terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Eu nunca gostei do conceito de multiculturalismo"

Mesmo sem darmos conta, assentamos o nosso modo de pensar e os discursos que dele derivam em muitos lugares-comuns. Um dos lugares-comuns mais fortes nas sociedades ocidentais contemporâneas é, sem dúvida, o multiculturalismo.

Nessa medida, não podia deixar de ser transposto para o plano da educação formal e, como tal, um pouco por toda a Europa e América integrou-se o seu tratamento nos planos de estudo dos diversos níveis e áreas de escolaridade. Esperava-se, assim, obter uma melhor convivência entre pessoas de contextos diferentes, sociais, étnicos ou outros. Porém, grupos restritos ou alargados, formados a partir dos mais diversos critérios identitários, não param de afirmar as suas especificidades, e isto por oposição uns aos outros.

Não era isso que se previa que acontecesse quando se afirmava a necessidade de aceitar a diferença, de respeitar a diferença... O problema talvez esteja exactamente aí: na afirmação da "diferença" entre grupos, entre pessoas; "diferença" que tem sido incontestavelmente posta à frente da "igualdade".

Penso que está mais do que na altura de iniciarmos um debate sobre este assunto ainda que, pelo facto de estarmos a tratar de um lugar-comum, ele se afigure particularmente difícil. Mais: quem o enuncia, arrisca-se a ser politicamente incorrecto, a ferir susceptibilidades...

No programa Um certo olhar, da Antena 2 da Rádio, do passado dia 24 de Outubro, Maria João Seixas, na linha de pensamento de Karl Popper e de Fernando Savater, enunciou exemplarmente os contornos a imprimir a esse debate. Porque importa continuá-lo, deixo, de seguida, alguns extractos do que, nesse programa, foi dito de mais válido para o domínio da educação:

Maria João Seixas: "Eu nunca gostei do conceito de multiculturalismo, nunca. Porque acho que é falacioso. Eu acho que as nossas crianças, as crianças de cada um dos países europesus e do mundo deviam ser educadas com raízes na história do seu próprio país e com o desejo de virem a tornar-se cidadãos do mundo. E, nessa cidadania do mundo, se ela for naturalmente absorvida, há a porta aberta e as janelas abertas para a diferença, para as diferenças culturais, de cor de pele...

Luís Caetano: Mas não é isso que se pode chamar multiculturalismo?

Maria João Seixas: Não é bem. O multiculturalismo na última década (...) assumiu-se como uma bandeira e como um saco em que deviam caber partes de todos os sacos. Não tem de ser um saco onde cabem as partes de todos os sacos, não tem de ser assim (...).

Luísa Schmidt: Quando não se interage, quando não se comunica não há possibilidade de integração isso é que é uma questão importante aqui. É a humanização das relações."

9 comentários:

  1. Primeiro há que definir o que se entende por multiculturalismo com o maior rigor possível. Se fizermos um inquérito perguntando o que é a quem passa, veremos que há muitos entendimentos alguns deles completamente opostos. E muitos dirão que não sabem bem o que é. Os governantes de antes do 25 de Abril diriam que Portugal era uma sociedade multicultural? Pelo menos diziam que era multirracial e onde cabiam todos, brancos, pretos e amarelos. A respeito da África do Sul pré-Mandela também haveria quem dissesse coisas parecidas: muitas culturas em desenvolvimento separado. O que queremos dizer?

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  2. Cara H. Damião,

    A sua entrada para o multiculturalismo tem muito que se lhe diga.
    Este assunto merece, na Europa, um debate muito sério.
    Nas sociedades democráticas, livres e respeitadoras dos direitos humanos "basta" conviver considerando a pluralidade das culturas, desde que aquele que vem de fora (o convidado, não o esqueçamos) respeite as regras, a lei e os costumes de quem o acolhe.

    Há limites (cada vez mais) para a tolerância.

    A Senhora Merkel tem razão: é preciso aprender a língua (de quem recebe), só assim a integração é real e plena.

    Assina,
    humilde-cidadão-das-velhas-oportunidades.

    P.S. (custa-me escrever isto... do PS, pode haver confusões) . Que não doam as mãos aos mentores deste blogue na denúncia da verdade, do caminho certo.

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  3. Caro "humilde-cidadão-das-velhas-oportunidades"

    Quando diz "desde que aquele que vem de fora (o convidado, não o esqueçamos) respeite as regras, a lei e os costumes de quem o acolhe" quer dizer o quê?

    Que tem que respeitar e cumprir as leis, penso que não constitui dúvida para ninguém; agora em relação aos nossos costumes e às nossa regras, o convidado tem que respeitá-los e não adoptá-los. Tal como nós devemos respeitar a sua identidade cultural.

    Porque se o convidado cumprir e adoptar leis, costumes e regras, passa a ser igual a nós e já não se pode falar de multiculturalismo e o seu comentário é paradoxal.

    Cruz Gaspar

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  4. Caro Cruz Gaspar,

    Repare que eu escrevi "aquele que vem de fora (o convidado, não o esqueçamos) respeite as regras, a lei e os costumes de quem o acolhe." Disse respeite, mas quero deixar claro que não há paradoxo nenhum em que ele tenha os seus costumes (por ex. rituais de nascimento, funerais, festejos variados, certos modos de vestir...). Agora se o convidado insistir na excisão feminina ou no uso da burka ou da aplicação da lei sharia no território dos outros, então, caro escriba, não! Um não muito claro. Que lhe parece?

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  5. Se estivesse aqui Habermas ele repontaria logo, como o Anónimo das 22:08:

    - Se estamos a falar de multiculturalismo é necessário saber de que é que estamos a falar quando se fala em multiculturalismo.

    Como não se começa por aí, e não se sabe, resulta que o diálogo começa a cair para o lado, como as expressões:

    "Eu nunca gostei do conceito de multiculturalismo" de Maria João Seixas;
    ou
    "quando não se comunica não há possibilidade de integração isso é que é uma questão importante aqui", de Luísa Schmidt.

    Chama-se a isto fugir para a berma da estrada para não ser atropelado.

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  6. Caro Anónimo das 21:44

    Depois de enviar o meu comentário, lembrei-me da excisão e também do apedrejamento das adúlteras: práticas culturais completamente inaceitáveis. Neste ponto concordo consigo; agora modos de vestir - caso do uso da burka -, já não.

    Cruz Gaspar

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  7. Quanto ao modo de vestir: se aparecessem por cá uns maduros dumas tribos, suponho que da Papuásia (tem sido mostrado no canal número não sei quê da TV) que só vestem uma coisinha comprida (não sei o nome) que tapa e prolonga o pénis. Gostava de os ver aí pela baixa embora preferisse aquelas índias que andam de mamas à mostra( adoro). Tenho a ideia que haveria montes de gente que não seria da minha opinião.
    Se um da Papuásia se apresentasse com aquela indumentária numa cerimónia pública (Assembleia da República, recepção do Presidente da República, que diria a Maria cavaco?) ou fosse a um cinema com a pila de fora, etc.

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  8. Caro Cruz Gaspar.

    Uma vez, em plena Copenhaga vi uma mulher (presumo) de burka, azul, da cabeça aos pés o manto da ignomínia era azul! A cor do conhecimento ali perdia todo o seu esplendor mantendo no cárcere a sua prisioneira.
    A burka é um enxovalho, não é só uma peça de roupa. A burka é o rosto da sharia.
    O uso da burka não é religioso é cultural e... machista.
    Até breve.

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  9. Caro Cruz Gaspar
    Eu, uma vez na selva da Papuásia vi um homem branco de fato e gravata. Os locais (cuja língua eu falo) disseram em coro: "aquilo não é uma peça de roupa (aqui utilizaram o termo com que designam aquela coisa que lhes cobre e prolonga as pilas) é um enxovalho. Aquilo é o rosto do diabo, é diabólico, deve ser banido entre nós"

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