quinta-feira, 19 de agosto de 2010

É natural…

Toda a gente sabe que o negócio dos trabalhos académicos existe e prospera: sabem os professores, que não podem deixar de se confrontar com ele; sabem-no os alunos, pois a informação corre; sabem os jornalistas, que de vez em quando voltam ao assunto; sabem os investigadores que lhe têm dado atenção; devem saber as famílias, que pagam a factura; também não me parece que as instituições de ensino superior o desconheçam, nem as suas mais altas instâncias.

Algumas empresas e pessoas particulares fazem publicidade na internet, outras têm um contacto mais discreto. Há “produtos” de toda a espécie e feitio, prontos ou por encomenda. Uns são mais caros – as dissertações de final de licenciatura, mestrado e doutoramento -, outros mais baratos – relatórios e tarefas avulsas para as unidades curriculares.

Os estudantes que quiserem e tiverem como pagar, escusam, pois, de perder o seu precioso tempo em consultas bibliográficas aborrecidas, em pesquisas de campo fastidiosas, na redacção de um texto que teima em não sair inteligível à primeira…

Ora, se o negócio tem dado tão bons resultados neste nível de ensino, porque não estendê-lo a outros níveis, onde a procura é tão grande ou maior? Afinal, os negócios têm de estar abertos a novas oportunidades…

E... foi exactamente nas Novas Oportunidades, que muitos viram... novas oportunidades! Mais: viram isso logo que elas surgiram.

Sem sequer procurar, soube logo na altura que tinha emergido uma nova profissão: os Fazedores de Portfólios Reflexivos de Aprendizagem. Sim, eu sei, também há os amigos que "apoiam" a composição deste "instrumento-acima-de-qualquer-suspeita", sem cobrarem nada, apenas para ajudar a obter um diplomazinho… coisa de nada…

Esta conversa vem a propósito duma notícia publicada no jornal i, de hoje. Apurou a jornalista Filipa Matins que se desembolsam 400 euros (que antes eram 500, mas a crise...) e o certificado do 12.º ano é garantido.

Eu diria que é um preço razoável! Até porque é reembolsável: a seguir vende-se a outra pessoa que precise dele. Com um bocado de sorte, vende-se a mais do que uma… Havendo tantas centenas de Centros Novas Oportunidades, um fica aqui, outro ali… e ninguém detecta!

Mas, o mais interessante na notícia do jornal são as declarações do presidente da Agência Nacional para a Qualificação, Luís Capucha, que confirma... "a situação". Diz o referido senhor (os sublinhados são meus):

"É natural que haja parte desses portefólios - que têm centenas de páginas - que seja transcrita da internet." "Porém", adianta, "as pessoas devem ser encorajadas a trabalhar essa informação em vez de a transcreverem", acrescentando que "não compete à ANQ fazer qualquer avaliação do trabalho dos centros". "Uma avaliação implica um juízo, ora o que encontra nos documentos são orientações técnicas", conclui.

Porém, o universo é suficientemente vasto para ter justificado o envio da nota de orientação aos Centros Novas Oportunidades. Nesta é manifestada a necessidade de "reforçar que a inclusão de textos retirados da internet não configura, de forma alguma, uma prática regular, que seja demonstrativa de competências que os candidatos detêm". "Quando muito", lê-se ainda, "esta prática evidencia a capacidade do candidato pesquisar informação".

Filipa Matins, Jornal i de 19 de Agosto de 2010

14 comentários:

  1. Como os aparatchik obedecem à nomenklatura, não admira este conformismo de Luís Capucha...

    ResponderEliminar
  2. Fiz o Portão [Portal, nunca] da Educação que:

    “A Iniciativa Novas Oportunidades, que procura dar resposta aos baixos índices de escolarização dos portugueses através da aposta na qualificação da população, concretiza-se em duas ideias-chave: uma Oportunidade Nova para os jovens e uma Nova Oportunidade para os adultos.”

    Ora o sociólogo Luís Capucha tem razão quando assevera que "não compete à ANQ fazer qualquer avaliação do trabalho dos centros", mas sim a de acreditar e atribuir a baixa qualificação e baixa creditação aos novos trabalhadores formatados pelos Centros Novas Oportunidades, de que já aqui patenteámos um exemplo de como assistir ao Despertar dos Mágicos.

    Não lhe compete ver se os trabalhadores têm competências para a profissão. Basta o Estado dizer que as têm. Quem é o Luís Capucha, ou o povo lusitano, para discutir ou avaliar as utopias do Governo que pretende manter os baixos níveis de escolarização ?

    Avaliar o trabalho do Governo ? Era o que faltava !
    ...........................

    Diz o poeta:

    Que nada é impossível
    não é verdade;
    todo o mundo faz nada
    com facilidade.

    Chego sempre à hora certa,
    contam comigo, não falho,
    pois adoro o meu emprego:
    o que detesto é o trabalho.

    Millôr Fernandes

    in "Pif-Paf"

    ResponderEliminar
  3. Este tipo de "ajudas" existe desde sempre, em tudo quanto é sítio. Porque é que só as novas oportunidades é que são notícia? isso não é já bater no ceguinho?...falar de algo que não se conhece por dentro (não me refiro a si, logicamente, mas a algumas personagens que gostam muito de se ouvir falar...). Volto a perguntar, porque é que só as novas oportunidades é que são notícia? E depois, quem tem de lutar contra os pimpões que entram num CNO a achar que tudo vai ser canja, devido à publicidade negativa que cai de todo o lado, vinda de não-especialistas na matéria (note-se, pessoas que não conhecem a filosofia do processo de validação de competências...e, note-se, eu não faço parte do rol dos desgraçados dos profissionais que têm de aturar tudo e todos, desde os mais altos até aos mais baixos níveis...)? Ah, pois, os formadores e os professores destacados (muitas vezes maltratados e subvalorizados).

    ResponderEliminar
  4. "Não lhe compete ver se os trabalhadores têm competências para a profissão. Basta o Estado dizer que as têm."

    É um problema válido em todos os ramos de ensino e educação, não só no caso das novas oportunidades! Já começam a ser um "bode respiratório"!


    E note-se que a "oportunidade nova" para jovens e a "nova oportunidade" para mais velhos passam por filosofias distintas. Só alguns são encaminhados para o chamado processo de validação de competências, aqueles que tenham um percurso de vida que lhe permitiu a aquisição de conhecimentos através da escola da vida e da experiência. Os restantes são encaminhados para cursos, alguns deles com uma duração de 3 anos (os chamados cursos de aprendizagem; a formação profissional compreende muitos tipos de formação distinta). E muitos dos acérrimos críticos esquecem-se que ao generalizar, fazer o justo pagar pelo pecador e ao encetar uma caça às bruxas (muitas vezes nem sequer conhecendo de perto o sistema que critica), insultam a inteligência, a labuta e o esforço de excelentes profissionais que não só lutam por uma vida melhor para si mesmos (coisa que cada vez parece mais distante, uma vez que a maioria está a recibos verdes e trabalha até mais não em troco de uns tostõezitos) como por um mundo melhor, ajudando os que querem e podem ser ajudados mas que, de outra forma, não poderiam ter acesso a esta oportunidade.

    Já chega de bater no ceguinho! :p

    ResponderEliminar
  5. Vani, EM TEORIA só alguns são encaminhados para certificação. Em teoria. Porque depois de vários anos como avaliador externo em vários centros, eu até conheço a teoria. Afastei-me da função de livre vontade quando comecei a ver que os CNO, sob pressão das metas e da concorrência de outros CNO, se dispunham a certificar o que me parecia impossível. E acha que a maioria dos que são encaminhados para cursos (alguns com duração de 3 anos) dispensam uma segunda e terceira opinião de outro CNO das redondezas?

    E também conheço bem as condições miseráveis que alguns formadores têm de suportar, mas recordar isso só piora o cenário.

    Não se trata de bater no ceguinho, acho eu. Trata-se de criticar uma realidade que funcionou bem nos primeiros anos e depois foi abarbatada para instrumento de propaganda e pelo caminho se desviou completamente da sua filosofia de base.

    Basta olhar para números e pensar se, realmente, havia tanto milhar de português que afinal teve capacidade de adquirir por si o que outros levaram anos de esforço a conseguir, com estudo sistemático, nas escolas. Mesmo que está fora do sistema tem honestamente de se questionar.

    ResponderEliminar
  6. Cara Vani,

    A minha opinião não tem como objectivo defender ou atacar quem vive das Novas "Oportunidades", tem como único objectivo contribuir para divulgar a farsa deste sistema.

    Porque não oferecer um certificado de competências (até o nome é vago) a todos os recém nascidos de Portugal? Poupava-se dinheiro em escolas, professores, alunos, auxiliares, administrativos, etc.! O resultado era semelhante e a poupança era extraordinária.

    ResponderEliminar
  7. Novas Oportunidades é um logro. Sem mais comentários.!

    ResponderEliminar
  8. É uma pena não falarem aqui da existência de números mínimos de certificações que alguém impõe aos Centros NO, para que se perceba a aldrabice que é fábrica de diplomas e para que os trolls e as "vanis" percebam de que estamos a falar...

    ResponderEliminar
  9. João e Fartinho da Silva, estou de acordo com vocês! ;-) Mas, chamo a atenção para que muitos criticam sem sequer se darem ao trabalho de constatar como funcionam. Ou de se lembrarem que ainda há excelentes profissionais dentro do sistema, que lutam contra as farsas, os números e as fraudes, na medida do possível.

    Caro Fernando, não se esqueça que não sabe quem está do outro lado do monitor, antes de partir para a crítica desconstrutiva. Apenas viu uma parte da minha argumentação, influenciado pela opinião negativa que já construiu. Caríssimo, porque parte do principio que eu não sei do que estão a falar, mmm? Claro, eu não assisti a plágios descarados nos meus tempos de estudante, nas ditas vias normais. Também não os detecto, ora, que é isto, fecho os olhos e vou colocar a minha power balance...
    Se tem críticas, critique, mas pode fazê-lo construtivamente, seguindo o exemplo do Paulo ou do Fartinho da Silva. Senão, lamento desapontá-lo, mas quem exibe comportamento troll não são as vanis (que por acaso já se identificaram, tenho pena que não tenha estado atento).

    ResponderEliminar
  10. Peço desculpa, João, enganei-me ao referir o seu nome! :(

    Queria acrescentar que concordo plenamente com o seguinte, por si afirmado (se quiser pode usar o tu :) ):

    "Não se trata de bater no ceguinho, acho eu. Trata-se de criticar uma realidade que funcionou bem nos primeiros anos e depois foi abarbatada para instrumento de propaganda e pelo caminho se desviou completamente da sua filosofia de base.

    Basta olhar para números e pensar se, realmente, havia tanto milhar de português que afinal teve capacidade de adquirir por si o que outros levaram anos de esforço a conseguir, com estudo sistemático, nas escolas. Mesmo que está fora do sistema tem honestamente de se questionar. "

    Totalmente de acordo. Mas ainda existem profissionais que tentam combater isso e aplicar a filosofia inicial. Com muitas barreiras, diga-se, já que a maioria das pessoas vão ali achando que é tudo canja...precisamente devido à publicidade negativa. Criou-se um ciclo vicioso.

    Apenas chamava a atenção para o facto de estas fraudes existirem em todos os sistemas de ensino. Assisti a várias enquanto era estudante...quem não tem diversos colegas que pagaram a quem lhes fizesse as suas teses de licenciatura? ou que copiaram trabalhos disponiveis na internet (avaliação final da disciplina...)? ou que seduziram os professores e garantiram a aprovação nas disciplinas dessa forma?

    Apenas chamo a atenção para o facto de estas fraudes serem generalizadas e de ocorrerem em todos os sistemas de ensino actuais. E que estar sempre a associá-las somente aos CNOs é fazer dos CNOs um bode "respiratório", quando acabam por ser um sintoma de tudo o que passa no panorama educativo de Portugal, a todos os níveis. São um sintoma do vírus "eduquês" que se instalou em todos os sistemas de ensino portugueses.

    ResponderEliminar
  11. Acredito que o Fernando se sinta defraudado, como Professor que é (sim, eu fui informar-me...), com o advento das fraudes nas novas oportunidades e afins. Mas como Professor que é também assiste à pandemia do eduquês (como é chamado aqui no Rerum Natura) em todos os campos de ensino, certo? E, se percebi bem, talvez tente combatê-los, inclusive no campo da formação profissional (outro sistema a ser minado pela pressão das estatísticas, números e resultados a apresentar), daí o seu justificado desagrado. Mas, explique-me porque é que partiu do principio que eu não seria uma desagradada igual? Só porque tento equilibrar as coisas e chamar a atenção para o facto de as fraudes existirem em todo o sistema educativo, e não só nos CNOs? Por alertar para a filosofia existente de educação de adultos que adquiriram competências pela experiência? Que, infelizmente, está corrompida...mas, explique-me, o que é que ainda não está corrompido no campo da educação? Poderá dizer-me que, por exemplo, quiçá, você mesmo. Que o próprio Fernando não se deixou corropmper e luta por uma educação e profissão digna, correcto? E porque não poderão os profissionais dos CNOs ou formadores de formação profissional reclamar o seu direito a não serem corrompidos e a lutarem contra o sistema? Serão trolls por isso?...

    ResponderEliminar
  12. Tem razão a Vani quando escreve que as fraudes nos trabalhos académicos não se concentram apenas na Novas Oportunidades.
    Infelizmente tem razão... porque se elas acontecessem só aí, estando delimitadas, poderia tentar fazer-se qualquer coisa para as evitar.
    Na verdade, o problema que está longe de se confundir com umas respostas copiadas pelo colega ou por cábulas em testes, tem uma expressão muito mais ampla e profunda, em todos os níveis de ensino. E isto não é apenas apanágio do nosso país. Aliás os estudos mais alargados sobre o assunto são estrangeiros, apesar de ter colegas portugueses que se dedicam ao assunto.
    Considero, no entanto, que o mais grave neste fenómeno é a amoralidade que o rodeia e que o alimenta: toda a gente sabe da sua existência e tolera-o. Com excepção de algumas escolas de excelência, onde sei que tal comportamento é considerado intolerável, o que já tenho presenciado, é o encolher de ombros e… dar uma segunda hipótese ao prevaricador apanhado em flagrante, que, pasme-se, muita vezes, não percebe que prevaricou nem a gravidade da prevaricação!
    Seria muito interessante perceber porque é que se dá uma segunda hipótese ao prevaricador e porque é que o prevaricador não demonstra consciência correspondente ao acto…
    No "De Rerum Natura" temos dado atenção ao assunto, incidindo na expressão que tem no ensino superior, que é, talvez, onde o seu efeito é mais preocupante, mas só o seu efeito, porque a sua aprendizagem e consolidação faz-se ao longo da escolaridade, e seria aí que nos teríamos de concentrar se quiséssemos mudar alguma coisa na honestidade dos estudantes e na nossa tolerância como professores.

    ResponderEliminar
  13. Dra Helena, ora, nem mais. No entanto, acrescento que nas equipas que tenho integrado e em outras que conheço em alguns CNOs (por serem colegas), os plágios não são tolerados e os formandos são alertados para a sua gravidade. Contudo, sendo adultos, já com os seus vícios e ideias feitas, muitas vezes não compreendem a gravidade do acto. Muitos acham, pasme-se, que ninguém irá detectar a fraude. Mas muitos detectam. Podem ser poucos, mas existem e lutam. Era somente isso que eu queria trazer à discussão, uma vez que cada vez mais nos sentimos abandonados, incompreendidos e sozinhos nesta LUTA que é a educação, cada um no seu sistema. :) Obrigada pela sua atenção e por compreender a minha intenção nesta discussão em especial. :)

    ResponderEliminar
  14. Ainda a propósito do tema, escreve o DN: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1646507

    :)

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.