terça-feira, 25 de novembro de 2008

Branquear o “eduquês”



O meu post ""Eduquês": O Inimigo Errado?" deu origem a respostas muito interessantes e construtivas de alguns leitores, que agradeço. Penso ser necessário, todavia, esclarecer alguns aspectos. Um leitor afirma notar da minha parte "uma falta de vontade de olhar com olhos de ver para as ideias educativas "novas" (dos últimos 100 a 120 anos)."

Não tenho essa falta de vontade que me é atribuída. O que penso é isto:
  1. Haverá teorias boas e más em ciências da educação, como em tudo;
  2. Parece-me que os professores do ensino secundário com que contacto conhecem, na sua maior parte, apenas versões degradadas de teorias educativas cientificamente ultrapassadas (assim como versões degradadas das disciplinas que ministram);
  3. O discurso, programas e legislação ministerial caracteriza-se pela incompetência, apesar de se disfarçar de discurso científico sobre educação — e é a isso que se chama habitualmente “eduquês”;
  4. A mesma incompetência generalizada que encontramos em matemática, física, biologia, filosofia ou português encontramos em ciências da educação e este é que é o nosso problema fundamental: incompetência científica. Não adianta tentar tapar com a peneira de teorias educativas mal compreendidas e pior expressas o Sol glorioso da incompetência em matemática, filosofia e noutras áreas centrais da vida escolar.
Referir o “eduquês” pode ser uma má ideia caso se interprete isso como um ataque às ciências da educação. Mas não é disso que se trata: trata-se de atacar a ideia de que os conteúdos académicos são de abandonar, que a escola deve ser uma brincadeira e que tudo o que conta é promover conversas vagas sobre contemporaneidade e cidadania. Parece-me inaceitável querer branquear o discurso pseudocientífico e pseudo-educativo emanado do Ministério da Educação, que além de nada contribuir para a excelência educativa, contribui para a sua degradação, ao colocar a ênfase no lugar errado. O país precisa de um esforço sincero e cooperativo entre pais, universidades, editores, escolas, professores e alunos. Esse esforço tem de se centrar na excelência educativa, na precisão científica de conteúdos, expressos em linguagem clara e despretensiosa, e em metodologias de ensino que funcionem realmente, sobretudo com os alunos culturalmente mais carenciados. O discurso educativo oficial não tem qualquer uma destas componentes.

E isso torna-se mais claro quando se fala directamente com os responsáveis: tudo o que parecem ter em mente são tolices políticas sem qualquer relevância seja para quem for excepto para a sua própria carreira pessoal. Um interesse genuíno por geografia, história, filosofia, biologia ou literatura — ou artes — é coisa que não se vê em qualquer documento educativo emanado do Ministério da Educação. Tudo o que se vê é a instrumentalização política da escola, discursos vagos sobre a construção da cidadania e outras mentiras políticas, ao mesmo tempo que não se exprime com clareza uma ideia decisiva sobre como ensinar eficazmente história, literatura, física, matemática ou qualquer outro conteúdo. E é a isto que críticos como Carlos Fiolhais, Helena Damião, Jorge Buescu ou Nuno Crato — e eu próprio — se referem ao usar o refrão (já gasto, concordo — está na hora de o abandonar) do “eduquês”. Não se trata de modo algum de rechaçar o estudo científico da educação ou a aplicação de teorias da educação. Na verdade, alguns dos melhores especialistas nacionais em ciências da educação são os primeiros críticos das políticas educativas nacionais, supostamente feitas de acordo com as ciências da educação. Uma hipótese de trabalho plausível é que não são as pessoas mais competentes em ciências da educação que determinam as políticas do ministério, mas antes as que melhor se movem nos tristes corredores do poder político.

14 comentários:

  1. Estou tão francamente de acordo com as suas observações que o meu comentário é antes um agradecimento, as suas palavras ajudaram-me a digerir o que é muito difícil de digerir. Esta é a minha primeira intervenção num blogue e quero acrescentar esta indignação à troca de ideias: a tutela retirou aos professores o direito legal de usufruir dias para formação... acha que a tutela se prepara para queimar livros?

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  2. De facto, eu concluía o meu comentário sobre a "falta de vontade" com a dúvida: "Estarei a perceber mal?"

    E de facto, felizmente estava. Concordo integralmente com o que é dito aqui.
    Mas saliento que o que é feito noutros locais é precisamente usar o termo "eduquês" para criticar as ciências da educação. E é isso que é errado! Por exemplo, o livro do Nuno Crato chama-se, na íntegra:
    O ‘Eduquês’ em Discurso Directo: Uma Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista

    Claro que se poderá dizer: "é uma crítica da pedagogia romântica e construtivista, não da pedagogia não romântica e construtivista... Isto é uma posição pouco séria! Só quem soubesse há partida da existência das duas possibilidades é que saberia distinguir! E o livro não faz qualquer distinção...

    A este propósito veja-se esta recensão de João Vasconcelos Costa.

    E o Professor Carlos Fiolhais vai na onda do Nuno Crato: veja-se este texto, publicado em jornal e em livro: "Os Erros do 'Eduquês'".
    Nele se ataca, entre outras coisas: Pedagogia naturalista: "construtivismo", "aprendizagem cooperativa", "aprendizagem por descoberta", "aprendizagem holística", "método de projecto", "aprendizagem temática".

    E claro, como já o leitor PJ referiu, na verdade muitos dos métodos de ensino recomendados depois são na verdade "aprendizagem por descoberta", "cooperativa", "construtivista", "método de projecto", etc.

    O problema é que se estão a atacar bons métodos, boas ideias, precisamente, como se diz no link anterior, por só se olhar para uma interpretação extremista dos mesmos... não para as práticas correntes.

    Em suma: concordo plenamente com o que diz no seu post onde coloco este comentário. Mas o que aí diz não é bem o que era dito no anterior.

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  3. Já dizia O. Wilde "Never let school get in the way of your education"

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  4. Julgo ter ficado a perceber melhor a posição do Desidério relativamente ao "eduquês" e saúdo a sua intenção de abandonar este refrão já gasto e tão pouco preciso. Sublinho o facto de afirmar que o ataque ao "eduquês" não configurar, na sua perspectiva, um ataque global às ciências da educação, sublinhando o facto indesmentível que estas, à semelhança de outras ciências, produzirem boas e más teorias e, acrescentaria eu, sugerirem boas e más práticas.
    Enfatizaria o facto de sugerir ser no "discurso, programas e legislação ministerial" que se manifesta mais o "eduquês" que, disfarçando-se de um discurso científico sobre a educação, manifesta somente incompetência. Por fim, não deixo de me congratular como o Desidério tem respondido aos comentários que eu e outros leitores fizemos às suas entradas, considerando-os construtivos e promotores de uma boa troca de argumentos. Neste aspecto específico não poderei dizer o mesmo de muitos mais autores que escrevem neste blogue.

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  5. Caro Desidério Murcho,

    Eu não tenho qualquer dúvida em apontar o dedo aos "cientistas" da educação.

    Infelizmente tive que ouvir o discurso de pelos menos 84 "cientistas" da educação e ler mais de 1000 artigos "científicos" desta "área".

    Como muita pena posso dizer que estes senhores vivem à custa da escola pública, são autênticos abutres a depenar cada vez com maior intensidade no Orçamento de Estado para este sector, através de "estudos", "projectos", "gabinetes", escolas superiores, institutos de "inovação", "livros", etc., etc., etc.

    Não sei se já reparou que por trás do discurso vazio do "ensino" centrado no aluno está um profundo desprezo pela ciência, pela tecnologia e pelo conhecimento. Para justificar o injustificável utilizam o pós-modernismo e procuram atirar todas as responsabilidades para o fracasso óbvio e evidente da sua "escola" pós-moderna para cima dos... professores!

    É espantosa a contradição de tais "cientistas", passam o tempo a fazer comunicações sobre o "ensino" centrado no aluno mas e ao mesmo tempo passam esse mesmo tempo a traçar características que os professores deveriam possuir para colocar o seu modelo em prática...

    Eu percebo que uma vez na profissão de "cientista" da educação, se tenha que ganhar a vida e para isso é necessário escrever artigos pseudo-científicos (pseudo, porque nas suas longas eloquências nunca referem os autores que não concordam com o que escrevem, ou seja nunca há contraditório), realizar doutoramentos, mestrados e pós-doutoramentos, orientar "alunos" desta área "científica", etc., mas acho que deveriam ter algum pudor, uma vez que é o futuro do país que está em causa. A vida deles não é, seguramente, mais importante que o futuro de todos aqueles que por falta de recursos financeiros e/ou por falta de conhecimento não possam ter a possibilidade de se matricularem num bom colégio privado, onde a disciplina, o rigor e a exigência não sejam palavras de circunstância.

    Eu já trabalhei no ensino público, onde as escolas e os professores são OBRIGADOS a operacionalizar as metodologias oriundas destas "ciências" e era profundamente infeliz, porque verifica que os "alunos" eram convidados a nada fazer e a nada aprender. Depois de ter largado essa triste e ofensiva realidade e ter começado a trabalhar num dos melhores colégios do país, sou hoje um professor realizado porque vejo os alunos a trabalhar todos os dias e a alcançarem os conhecimentos que as nossas gerações anteriores conseguiram adquirir.

    Para os "cientistas" da educação, digo apenas isto: DEIXEM AS ESCOLAS, OS ALUNOS E PROFESSORES EM PAZ! Deixem-nos TRABALHAR, assim como eles vos deixam trabalhar e em paz.

    Disse.

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  6. Oooops, acho que escrevi depressa demais. Desculpem as gralhas!

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  7. Já agora, uma breve resenha história do "ensino" da matemática (que alguns "cientistas" da educação teimam em tentar convencer o Ministério da Educação no sentido de alterar esta designação para "Educação Matemática"):

    1. Ensino da matemática em 1950:
    Um cortador de lenha vende um carro de lenha por €100,00.
    O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda.
    Qual é o lucro?

    2. Ensino de matemática em 1970:
    Um cortador de lenha vende um carro de lenha por €100,00.
    O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda ou €80,00.
    Qual é o lucro?

    3. Ensino de matemática em 1980:
    Um cortador de lenha vende um carro de lenha por €100,00.
    O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00.
    Qual é o lucro?

    4. Ensino de matemática em 1990:
    Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00.
    O custo de produção desse carro de lenha é €80,00.
    Escolha a resposta certa, que indica o lucro:
    ( )€ 20,00 ( )€40,00 ( )€60,00 ( )€80,00 ( )€100,00

    5. Ensino de matemática em 2000:
    Um cortador de lenha vende um carro de lenha por € 100,00.
    O custo de produção desse carro de lenha é € 80,00.
    O lucro é de € 20,00.
    Está certo?
    ( )SIM ( ) NÃO

    6. Ensino de matemática em 2008:
    Um cortador de lenha vende um carro de lenha por €100,00.
    O custo de produção é € 80,00.
    Se você souber ler coloque um X no € 20,00.
    ( )€ 20,00 ( )€40,00 ( )€60,00 ( )€80,00 ( )€100,00

    Este é o país real, o resto é prosa para entreter meninos.

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  8. Caro Fartinho,

    Quando surgiram os primeiros comboios, muita gente se fartou de demonstrar que eram inúteis porque conseguiam ultrapassá-los a galope de cavalo, porque cheiravam mal, enfim um sem-fim de críticas. Até se determinou que deveriam ser antecedidos por um homem com uma bandeira vermelha:
    "In the 1860s there was concern that the widespread use of traction engines, such as road locomotives and agricultural engines, would endanger the "safety of the public". Engines and their trailers might cause fatal accidents, scare horses, block narrow lanes, and disturb the locals by operating at night. The financial burden of maintaining the roads was already shifting from tolls onto local rate-payers, and these new types of vehicle, possibly up to 9 foot-wide and 14 tons, would allegedly be capable of damaging the highway while they were being propelled at "high speeds" of up to 10 miles per hour. However, there is evidence that the steam carriages' better brakes (which did not lock and drag), wide tires, and absence of horses' feet striking the road allowed them to cause less damage to the roads than horse-drawn carriages."

    Curioso, este pormenor de atacarem as locomotivas por estragarem as vias, quando na verdade até as poupavam... Já se falou aqui que na verdade os problemas supostamente da educação "moderna" já existiam antes dela ter sido posta em prática...

    Voltando "à vaca fria", sem dúvida que em todas as áreas há muita gente que através de treta bem disfarçada consegue dar um ar de sapiência. Mas esses casos são para desmascarar, não para desvalorizar quem bem trabalha (e há tantos!), fazendo crer que são todos assim.

    E estou à vontade para falar: sou engenheiro, não cientista de educação, mas também li as minhas centenas de artigos. Encontrei as tretas sem fundamento, meras opiniões, mas também encontrei trabalhos científicos válidos e sólidos. Ajudou muito ter procurado não apenas em português, onde o que se encontra são artigos de opinião e livros, fundamentalmente, mas também em inglês, podendo assim consultar as revistas científicas internacionais de alta qualidade.

    Por exemplo, que tal começar pelas revistas de ciências da educação indexadas pelo Social Sciences Citation Index?

    Quanto aos testes e c.ª, isso são mais o resultado de políticas que querem é os resultados estatísticos, pouco lhes interessando se as pessoas aprendem.

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  9. Uma correcção: a citação que fiz referia-se aos automóveis a vapor, não às locomotivas... mas a ideia geral mantém-se... No link que forneci, também se menciona as locomotivas.

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  10. Caro Andabata Mandelbroa:

    Em relação a este ponto:

    "Por exemplo, que tal começar pelas revistas de ciências da educação indexadas pelo Social Sciences Citation Index?"

    Acha que fiz o quê? Claro que comecei por aí.

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  11. Então, além das tretas, certamente encontrou muita coisa válida. Experiências com grupo de controlo; relatos com documentação de suporte; análises estatísticas da significância das observações; observações em contextos detalhados, passíveis de reprodução; investigação-acção adequadamente registada e analisada; etc...

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  12. Não, caro Andabata Mandelbrot.

    Infelizmente não posso confirmar o que referiu..., embora a linguagem utilizada é precisamente aquela que refere.

    Quando tentei, em vão, perceber a existência das "ciências" da educação, investiguei, investiguei, li, li, entrevistei, entrevistei e... cheguei à conclusão que TODOS os trabalhos de "investigação" neste âmbito têm referências circulares, ou seja: todos se referem a autores que por sua vez se referem aos primeiros e curiosamente depois de ter sido obrigado a criar um software para verificar a raiz (root) das fontes, conclui que todos os trabalhos têm como suporte apenas e só uma dúzia autores, sendo de destacar Piaget, Rousseau e Bourdieu. Pouco, muito pouco para se poder considerar estes trabalhos como cientificamente válidos.

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  13. Fartinho, isso é tão pouco verdade... É um tão grande fechar de olhos ao que não lhe convém...

    Só porque alguém refere uma frase de Rousseau, não quer isso dizer que se baseia o trabalho nele! Qualquer trabalho minimamente sério não vai dizer "descobri a pólvora" (salvo se de facto tiver descoberto, como os artigos de Einstein em 1905): vai ter o cuidado de dar um enquadramento do que foi dito antes. Nos meus trabalhos, até costumo referir não aqueles com quem concordo, mas até aqueles de quem discordo, para dar uma panorâmica correcta.
    Não é um programa informático de citações que lhe permite afirmar seja o que for quanto ao "suporte" dos trabalho... Quando muito, vai chegar à conclusão que um autor teve um impacto maior ou menor, mas não sabe se esse impacto foi positivo, negativo, se os autores posteriores se apoiam nele ou meramente dão conta de que muitos o fazem, etc...
    Aliás, um software desses dará como resultado que o Prof. Carlos Fiolhais se baseia em Rousseau, pois certamente o cita - só que é para o criticar!

    Da minha parte tenho mantido o Rousseau bem limitadinho às notas de rodapé, muito obrigado: por exemplo, se referir que tal pessoa se inspirou em Rousseau, faço nota de rodapé e digo quem foi, mas não me apoio nele! De forma nenhuma! E contudo, o seu software iria dizer que sim...

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  14. "Fartinho, isso é tão pouco verdade... É um tão grande fechar de olhos ao que não lhe convém..."

    Posso dizer a mesma coisa e acabo por não provar coisa nenhuma :)

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