sexta-feira, 29 de abril de 2011

A química é parte da solução: de automóvel pela estrada

Na época da Páscoa mais pessoas do que o normal se deslocam de carro, o que aumenta o número de acidentes. Infelizmente, a parte mais perigosa dos automóveis é o ser que se encontra atrás do volante, o qual, muitas vezes, distraído a abusar dos prodígios que a ciência e a tecnologia lhe fornecem, se esquece que não pode escapar às leis da física, da química e da fisiologia. E, no entanto, com a ajuda da química os carros são cada vez mais seguros. Os metais exteriores deformáveis, assim como os plásticos interiores moles, os airbags e os cintos de segurança minimizam os efeitos dos embates moderados. Em particular, no airbag, a azida de sódio, activada por um sensor de choque, reage rapidamente, produzindo uma grande quantidade de azoto, seguido da neutralização dos produtos reactivos e perigosos também formados.

Quem circula nas estradas pode ver, por vezes, camiões com placas cor de laranja com números que são os códigos internacionais UN de transporte de produtos potencialmente perigosos. Os números por cima indicam o tipo de perigo (3 para inflamável é o mais comum) e o número abaixo indica o produto químico. Num país com uma indústria química incipiente como o nosso (o que é uma pena) raramente podemos ver camiões com materiais incomuns. Numa viagem longa poderemos passar por camiões com ácido sulfúrico (1830) ou azoto liquefeito (1977), mas quase de certeza que vamos encontrar gasóleo (1202), gasolina (1203) ou gases de petróleo liquefeitos (1965). E, de facto, quando se fala de automóveis não é possível esquecer os combustíveis.

Os motores de combustão nem sempre foram tão eficiente e seguros como são hoje. Por isso, há alguns anos foi utilizado, por invenção de Thomas Midgley Jr, um composto de chumbo, o tetraetilchumbo, que melhorava o poder detonante das gasolinas, o qual causou um grave problema ecológico e de saúde pública: a gasolina com chumbo. Com a melhoria dos motores este tipo de aditivos passou a ser dispensável, além de que a sua utilização é incompatível com os catalisadores (o chumbo inutiliza-os). Os combustíveis usados hoje em dia são obtidos em grande parte por cracking, ou seja quebra de hidrocarbonetos de cadeia mais longa, sendo possível controlar as suas características e retirar, pelo menos em parte, alguns materiais contaminantes como sejam os compostos de enxofre. No entanto, o processo faz com que os combustíveis tenham uma quantidade maior de hidrocarbonetos aromáticos, o que embora melhore o seu desempenho, é um problema para a saúde.

A contínua melhoria do controlo dos processo químicos nos automóveis fez com que a nossa atenção se virasse para o único produto da combustão que não podemos eliminar: o dióxido de carbono. Para o evitar temos de passar aos automóveis eléctricos ou a hidrogénio. Nestes últimos o único produto da combustão é a água, mas precisamos de processos eficientes e não poluentes de produção de armazenamento e distribuição deste gás. No caso dos carros eléctricos, o desafio é o desenvolvimento de baterias mais eficientes e leves além de formas não poluentes de produção de energia eléctrica. E, em todos estes aspectos, a química é parte da solução.

Claro que há muito mais química nos carros: os tratamentos anti-corrosão, os pneus, os lubrificantes, os anticongelantes, os líquidos e as pastilhas dos travões, as tintas, os vidros laminados e fumados, por exemplo. Seguindo uma ideia da Palmira Silva, na apresentação do livro A História Química de uma Vela, talvez Faraday hoje baseasse as suas conferências num outro objecto de uso comum. O automóvel talvez fosse um bom candidato.

Imagem Obvious: um olhar mais demorado

3 comentários:

  1. Gosto destes posts a explicar o que é a química e para que serve. Vêm bem a propósito já que a palavra "químico" muitas vezes é entendida como sinónimo de "tóxico".
    Por exemplo, as medicinas alternativas usam muitas vezes esse argumento para criticar a medicina convencional, ao mesmo tempo que se auto-intitulam de "naturais" e sem utilização de "químicos".

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  2. Quem diria que um dia veria o desenho de um sorridente Garcia Pereira ao volante de um Oldsmobile na companhia de uma ruiva a iluminar um «post» no «de rerum»!

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  3. Em meio ao avanço da tecnologia do setor automotivo, embora os materias desta nova ordem amorteçam os impactos por inovadas sintetizações, é desastroso prever o que fora feito por seguidas décadas pela escalada dos corrosivos e o que até então, do despreparo, tem amealhado para a humanidade e ao meio ambiente, como neste caso do chumbo.

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