sábado, 21 de março de 2009

Primeiro livro de poesia

Que poesia de deve dar a ler às crianças e aos jovens a ler?

Deixando de lado os debates de teor académico e curricular, detenho-me na resposta, em forma de livro, que Sophia de Mello Breyner Andresen organizou e Júlio Pomar ilustrou, e que tem por título: Primeiro livro de poesia: poemas em língua portuguesa para a infância e adolescência.

Nesta pequena grande obra de capa azul, onde se vê o esboço dum menino a segurar uma guitarra, encontramos poesias em português de Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor, Brasil, da Guiné, São Tomé e Princípie. Entre os poetas portugueses contam-se, Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Jaime Cortesão, Vitorino Nemésio, António Nobre, Alexandre O´Neill, Fernando Pessoa, Sidónio Muralha, Miguel Torga, Texeira da Pascoais, Bocage, Eugénio da Andrade… Há também poesias populares, tradicionais, sem atribuição de autor.

Aqui deixo o poema de Gomes Leal - Rainha de Kachmir - que nela se reproduz e que, pela aprimorada estrutura, vocabulário a que pouco se recorre no quotidiano, realidade distante, etc., se poderá pensar não ser adequado para os mais jovens. Mas, penso que Sophia de Mello Breyner Andresen sabia perfeitamente que era, quando o escolheu.

O vestido de noivado
Da rainha de Kachmir
Era a diamantes bordado,
Como luar num terrado!...
Parecia o Céu estrelado,
Ou a visão de um faquir,
O vestido de noivado
Da rainha de Kachmir

Se é a Via Láctea, em suma,
Não há olhar que destrince!...
Nenhuma vista, nenhum
Jurará se é neve ou pluma,
Se é leite, ou astro, ou espuma,
Nem o próprio olhar do Lince...
Se é a Via Láctea, em suma,
Não há olhar que destrince!

Levava, nas mãos patrícias,
Leque de rendas e sândalo...
Oh! que mãozinhas... delícias
Para amimar com blandícias,
Para beijar com carícias
Que adorariam um Vândalo...
Levava, nas mãos patrícias,
Leque de rendas e sândalo.

Cor da lua, os sapatinhos
Eram mais subtis que o leque!...
Seu manto, púrpura e arminhos,
Não rojava nos caminhos,
Pois sua cauda, aos saltinhos,
Levava-a um núbio muleque.
Cor da lua, os sapatinhos
eram mais subtis que o leque!

Eis que, no meio da boda,
Entrou um moço estrangeiro...
Calou-se a alegria doida
Da grande assembleia, em roda!
E a brilhante sala toda
Fitou o jovem romeiro.
Eis que, no meio da boda,
Entrou um moço estrangeiro...

Pegou no copo, com graça,
E brindou, em língua estranha...
E a rainha, a vista baça,
Como a um punhal que a trespassa,
Encheu de prantos a taça,
E o seu lenço de Bretanha...
Chorou baixinho, ao ouvir, com graça,
Esse brinde, em língua estranha!

Encheu de pranto o vestido,
Encheu de pranto os anéis...
E, sem soltar um gemido,
Chorou, num pranto sumido,
O seu passado perdido,
Os seus amores tão fiéis!...
Encheu de pranto o vestido,
Encheu de pranto os anéis.

Quem era o moço viajante
Que fez turbar a rainha?...
Era o seu primeiro amante,
Tão leal e tão constante,
Que, do seu reino distante,
Brindar ao Passado vinha...
Tal era o moço viajante,
Que fez turbar a rainha.

Saudades de amor quebrado
Fazem lágrimas cair!
Por um brinde ao amor passado,
Ficou de pranto alagado
O vestido de noivado
Da rainha de Kachmir.
Saudades de amor quebrado
Fazem lágrimas cair!...

2 comentários:

  1. Amoroso da POESIA que sou há já mais de cinquenta anos, custa-me em verdade a crês que isto!... seja uma poesia do grande autor Cunha Leal! a ser verdade, peço perdão à dona Sofia, mas... repito: se for verdade este poema... é mesmo apenas para criancinhas! o meu respeito a todos.
    Que viva a POESIA sem amarras!Deixem de uma vez por todas de coarctar as asasda liberdade pura, instintiva e realmente natural que é, de facto a POESIA!


    O Príncipio

    Era acre e doce o sabor do líquido existente na taça que a vida lhe tinha ofertado. De mau grado aceite por incúria dos humanos sentimentos que sempre o afectaram... foi ingerindo com amargura o suposto néctar que o ia vitimando.

    Após ter saboreado de lágrimas no rosto e cérebro toldado por emoções indefiníveis a última gota do venenoso líquido deixou que de sua mente confusa se apoderasse a letargia o desinteresse e a apatia por tudo o que de humano o rodeava. Era o príncipio.


    Em princípio tudo é relativo...

    Relativo e circunstâncial é a religião e a moral o poder e o tempo a lei e a justiça a opulência e a fome o bem e o mal a verdade e a mentira a fé e os costumes dos povos.
    Em sentimental teia enredado armadilha de vidro fosco inquebrável... enjaulado em cárcere de aparência humano filósofo bicho-homem espírito perdido quem sou?
    Perdida a fé nos homens desmotivado agruras constantes falta de sorte descrença...

    Perdida a família que me resta? Trama de seda enganosa que de frágil tem apenas a aparência... que é feito da esperança que tanto me vivificou? Que é feito do amor?... do ideal porque lutei e num labirinto psíquico me enredou que me atormenta e ensandece? A vida Deus meu! O que é a vida?... “Silêncio! Não digas mais! Não sentes este cheiro a ácido sulfúrico? Este odor pestilento que exala das pessoas? Não!? Não notas este aroma podre de carne putrefacta? Este cheiro hipócrita de convivência social simulada? Não?!...”

    Foi um prazer! desculpem qualquer coisinha!

    BERCORDUVAL, portiguês! Bruxelas

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  2. Caro "Bloguista..." Para gostar de si basta-me saber que gosta de livros. Como no meu anterior comentário, aparecem duas pequenas gralhas... culpa minha. Gostaria de o ofertar com um trabalho que poderá oferecer aos autores que fizeram a antologia para jovens e adolescentes. Se acaso eles resolverem editar um livro para "gente grande!..." delhes este original, mas leia-o... por favor!

    O RÍTMO DIABÓLICO DAS SUAS ANCAS

    Um corpo esbelto.
    Bem modelado.
    Escultural.
    Um corpo cor de palha.
    Liso.
    Atractivo.
    Um corpo que mexe.
    Que vibra.
    Que deslumbra.

    Um corpo que me desperta desejo
    Me magôa e faz sofrer.
    Um rosto perfeito de linhas afrodisíacas.
    Uns olhos belos levemente endurecidos.
    Um rosto e um corpo.
    Um corpo e um rosto.
    Um rosto e o corpo esbelto de uma mulher!

    A voz, os gestos, o modo de me olhar...
    As palavras de som meigo e enrouquecido
    O olhar aparentando dureza como que ausente
    O andar firme, elegante, provocativo...
    E o rítmo?
    O rítmo diabólico das suas ancas?

    Gosto de a olhar, olhar sempre.
    Não me importo se sorri ou não...
    Sorrir, chorar...
    Quero olhar, olhar, olhar!
    Olhar o rosto, o corpo, o todo!
    Olhar...
    Olhar e sentir o rítmo diabólico das suas ancas!










    A LEILOADA

    Pronto meus senhores
    está aberto o leilão
    Prá peça mais rara
    que já leiloei
    Mandem vossos lances
    sem hesitação
    Pois como já disse
    está aberto o leilão.

    Estátua de bronze
    que já possui
    Em horas amargas
    em horas de sonho
    De sonho e loucura
    de loucura e dor
    Mandem vossos lances
    comprem meu amor.

    A mais desejável
    que já desejei
    O mais lindo corpo
    que um dia paguei
    Mandem meus senhores
    mandem vossos lances
    Pois ela será
    para quem mais der
    Comprem meus senhores
    a minha mulher.

    Em seus braços fui
    um barco sem remos
    Ela era o mar
    era mil infernos
    Não tenho palavras
    para descrever
    Por esta mulher
    desejei morrer.

    Comprem meus senhores
    comprem para crêr
    Nas minhas palavras
    no meu doido sonho
    Vejam estes olhos
    o rosto tristonho
    Olhem estes peitos
    os lábios perfeitos
    Vejam esta anca
    e esta cintura
    Comprem meus senhores
    Comprem a loucura.

    Comprem meus senhores
    Pois também comprei
    A mulher mais rara
    que no mundo vi
    Pois foi em leilão
    que a consegui.

    Comprem meus senhores
    puxem da carteira
    Pois esta mulher
    é a vida inteira.
    E não me perguntem
    a razão da venda
    Pois se o fizerem
    não responderei
    Vos digo e afirmo
    é que nunca amei
    Mulher mais perfeita
    do que esta aqui
    Estátua de bronze
    que estou leiloando.

    Comprem meus senhores
    e avaliem bem
    A peça mais rara
    que o leilão tem
    Pois quem a comprar
    decerto vai ter
    Que a leiloar
    para não morrer.

    Pronto meus senhores
    já disse a razão
    Porque resolvi
    fazer o leilão!







    LIBIDO

    Esta enérgica
    poderosa
    e avassaladora
    libido
    que me domina
    e apoquenta
    rouba-me descanso
    empobrece-me o espírito
    enraivece-me a alma e vai destruir-me.

    Encontro-me à beira do abismo que
    enlaçando separa a invisível barreira
    do afrodisíaco mundo
    da sensualidade
    da continuação da espécie
    da sanguinolenta e enlouquecedora
    paixão,
    do incontrolável império dos sentidos
    da força renovadora que faz esvoaçar
    o homem
    no seu mais puro estado de
    animalidade,
    instintiva, perversa, incontrolável.
    Preciso, quero enlouquecer!










    CORPOS DOIDOS

    Leve
    delicadamente
    os meus lábios jovens percorrem
    acarinham e desejam
    os lábios levemente rosados
    da jovem mulher
    que desejosa se me oferece
    e o meu corpo
    jovem e endoidecido
    louco de desejo
    estremece!

    Leve
    amorosamente
    os meus lábios húmidos acariciam
    os olhos semi-cerrados
    da jovem mulher
    que desejosa se me oferece
    e o meu corpo endoidecido
    louco de desejo
    estremece!

    Leve
    suavemente
    as minhas mãos morenas
    tocam de leve
    muito levemente,
    as mãos rosadas da jovem mulher
    que desejosa se me oferece
    e o meu corpo doido
    enlouquecido de paixão
    estremece!

    No ambiente de sonho
    da semi-realidade que me rodeia
    nesse espantoso espaço poético
    de prazer delírio e paixão
    na loucura instintiva do desejo animal
    os meus lábios continuam
    ao de leve
    meigamente
    a acariciar os seios jovens
    rijos
    altivos
    desejosos...

    E os meus dentes brancos
    trincam de leve
    ligeiramente
    os seios leitosos
    belos
    erectos
    do corpo jovem que desejoso se me oferece
    e o meu corpo jovem e endoidecido estremece...

    É prazer!
    Sonho!
    Fantasia!
    Real ou irreal não importa.
    É o êxtase embriagante do amor!
    Da loucura de Eros
    do desejo
    da liberdade pura e instintintiva dos sentimentos!

    Entretanto a ponta da minha língua
    hábil
    rija
    rosada
    percorre deliciada
    ao de leve
    muito levemente
    ora mais depressa e nervosa,
    o corpo belo a pele leitosa...
    da jovem mulher que quase endoidecida
    mas sempre desejosa...
    se me oferece!
    E o meu corpo jovem e enlouquecido
    completamente perdido de paixão estremece.

    Os olhos lábios dedos mãos braços língua dentes...
    Olham acariciam percorrem apalpam sugam
    trincam e magoam ao de leve
    muito levemente
    o corpo sádio da jovem mulher
    que agora mais nervosa se me oferece...
    E os nossos corpos doidos
    jovens puros e sãos
    numa sobrenatural explosão de desespero... estremecem e acalmam!

    ...Olhos lábios seios rijos
    corpos jovens que o não são!
    Foram jovens
    sim
    foram jovens em tempos que já lá vão!

    Ao olhar os corpos lindos
    das jovens por mim a passar,
    vejo velhinhos sorrindo
    como eu a recordar!...a

    Não me leve a mal! A vélhice não perdoa. Um abraço.

    BERCORDUVAL // Bélgica

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2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.