sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

OPORTUNIDADES PARA OS NOVOS


Não é nada de novo. Já sabíamos que há muitos licenciados no desemprego. E também sabíamos que há cursos com maior probabilidade de desemprego do que outros. Mas o recente e oportuno relatório sobre A Procura de Emprego dos Diplomados com Habilitação Superior divulgado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ilumina o problema fornecendo dados quantitativos – são cerca de 40 000 os diplomados inscritos nos vários Centros de Emprego – e qualitativos – quais são os cursos que fornecem mais desempregados.

O número alto de desempregados com licenciatura, fruto em larga medida do insuficiente crescimento económico, não nos deve enganar: precisamos ainda de mais licenciados. A nossa proporção de pessoas com formação superior é menos de metade da que existe na Europa desenvolvida. Aliás, o grande drama nacional é a falta de suficiente qualificação dos portugueses, isto é, o desempenho claramente insuficiente do nosso sistema escolar a todos os níveis. Estão equivocados os que preconizam a redução na formação superior por ela não ser hoje garantia de emprego imediato: as pessoas com mais habilitações estão mais bem protegidas do ponto de vista profissional.

Vou ser claro: as universidades, descontadas alguns cursos especiais, não são escolas de formação profissional e o diploma de licenciatura ou de mestrado ou de doutoramento não é uma chave que abra logo a porta de um posto de trabalho. Uma universidade não é uma escola de hotelaria que forma cozinheiros (profissão muito necessária e pela qual tenho a maior admiração a respeito) que vão logo cozinhar para o hotel. Uma universidade é um sítio onde se transmitem conhecimentos ao mais alto nível assim como as atitudes para os receber e criar. A criação de conhecimentos é essencial à sua transmissão. Sem ela transmitir-se-ão conhecimentos em segunda ou terceira mão, requentados, que pouco valem em comparação com conhecimentos novos. É bom que as universidades olhem para a empregabilidade dos seus cursos – deviam olhar mais! – mas essa visão não pode ser única nem míope na organização dos cursos. Um cidadão deve ter a possibilidade de fazer Estudos Clássicos ou Filosofia, mesmo que, olhando para o mercado de trabalho, veja que os especialistas em grego e em epistemologia não têm pleno emprego nas respectivas áreas.

Outro equívoco frequente neste contexto é o das “habilitações a mais”. Muitos empregadores recusam candidatos por estes terem “habilitações a mais”. Ora a expressão vai entre aspas porque não sei o que são habilitações a mais. Acho que as habilitações nunca são a mais. Se uma pessoa estudou mais, o saber que tem a mais em nada a pode diminuir. A questão deve ser outra: se a pessoa é ou não capaz de desempenhar bem as funções em causa. Eu não me importaria nada de falar sobre Sófocles com o motorista de táxi ou sobre Popper com a rapariga da caixa do supermercado. De facto, essa situação, descontado o exagero, já acontece nos países mais desenvolvidos. Os cidadãos que executam essas funções nesses países - e há táxis e supermercados em todo o lado – têm em geral habilitações superiores às da média dos seus congéneres portugueses. A produtividade e a cidadania são maiores. Já é tempo de acabar com o país “contentinho” com os seus fracos níveis de qualificação.

Cada desempregado é, bem sei, um drama pessoal. E é um drama social, pois a formação que teve não está a ser aproveitada. Há, entre nós, um problema dramático com recém-licenciados em busca de prometidas oportunidades, em particular ao fim de certos cursos. O relatório acima mencionado é esclarecedor sobre o desemprego nalguns cursos de papel e lápis (Psicologia, Serviço Social, Direito e Economia estão no topo dos cursos que fornecem mais desempregados, embora também haja cursos de outro tipo como Enfermagem e Design). Alguns desses jovens terão de procurar e estar preparados para aceitar empregos noutras áreas. Por outro lado, as respectivas escolas terão de fazer todas as adaptações que se revelem necessárias. Mas há outras responsabilidades, bem maiores que as das escolas. Houve alguém que prometeu 150 000 novos postos de trabalho. Quem foi?

9 comentários:

  1. Caro Carlos

    Com todo o respeito que me merece pela sua vida profissional, académica e de "Bloguista" inspirado, não me vai dizer que também acredita que a Branca de Neve "só" brincou com os 7 anões?
    Quanto aos "150.000" estamos conversados!

    O seu post apesar de ser importante, sobre um tema crítico, parece-me que, ou está um pouco enviesado entre as causas e os efeitos, ou mistura algumas coisas e conceitos que não se dão lá muito bem juntos.

    Quanto à formação académica e à empregabilidade dos recém licenciados, a primeira não é causa da segunda. Apesar de haver uma correlação positiva entre elas. Nunca a academia foi pensada ou feita para aumentar/garantir empregabilidade. Sendo certo que como muito bem nota, "as pessoas com mais habilitações estão mais bem protegidas do ponto de vista profissional"; a formação académica não é condição necessária para o emprego.

    Quanto às habilitações em demasia, considero lapidar a sua afirmação de que "o saber que tem a mais em nada a pode diminuir”. Infelizmente quando se fala em “over skilled” (pelo menos no mundo da gestão e dos activos humanos), devemo-nos situar num contexto de referência completamente distinto, onde reside talvez uma das manifestações mais nobres do ser e pensar em português. Também revela a dimensão ética e contemporânea de um grande grupo de gestores de formação mais moderna.

    Actualmente o Gestor com responsabilidades de selecção e recrutamento de pessoal, principalmente quadros e executivos médios e superiores, e mesmo até em funções menos qualificadas, enfrenta um dilema ético e de gestão de difícil solução.
    Mesmo considerando um candidato com perfil e aptidão adequados à função; quando um Licenciado, Pós-graduado ou Bacharel – portanto uma pessoa já com uma formação importante para além daquela a que o sistema de ensino português obriga, representando por isso um esforço de empenhamento na aquisição de conhecimentos de pelo menos mais 6 anos – está “mais que apto” para o desempenho da função, este “mais”, entre aspas,– representa uma repulsa ética do Gestor, por ter para oferecer uma remuneração disfarçadamente equivalente ao Salário Mínimo Nacional. Só porque, todos o sabemos, pouco se consegue viver com esse salário! O Gestor nessa posição sente que tem pouco para oferecer a uma pessoa que investiu recursos importantes e que merece ser melhor recompensada pela maior qualidade de trabalho que vai desenvolver.

    Por outro lado, sob o ponto de vista da gestão, há que decidir se a maior qualidade de trabalho, derivada de uma formação mais completa, vai gerar mais valor acrescentado, suficiente (em linguagem prática isto significa ou maiores receitas ou menores custos) para compensar o risco de a pessoa contratada nessas condições, se começar a desmotivar por ambicionar um trabalho mais aliciante, ou melhor remunerado, ou mesmo mais na moda (factor não despiciendo neste contexto), dessa forma não se compromete o necessário para um desempenho eficaz da função e dessa forma pode mesmo contribuir com menor valor para a empresa (em linguagem prática isto significa ou menores receitas ou maiores custos). Nesta óptica teria sido uma má decisão de gestão, o que ninguém deseja, muito menos o Gestor!

    Ainda numa óptica de Gestão, mas de Activos Humanos, um colaborador desmotivado ou pouco empenhado gera um efeito de contágio, se não for corrigido atempadamente em termos de comportamento e dedicação. Criando por isso um problema de gestão.
    Por outro lado o investimento feito em treino e formação específicos, o próprio risco do desempenho da função, são investimentos (portanto despesas ou custos) sem retorno. Estamos aqui perante outra decisão de gestão catastrófica, que as empresa modernas hoje em dia não podem suportar.

    Isto é mais fácil de se entender se pensarmos que uma empresa “Startup” pode facilmente envolver processos de recrutamento e selecção para mais de uma dezena de funções em simultâneo. Se assumirmos uma remuneração mínima de 500 Euro por colaborador são 5.000 Euro! Se o erro for total e levar 2 ou 3 meses a detectar e corrigir (situção muito comum), isto corresponde a um desperdício de recursos – escassos – de 15.000 Euro. Aos quais se devem adicionar os encargos com remunerações de conta entidade patronal (+ 23,75%), mais os seguros de acidentes de trabalho (+3%) mais as parcelas dos custos fixos e dos custos variáveis desse período e estamos a falar de um prejuízo bruto de 40 a 50 mil Euro.

    Não é uma situação nada fácil, além de que a pesquisa específica sobre estas questões é ainda diminuta e pouco integrada entre as várias disciplinas de investigação, não existindo portanto uma base científica ou modelos de apoio à decisão que minimizem efectivamente os riscos associados a esta decisão de gestão.

    Quanto ao emprego, ou melhor, quanto à sua falta, esta tem razões distintas, perfeitamente determinadas e das quais a formação académica, ou melhor, a sua falta, apenas aparecem como variáveis de influência ou apenas modificadoras, nunca determinantes. A falta de emprego, deve-se ao ciclo de contracção prolongado e estrutural da economia portuguesa. No virar do milénio (entre 1999 e 2000) a ausência de critérios de gestão do orçamento governamental dos 6 anos anteriores, fez crescer desmesuradamente o défice orçamenta, fez crescer a dívida pública e inevitavelmente fez-se o agravamento das políticas fiscais. Como esse dinheiro serviu essencialmente para amortizar dívida, não sobrou muito para investimentos estruturantes e reprodutivos, como por exemplo o ensino, a investigação científica ou a efectiva promoção da livre iniciativa e da concorrência.

    Para alegrar mais a festa, os devaneios do “arbusto norte-americano”, lançaram o mundo numa corrida louca atrás da própria cauda. Inevitavelmente as matérias-primas e principais commodities teriam de ver os seus preços aumentados pela especulação e pelo medo de ficar sem materiais e bens de primeira necessidade. Donde resultou a actual crise global, que não é contrabalançada pelo crescimento aparente das economias da China e da Índia a taxas superiores a 10%. Ainda não têm o peso suficiente na balança da economia e dos mercados mundiais. Sairemos desta crise um ou dois anos depois do mundo recuperar, quando recuperar, se o desempenho do nosso governo não for pelo menos, muito abaixo da média dos desempenhos dos governos da Europa.

    Fernando M. Caria

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  2. O Professor faz cada pergunta mais difícil: "Houve alguém que prometeu 150 000 novos postos de trabalho. Quem foi?"

    Terá sido Platão? Napoleão? Belmiro de Azevedo? Estou tão confuso!

    Mas que pergunta mais sádica com a intenção de chumbar até o mais brilhante dos brilhantes alunos universitários. E depois admiram-se de Mariano Gago ter mandado encerrar uma delas que prestou serviços de relevo à Pátria ao lançar para o mercado de trabalho, para além da melhor nata da intelectualidade nacional, fornadas de indivíduos num país tão carenciado de licenciados (e no futuro de mestres e até doutores!) para serem caixas de supermercados!

    Desculpe, Professor. Mas lá terei eu que puxar das cábulas.Receio, no entanto, não ser "quantum satis" (o latinório, ainda que transposto da linguagem farmacêutica, sempre serve para dar um certo ar de erudiçao), nem de perto, nem de longe. Uma consulta à Net? Uma busca em enciclopédias? Não me poderá dar ao menos uma pista, uma pistazinha?

    Va lá, não seja mauzinho. Eu e mais 10 milhões de portugueses ficar-lhe-iamos eternamente gratos!

    E desta forma, os resultados obtidos no PISA subirão em flexa! Filandeses, qual quê! Só verão as nossas solas dos pés!

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  3. Há uns anos, ouvi dizer:

    -Eh, pá! Aquilo em França é bestial! Não imaginas como é frequentíssimo encontrarmos taxistas com curso superior!

    Algum tempo depois, dizia outro (teria mais graça se fosse o mesmo...).

    -Eh, pá! Aquilo em Portugal é uma m****! Não imaginas como é frequentíssimo encontrarmos gajos com curso superior a trabalhar como taxistas!

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  4. como estudante de mestrado... gostei particularmente da figura

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  5. Eu, licenciada em Filosofia, confesso que... voltaria a escolher a mesmíssima licenciatura em Filosofia. No 2º ano de Direito resolvi mudar e hoje faria o mesmo. Sempre soube "ao que ia", sempre soube que para além das condicionantes objectivas do mercado de trabalho, os licenciados em Filosofia são olhados de modo estranho pelas entidades empregadoras (situação que tem vindo a melhorar), sobretudo porque estão habituados à existência de professores de Filosofia e não estão habituados a conhecer licenciados em Filosofia que não querem leccionar. Nunca encarei a hipótese de leccionar, sempre considerei o curso demasiado rico para apenas servir para leccionar. Ahh,já agora: os meus colegas que insistiam desalmadamente que só queriam leccionar eram sobretudo membros daquele grupo de licenciados que continua a dizer "fizestes" e "viazíu" (será que escrevi bem?)... A maior parte tinha um grande amor à pedagogia mas um grande desapego aos conhecimentos específicos da sua licenciatura.

    A maioria dos alunos oscilava entre este grupo e o grupo que considera que a única saída digna para um licenciado em Filosofia é o PhD...

    Assim que acabei o curso comecei a frequentar formação profissional complementar (tal como no vosso post, também considero que a universidade não é nem pode ser uma escola profissional) que me colmatassem lacunas em várias áreas, sobretudo no domínio de ferramentas informáticas essenciais para qualquer tarefa, em qualquer área. O IEFP tem bons formadores nesta área e a formação é gratuita!

    Na senda da integração no mercado de trabalho concorri a um estágio numa organização internacional, sem qualquer tipo de cunha. Apostaram em mim e aquilo que seria um estágio de 3 meses sem salário, ao fim de 1 mês tranformou-se em contrato de 7 meses remunerados com salario adequado à classificação de técnico superior. Para além do salário, nesta instituição foi-me dada a possibilidade de profissionalização. Quando o contrato acabar estarei em muito melhores condições para encarar o mercado de trabalho. Acumulo ainda o part-time na área comercial, ao fim de semana. Sim, é cansativo. Sim, a formação que tenho frequentado mesmo gratuita implica custos pessoais: um destes cursos durou 2 meses, de 2ª a 6ª das 20h às 23h. A maioria dos meus colegas não estão dispostos a tal apenas sabem palrar: "ai, eu fiz filosofia" e mais não dizem. Ficamos sem saber o significado esotérico desta expressão...

    Quanto ao nº de desempregados anunciado pelo famoso estudo que por aí circula, pelo que me lembro, da Faculdade de Letras de Lisboa, nos últimos 3 anos, saíram80 licenciados (não chega a 27 licenciados/ano). Se tivermos em conta que somos 10 milhões e que a população activa se cifra entre 4 a 5 milhões de portugueses... Será que é mesmo preciso preocuparmo-nos especificamente com o desemprego da licenciatura em Filosofia? Se destes 27 licenciados/anos descontarmos aqueles que querem ficar anos à espera da tal vaga na escola quando todos sabemos que a queda demográfica já se faz sentir nesse grau de ensino, reitero: será que é mesmo preciso preocuparmo-nos especificamente com o desemprego dos licenciados em Filosofia? Humm... não me parece.

    P.

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  6. Muito sinceramente, falta algum espírito crítico a este assunto.
    A questão dos "licenciados desempregados", pode ter muitas causa, mas a principal vem das universidades e do seu modelo de financiamento.
    Bastava ver o número de vagas no curso de Direito há 5 anos atrás para perceber que isto iria acontecer.
    Juntando as universidades Lisboa, Porto, Coimbra haviam cerca de 2000 vagas, fora privadas. E eu pergunto, um país com as dimensões, populacionais e o geográficas, que Portugal tem capacidade para empregar 2000 licenciados em Direito por ano? Alguns poderão dizer, "mas nem todos acabam o curso".... Cerco, vamos reduzir para uma taxa de insucesso de 50%.... 1000 por ano? E continuamos a não falar nas privadas....
    O financiamento "à cabeça" teve este brilhante resultado....
    E as universidades privada que investiram fortemente nos "cursos baratos"?
    Os estudantes podem escolher os cursos que quiserem, mas as universidades abrem as vagas que quiserem!

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  7. Vem sempre à discussão o argumento do número de vagas das licenciaturas, quando em Portugal se discute emprego de licenciados (ou desemprego).

    É um argumento válido mas nunca (até e ainda nos dias de hoje) deveria ser apresentado como o mais importante ou um dos mais importantes, tendo em conta as actuais habilitações da população portuguesa que são fraquíssimas.

    O principal motivo do número elevado de pessoas com habilitações de nível superior estarem no desemprego é a dimensão do mercado. E o relatório compriova-o. Basta verificar que a maioria desses desempregados são jovens, a maioria mulheres, a maioria da zona norte do país, e juntar esses dados à aos dados históricos.

    O mercado não tem capacidade para absorver todos esses licenciados e afins. Sebem que reconheço que de entre os motivos principais para estes níveis de desemprego, estejam também as universidades, mas do ponto de vista da qualidade dos cursos.

    E não ponho de parte a possibilidade de agentes do mercado estarem também a recusar este pessoal (bem) qualificado em virtude de nas emrpesas a tomar decisões estar pessoal fracamente qualificado ou não qualificado que, não toma as melhores opções, excluindo candidatos que poderiam ser boas apostas no que a produtividade diz respeito, apenas por motivos monetários ou outros que agora não me ocorrem claramente. Não vejo bons motivos para que alguns destes jovens (http://aeiou.visao.pt/Actualidade/Portugal/Pages/geracaoemsaldo.aspx - Geração em saldo) tenham sido rejeitados por agentes do mercado.

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  8. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  9. Como sucede com frequência com as crónicas do Carlos Fiolhais, também esta foi reproduzida no SORUMBÁTICO, onde tem recebido alguns comentários interessantes - nomeadamente de alguém que sofreu, na pele, o problema da "habilitações a mais" e que, se calhar, não é tão fantasioso como isso... - [ver aqui].

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