sábado, 30 de outubro de 2010

O ensino do latim nos liceus alemães

Sabendo que o ensino das Clássicas é residual no Ensino Básico e Secundário no nosso país, não se vislumbrando tendência de mudança, e sabendo também que outros países que reduziram esta vertente de ensino estão a mudar a sua política, tendo tido oportunidade, perguntei a Maria José Prata, professora na Alemanha, como é encarada esta vertente educativa no sistema de ensino que, por dever de ofício, bem conhece. A sua resposta, que o De Rerum Natura muito agradece, é a que se segue:

A longa tradição do ensino do latim como disciplina liceal obrigatória, outrora condição de acesso aos estudos universitários na Alemanha, foi quebrada no século XX. Principalmente após a década de 60, e em consequência de reformas dos currículos escolares, o latim tornou-se uma disciplina facultativa tendo sido preterida por muitos alunos a favor de outra língua moderna para além do inglês.

A estas reformas institucionais, desenvolvidas a partir de novas teorias sobre o ensino, juntaram-se outros factores que contribuíram para a desvalorização cultural do latim. Entre eles, a tendência de canalizar todos os recursos da instrução escolar no delineamento atempado de percursos que encarreirassem crianças e adolescentes de preferência para estudos que facultassem saídas profissionais prometedoras de sucesso económico e reconhecimento social. Embora alguns desses estudos se situassem na área das humanidades, o latim era (e é) condição de acesso apenas para uma minoria de cursos universitários. Na verdade, aprender latim implicava per se grande dispêndio de tempo sem que lhe fosse reconhecido grande utilidade, pois que a sua aplicabilidade profissional parecia restringir-se aos domínios cultural e académico.

A vivência escolar da geração anterior desempenhou também um papel fundamental no referido processo desvalorativo. Entediada por uma didáctica que havia reduzido a aprendizagem do latim ao memorizar da gramática e à tradução de feitos guerreiros, esta geração não podia aconselhar os seus filhos a estudar uma língua, cujos esforços de aprendizagem ela própria não saberia justificar, tanto mais quanto, para a maioria, o seu conhecimento se tinha revelado predominantemente supérfluo na vida pós-escola.

Nos finais do século passado e na primeira década deste, assistiu-se a uma revalorização do latim, tendo o número de alunos nos liceus alemães aumentado em 30% relativamente aos anos anteriores. Hoje em dia, o latim, disciplina curricular obrigatória apenas nos poucos liceus de perfil humanista existentes na Alemanha, posiciona-se (consoante os estados federais) em 2.º e em 3.º lugar na lista das línguas aprendidas do 5.º ao 10.º anos. Que motivos levaram a esta mudança?

O renascimento do latim emergiu da reflexão que se tem feito sobre as causas do generalizado baixo nível de literacia entre os estudantes do ensino médio e superior, a que se soma o insucesso escolar condicionado por graves lacunas no domínio do alemão, impedimento decisivo no acesso à universidade. Este insucesso (era e) é notório no caso de alunos com herança familiar migratória e/ou pertencentes a estratos populacionais com uma assumida atitude de distanciamento e mesmo de recusa da instrução e da formação escolares.

É num ambiente de desencanto sobre a qualidade e a eficácia de algumas premissas do sistema educativo alemão que se iniciou em 1997 um projecto inovador no ensino de línguas estrangeiras. Este modelo prescreve desde o 5.º ano liceal a aprendizagem de duas línguas estrangeiras, latim e inglês, ambas com a mesma carga horária semanal, que é elevada A necessidade de se dominar a língua inglesa é indiscutível. Mas pode dizer-se o mesmo em relação ao latim?

O projecto baseou-se em diversas observações. É conhecido que, na fase inicial de aprendizagem do inglês, muitos alunos atingem uma relativa desenvoltura na comunicação oral sem dominar substancialmente as estruturas gramaticais da língua. Este sucesso, rápido e relativamente fácil, instila em muitos jovens a dúvida sobre o sentido e a pertinência de se aprender gramática também no âmbito da sua língua materna.

Ora, este suposto anacronismo de sólidos conhecimentos gramaticais (opinião partilhada por muitos alunos e não só) combinada com a alastrante perda de hábitos de leitura (e de interpretação) não pode deixar de ter consequências: estudantes universitários, de diferentes áreas do saber, dificilmente compreendem textos complexos e abstractos, também em alemão.

Outra observação de peso foi a geral e defeituosa produção escrita e o uso descuidado da língua alemã que muitos estudantes apresentam.

O latim é uma língua exigente. Para se compreender um texto latino é necessário explorar, decompor e analisar as suas frases, mas também é preciso saber sintetizar as ideias condutoras do todo para não perder o sentido geral; entender um texto em latim exige o treino e a interiorização de métodos de leitura analítica, contextualizada e assistida por um firme domínio da gramática. A procura, paciente e criativa, do exacto vocábulo alemão, que traduza tão fidedignamente quanto possível a palavra latina, habitua os alunos a consultar dicionários e a reflectir sobre a polissemia das palavras, o que contribui para a expansão do seu vocabulário materno activo com conhecimentos de raiz.

Nas tarefas de ler atentamente, aplicar métodos de abordagem sistemática e lógica para compreender e interpretar textos, formular a tradução, numa escrita gramaticalmente correcta, precisa e sucinta na língua materna, residem grande parte do mérito da aprendizagem do latim. Ou seja, o treino consequente de saberes práticos e teóricos, cuja compreensão do seu sentido e interiorização permitem a sua posterior transferência para áreas de estudo multidisciplinares.

Estes argumentos têm justificado a introdução do latim a partir do 5.º ano liceal na Alemanha. Mas justificarão eles a procura do ensino do latim por alunos e encarregados de educação? E justificarão a não aprendizagem de uma outra língua da União Europeia, o francês, por exemplo?

Parece que muitos (pais e alunos, professores e responsáveis pelo ensino) entendem o latim como uma disciplina que alicerça um consistente fundo (gramatical e) cultural com que a formação e a instrução liceais alemãs devem/deveriam apetrechar os seus alunos. Alunos que, ao qualificarem-se para o estudo universitário, serão os futuros guardiões do património (linguístico e) cultural e os potenciais investigadores que asseguram e desenvolvem a riqueza e a diversidade cultural, tecnológica e científica da Alemanha e da Europa.
Maria José Prata

11 comentários:

  1. O "post" aqui publicado, “O ensino do Latim nos liceus” (30/10/2010), suscitou em mim recordações do meu saudoso tempo de aluno liceal de que dou aqui conta, salvaguardada uma outra imprecisão terminológica de uma memória que acusa o peso dos anos ou correndo eu mesmo o risco de me tornar num sapateiro que toca rabecão.

    Assim, eu ainda sou do tempo (não, não vou dizer quantos tostões custava então um quilo de arroz, como a velhinha do anúncio televisivo) em que o Latim tinha lugar cativo e destacado no currículo escolar liceal. No primeiro ciclo, que ia do 1.º ao 3.º ano, era ministrado o ensino do Francês. No segundo ciclo, que decorria do 4.º ao 6.º ano, para além das aulas de Inglês, eram dadas aulas de Português-Latim, em dias separados, com textos de Júlio César sobre as Guerras Gálicas que nos punham a cabeça em água para descobrir os respectivos sujeito o predicado (espero não estar a dizer nenhuma asneira gramatical!). No 3.º ciclo que constava apenas de um ano lectivo (para quem não chumbasse, claro está) era feita a escolha, apenas, entre Letras e Ciências, conforme o curso superior a seguir.

    Em Ciências, como foi o meu caso, o estudo incidia sobre matérias de natureza científica, com excepção da Filosofia (criminosamente tão maltratada nos dias de hoje) e OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação) que se estudava, esta última, apenas uma semana antes do exame final.

    Como se deduz dos exemplos acima, pode inferir-se, falando de questões de ensino do passado e do presente, que se tem “andado de cavalo para burro”, como sói dizer-se. Resta esclarecer que logo no ano a seguir apareceram as muitas e variadas alíneas, que afunilaram o ensino em prejuízo de uma certa e necessária cultura geral, passando os exames a serem feitos no 2.º, 5.º e 7.º anos e não nos 3.º, 6.º e 7.º anos, como até então.

    Como disse Eça, Portugal do seu tempo, era um país traduzido do francês em calão. Não será altura de Portugal importar do ensino liceal alemão aquilo que ele tem de bom, como seja a recuperação do ensino do Latim nas nossas escolas de grande utilidade num país em que muitas das suas actuais palavras encontram aí a sua raiz?

    Não falo já do Grego pela dificuldade da sua aprendizagem a ponto de ter dado, segundo penso, origem à expressão “vi-me grego”, quando nos deparamos com situações difíceis de resolver na nossa vida cada vez mais complicada pelos PEC’s sucessivos já anunciados e outros a anunciar num porvir pouco risonho. Triste, mesmo!

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  2. Cara Helena Damião,

    Latim nas "escolas" públicas portuguesas? Só a ideia provocaria urticaria aos defensores do status quo. Tenha cuidado, porque pode ser apelidada de salazarenta, bolorenta, elitista, do tempo da outra senhora, etc., etc..

    Eu defendo a entrada do Latim há muitos anos, assim como a erradicação das máquinas de calcular no 1º ciclo do ensino básico. E já me habituei a ouvir os tais epítetos que mencionei, mas acabo sempre por fazer estas simples perguntas aos defensores da "escola" romântica: "Onde tem os seus filhos?" ou "Onde tem os seus netos?" Normalmente estas pessoas ficam com um tom rosado na cara e não respondem...

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  3. Deus queira que, em vez do latim, não venha aí o latão! JCN

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  4. A aprendizagem do Latim é essencialmente o "aprender a aprender".
    Muito bom artigo, provido de saber fundado que revela exímia competência pela parte da sua autora.

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  5. Será que "aprender a aprender" passa "essencialmente" pela "aprendizagem do latim"? Não chego lá!... JCN

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  6. Julgo que seria muito bom que tal acontecesse! Parece-me, no entanto, que isso irá contra a estratégia governamental onde os números imperam.

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  7. Continuo... a não chegar lá! JCN

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  8. O anónimo não chega lá... coitado

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  9. A vantagem do latim
    é de tal modo evidente
    que frisá-la é, quanto a mim,
    até contraducente!

    JCN

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  10. E vossemecê, senhor outro anónimo, conseguiu... chegar lá?... Dê-se por feliz! JCN

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  11. É clara a importância da língua latina na formação cognitiva e no "aprender a aprender". O ensino do grego clássico também seria importante, mas aqui no Brasil é apenas um sonho, um sonho distante de um povo que fala mal sua própria língua.

    Henrique da Mota

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