o estudo de 'birth defects'».

Acho que sobre a barbaridade ignorante debitada pela governadora do Alaska, PZ Myers mais uma vez resume bem o que penso:
I am appalled.

This idiot woman, this blind, shortsighted ignoramus, this pretentious clod, mocks basic research and the international research community. You damn well better believe that there is research going on in animal models — what does she expect, that scientists should mutagenize human mothers and chop up baby brains for this work? — and countries like France and Germany and England and Canada and China and India and others are all respected participants in these efforts.

sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Um professor que se reforma não é apenas um professor que se reforma

"… no fim da sua carreira, um professor é passado à reforma e leva com ele os seus segredos, todos os seus êxitos e ideias. E os jovens têm de recomeçar." Gaston Mialaret (1981)

A teoria cognitivista é uma das várias teorias pedagógicas que procuram explicar o ensino e indicar como deve ser desempenhado. As suas preocupações têm-se centrado na análise da relação entre o que o professor pensa - os seus conhecimentos, concepções, crenças - e a sua acção concreta.
Nessa análise detêm-se nas decisões que os professores principiantes e experientes tomam em duas situações: quando planificam e quando leccionam as aulas.

Os estudos realizados confirmaram, em geral, uma melhoria da destreza pedagógico-didáctica à medida que os docentes se vão familiarizando com os conteúdos, consciencializando o seu estilo de interacção, dominando os métodos e as técnicas de que dispõem. Assim, percebeu-se que os professores experientes, quando comparados com os principiantes, concentram-se mais na compreensão que os alunos adquirem dos conteúdos, captam mais facilmente a especificidade de cada turma, concentram-se mais nos aspectos essenciais para conduzir a aprendizagem, que também processam com maior rapidez e eficácia.

Estes dados permitem tirar ilações para a formação, aconselhando-se a observação da planificação e do desempenho de professores experientes por parte dos candidatos a professores e dos jovens professores. Também permitem tirar ilações para o funcionamento das escolas, sublinhando-se que ganham, em termos de resultados nas aprendizagens, se tiverem professores experientes que acompanhem os menos experientes.

Esta é uma das razões que nos deve deixar preocupados com a reforma de tantos professores experientes, como está a acontecer no nosso país. Não desvalorizando as competências "dos milhares de jovens diplomados a querer entrar no sistema de ensino" (actual Ministra da Educação) e a capacidade que estes, por princípio, têm de questionar práticas instaladas e de inovar, é preciso reconhecer que essas competências não são iguais às de muitos professores que agora se retiram.

Economia do conhecimento


No «O Voto da Ciência» afirmei que as tecnologias em energias renováveis serão as próximas indústrias globais, ultrapassando muito provavelmente as tecnologias da informação daqui a uns anos. O gráfico acima, que representa a evolução das estimativas das necessidades energéticas globais, explica esta afirmaçãos já abordada em Agosto no «Energias alternativas e aquecimento global».

A necessidade de investimento na pesquisa de fontes energéticas alternativas é explicada também pelo facto de que, quaisquer que sejam os modelos de crescimento económico que se utilizem, é necessário para evitar recessões que a taxa de crescimento do progresso tecnológico, nomeadamente no sector energético, seja suficiente para contrabalançar os efeitos das restantes variáveis em equação. Assim, os países que mais investirem agora em investigação nesta área beneficiarão assim de uma vantagem estratégica no futuro próximo, facto a que os dirigentes europeus estão muito sensíveis.

Vários anúncios da União Europeia na semana passada confirmam a aposta no desenvolvimento de uma economia do conhecimento. Um deles informa que a Comissão Europeia autorizou o financiamento de 67,6 milhões de euros, concedido no final de 2007 pela OSEO - a agência francesa de apoio à inovação -, para o programa Horizon Hydrogen Energy (H2E). O programa coordenado pelo grupo Air Liquide envolve cerca de 20 parceiros, que incluem grupos industriais, pequenas e médias empresas e laboratórios públicos franceses de investigação. O H2E representa um investimento de cerca de 200 milhões de euros em I&D num período de 7 anos na pesquisa de soluções energéticas ligadas ao hidrogénio - que inclui investigação em células de combustível de hidrogénio.

Por outro lado, a Comissão Europeia, a indústria europeia e a comunidade europeia de cientistas, constituiram a parceria público-privada da Joint Technology Initiative (JTI). A JTI vai investir cerca de mil milhões de euros ao longo de seis anos na investigação em células de combustível e hidrogénio, bem como no desenvolvimento e demonstração desta tecnologia. A plataforma HFP tem como objectivo colocar a Europa na linha da frente das novas formas de energia e criar massa crítica relativamente a estas tecnologias antes de 2020, ano em que se prevê uma diminuição da capacidade de produção da indústria petrolífera.

O Comissário Europeu da Ciência e Investigação, Janez Potocnik, afirmou que «ao investir nestes projectos científicos estamos a colocar o dedo na ferida, pois o desenvolvimento de novas tecnologias é crucial para alcançar os objectivos europeus no que concerne às alterações climáticas e aos desafios energéticos».

A iniciativa foi formalizada numa assembleia geral em Bruxelas que decorreu entre 13 e 15 de Outubro e reuniu cerca de 600 Stakeholders da Fuel Cells and Hydrogen Joint Technology Initiative e durante a qual a a Alemanha, a Grã-Bretanha e a Dinamarca e apresentaram programas nacionais consistentes no que respeita a uma economia focada em energias que não as provenientes de combustíveis fósseis, em especial o hidrogénio. A Dinamarca foi mais longe e anunciou pretender em 2020 produzir toda a sua energia de forma renovável estando em curso o desenvolvimento de uma base industrial de suporte desde a produção de hidrogénio à fabricação de pilhas de combustível.

Mas soube-se também que que o Banco Europeu de Investimentos anunciou a sua disponibilidade para financiar os projectos de infra-estrutura necessários à logística do hidrogénio, por exemplo, a rede comum de pipelines para distribuição de H2 que os países nórdicos pretendem construir.

Foi criada igualmente uma plataforma comum que pretende congregar as regiões e municipalidades activas no desenvolvimento de tecnologias ligada ao hidrogénio – HyRaMP- European Regions and Municipalities on Hydrogen and Fuel Cells.

Mas o interesse nesta forma de energia não se restringe à Europa: por exemplo, dentro de dias começarão a circular em S. Paulo autocarros movidos a hidrogénio no âmbito do projecto «Estratégia Energético Ambiental: Ônibus com Célula a Combustível a Hidrogênio».

Em Portugal, o hidrogénio parece ter sido ignorado pelos nossos legisladores no quadro legal dos incentivos e benefícios fiscais das energias renováveis ao ponto de os veículos movidos a hidrogénio nem sequer beneficiarem da taxa reduzida aplicado aos que utilizam GPL ou gás natural muito menos das isenções em sede de IA de que gozam os veículos híbridos. No entanto, uma das descobertas que promete revolucionar esta área foi feita muito recentemente em Portugal, a gelatina iónica que permitará desenvolver dispositivos mais baratos e mais ecológicos.

O CHUMBO DO BOM ALUNO


Minha crónica no "Público" de hoje:

Uma auto-avaliação é sempre uma avaliação incompleta pois um bom aluno só o é, de facto, se for examinado externamente e se, em comparação directa com os outros, não se sair mal da prova. Pois Portugal, tantas vezes chamado “bom aluno”, não se tem saído airosamente de algumas provas internacionais em que tem entrado.

Dois relatórios internacionais sobre a desigualdade social recentemente publicados, um mais abrangente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e outro mais restrito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), não classificam bem as políticas sociais do nosso país ao longo dos últimos vinte anos. Ambos convergem em classificar Portugal no grupo de países onde as desigualdades entre ricos e pobres são maiores. O estudo da OIT (“Desigualdades de rendimentos na era da globalização financeira”) mostra que o fosso entre os mais ricos e os mais pobres tem vindo a aumentar sistematicamente ao longo dos últimos anos (que não tem necessariamente de ser assim é exemplificado pelo caso de Espanha, onde o fosso tem diminuído). Por outro lado, o estudo da OCDE (“Crescimento desigual?”) coloca-nos em terceiro lugar numa tabela de desigualdade social, apenas batidos pelo México e pela Turquia, e logo antes dos Estados Unidos, que são bem desiguais. Como se tal fosse pouco, o mesmo estudo faz-nos uma menção especial, ao afirmar que a média dos dez por cento mais pobres do Reino Unido ganha mais do que o português médio. Claro que os portugueses ricos ou da classe média alta que viajam a Londres já sabiam isso e os autóctones que vêem a “working class” inglesa vir de férias ao “Allgarve” também já sabiam isso, mas agora todos sabem.

São más notícias não para este ou aquele governo em particular, mas para o conjunto dos governos, do PS ou do PSD, que se têm sucedido nas últimas duas décadas. É certo que eles propuseram ou mantiveram algumas políticas com preocupação social, como a do rendimento mínimo garantido, mas estas têm-se revelado claramente insuficientes para debelar um problema que parece ser estrutural. Mesmo com o rendimento mínimo, a pobreza parece estar garantida, parece um destino.

À margem do relatório da OCDE, o Professor Anthony Atkinson, da Universidade de Oxford, comentou as respectivas conclusões, lembrando que estamos a viver uma crise mundial, uma crise que não é só em “Wall Street”, mas também em “all streets”:
A recessão – se se confirmar – não será uma boa notícia para todos os que estão nas margens da força laboral (...) Há uma mensagem política. Os orçamentos dos governos estão sob stress, mas os cidadãos estão à espera de que, se há fundos para salvar os bancos, então os governos podem subsidiar benefícios para o desemprego e para o emprego. Se os governos podem ser credores de último recurso, então gostaríamos de os ver como empregadores de último recurso. Falando claro, os governos têm de entrar em acção tal como Roosevelt fez na Grande Depressão”.
Não há o risco de os liberais ou neo-liberais aparecerem a protestar porque eles andam desaparecidos em parte incerta... As medidas para os governos combaterem o desemprego terão de ser dirigidas principalmente aos mais novos, porque, segundo os ditos relatórios, são eles os mais ameaçados pela pobreza. Os pobres mais recentes não são os velhos mas as crianças e jovens. Em particular, a desqualificação dos nossos jovens – culpa em larga medida de um sistema educativo iníquo - é um problema que clama por solução urgente. Será que podemos fazer isso? Sim, podemos. “O destino não é uma questão de sorte – é uma questão de escolha. Não é algo para ser esperado - é algo para ser conseguido”. Quem o disse não foi Barack Obama, foi William Jenning Bryan, um candidato do Partido Democrata três vezes derrotado à presidência dos Estados Unidos no dealbar do século XX. Bryan opunha-se com energia ao darwinismo social, ao triunfo dos mais ricos à custa dos mais pobres, o que, do outro lado do Atlântico como aqui, continua a ser um imperativo moral.