terça-feira, 21 de outubro de 2008

A polémica sobre computadores nas escolas



Novo post de Rui Baptista (no vídeo um dos "sketchs" dos Gato Fedorento sobre o computador "Magalhães", que, ao que consta, também irá para escolas da Venezuela e do Brasil):


A polémica sobre o “Magalhães” está longe de ter chegado ao fim. Todos os dias são publicados estudos sobre a utilização dos computadores na escola. No meu último post, “Magalhães e Obesidade”, debrucei-me, apenas, sobre o uso desta tecnologia em crianças do 1.º ciclo do ensino básico (antiga instrução primária), tendo apresentado estudos nacionais e estrangeiros que suportam os seus malefícios no desencadear e agravamento da obesidade.

Embora este post dissesse apenas respeito ao assunto do respectivo título, num dos comentários foi levantado o seguinte ponto: “Estou a perder dotes de ortografia com os correctores automáticos (…)”. Pelo seu interesse, mereceu-me a seguinte resposta: ”Falemos, então, do corrector de texto. Numa perspectiva hedonística de ensino tem vantagem evidente sobre os maçadores ditados do meu tempo de escola primária. Mas como é hábito dizer-se, o que arde cura. Fazendo a transferência para a aprendizagem quando ela é feita com esforço perdura; o que se aprende facilmente entra por um ouvido e sai por outro”.

Neste mesmo blogue já perspectivei outras questões, de natureza cognitiva, num post intitulado “A entrega de portáteis na escola”. Nessa altura, não se tratava da “oferta” de “Magalhães” a alunos 1.º ciclo do ensino básico, mas de computadores mais sofisticados a estudantes do ensino secundário a preço de saldo e com idêntica pompa e circunstância da presença do “staff” governamental. Sobre o perigo do uso dos computadores, escrevi o seguinte: “Pesquisar na Net pode ser uma arma de dois gumes: pode pesquisar-se o que se deve e o que não se deve, pondo nas mãos dos jovens essa triagem e essa responsabilidade num período da vida escolar deveras perigoso porque marca a transição de um ensino básico permissivo para um ensino secundário que se tem sabido manter firme no seu exigente papel de antecâmara do ensino superior”.

Segundo uma notícia da Agência Lusa, de 17 de Outubro deste ano, foi divulgado um estudo que envolveu mais de 500 crianças e encarregados de educação de escolas da Grande Lisboa, apresentado na “II Conferência Anual da Entidade Reguladora Para a Comunicação Social”, decorrida em Lisboa. Segundo ele: “11,1% dos jovens inquiridos confessaram que usam a Internet para visitar sites pornográficos”. Entretanto, também aí é acrescentado que “84,1% dos pais acredita que os filhos o fazem para procurar informação”...

Os resultados deste estudo são reforçados por um outro, revelado em Setembro deste ano, e intitulado “Projecto Kids Online”, que informa que “Portugal, é a par da Polónia, o único em 21 países europeus onde os pais portugueses menos conhecem o que os seus filhos fazem on-line”.

Mas há mais. Assim, recordo o que escrevi sobre a entrega de portáteis na escola: “As horas que deviam ser dedicadas ao estudo correm o risco de se transformarem em ‘conversas da treta, com os colegas”. Confirma-nos agora o último estudo: “Na utilização da Internet, as crianças respondem que o fazem para conversar ou descarregar música (…)”.

Penso que ambos, o estudo da Grande Lisboa e o do “Projecto Kids Online”, podem servir de tira-teimas à acalorada polémica sobre computadores no ensino. E julgo que a procissão ainda vai no adro da igreja...

7 comentários:

  1. Desculpem-me mas,

    Sinceramente imaginam que daqui a 20 anos ainda vamos ter uma escola como tivemos à 20 anos atrás?
    Hoje graças à tecnologia disponível consigo obter muita mais informação, muitíssima mais informação!! de uma forma inimaginável há 20 anos atrás!! Não podemos ignorar este facto. Não nos podemos refugiar nos problemas que a tecnologia nos trás para não a aceitar. As dificuldades passaram a ser outras, como poder analisar e processar a enorme informação que conseguimos rapidamente obter, como conseguir comunicar numa sociedade cada vez mais multilingue, etc.

    É um facto que temos de ensinar a usar as ferramentas disponíveis só resta é saber qual a melhor forma.

    RF

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  2. Completamente de acordo. As novas tecnologias trouxeram um mundo novo. Alguém poderá, porventura, imaginar os nossos dias sem o uso do telemóvel, e indo mais atrás sem automóveis? O mal não está nas novas tecnologias, está no meu uso que delas se possa fazer. Os mail's, outro exemplo, que me põem em contacto imediato com outra pessoa que viva na Austrália? Alguém de bom senso poderá pôr isso em causa a não ser os correios normais que viram decrescer vertiginosamente o seu movimento, a exemplo do tempo da mala-posta relativamente aos correios da nossa época? Seria nediez da minha parte, ou de alguém com dois dedos de testa, pôr em causa os benefícios de tecnologias como a invenção da roda, outro exemplo. O que se discute, aqui, é, portanto o (ab)uso que se faz dos computadores como substitutos, panaceia ou mesmo milagre para a aprendizagem dos jovens sem tomar em linha de conta que uma coisa que pode ser óptima para alunos universitários (embora com os riscos inerentes de que dou conta no meu post "A entrega de portáteis nas escolas") pode ter efeitos perversos nas mãos de crianças que entre a sopa de um ensino que faz suar e o aliciante de uma "mousse" de chocolate, optam, quase sempre, se não devidamente orientadas por uma alimentação equilibrada, por comer o doce, pondo de lado a sopa. Para encurtar razões, a criança deve comer a sopa e depois a "mousse". Julgo que concordará comigo.

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  3. Sobre este post decidi eu próprio escrever outro post no meu blog:

    http://mentesbrilhantes.wordpress.com/2008/10/22/tempos-exponenciais-exigem-medidas-excepcionais/

    Espero assim contribuir para este debatem com a elevação e o sentido crítico que o mesmo exige.

    Abraços,

    Ricardo Fortes da Costa

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  4. Prezado rjfc: Começo por lhe agradecer o facto de se ter debruçado sobre o meu post (aliás 2), da forma amável e crítica como o fez.

    E porque "ridendo castigat mores", fiquei a dever ao Professor Carlos Fiolhais o vídeo dos "Gatos Fedorentos" que transformou a minha deslavada prosa num post com algum brilho.

    De resto, recomendo vivamente a consulta ao post do seu blogue
    que li, muito apreciei e onde colhi úteis ensinamentos. Bem-haja!

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  5. Saberei melhor se é perigoso dar computadores a jovens quando me explicarem se a ministra da educação teve acesso a computadores na sua juventude. Se não teve, isso é a prova de que tanto se fica idiota usando computadores como não usando.

    Fora com a ministra, já! Rua!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. "Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o estadista. É assim que há muito tempo em Portugal é regido os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política do expediente", etc.,etc. (Eça de Queiroz, in “O Distrito de Évora”, 1867).

    Já seria menos mau que a actual ministra da Educação discursasse com cortesia. Mas não estaremos na presença de um clone de outros ministros do século XIX? A dúvida que me fica é se com a sua saída ficariam os problemas da Educação resolvidos com ministros que viessem a seguir: que fossem inteligentes, escrevessem bem, etc.etc.

    Não continuaríamos na presença de uma maldição de difícil esconjuração? Estou a exagerar? Como escreveu Eça,“exageração era pintar a cobra e depois pôr-lhe quatro pernas”.

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