quinta-feira, 19 de julho de 2007

O INSTITUTO DE COIMBRA*


O Instituto de Coimbra foi uma academia científica, literária e artística fundada em Coimbra em 1852 e inactiva após 1982. Os Estatutos de 1967 definiam o seu objecto e a sua acção como relacionados com a promoção e o «desenvolvimento das ciências, das letras e das artes» e, em geral, com a «valorização da cultura portuguesa».

O Instituto, que funcionou de início como um “Clube dos Lentes” da Universidade de Coimbra, mas que foi alargando a galeria dos seus membros, incorporando muitas figuras de prestígio nacional e internacional, deu um contributo único para o academismo em Portugal, uma vez que reuniu muitos intelectuais portugueses, desde os tempos da monarquia constitucional, passando pela I República e pelo Estado Novo, até à Revolução de 1974.

O Instituto foi criado num contexto histórico onde a política de regeneração de Fontes Pereira de Melo começava a apresentar resultados. O caminho-de-ferro e as estradas modificaram a face material do país e criaram novas condições, que, por seu turno, estimularam o desenvolvimento industrial e económico. Paralelamente, as políticas liberais foram concretizadas dando particular atenção à instrução pública. Os primeiros estatutos do Instituto foram aprovados e publicados num decreto, em 1859, pelo governo de Fontes Pereira de Melo. Antes disso, em 1853, o governo tinha publicado uma autorização que permitia ao Instituto a impressão, na imprensa da Universidade e paga pelo estado, do seu jornal científico e literário. Contudo, uma das condições era que metade do espaço fosse dedicado à publicação dos relatórios elaborados pelo “Conselho Superior de Instrução Pública” e das listas de professores apontados para os ensinos primário, secundário e superior em todo o país. Desta maneira, uma parte significativa da história das políticas de instrução pública em Portugal e do seu debate está descrita nas páginas dos primeiros 50 volumes de “O Instituto”. Por outro lado, instituições importantes, como a Associação Académica de Coimbra, tiveram a sua origem associada ao Instituto.

Do prestígio nacional desta academia fala, entre vários outros exemplos, o facto de Bernardino Machado (caricaturado em cima), professor de Antropologia na Universidade de Coimbra e mais tarde por duas vezes Presidente da República, ter sido antes Presidente do Instituto, tendo criado por sua própria iniciativa um museu, que mais tarde veio a dar origem ao Museu Nacional Machado de Castro. Também Sidónio Pais, professor de Matemática na Universidade e depois Presidente da República, foi sócio do Instituto. Mas muitos outros nomes das ciências, das letras e das artes foram sócios: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Francisco Costa Lobo, Ricardo Jorge, Eugénio de Castro, Egas Moniz, Mário Silva, Reynaldo dos Santos, Sílvio Lima, Vitorino Nemésio, etc. Do prestígio internacional fala, entre outros, o facto de Miguel de Unamuno ter sido sócio correspondente.

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra incorporou há alguns meses o rico património bibliográfico-documental do IC, constituído por uma magnífica biblioteca –que está, por manifesta falta de meios, para catalogar, mas cujo número total em monografias se estima em cerca de 15 000, para além de uma colecção de cerca de 15 000 volumes de revistas científicas e culturais – e por um arquivo de manuscritos também por inventariar. A biblioteca integra as próprias edições da instituição, com particular destaque para "O Instituto: Revista Científica e Literária" (1852-1981). Esta foi, até findar, a mais antiga revista científico-literária publicada em Portugal. Sobre ela só existe um volume de índices referente aos primeiros 100 números, editado em 1937, com um apêndice de 1947. A prática de permuta da revista ao longo de 130 anos permitiu obter revistas e publicações provenientes de academias de todo o mundo (19 países). Depois de anos de olvido, todo este acervo deu entrada na Universidade, com a qual o Instituto tinha uma ligação estreita, quando as instalações onde funcionou a sede do Instituto, na Rua da Ilha, ficaram para a Faculdade de Direito.

O conhecimento da história das academias científicas, literárias e artísticas em Portugal é ainda limitado. Com efeito, apesar de os séculos XIX e XX em Portugal terem sido objecto de numerosos trabalhos de pesquisa histórica, estão longe de se poderem considerar bem estudados, nomeadamente do ponto de vista da história institucional. No caso em consideração, seria importante precisar qual foi o papel das élites em relação à produção e transmissão do conhecimento em várias áreas da ciência. Em particular, saber como elas contribuíram para o progresso – ou, pelo contrário, para o atraso – da ciência em Portugal e para a organização de redes científicas, no país e no mundo, e, para além disso, a maneira como estas evoluíram, sujeitas às restrições que existiram tanto internas como externas.

*Agradeço a colaboração de Jorge Pais de Sousa, Décio Martins Ruivo e a António José Leonardo.

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