domingo, 29 de março de 2009

A Astronomia em Portugal durante o Estado Novo (anos 30 e 40)

De António Mota de Aguiar, novo post, esta vez sobre a história da Astronomia em Portugal no tempo do Estado Novo (na imagem, retrato de Francisco da Costa Lobo):

A história dos estudos de astronomia em Portugal nas décadas de 30 e 40 começa por uma certa animação cultural devido à criação da Junta de Educação Nacional (JEN), a qual teve à sua responsabilidade o envio para o estrangeiro de bolseiros a fim de, graças a estágios em centros onde a ciência estava mais avançada, trazerem para Portugal mais valias. A JEN foi criada em 1929 pelo Decreto Lei nº 16381 de 16 de Janeiro, continuando a Junta de Orientação de Estudos, criada em 1923 pelo Ministro da Instrução, António Sérgio. A JEN teve à sua frente homens com vontade de a levar a bom porto, como o professor Simões Raposo (1875-1948), o médico Marck Athias (1875-1948) e o médico Celestino da Costa (1884-1956). Quando a JEN fechou em 1936, Celestino da Costa passou a presidente do Instituto para a Alta Cultura (IAC).

Com a criação da JEN pretendia-se organizar a investigação científica em Portugal, preparando bolseiros no País e no estrangeiro que pudessem especializar-se em áreas científicas e técnicas. A JEN e, mais tarde, o IAC apoiaram a vinda a Portugal de professores estrangeiros de renome, assim como a actividade de alguns centros de investigação, como os Centros de Estudos de Matemática de Lisboa e Porto (CEML e CEMP). Alguns físicos beneficiaram nessa altura dessas bolsas e regressaram ao país no final de 1929, constituindo um estímulo ao desenvolvimento da teoria da relatividade entre nós, além da inclusão desta matéria nos programas de ensino da Física. A estimulante actividade da JEN e do IAC teve influência benévola na criação de várias unidades de investigação, mormente no movimento matemático que se deu nessa época, tendo sido criadas várias associações e revistas desta especialidade. De 1929 a 1950 foram atribuídas 812 bolsas. Em Astronomia, porém, o único beneficiado das bolsas oferecidas foi José António Madeira (1896-1976).

Se antes da República as condições socioeconómicas do país não eram de molde a criar mecanismos capazes de apoiarem e desenvolverem a aprendizagem da Astronomia em Portugal, a República, com as crises que se sucederam, não permitiram grandes avanços na astronomia. Não conseguimos continuar a escola da Astronomia portuguesa que tinha existido antes, com figuras como Filipe Folque (1800-1874) e César Campos Rodrigues (1836-1819). Com a chegada do Estado Novo, o conservadorismo da Universidade de Coimbra permitiu que o monárquico Francisco da Costa Lobo (1864 -1945), professor de Matemática da Universidade de Coimbra afecto ao Estado Novo, um espírito conservador e retrógrado, se tenha evidenciado logo nos primeiros tempos da República e tenha reforçado a acção política que o norteou desde muito cedo. Ele, apesar do mérito da instalação de um espectroheliógrafo nos anos 20, monopolizou a área da astronomia em Portugal em proveito próprio e do Estado, travando os conhecimentos da Física Moderna. "Homem político”, como ele próprio se denominou, e anti-relativista empedernido, a sua atitude não teria tido consequências maiores para a astronomia nacional se ele não tivesse sido o “astrónomo oficial” do regime político, tendo exercido uma deliberada acção contra o ensino e a difusão da física moderna, tão necessário ao desenvolvimento da ciência astronómica, ao monopolizar várias instituições da cultura portuguesa, como o Observatório Astronómico de Coimbra e o Instituto de Coimbra, associação dos lentes da Universidade de Coimbra, que editava o “O Instituto”, a mais importante revista cultural e científica desses tempos.

Apesar do braço de ferro que o regime do Estado Novo exerceu sobre a sociedade, ele não conseguiu cabalmente silenciar os professores, pois ao longo da década de 30 e 40 foram aparecendo cientistas que escapavam do seu controlo. Por isso, nestas duas décadas, o aparelho repressivo do estado despediu prestigiados professores das universidades, tendo muitos deles sido presos, enquanto outros se exilaram no estrangeiro (por exemplo, o médico director da JEN e do IAC Celestino da Costa, mas também o matemático Ruy Luís Gomes, 1905-1984, e o físico Mário Silva, 1899-1971, os dois defensores das ideias relativistas). A última grande vaga de despedimentos, exílios forçados, perseguições e prisões, ocorreu nos anos de 1946 e 1947. Com a repressão sobre o movimento científico exercida ao longo das décadas de 30 e 40 alguns dos protagonistas maiores da ciência portuguesa foram desaparecendo das actividades científicas do país. Com a expulsão da última vaga de professores as veleidades de desenvolvimento no campo da astronomia, assim como noutras ciências, terminavam. No princípio da década de 50 o atraso cultural e científico do país era enorme, os arquivos e bibliotecas nacionais encontravam-se num estado deplorável, a censura, a polícia política e os tribunais de excepção exerciam um severo controlo da sociedade. A astronomia, tal como as outras ciências, tinha de esperar melhores dias.

António Mota de Aguiar

3 comentários:

  1. Este meu comentário é feito a propósito do presente texto e de um outro publicado pelo mesmo autor, neste blog, denominado “Os observatórios astronómicos de Lisboa e de Coimbra de 1850 a 1950” no dia 13 de Março de 2009.

    É um facto que a História da Astronomia em Portugal não é muito conhecida. E isto é particularmente verdadeiro no século XIX e início do século XX, onde durante muitos anos não pareceu haver um interesse alargado dos historiadores e dos astrónomos pelo estudo dessa época. Esta realidade contrasta com o facto deste período coincidir com o início da actividade científica dos Observatórios Astronómicos de Lisboa e da Universidade de Coimbra, bem que este último tenha a sua data de fundação em 1772. Os dois textos publicados pelo autor no blog “Rerum Natura”, parecem reforçar a ideia da importância e necessidade de um estudo rigoroso da História da Astronomia em Portugal.

    Porém, creio que vamos no bom caminho já que, tanto quanto sei, existe trabalho de investigação em História da Ciência a ser desenvolvido, há alguns anos, em várias Universidades portuguesas (em alguns casos, no âmbito de teses de doutoramento) que visam analisar e descrever a Astronomia portuguesa nos últimos dois séculos. É por isso de confiar que dentro em breve (um ano ou dois) esse trabalho dará frutos e poderemos caracterizar, com o rigor científico e histórico necessários, o que foram e fizerem os astrónomos portugueses nesses tempos.

    Em todo o caso, apesar do referido desconhecimento, há elementos que nos permitem ser um pouco mais precisos do que, à partida, o autor parece apresentar em ambos os posts. Refiro-me em particular à figura de Francisco Costa Lobo. Uma leitura menos avisada dos posts poderá deixar uma imagem distorcida do que foi o percurso deste astrónomo da Universidade de Coimbra. Não comentarei os qualificativos com que Francisco Costa Lobo é presenteado neste post. Apenas gostaria de trazer uma visão factual do que foi o seu trabalho científico.

    Não querendo correr o risco poder parecer parcial (já que sou docente e astrónomo na Universidade de Coimbra), convido os leitores a consultarem a comunicação da morte do Professor Francisco Costa Lobo, dada na reputada revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, em 1946, e escrita por Frederick John Marrian Stratton, Professor de Astrofísica da Universidade de Cambridge (http://www.mat.uc.pt/~jmfernan/histast_files/morte_Costa_lobo.pdf). Este texto contém várias notas biográficas e científicas, fundamentais para compreender quem, de facto, foi o astrónomo e académico Francisco Costa Lobo.

    Gostaria ainda referir que, tal como é dito nos posts, a instalação do espectroheliógrafo no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra foi uma das contribuições mais importantes do Professor Francisco Costa Lobo (para mais informações sobre o que foi o processo de instalação recomenda-se a leitura do artigo “Eightieth Anniversary of Solar Physics at Coimbra”, publicado por Zadig Mouradian e Adriana Garcia, nas actas do Congresso “The Physics of Chromospheric Plasmas” que decorreu em Coimbra em Outubro de 2006). Porém, o que não é referido nos posts é o facto do espectroheliógrafo ainda hoje funcionar, contribuindo para que o Observatório de Coimbra e a Astronomia Nacional possuam um espólio de imagens do Sol que ascende a mais de 30000 (das quais, mais 2/3 estão já online e podem ser consultadas em http://www.astro.mat.uc.pt/novo/observatorio/site/index.html), colocando este trabalho astronómico num patamar singular no contexto nacional e internacional. Evidentemente que este trabalho sistemático de observação diária do Sol, para chegar até aos dias de hoje, teve de contar com a contribuição de dezenas de observadores e observadoras que, ao longo de mais de 80 anos (a começar pelo próprio filho de Francisco Costa Lobo, Gurmesindo). Mas foi, sem dúvida, graças ao trabalho pioneiro do Professor Francisco Costa Lobo que foi possível Portugal ainda hoje possuir um serviço regular de observações astronómicas de interesse científico.


    João Fernandes
    Astrónomo e docente da UC

    Coimbra, 30 de Março de 2009

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  2. A tónica na divulgação do conhecimento cientifico parece-me um bom ponto de partida para uma análise histórica da astronomia portuguesa. A democratização da ciência não só espalha a informação como promove e aprofunda a investigação. Os observatórios astronómicos portugueses foram muito pouco divulgadores devido aos directores. Já depois do 25 de Abril, eu dizia à minha irmã que a astronomia amadora dava cartas aos profissionais portugueses do ramo (ela foi a primeira mulher astrónoma), provocação que engolia em seco porque sabia que o director do observatório de Lisboa era mais cótótó (avarento)que o Salazar. Depois da integração na universidade o observatório abriu-se e os astrónomos hoje têm uma formação muito boa. Ainda há poucos anos quando ia à Tapada, via a Bina à volta da "história do observatório", um trabalho dela que não sei se acabou porque entretanto reformou-se e vive actualmente em Itália. Mas, posso dar-vos uma certeza, punha muito rigor no que escrevia.
    Mas não é por nada, continuo a pensar que a astronomia portuguesa é fraquinha, como é aliás este blogue.

    Paulo Costa

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  3. António Mota de Aguiar2 de abril de 2009 às 13:18

    Quando ia responder ao astrónomo João Fernandes deparei com o texto do físico Carlos Fiolhais sobre esta temática (não há como os físicos para falarem das leis físicas!). Por isso já não preciso de falar da “Teoria Radiante” [1] Já não preciso de demonstrar que “M. Costa Lobo bâtit une théorie comme s’il n’eût aucune connaissance des derniers progrès de la physique (…) on peut presque dire que la théorie de M. Costa Lobo auraît pu être conçue au commencement du XVIIIième siècle”. [2] e que, como afirmou o físico Augusto Fitas, “Toda esta teoria era apresentada de uma forma especulativa, sem qualquer suporte matemático.” [3]

    O astrónomo João Fernandes referiu, em defesa de Costa Lobo e em resposta ao meu post, o obituário escrito pelo astrónomo inglês F.J.M. Stratton. Mas o que este astrónomo escreveu em 1946, de menos de uma página, em nada altera a natureza pseudo-científica da Teoria Radiante, que ele aliás ignora. Se esta teoria foi ao longo dos anos denunciada por tantos físicos e astrónomos portugueses, por que não se apercebeu esse astrónomo da Royal Astronomical Society da pseudo-ciência de Costa Lobo? Ainda por cima era da pátria de Arthur Eddington, que chefiou em 1919 a missão britânica à ilha do Príncipe destinada precisamente à comprovação astronómica da Teoria da Relatividade.

    João Fernandes “diz não comentar os qualificativos com que Costa Lobo é apresentado neste post”. Explico-me:

    Quando uma pessoa apresenta ao longo da vida uma pseudo-ciência, não pode ser considerado retrógrado? O problema é que Costa Lobo, não combateu a Teoria da Relatividade, demonstrando, com argumentos científicos seus, que Einstein estava errado. Não. Ele apresentou uma nova doutrina: “é oportuno lembrá-lo, apresentei em 1911, no Congresso de Granada, uma justificação simples e clara, baseada numa nova doutrina sobre a estrutura do Universo (…)” [4]. E para isso utilizou a fundo o Instituto de Coimbra, isto é, a Academia de Coimbra. Se não tivesse tido o Instituto à sua disposição, certamente não estaríamos agora a falar dele.

    No que respeita a expressão conservador, que eu utilizei, vejamos:

    Paulo Costa, que também comentou o meu post, diz: “A democratização da ciência não só espalha a informação como promove e aprofunda a investigação”. A democratização da ciência deu-se porque houve – mal ou bem – a democratização do ensino. Sem uma não havia a outra. E é graças em larga medida à República que obtivemos alguma democratização do ensino. Porém, Costa Lobo, era a favor do stato quo anterior ao 5 de Outubro de 1910: não era a favor da democratização do ensino nem da ciência. Ao ter não só participado como participado activamente nas três ditaduras que varreram o século XX português: Pimenta de Castro, Sidónio Pais e Estado Novo, não lhe parece que era conservador e retrógrado? A mim sim.

    NOTAS:
    [1] Costa Lobo, “Théorie Radiante”, O Instituto, volume 90, 1936, pp.416 a 457 e “Compléments à la “Théorie Radiante”, O Instituto, volume 91, 1937, pp. 269 a 273.
    [2] Carlos Fiolhais (coordenador) , “Einstein Entre Nós”, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2005, p. 33, rodapé 52.
    [3] Idem, Augusto J..S. Fitas, p. 33
    [4] Costa Lobo, “O Princípio da Gravitação Universal” Imprensa da Universidade de Coimbra, 1932, p.10

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