sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Um professor que se reforma não é apenas um professor que se reforma

"… no fim da sua carreira, um professor é passado à reforma e leva com ele os seus segredos, todos os seus êxitos e ideias. E os jovens têm de recomeçar." Gaston Mialaret (1981)

A teoria cognitivista é uma das várias teorias pedagógicas que procuram explicar o ensino e indicar como deve ser desempenhado. As suas preocupações têm-se centrado na análise da relação entre o que o professor pensa - os seus conhecimentos, concepções, crenças - e a sua acção concreta.
Nessa análise detêm-se nas decisões que os professores principiantes e experientes tomam em duas situações: quando planificam e quando leccionam as aulas.

Os estudos realizados confirmaram, em geral, uma melhoria da destreza pedagógico-didáctica à medida que os docentes se vão familiarizando com os conteúdos, consciencializando o seu estilo de interacção, dominando os métodos e as técnicas de que dispõem. Assim, percebeu-se que os professores experientes, quando comparados com os principiantes, concentram-se mais na compreensão que os alunos adquirem dos conteúdos, captam mais facilmente a especificidade de cada turma, concentram-se mais nos aspectos essenciais para conduzir a aprendizagem, que também processam com maior rapidez e eficácia.

Estes dados permitem tirar ilações para a formação, aconselhando-se a observação da planificação e do desempenho de professores experientes por parte dos candidatos a professores e dos jovens professores. Também permitem tirar ilações para o funcionamento das escolas, sublinhando-se que ganham, em termos de resultados nas aprendizagens, se tiverem professores experientes que acompanhem os menos experientes.

Esta é uma das razões que nos deve deixar preocupados com a reforma de tantos professores experientes, como está a acontecer no nosso país. Não desvalorizando as competências "dos milhares de jovens diplomados a querer entrar no sistema de ensino" (actual Ministra da Educação) e a capacidade que estes, por princípio, têm de questionar práticas instaladas e de inovar, é preciso reconhecer que essas competências não são iguais às de muitos professores que agora se retiram.

5 comentários:

LA disse...

Dona Damião, mesmo que saiam alguns daqueles que tem 60 anos, ou à beira disso, ainda fica aquele estrato todo do pessoal dos trintas aos cinquentas, não será uma coisa assim tão grave.
De resto, o post não conta nada de novo, parece-me um bocado eduquesiano!
Que melhores postas venham por aí!

Fernando Martins disse...

Texto excelente, que só quem não dá aulas ou tem as palas de burro socratianas não percebe.

PS - Sou professor há 18 anos e nunca vi, nem pensei puder ver alguma vez, a Escola Pública assim.

Paulo Soares disse...

Um belo texto que, com rigor e elegância, deixa ao leitor atento o trabalho de reflectir. Ou seja, aquilo que alguns parecem considerar uma coisa já fora de moda.

O que não é referido no texto é que todo o processo tem vindo a ser metodicamente planeado e aplicado pelo (des)governo português como se fosse uma nova revolução cultural chinesa. O objectivo não declarado é extirpar da escola pública qualquer vestígio de pensamento independente e de individualidade. O ME pretende criar um corpo de funcionários cinzentos e subservientes ao ponto de tudo aceitarem fazer em troca de um emprego. Como diz a ministra não faltam candidatos e, melhor ainda, uma boa parte da população concorda com tudo isto para que não haja 'privilegiados' e desde que esses funcionários se ocupem dos seus filhos o maior tempo possível.

Junte-se a isto uma bela moldura tecnológica e assim teremos a escola do futuro!

Filipe Moura disse...

Cara Helena, para um professor ser "experiente" tem que exercer! Se só começar a exercer aos 40 anos, aos 60 não será um "professor experiente". No caso das universidades, se os doutorados forem obrigados a ficar na precariedade até aos 40 anos, nunca serão professores universitários experientes. Ao querer manter os "professores experientes" agora, a Helena está a hipotecar a possibilidade de os seus netos terem alguma vez professores experientes.
Eu vou fazer 34 anos e aguardo uma oportunidade para um dia poder dizer que sou um "professor experiente". Parece que isto não se pergunta a uma senhora (peço desculpa pela frontalidade), mas a Helena que idade tem?

Helena Damião disse...

Caro Filipe Moura
Como deve saber, nas décadas de oitenta e noventa havia cursos de formação inicial de professores por todo o lado: universidades novas, clássicas, privadas, escolas supriores de educação, institutos vários... A aposta foi feita na quantidade: importava legitimar habilitações de quem já estava no ensino e a quem queria entrar nele (por desejar ser professor ou para ter um emprego). A falta de articulação entre as reais necessidade de professores no sistema educativo e os que se iam formando foi deixando muitas pessoas numa espera sem sentido.

Parece-me que este é um problema diferente daquele que refiro no post: é problema que deriva da descordenação entre políticas e medidas educativas e que afecta mais velhos e mais novos.

Do século das crianças ao século de instrumentalização das crianças

Muito em virtude do Movimento da Educação Nova, iniciado formalmente em finais de 1890 e, em especial, do trabalho de Ellen Key, o século XX...