segunda-feira, 21 de maio de 2007

DA BANHA DA COBRA AOS FÁRMACOS MODERNOS

Recensão minha publicada no "Primeiro de Janeiro" de hoje:


As farmácias são um dos sítios onde melhor se pode verificar a existência do progresso científico-tecnológico. As antigas boticas estavam atulhadas de mezinhas cuja base empírica era, por vezes, muito frágil (algumas curavam tudo, como a banha de cobra, o que quer dizer que não curavam nada!), ao passo que nas farmácias de hoje se encontram medicamentos produzidos com grande rigor, com base em anos e anos de desenvolvimento e ensaio de novas substâncias químicas (contendo moléculas activas específicas para as várias maleitas).

A história da farmácia conta que se conceberam banhas de cobra absolutamente surpreendentes. Por exemplo, o antimónio foi uma droga química usada na época barroca por via interna. A chamada “pílula perpétua”, anunciada em 1694, consistia de uma bola de antimónio metálico que entrava pela boca e, depois de exercer a sua acção, saía com as fezes. Era perpétua, porque era só lavar e estava pronta a servir noutro paciente...

Na “Ilustração Portuguesa” de 1915 havia um anúncio de um remédio contra a sífilis que dizia: “A Sífilis (em todas as suas fases e períodos), moléstias da pele, chagas canceriosas e todas as doenças proveninetes do sangue impuro tratam-se até à cura completa pelo medicamento Depuratol.” A seguir, o anúncio continuava enumerando as “vantagens garantidas”, a primeira das quais era “ser inteiramente inofensivo, podendo ser tomado por crianças e por pessoas de idade avançada”. Era a banha da cobra para o menino e para o velhinho...

Como o alimento é o melhor medicamento, também sempre houve anúncios extraordinários a drogas gastronómicas como a “Carne Líquida", do Dr. Valdês Garcia de Montevideo, tónico reconstituinte de grande poder nutritivo”, publicitado na “Medicina Contemporânea” de 1925. Ou o “Vinho Girard... aceite por todos os estômagos e nunca produz os acidentes de iodismo. Tendo por base um excelente vinho de málaga, tem um sabor agradável e é tomado com alegria pelos doentes mais difíceis”, publicitado também nessa mesma revista e nesse mesmo ano. A “Carne Líquida” devia talvez ser acompanhada pelo “Vinho Girard”...

E há também na farmácia os produtos de higiene. Por exemplo, o sabonete. Não só a composição dele evoluiu conforme a época como a publicidade não deixou de ser influenciada pelo espírito da época. Num almanaque português de 1911 anunciavam-se os “Sabonetes Republicanos, em homenagem aos vultos eminentes da democracia portuguesa”. Acrescentava-se: “O público, em geral, e os bons liberais em particular, devem pois lavar-se de preferência com este óptimo sabonete que oferece, sobre todos os outros, vantagens reconhecidas”.

Todos estes casos – que apesar de “fait-divers” documentam melhor do que ninguém a fascinante história da farmácia – estão relatados no livro que acaba de sair na Minerva Coimbra “História da Farmácia” (3ª edição, revista) de João Rui Pita. O seu autor é professor na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, tendo-se dedicado à história das ciências da saúde no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da mesma universidade.

Este livro atingiu os notáveis 5000 exemplares e é exemplar a vários títulos. Compila em 264 páginas toda a história da farmácia no mundo e em Portugal desde a mais remota antiguidade até aos dias de hoje (há outras obras em português, como a de José Pedro Sousa Dias, professor de Farmácia da Universidade de Lisboa e historiador da ciência, “A Farmácia em Portugal. Uma introdução à sua história 1338-1938”, edição da Associação Nacional de Farmácias, 1994, e a de Paula Basso, “A Farmácia e o medicamento. Uma história concisa”, Correios de Portugal, 2004). Além disso, inclui variada iconografia, entre a qual alguns dos anúncios atrás citados. Por último, reflecte muito do que tem sido a actividade pedagógica e a investigação do autor a respeito da farmácia. É decerto uma contribuição relevante para a história da ciência em Portugal, que necessita de mais obras de síntese como esta.

O leitor curioso encontra aqui descrita a teoria dos humores do grego Hipócrates (que hoje nos deixa bem humorados!), o inventário de drogas do romano Dioscórides e as extraordinárias vida e obra do romano Galeno. Já no Renascimento encontra o bombástico (não resisto ao trocadilho, porque se ajusta que nem uma luva) Philippus Bombastus von Hohenheim, mais conhecido por Paracelso, e o português Garcia da Orta, o autor dos “Colóquios dos Simples” e um dos maiores cientistas portugueses de todos os tempos. Chegando ao Barroco encontra o médico inglês William Harvey, um revolucionário das ciências médicas (o livro mostra bem como a história da farmácia é interdisciplinar: não se pode fazer sem fazer ao mesmo tempo a história da medicina, da química e da biologia), e o médico holandês Hermann Boerhaave, com quem o nosso Ribeiro Sanches trabalhou antes de ir para a corte de Catarina II na Rússia.

Ribeiro Sanches foi um dos inspiradores da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, a qual, quando no Iluminismo a ciência química emergia da alquimia, criou em Coimbra, além do Laboratorio Chimico (onde o químico Vicente Seabra antecipou muitas das propostas do pai da Química, Antoine Lavoisier), o Hospital Escolar, o Teatro Anatómico e o Dispensatório Farmacêutico. Era neste Dispensatório – que era afinal a botica do hospital – que se fazia não apenas a produção de medicamentos, com meios cada vez mais sofisticados à medida que a química progredia, como a formação dos boticários. Os estudos de Farmácia, na dependência da Faculdade de Medicina, tinham sido instituídos em Coimbra pelo rei D. Sebastião, mas agora, além de se acentuar a componente prática, o curso já não se dirigia só a cristãos velhos (tinha em tempos havido uma petição ao rei para impedir os cristãos novos de terem acesso à formação de boticário, mas o monarca não a deferiu). Uma das histórias mais curiosas da história da nossa Farmácia não se encontra, curiosamente, no livro. Trata-se da transformação do Laboratório Chimico em laboratório farmacêutico. Em 1809 o edifício pombalino foi transformado em farmácia a fim de debelar um surto de peste. Para purificar a atmosfera, o lente de Química Tomé Rodrigues Sobral fabricou no Laboratório muitos desinfectadores de cloro e ácido muriático oxigenado, que foram distribuídos, graciosamente, por casas, hospitais e até ruas de Coimbra.

O leitor encontra ainda a história da Farmácia no Romantismo e no Positivismo. No Romantismo há uma história portuguesa curiosa que o livro conta: o isolamento do chinchonino, o primeiro alcalóida da quina a ser isolado. O autor da proeza em 1810 foi o médico Bernardino António Gomes, que trabalhava no laboratório Químico da Casa da Moeda em Lisboa. Essa descoberta não se deu sem polémica e o Museu de Ciência da Universidade de Coimbra irá mostrar uma exposição sobre a quina e o quinino onde o resultado português será salientado. No Positivismo sobressaem entre nós os nomes de Câmara Pestana e Ricardo Jorge. A Companhia Portuguesa de Higiene foi a primeira grande indústria farmacêutica a estabelecer-se entre nós. Corria o ano de 1891.

A farmácia contemporânea tem, infelizmente, pouco espaço no livro. Mas, apesar de o espaço ser reduzido, há muitas gralhas. Veja-se por exemplo a p. 241 povoada de pequenos erros, que nos fazem pensar que essa parte não foi revista. A mecânica quântica que permite toda a moderna química e, portanto, a panóplia de medicamentos nas actuais farmácias, não está bem introduzida. Mas estes pormenores não desmerecem o conjunto de uma boa edição que conta a história de um sector essencial da saúde e que aqui calorosamente se saúda!

- João Rui Pita, “História da Farmácia”, Minerva Coimbra, 3ª edição (revista), 2007.

2 comentários:

  1. Banha da cobra = ¿Bálsamo de Fierabrás?

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  2. Campanha de Recolha de Documentos para o Centro de Documentação Farmacêutica da Ordem dos Farmacêuticos

    http://www.ordemfarmaceuticos.pt/scid/ofWebInst_09/defaultArticleViewOne.asp?categoryID=1492&articleID=5257

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