segunda-feira, 11 de outubro de 2010

EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E RELIGIÃO

A dicotomia ciência – religião é tão antiga como a ciência já que a religião é mais antiga. Ainda agora, nos cem anos da implantação da República, se relembrou como o republicanismo, eivado da ciência positivista, se ergueu entre nós contra a religião. Uma visão naturalista opunha-se à visão providencialista.

Mas hoje é, geralmente, reconhecido que as duas actividades, apesar de diferentes, podem bem coexistir. Há, por exemplo, ministros religiosos – e não é só da Igreja Católica - que são também cientistas. E há até quem advogue que, mais além do que a coexistência pacífica, é necessário aproximação e diálogo. Colocam-se, entre estes, Alfredo Dinis, padre jesuíta e professor de Filosofia na Universidade Católica em Braga (actualmente director da Faculdade de Filosofia) e João Paiva, leigo e professor de Química na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Com propósitos pedagógicos, escreveram o livro “Educação, Ciência e Religião”, saído agora na Gradiva, que procura responder a várias questões relativas a essa aproximação e diálogo. Formulam algumas questões mais ou menos “fracturantes” (por exemplo: “A religião e a ciência ‘proíbem’ a existência de extraterrestres”?), acompanhadas por engraçados cartoons, dão a cada uma delas uma primeira resposta, em linguagem acessível, e, em seguida, aprofundam o tema, numa linguagem mais elaborada. Questões complementares para debate e bibliografia sobre cada tema completam esta original obra.

Pode-se ou não concordar com eles, mas os autores são taxativos: “Mais e melhor ciência só pode significar melhor religião”. Aprenderam, portanto, com aquilo que eles chamam “descentramentos” do homem, que ocorreram ao longo da história da ciência. O primeiro é o descentramento cósmico, que se deu no início do século XVII com Galileu. O segundo é o descentramento biológico, que se deu a meio do século XIX, com Darwin. E o terceiro é o descentramento neurológico relativo à mente e à consciência humanas, que se estará a dar agora, na esteira de Freud embora não como sua herança directa (as modernas neurociências pouca justificação oferecem à psicanálise). O caso Galileu transitou em julgado depois que o Papa João Paulo II mandou, passados séculos, rever o processo e admitiu por fim o erro da Igreja. Galileu, aliás um bom crente e bem relacionado com o alto clero, vai aliar ter uma estátua em mármore nos jardins do Vaticano... Os autores dedicam-lhe apenas uma questão, que é fácil de responder: reconhecem que Galileu foi pressionado pela Igreja para negar o movimento da Terra. A teologia mudou no sentido em que a leitura da Bíblia deixou de ser literal.

O caso Darwin, mais recente, provocou ondas de choque que chegaram até aos nossos dias. O sábio inglês, que viveu no seio da Igreja Anglicana, tendo até estudado teologia em Cambridge, foi alvo não já da Inquisição, mas da chacota pública, mais uma vez por contraste entre aquilo que a ciência aprendia e o que a Bíblia ensinava: o homem era apenas parte da grande “árvore da vida”. Curiosamente, foram e são as religiões protestantes, talvez mais ligadas ao livro, quem mais contestaram Darwin e, no mundo de hoje, forneceram o ambiente necessário para o florescer dessa estranha mistura entre ciência e religião que é o criacionismo na forma de “design inteligente”. Porém, a Igreja Católica não resolveu ainda completamente o problema, pois se João Paulo II admitiu há poucos anos que a teoria da evolução das espécies era “mais do que uma hipótese”, tal afirmação parece ainda excessivamente tímida num mundo em que as evidências observacionais e experimentais em favor dessa teoria excluem qualquer alternativa cientificamente válida.. Não foi há muito tempo que o Vaticano reprimiu as ideias evolucionistas do jesuíta Teilhard de Chardin. Os autores, que respondem a duas questões sobre o tema da evolução, não têm nenhuns problemas não só em citar o padre Chardin mas também em afirmar, preto no branco, que se pode defender a teoria da evolução e, ao mesmo tempo, acreditar em Deus. Dá a ideia que a teologia, também neste domínio, está ela própria em evolução...

A teoria do Big Bang veio, no século passado, alargar a todo o domínio cósmico a ideia de auto-organização, isto é, a ideia de uma organização sem intervenção sobrenatural, com que a teoria da evolução se servia e serve para explicar a história das espécies. Claro que a pergunta sobre o que havia antes do Big Bang é legítima, mas a ciência de hoje responde honestamente que não sabe. Há poucos dias, o novo livro de Stephen Hawking relançou a polémica sobre a dispensabilidade de Deus para a criação do mundo, ele que metaforicamente tinha no seu best-seller anterior falado do “plano de Deus” para o Universo. Curioso é que a Igreja Católica tenha visto com bons olhos a ideia científica da criação quando ela apareceu na ciência, entre outras pelas mãos de um sacerdote católico, o padre Lemaître, porque concordava com o mito bíblico da criação. O Universo presta-se aliás abundantemente a discussões teológicas. Por exemplo, a teoria do Big Bang inclina-se para a infinitude do Universo. Não será, por isso, provável, quase inevitável, a existência de outros sóis e outras terras, como aliás tinha sonhado o “dissidente” da Igreja Católica Giordano Bruno, e, mais do que isso, a existência de vida noutros planetas, incluindo eventualmente vida inteligente? A descoberta muito recente do primeiro problema numa “zona habitável” de um sistema estelar a escassos vinte anos-luz de nós levantou justamente as atenções dos terráqueos. Tornou ainda mais oportuna a afirmação do jesuíta Guy Colsolmagno do Observatório Astronómico do Vaticano: sim, ele baptizaria um ET, se este quisesse! Nessa mesma linha algo heterodoxa, os autores do presente livro declaram que “um Deus criador e milhões de planetas habitados por seres inteligentes estaria mais de acordo com a imagem de ser omnipotente da tradição cristã”. Fica por saber o que mudaria, de facto, na teologia se tais seres aparecessem mesmo. Seriam considerados seres com alma? O pecado original aplicar-se-ia a eles? E Jesus Cristo poderá não ter aparecido noutros planetas?

Tanto ou mais polémicas do que essas são as questões sobre a mente levantadas pelas neurociências e que estão actualmente, neste planeta, a ser pesquisadas. Os autores não fogem a esse tema contemporâneo na fronteira entre ciência e religião quando formulam três perguntas: “Com o conhecimento do cérebro poderemos nós, humanos, vir a ser absolutamente previsíveis?”, “A inteligência artificial ameaça não só o homem como a religião?”, “Que contributos podemos nós esperar da neuroteologia?”. As suas respostas parecem-me expressar demasiadas reservas em áreas que ainda estão nos seus começos. A atitude da ciência deve ser de abertura, para não dizer esperança, perante o conhecimento novo, mas as respostas dadas em “Educação, Ciência e Religião” sobre o cérebro e a mente, são, na minha opinião, de excessiva crítica. Por exemplo, a “neuroteologia” que o livro critica poderá ser um nome disparatado, mas é decerto interessante pesquisar com os aparelhos das neurociências o que se passa dentro do cérebro dos crentes para averiguar o modo como a Deus está dentro do cérebro. Os autores recusam à partida a hipótese de que Deus esteja apenas aí. Ocorre-me a interpelação que Sagredo faz na peça de Bertold Brecht Vida de Galileu: “Onde é que está Deus no sistema do mundo?" Responde Galileu: “Em nós, ou em lugar algum.” E, pela minha parte, não vejo mal nenhum que se investigue a ideia de Deus nos seres humanos com os métodos de que a ciência dispõe. Se a teologia vai ou não mudar com isso já é uma outra questão...

- Alfredo Dinis e João Paiva, “Educação, Ciência e Religião”, Gradiva, 2010.

14 comentários:

  1. "Porém, a Igreja Católica não resolveu ainda completamente o problema, pois se João Paulo II admitiu há poucos anos que a teoria da evolução das espécies era “mais do que uma hipótese”, tal afirmação parece ainda excessivamente tímida num mundo em que as evidências observacionais e experimentais em favor dessa teoria excluem qualquer alternativa cientificamente válida.."
    Este pedaço de prosa vem na linha daqueles que banalizam as teorias científicas. Teorias, como elas devem ser, mas que permitem avançar o conhecimento (científico).
    Agora a reflexão que aqui se trás cheira a bafio e a inversão. Lembro que Giordano Bruno foi queimado vivo no Mercado das Flores, em Roma. Estive lá no Verão e prestei-lhe homenagem. Quem o mandou queimar teria Deus no cérebro?

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  2. eu vejo um grande paralelismo entre religião e ciência..uma trata do espírito e nega o corpo/matéria , a outra trata do corpo e nega o espírito ; rituais têm as duas : vai-se à confissão e ao check up , por exemplo ; ambas procuram a imortalidade , uma do espirito , outra do corpo ; as duas procuram reverência e espanto , and so on.

    há que tratá-las como o que são : criações humanas e logo cheias de erros e manias. e aproveitar o que presta ou nos serve e deitar fora os abusos.
    e , quem sabe ? talvez apareça alguém que una corpo e espirito..

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  3. Maria,

    Afirma: "uma trata do espírito e nega o corpo/matéria".

    Pode-me explicar esta afirmação?

    Saudações,

    Alfredo Dinis

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  4. Boa pergunta, caro Doutor Dinis,
    desde quando é que a ciência nega o espírito (leia-se mente)?
    Cara maria, para unir corpo e espírito não basta uma relação sexual, à falta de qualquer outro exercício físico com ou sem componente erótica?

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  5. posso : tudo na religião , pelo menos na católica , que é onde eu fui criada , me fez negar o corpo. o corpo é sujo , segundo eles ,( não é , é excelente ,e se o anónimo se refere à visão indiana do sexo , eu concordo ) , é apenas uma coisa maligna que nos tenta e nos faz desviar de um qualquer trascendente objectivo espiritual.
    quanto à ciência : tenho ideia que nos quer converter numa máquina perfeita , máquina...eu não quero ser uma máquina.
    digamos que prezo muito a ciência , preciso dela , mas sem exageros. e a ciência não pode suprir a necessidade que tenho de me ligar a algo. e também não quero que ela me desligue no cérebro , porque descobriu o sítio no cerebrelo- digamos- que me faz ter essa necessidade.
    fiz-me entender?

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  6. Caros leitores.

    É absolutamente maravilhoso que hoje eu saiba que irei ouvir debater, e debater, assuntos que são dos meus mais pensados todos os dias. Vai ser na minha Universidade de Évora, perto da minha casa e, claro está, cumpre-me acreditar que, se no momento da criação do meu Universo tal foi permitido, então, nada melhor do que aproveitar e aprender. Bem haja qualquer português, nomeadamente os nascidos no planeta Terra, e em especial os promotores do debate, por poderem fazer com que ele aconteça, em língua portuguesa, e em Évora.

    Para mim Deus é óbvio, na sua existência, e acredito que a educação das crianças, e dos adultos, não pode ser optimizada sem o ensino da religião, que, no meu caso, é essencialmente cristão, não querendo com isto significar que desprezo o conhecimento que possa provir doutras religiões.

    Um grande abraço a todos, em especial aos que sabem discutir todos os assuntos sem necessidade de usar argumentos que, puxando por emoções mais ou menos eufóricas, toldam a capacidade de análise e argumentação dos presentes num fórum.

    Que bom seria se, na Assembleia da República, por exemplo, aquele tipo de retórica, tão pouco calmo, fosse substituído pela bondade analítica do contraditório da paz!

    Quem quer discutir não quer demonstrar que tem razão! Quer, isso sim, procurar os seus próprios erros. Como alguém disse: numa discussão séria apenas se tem por certo, à partida, que, no fim, ambos os arguentes verão os seus conhecimentos ser alterados pelos conhecimentos dos outros! É como numa reacção química em que os reagentes se alteram a bem da produção do produto!

    João Ponte e Sousa
    Doutorando Química
    Universidade de Évora

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  7. A Religião é o "conhecimento" dos crentes.
    A Filosofia é o "conhecimento" dos pensadores.
    A Ciência é o "conhecimento" dos sábios.

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  8. Crer não é saber. É imitar.

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  9. Por que é que as religiões insistem tanto no "acreditar"? Poderiam insistir mais no "saber". Levar as pessoas a "saber" é um acto meritório. É cooperação. Obrigar as pessoas a "acreditar" é uma violência psicológica. Muito mais se o "acreditar" for debaixo da ameaça da tortura, da fogueira da Inquisição ou do Inferno temporário ou eterno.

    João Cunha

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  10. Por que é que Maria de Nazaré, mãe de Jesus, actualmente Nossa Senhora de Fátima, esteve presente nas bodas de Cána, esteve presente no Calvário, junto à cruz, e não esteve presente na "Última Ceia"?

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  11. Por que é que Lázaro, que era amigo de Jesus, ao ponto de lhe fornecer dinheiro e mantimentos, e foi ressuscitado por ele, não esteve presente na "Última Ceia", nem aos pés da cruz? Por que é que Lázaro não é considerado um apóstolo de Jesus, em contraste com Paulo de Tarso que,sendo perseguidor dos judeus cristãos, passou a ser considerado apóstolo, e praticamente o fundador e alimentador do cristianismo?

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  12. Por que as religiões insiste em acreditar ?
    “Numa casa grande não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro: Uns são para usos honrosos e os outros para usos ignóbeis”.
    2Tm 2,20


    Por Maria
    ...”ao observarem sua vida casta e reservada”.
    1Pd 3,2


    Por que é que Lázaro que era amigo de Jesus, ao ponto de lhe fornecer mantimentos...
    “Ele nos salvou e nos chamou para santidade, não devido as nossas obras; mas em virtude do seu desígnio e graça, que nos foi dada em Jesus Cristo antes de todos os séculos”...
    2Tm 1,9

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  13. Estas respostas não são convincentes. Tente novamente.

    João Cunha

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  14. Imagine um sino silencioso. Tem alguma coisa de espiritual?

    Imagine um sino a tocar aleluias. Tem alguma coisa de espiritual?

    Imagine um sino a tocar a finados.
    Tem alguma coisa de espiritual?

    Imagine um computador desligado.
    Tem alguma coisa de espiritual?

    Imagine um computador com muitos programas e muitos textos. Tem alguma coisa de espiritual?

    Imagine um cadáver estendido no chão. Tem alguma coisa de espiritual?

    Imagine uma pessoa a passear, a trabalhar, a cantar, a dançar, a rezar. Tem alguma coisa de espiritual?

    A diferença não estará apenas na energia, nas vibrações?

    Se faltar a energia, não fica tudo sujeito à degradação?

    Não estará tudo sujeito à energia do sol?

    Não será o "sol criador", com a sua energia, a sua luz, a melhor imagem de "Deus Criador"?

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