segunda-feira, 29 de junho de 2009

Dicionário Imperfeito

Recomendação de leitura ou consulta de João Boavida, antes publicada no semanário As Beiras.

O banqueiro Paulo Teixeira Pinto que, pelos jornais, soubemos dado à poesia e à pintura, desgostoso dos desastres no Banco Comercial Português, arrependeu-se e resolveu comprar a Guimarães Editores. Disse até que tinha ideias para a velha editora, e parece que sim. Ainda bem, pois «…haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento» (Lucas, XV, 7). Será injusto, mas aos sentimentos não se pedem rigores de justiça.

A verdade é que por influência sua apareceu agora um Dicionário Imperfeito (Selecção e organização de Manuel Vieira da Cruz e Luís Alves Ferreira, Guimarães Editores, Lisboa, 2008) da obra de Agustina Bessa-Luís. Ou melhor, de «um conjunto de pastas com textos dispersos e ocasionais, abundantes dactiloscritos de várias épocas (artigos, crónicas, alocuções, conferências), alguns recortes de jornal». Ficou de fora a obra de ficção, e ainda bem, ou teríamos um dicionário maior que a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e por certo ainda mais «imperfeito», isto é, mais exuberante, rico, contraditório, prolixo e humano.

Mas, mais importante que a obra em si (apesar de ricos “achados” sobre a condição portuguesa e a humana natureza, veja-se “desgoverno”, “sucesso económico”, etc.) é que, pela primeira vez, suponho, Agustina surge em livro encadernado e com sobrecapa, e este volume promete ser o primeiro da sua opera omnia, o que é, só por si, um facto cultural de primeira. “Esquecida”, durante anos, pela intelectualidade dominante, que a considerava “reaccionária”, e pelo gosto corrente, que a achava confusa, Agustina foi criando, com uma regularidade e pujança que só o talento soberano permite, livros e mais livros. Que a Guimarães ia editando, à moda antiga, em brochuras de papel mais que corrente, capas ao deus-dará quanto a gosto, e inspiração, e sem nunca ter tido coragem para mais. O que agora se promete é uma colecção específica, definitiva, na sua infinitude, e ao gosto clássico - algo estranho na incompletude de uma obra talhada para não ter fim, tal a ideia que a autora dá de divindade das letras.

É certo que não vemos Agustina em resmas, nos supermercados, mas isso, hoje, só a engrandece. A sua obra é um mundo que não estará ao alcance de todos, talvez, mas haverá aí obra que melhor nos retrate, e que mais profunda e profusamente vá ao âmago do povo? Com um discurso intuitivo, envolvendo tramas e conceitos, que se desenrolam e multiplicam segundo uma lógica e uma estrutura que está sempre a pedir novos equilíbrios e inesperados reenquadramentos, uma narrativa onde a intuição, o simbólico e uma ancestralidade submersa reanimam a trama, a interpretação e um drama que a toda a hora se desfaz e reconstitui, Agustina é única. E tudo isto com um estilo inimitável, onde as aparentes imperfeições não são mais que fulgurâncias da sua própria força, numa procura incessante que não pára, que estilisticamente não olha para trás, tecendo fios, perdendo fios, retomando-os numa prodigiosa capacidade de efabular e pensar sobre o efabulado, justificando-o e injustificando-o simultaneamente. Obra magna em tamanho, complexidade e profunda correnteza, se assim posso dizer, inovando sobre uma aparente estrutura clássica, onde há outra aí em que o povo (de todas as classes, mas sobretudo dum Norte, classista e interclassista, ainda camiliano) tanto se revele na sua irreflexão, profundidade e enigma? Já que se falou de injustiça divina, se houvesse justiça entre os homens, Agustina já teria ganho, não um, mas dois Prémios Nobel.

João
Boavida

2 comentários:

  1. a capa é feia ( industrial e munárquica)

    o preço deve de ser obsceno.

    o editor cheira mal dos olhos.

    vou esperar pelo filme.

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  2. … e se eu mandasse… ainda ganhava o terceiro prémio Nobel!...

    Agustina apareceu o ano passado, em 2ª edição, com “livro encadernado e com sobrecapa” em co-autoria com pinturas de Paula Rego: As Meninas, Guerra e Paz Editores. A 1ª edição foi em 2001 pela editora Três Sinais.

    Acrescento - (humildemente, pois o texto de João Boavida diz inequivocamente melhor) – que o húmus que “vai ao âmago do povo”, do mesmo modo, (o) “vai ao âmago da alma humana”. E a universalidade é o dom natural dos génios.

    PS- Por acaso acho que pior do que cheirar mal dos olhos é cheirar mal da boca, ou doutro sítio qualquer.

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