quinta-feira, 30 de agosto de 2007

MIGUEL BOMBARDA: MÉDICO, FILÓSOFO E POLÍTICO

O nome de Miguel Bombarda é conhecido de muita gente por ter ficado associado a um hospital (o mesmo aconteceu com outro médico contemporâneo de Bombarda, Júlio de Matos) e a várias ruas (uma ligada às artes no Porto). Mas não serão muitos os que conhecerão a vida e a obra do homem, no qusdro da sociedade portuguesa do século XIX e início do século XX.

Miguel Augusto Bombarda, nascido em 1851 no Rio de Janeiro (mas os pais eram portugueses e Miguel veio cedo para Portugal) e morto, em circunstâncias trágicas (já lá irei) nas vésperas da implantação da República foi um dos personagens mais singulares da medicina, da filosofia e da política portuguesa.

Frequentou o Curso de Medicina da Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, tendo em 1877 defendido a tese “Do delírio das perseguições” (outro título dele semelhante a este foi "O Delírio do Ciúme", republicado pela Ulmeiro, em 2001). Do título da tese vê-se logo que a sua área foi a Psiquiatria. Ficou professor na escola onde estudou, tendo nela exercido uma influência fecunda. Trabalhou no Hospital de S. José e foi Director do Hospital de Rilhafoles. Introduziu várias inovações na teoria e na prática psiquiátricas. Defendeu a medicina social, isto é, o livre acesso dos cidadãos aos benefícios da ciência médica. E chegou a ganhar nome internacional, nomeadamente quando presidiu à organização, em 1906, de um Congresso Internacional de Medicina em Lisboa, que constituiu uma das maiores reuniões mundiais de médicos da época.

Mas a sua actividade esteve longe de se limitar à docência e à clínica. Bombarda foi um pensador, pode-se dizer mesmo um filósofo muito atento às correntes da sua época (marcada pela visão termodinâmica de Helmholtz, Clausius e outros, pela teoria da evolução de Darwin e pela filosofia positivista de Comte). Proselitou uma cosmovisão materialista. Sustentou o determinismo científico ao ponto de o estender à realidade social. Nessa perspectiva, o crime seria uma doença semelhança à infecção causada por uma bactéria.

E, como se isso não bastasse, empenhou-se na actividade política. Defendeu a República por oposição à monarquia. Mas, ao contrário do seu colega Júlio de Matos. Que foi desde muito cedo um republicano ultra-liberal, Bombarda aderiu tardiamente ao ideal republicano. Foi socialista e anti-clerical. A sua obra “A Ciência e o Jesuitismo”, de 1900, é um bom documento sobre o nosso “fin de siècle”. Bombarda opõe a sua visão científica do mundo à visão religiosa dos jesuítas, em particular a do “padre sábio” Manuel Fernandes Santana, com quem estava em polémica. Hoje em dia essa polémica, apesar de desactualizada, não deixa de ser interessante. No recente livro “Miguel Bombarda. Médico e Político” (Caleidoscópio, 2007), Paulo Araújo cita as seguintes frases radicais de Bombarda:

“Penso que não pode ser jesuíta quem o queira; há cérebros predispostos para esse mal, como os há feitos para o crime vulgar, como os há talhados para a loucura ordinária” (…) “O misticismo jesuítico [é] uma forma paranóica que, embora incurável, deveria ser isolada nos manicómios, pelo mal que faz à humanidade”.

Bombarda pertenceu, portanto, a um grupo de portugueses inconformados com a situação de atraso do país, que se revia nas Conferências do Casino de Antero de Quental e outros e que queria urgentemente renovar o país, culpando a Igreja pelo atraso. Para ele não havia apenas que curar o doente individual mas também o doente colectivo que era a nação.

O facto é que Portugal passou no século XIX, em escassas décadas, desde o seu início quando era o quinto país mais rico do mundo (a crer nos dados publicados pelo economista David Landes em “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, Gradiva, 2001) para o fundo da tabela dos países europeus no final do século XIX. Esse declínio é talvez a maior marca dessa época. Para ele contribuiu decerto a insuficiente educação: não conseguimos acompanhar o processo de escolarização explosivo que então se deu na Europa. A baixa escolaridade impediu-nos de ter cientistas e pensadores em número e valor suficientes. Mesmo na Medicina, se tivemos Miguel Bombarda e Júlio de Matos (para só referir a Psiquiatria), faltou-nos alguém com a projecção do espanhol Ramon y Cajal, descobridor dos neurónios e um dos primeiros prémios Nobel da Medicina. Segundo Landes, que apresenta Portugal como um exemplo de um país rico que ficou pobre, o número de analfabetos em 1900 em Portugal era uma autêntica vergonha quando comparado com o padrão europeu. Como poderia ser desenvolvido um país que não sabia ler? Bombarda defendeu: "Eduquemos (...) os cérebros. Não os deixemos cair nas trevas e na barbárie. Eduquemo-los na independência, na liberdade, na consciência da dignidade do ser humano."

Mas tinha prometido contar a história da morte de Bombarda, ocorrida dois dias antes da revolução do 5 de Outubro. O médico foi morto a tiro por um doente mental, um tenente que ficou depois internado numa instituição psiquiátrica. A revista “Ilustração Portuguesa” legendava uma ilustração do clínico prostrado num leito hospitalar com a legenda:

“O Sr. Dr. Miguel Bombarda, no Hospital de S. José, antes da operação para a extracção das quatro balas com que o feriu o seu antigo cliente o tenente Aparício Rebello e que causaram a morte do ilustre democrata”.

Para a história ficaram as últimas palavras de Miguel Bombarda, que mostram, mesmo próximo da morte, não só informação como compaixão:

- “Não lhe façam mal. Ele é um doente!”

13 comentários:

  1. Quer dizer que se os jesuítas não tivessem ido embora não teríamos interrompido o processo de escolarização? Nunca cheguei a perceber por que razão falam mal deles...

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  2. Caro Professor Fiolhais

    Acho que com a abertura que dá para outras ciências, ao referenciar a obra de David Landes (do domínio da história económica), valeria a pena alargar o espaço de discussão do nosso retardamento económico e cultural. A este respeito lembraria que uma grande parte da obra daquele professor de Harvard é dedicada a explicar o atraso da outrora poderosa China (um potentado ímpar até aos séculos das descobertas ocidentais) que teria adormecido durante séculos num contexto marcadamente cultural e pouco presenciado pela influência da religião segundo aquele autor. Lembro também que existem historiadores portugueses como o professor Hermano Saraiva (vide “História Concisa de Portugal”, Publicações Europa América) que radicam a nossa decadência logo depois das descobertas e “do reino despovoado e gasto do dinheiro da canela”. Também seria útil tentar uma compreensão lata e não meramente eclesial do nosso atraso elucidando-a com a obra de Tocqueville (A Democracia na América, Edições Principia) que se surpreendeu com o que naquele “Novo Mundo” foi encontrar, a de Max Weber que destrinça categoricamente a valia da ética protestante na criação do espírito capitalista, ou as mais recentes de Fukuyama (Confiança: Valores Sociais e Criação de Prosperidade, Gradiva) que exalta as diferentes culturas e respectivos valores sociais na criação das condições da prosperidade nacional, ou a seminal de Michael Porter, também de Harvard, que desenvolve comparativamente os modelos de criação nacional de “(A) Vantagem Competitiva das Nações”. Penso que a estas luzes mais científicas, embora sociais, e menos enfeudadas tão só em pressupostos ateístas, porque esses também já eram os dos republicanos do início do século vinte, seria possível discutir amplamente como foi possível no passado, é e continuará a ser provavelmente no futuro que estamos a preparar colectivamente (digo eu como pessimista inveterado e adepto do decadentismo pessoano) que Portugal exiba os patamares económicos, educacionais e culturais que nos apoucam no concerto da Europa, pelo menos.
    Porque a 1ª República foi esmagadoramente laica e persecutória da Igreja, e depois de Abril o Estado é laico, o ensino foi sempre durante todo o século vinte esmagadoramente público e depois de 1974 vincadamente não confessional, mas os valores predominantes que marcam e estruturam a organização social, cultural e económica, ontem sob o Salazarismo e desde da ruptura de há trinta anos, continuam marcadamente antiliberais, pouco ou quase nada capitalistas no sentido de Smith, Hayek ou Freedman, tanto no povo descapitalizado em capital humano como nas ricas elites educadas profissionais, académicas ou empresariais.
    Discuta-se sobre liberdade na educação a todos os níveis, sobre pontualidade nas empresas e nos serviços públicos, sob a devolução da riqueza à sociedade que a facilitou a quem aí a obteve, sobre a assunção e prémio dos riscos e dos fracassos da iniciativa, sobre a responsabilidade do Estado perante os cidadãos pagadores dos impostos, sobre os níveis de exigência destes sobre os seus representante eleitos e a responsabilização destes pernte os primeiros, sobre a auto-organização da sociedade civil para empreendimentos sociais ou para a criação de espaços de discussão profunda de políticas públicas sectoriais (os conhecidos “think thanks” saxónicos) e o que encontramos neste Portugal?
    Discuta-se mas mude-se e estruture-se a vida económica e cultural (em sentido lato) de acordo com os princípios orientadores dessa análise crítica. Seria tal empreendimento possível? E a quantos e a quem interessariam estas mudanças culturais?
    Por isso a mim convém-me que radicar tudo simplesmente nos malefícios históricos centenários da igreja é parca explicação intelectual e culturalmente enquadrada para tanta insuficiência de nos governarmos organizada e estrategicamente como nação e como País, quer no passado quer, como eu antevejo, nos próximos decénios!

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  3. Meu Caro Carlos Fiolhais
    Desculpe que lhe diga, mas não nos faltou apenas alguém com a projecção de Ramón y Cajal, faltou-nos sobretudo alguém que fosse um cientista a sério como o famoso histologista espanhol. Miguel Bombarda foi mais positivista do que Comte, até ao anedótico procedimento de medir as cabeças dos jesuítas para definir, por elas, as proporções anatómicas das cabeças dos criminosos. J. Pinto Correia já disse o essencial, mas fica-me ainda o espanto de saber que houve quem visse em Portugal o quinto país mais rico do Mundo no início do século XIX. A História é muito mais triste do que isso. Se alguma riqueza havia, era do ouro que ainda se conseguia ir roubando do Brasil. Mas já Pessoa o dissera na frase lapidar: “Pertenço àquele género de portugueses que, depois de descoberto o caminho marítimo para a Índia, ficaram sem emprego.” Isto corrobora o que afirmou J. Pinto Correia, citando Hermano Saraiva, mas que já fora dito por outros espíritos lúcidos como António Sérgio... ou o Velho do Restelo, tão mal compreendido, porque o seu diagnóstico é quase intemporal. Camões sabia do que falava. Nós é que, muitas vezes, o interpretamos apressadamente.
    Desculpe mais um atrevimento. Ver Miguel Bombarda desta maneira é fazer uma espécie do que Damião Peres ou João Ameal fizeram da nossa História: servir uma ideia (neste caso a de que toda a Igreja é má) com a perspectiva que mais nos convém ou àqueles a quem se serve.
    Com um abraço.
    Daniel

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  4. Penso que a caixa de diálogos só deveria ser usada (ou pelo menos devê-lo-ia sobretudo) quando houvesse algo a corrigir ou a acrescentar aos “posts”. E, como eu me limitei a duvidar do tal 5º lugar atribuído à riqueza de Portugal no conjunto dos países do Mundo, fui à procura de dados concretos para que o meu amigo Fiolhais e os leitores que tenham paciência de ler tirem as suas conclusões. Mas primeiro ainda haveria que saber a que título é considerada essa riqueza: se a do país se a do povo. Vejamos, pois.
    Na primeira década do século XIX Portugal teve um saldo positivo em relação ao comércio externo, mas esse nunca alcançou os 10%, o que provavelmente não faria dele o tal 5º mais rico. Além disso, cerca de um terço das exportações eram para o Brasil. Mas que ficava para o povo? Da sua produção, havia casos em que tinha de pagar à Igreja (formada na sua esmagadora maioria por “beneficiados” saídos da nobreza) muito mais que o dízimo, até 30%. Depois de pago o dízimo (a que se juntava por vezes 1% até 3% de primícias para os párocos), do restante tinha de pagar entre um quarto até metade para a nobreza que não se disfarçara de clérigo ou de freira. Mas ainda não se ficavam por aqui as contribuições dos pobres. Podia haver foros e outros “direitos” a satisfazer. Tudo isto contado pela produção, sem ter em conta as despesas feitas. E não esquecer os impostos das transacções e as portagens.
    Na pecuária, mutatis mutandis o panorama era semelhante. E, nas vinhas do Douro, por exemplo, a famosa Companhia Geral das Vinhas era tão opressora quanto os demais opressores.
    Um dos resultados de tudo isto era que o consumo de trigo em Portugal continuava a ser dos mais baixos da Europa...

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  5. Caros Pinto Correia e Daniel Sá:
    Agradeço os comentários que fizeram. Mas peço que me façam o favor de não confundir as opiniões de Miguel Bombarda de há um século com as minhas de hoje.
    Falar de um autor não é concordar com ele. A polémica com o “padre sábio” está datada (as frases de Bombarda são bem elucidativas). E ninguém defende hoje as ideias do cientismo ingénuo do século XIX a la Comte. Mas ele era ontem como muitos de nós somos hoje insatisfeitos com o nosso atraso.
    As razões do nosso reconhecido atraso serão múltiplas, sendo até difíceis de destrinçar: Landes põe a ênfase na deficiente educação e na cultura e eu no meu livro “A Coisa Mais Preciosa Que Temos” e de certo modo aqui limito-me a concordar com esse economista que o nosso progresso na escolarização foi muito lento no século XIX e isso não ajudou ao desenvolvimento. Ele não acha, de facto, que a religião seja muito relevante, embora tenham sido já muito discutidas as relações do capitalismo com o protestantismo. Acha que a escola é importante e eu como ele acho que a escola é importante!
    Posso discordar de Miguel Bombarda em muita coisa, mas como ele acho que a escola é importante para o desenvolvimento das sociedades e dos países. E posso também discordar do “padre sábio” em muita coisa, mas como ele julgo que a escola é importante. Nisso os dois polemistas estariam de acordo. Discordavam decerto, como é normal, quanto ao tipo de escola, conteúdos, métodos, etc.
    Carlos Fiolhais
    PS) Os dados de Landes sobre o produto nacional bruto dos vários países ao longo dos anos, normalizado ao valor da moeda têm fontes credíveis. Não foram, que eu saiba, contestados pelos historiadores da economia no mundo ou aqui. Penso que se explicam por a riqueza nacional no início do século XIX ainda vir do Império: foi com o ouro do Brasil que se fez a Biblioteca Joanina, por exemplo.

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  6. Peço desculpa... Na frase final, deve ser: "Penso que o 5º lugar da riqueza nacional se explica por ela..."
    Carlos Fiolhais

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  7. "E ninguém defende hoje as ideias do cientismo ingénuo do século XIX a la Comte"

    O que realmente ninguém defende é que o positivismo seja uma forma de cientísmo ingénuo. Isto, excepto aqueles que não sabem o que é o positivismo. Ou que não sabem o que o cientísmo ingénuo.

    Luís Silva

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  8. Ou que não sabem o que é o cientísmo ingénuo.

    Luís Silva

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  9. É indiscutível a influência da religião, e sobretudo do protestantismo, na alfabetização bastante mais precoce dos povos do norte da Europa, relativamente aos povos mediterrânicos. O acesso directo das famílias à Bíblia, sem intermediação por parte de clérigos, assim o exigia. Mas parece-me que outro factor terá sido, a partir de certa altura, a progressiva generalização da luz eléctrica, que permitiu que ao serão as famílias ficassem a ler e que, também, bastantes mulheres das elites lessem (um tanto clandestinamente, é certo), romances «proibidos» de adultério, etc., provavelmente para fugirem um pouco à exclusividade da Bíblia. Não estudei muito este assunto, mas creio que terá alguma pertinência.
    Adelaide Chichorro Ferreira

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  10. Corrijo-me (com a pressa de desligar o computador, deixei uma irritante vírgula onde la não era necessária):
    «e que, também, bastantes mulheres das elites lessem (um tanto clandestinamente, é certo) romances «proibidos» de adultério, etc.,»
    Adelaide Chichorro Ferreira

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  11. Não tenho grande apreço (Aliás nenhum)pelos Positivistas Portugueses, onde Bombarda era uma estrela. Aliás o que a história provou é que eles eram tão incapazes como aqueles que criticavam (Bombarda não teve a oportunidade de demonstrar o seu falhanço). Aliás quem atribui todas as culpas a terceiros (Bodes expiatórios) apenas prova a sua incompetência.
    Infelizmente hoje em dia é a mesma coisa, basta ver "O Norte".

    Bombarda achava que Portugal passaria a ser um país rico se enviasse todos os Jesuitas para uma ilha deserta e os deixassem morrer à fome. Ainda não vi maior prova de estupidez até hoje em dia.

    Já agora caro Carlos Fiolhais umas perguntas positivistas:

    Qual o seu índice cefálico?
    É Braquicéfalo ou Dolicocéfalo?
    Se o Dr. Bombarda se levantasse dos mortos com o seu compasso na mão, e tirasse medidas ao seu cérebro quantos anos de internamento em Rilhafoles receitaria?

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  12. Mais um contributo, o de Antero de Quental: "Causas da decadência dos povos peninsulares", da Ulmeiro, col. "oitocentos anos de história", 3.ª ed., Lisboa, 1979.
    O nosso atraso advém, além dos argumentos aduzidos por Antero de Quental, e pelos demais comentadores, do facto de termos vivido à custa do colonialismo em duas versões: 1.ª- exploração da riqueza alheia; 2.ª- a manufactura de produtos sem qualidade para os exportar para as colónias, com a consequente manutenção do atraso industrial.

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  13. Ainda a propósito do nosso nostálgico futuro não resisto a transcrever o que José Daniel Rodrigues da Costa versejou, sobre o mesmo assunto em 1819, e sucessivas edições (1820, 1822 e 1829), há 178 anos portanto, com o título infra, e onde transparece algum retrato de um Portugal que se vai parecendo a si mesmo, como se o tempo tivesse parado no tempo.

    PORTUGAL ENFERMO / PELOS VICIOS, E ABUSOS DE AMBOS OS SEXOS

    Portugal, Portugal ! Eu te lastimo !
    E bem que velho sou ainda me animo
    A mostrar-te os defeitos, e os excessos
    Dos costumes, que tens já tão avessos
    Dos costumes, que tinhas algum dia,
    Quando mais reflexão na gente havia.
    Tu de estranhas Nações foste envejado;
    Hoje faz compaixão teu pobre estado:
    Cada vez te vão mais enfraquecendo,
    Todo o brilho, que tinhas, vas perdendo:
    Paraiso do mundo te chamavão;
    As mais Nações com tigo se animavão;
    Ellas porém ficarão sãs, e fortes;
    E tu todo o instante exposto aos córtes
    Da usura, da ambição, da falcidade,
    Do egoismo, da fuga, da impiedade:
    Males, que aos que bem pensão cauzão tédio,
    A que apenas descubro hum só remedio,
    Que outro melhor não ha, a que se apelle,
    E muita gente chora a falta d’Elle*…
    ……………………………………………

    *…A desejada vinda dos nossos Soberanos. [A vinda de D. João VI)

    Guardando as distâncias no entendimento do tempo que as separa, e se se quiser aplicar à actualidade o rodapé de então, basta substituí-lo por *_A desejada vinda dos dinheiros de Bruxelas

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