sexta-feira, 3 de julho de 2009

A arte é múltipla

Texto de João Boavida na sequência de um intitulado Dicionário Imperfeito, antes publicado no semanário As Beiras.

Dizer que Agustina Bessa-Luís, se houvesse justiça no mundo, já teria ganho o Prémio Nobel por duas vezes, como disse antes deve ter causado indignação. Porque, afinal, Saramago só ganhou um e Lobo Antunes nenhum. Foi uma forma de dizer, ela própria produtora de injustiça. Em relação a Torga, que o merecia, segundo muitos, a Vergílio Ferreira, que o devia ter recebido, segundo outros, e a Jorge de Sena, ou a Cardoso Pires, por que não também? Há dezenas de laureados com o Nobel, que o não mereciam, e autores de primeira que o não ganharam. Tolstoi, consagradíssimo em vida, foi preterido por oito ou nove vezes. Mesmo os muito apreciados hoje, Pessoa, Proust, Kafka, se tivessem vivido o suficiente, tê-lo-iam ganho?

Seja como for, é de facto injusto que as literaturas, portuguesa e brasileira, só tenham um Prémio Nobel. Mas estas coisas estão sujeitas a pressões e o Português, embora falado por muitos, não tem ainda o reconhecimento internacional de um estatuto literário que, pela tradição e riqueza própria, sem dúvida merece. Neste aspecto, pelo impacto internacional único, o Prémio Nobel tem uma função de grande importância

Por outro lado, é claro que acabamos sempre por fazer comparações entre autores, mas devemos evitá-las, porque os escritores acima referidos são muito diferentes uns dos outros, e compará-los exige a introdução de tantos parâmetros que resulta quase sempre injusto. Temos direito a gostar ou não, de nos identificarmos mais com este que com aquele, e é isso que geralmente fazemos. Também é legítimo acharmos um autor melhor que outro porque, de facto, há enormes diferenças de qualidade entre os autores que por aí andam falados e lidos.

Mas é difícil encontrar as razões por que damos qualidade a um e não a reconhecemos noutro. Muitas vezes o mal está em nós. Não temos suficiente garra para descobrir o melhor de um autor, ou o nosso pensamento não vai tão longe, nem tão à frente como o que a obra exprime, ou não se alcança tudo o que o autor quis dizer, etc. Outras vezes o mal está no autor, que vale menos do que dizem.

Além disso, os padrões do gosto têm oscilado muito, e vão-se transformando, muitas vezes por influência das próprias obras, outras porque a realidade, transformando-se, necessita de outras formas de expressão, tem que encontrar modelos que sejam, dessa nova realidade, o reflexo e a sublimação. Se a realidade vai mudando, a expressão artística acaba necessariamente por se ir modificando. Estando sensível a outros estímulos, encontrando outras estruturas na construção, os autores inauguram novos quadros estéticos que, com o tempo, podem chegar a ser predominantes. E aí começa o seu declínio e o processo de substituição por outros quadros estéticos, e outras sensibilidades, que entram em conflito com o gosto dominante. Este, criando epígonos e hordas de admiradores, pouco críticos, leva às mudanças de padrão, por um processo inevitável.

Neste aspecto Agustina estará mais defendida porque é muito difícil de imitar. Saramago, por exemplo, teve de ganhar também o seu espaço e não conseguiu ainda a adesão de todos os que o lêem. E ainda bem para ele. Há admiradores que são muito má companhia. Pobre do autor de que todos, ao ler, logo gostassem muito; provavelmente não iria longe.

Portanto, o juízo de valor, positivo, sobre Agustina, não põe em causa os outros. Nem pode, pois Saramago já ganhou o Nobel e Lobo Antunes irá provavelmente ganhar, um dia. Agustina é capaz de já não ter tempo, mas a obra aí fica.
João Boavida

5 comentários:

Anónimo disse...

«Seja como for, é de facto injusto que as literaturas, portuguesa e brasileira, só tenham um Prémio Nobel.»

Eu só conheço um de um escritor português. Qual foi o brasileiro?

Anónimo disse...

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dg disse...

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Martim Bernardo disse...

España são 46 milhões, nós somos 11.

Não querias a Echevarria e a D'Espido a Nobel, querias?

estamos a cima da média ibérica.

Callate.

A

* Vicente Aleixandre

B

* Jacinto Benavente


C

* Camilo José Cela

E

* José Echegaray

J

* Juan Ramón Jiménez


O

* Severo Ochoa

R

* Santiago Ramón y Cajal

Anónimo disse...

Aconselho " A bibliteca " de Gonçalo M. Tavares , excelente literatura portuguesa.

Deliciem-se um pouco,

"As cabras e o modo como se aproximam de um fio de erva podem preencher todo o cérebro de uma pessoa inteligente, mesmo que tal facto se passe às sete da tarde. A Natureza não abana com os nossos sustos, a não ser a parte da natureza que o nosso corpo representa.
Uma cabra a pastar, uma vaca a pastar, um boi a pastar, uma ovelha a pastar. E ainda as ervas, e o leve vento que passa por elas. Muitas coisas acontecem na natureza. Com tanta erva e animal a pastar, para quê procurar diversão nas cidades?"

Cumpts,
Madalena Madeira

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...