segunda-feira, 25 de abril de 2011

Naquele dia 25 de Abril de 1974

Aqui reproduzimos a visão de Rómulo de Carvalho acerca do dia 25 de Abril e dos que se lhe seguiram. Uma visão que nos ajuda a perceber que se passou, mas, sobretudo, o que se passa em Portugal.

"Naquele dia 25 de Abril de 1974, que foi uma 5.ª feira, saí de casa de manhã, como de costume, a caminho do Liceu Pedro Nunes. Não tinha aulas, porque (...) estava afastado desse serviço, mas tinha um encontro marcado com dois professores alemães, nesse liceu, onde iríamos trocar impressões, em francês, sobre questões de ensino. Segui pela Coelho da Rocha, normalmente, sem notar nenhum sinal de "revolução", e aí encontrei um colega, o Trigueiros, que fora meu estagiário, e se encaminhava também para a citada reunião. Lá ao fundo virámos à direita e começámos a descer a rua da Estrela.

Ó Dr. Trigueiros, o que é aquilo? Parámos a observar. À direita, a meio da rua, há um quartel, da Guarda Republicana, com uma porta larga e guarita junto dela onde normalmente se vê um soldado de pernas abertas, de sentinela, a observar quem passa. Por cima da porta, no 1.º andar, há uma janela com varanda, e o que me deu nas vistas, ao descer a rua, foi ver o soldado nessa dita varanda, de pernas abertas, a observar quem passava. A porta do quartel estava fechada, e a habitual sentinela passara-se para o 1.º andar. Que é isto?

Quando chegámos ao liceu, os alemães, que tinham vindo da Baixa, disseram-nos, alarmados, que havia por lá grande movimento de gente que se manifestava, com soldados à mistura. Devia ser uma revolução, o que aconselhou todos nós a regressar aos seus lares. Assim foi.

Quando cheguei a casa liguei o aparelho de rádio na expectativa de ter notícias dos acontecimentos. Não havia dúvida. O movimento estava a ser seguido pelos operadores de rádio como se procedessem à execução de um filme, ao vivo.

Ouviram-se ordens e contra-ordens, comentários rápidos em tons alvoroçados. A Revolução estava na rua. A ditadura estava a ser derrubada. Os maus da fita iam ser castigados e os bons erguidos aos ombros, entre aplausos.

De vez em quando as ondas radiofónicas traziam consigo uma canção. Era a canção que, por combinação prévia, tinha servido de sinal à eclosão do movimento revolucionário. Ficara combinado que, entre as zero horas e a uma hora daquele dia 25 de Abril de 1974, a Rádio Renascença emitiria uma canção, já então conhecida, de um "cantautor" (nome que na altura se usava para os autores das letras das canções que eram simultaneamente autores das respectivas músicas) de nome José Afonso, agora já falecido. Todos os candidatos a revoltosos ligaram os seus rádios, àquelas horas, para a referida estação, e mal ouvissem o aguardado canto, saltariam para as ruas de armas na mão.

A canção, como vos disse, já era conhecida, mas de muito pouco tempo antes da Revolução. A censura exercida no tempo de Salazar tinha-se gradualmente abrandado após a sua queda da cadeira, a ponto de tornar possível o conhecimento público de canções de feição revolucionária (...). Chamava-se a canção "Grândola vila morena", e começava assim: "Grândola vila morena, / terra da fraternidade. / O povo é quem mais ordena / dentro de ti, ó cidade."

A única coisa que daqui se compreende, e exalta os ânimos, é que o povo é quem mais ordena. É mentira, mas é bonito. Porquê Grândola? (...) E morena porquê? Para rimar com ordena com que, aliás, não rima bem! E que se passou em Grândola, que a gente saiba, para ser terra da fraternidade? Eu, pelo menos, não sei (...). Basta de perguntas. O que interessa é que a canção era revolucionária e o público exaltou-se com ela, e aplaudiu-a cantando-a em coro. Essa foi a canção que deu o sinal de partida para os revolucionários, e desse modo se instalou na História."

Rómulo de Carvalho,
in
Memórias (2010), Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 298-300.

4 comentários:

  1. Pela traição aos princípios
    do vinte e cinco de abril
    tombámos nos precipícios
    desta espécie... de covil!

    JCN

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  2. é mentira mas é bonito

    lá vai a maria da fonte

    a cavalo sem cair
    ....

    vai avante vai avante

    vai avante sem temer

    pela santa liberdade

    resistir ou perecer...

    também é mentira mas pelo menos tem mais versões...

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  3. "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos... e o estado a que chegámos!"

    Palavras actuais de Salgueiro Maia a 24 de Abril de 1974, dirigidas aos seus soldados.

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