quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Do "homem-que-conhece" ao "homem-que-faz"

Com base nas notícias da comunicação social portuguesa, poderíamos afirmar que os Ensinos Básico e Secundário polarizam mais os interesses das pessoas comuns do que o Ensino Superior, ainda que neste as reformas em curso sejam tão profundas como naqueles.

Além disso, são reformas que assentam exactamente nos mesmos pressupostos, sendo o mais central “a passagem de um ensino baseado na transmissão de conhecimentos para um ensino baseado no desenvolvimento de competências".

Isto está claramente plasmado no Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, que formaliza a reorganização do Ensino Superior, mas encontra-se explicitado em todos os documentos que formalizam as reorganizações dos Ensinos Básico e Secundário.

No que concerne ao nível de Ensino Superior, explica-se nas alíneas e) e f) do referido documento quais as competências que os alunos devem adquirir na sua frequência universitária ou politécnica: "Competências que lhes permitam comunicar informação, ideias, problemas e soluções, tanto a públicos constituídos por especialistas como por não especialistas; competências de aprendizagem que lhes permitam uma aprendizagem ao longo da vida com elevado grau de autonomia.”

Centrando-se a noção propangandeada de competência no saber-fazer (ainda que se advirta a todo o momento que ela não pressupõe a desvalorização do saber, que é um "saber em acção ou em uso"), talvez estejamos a passar (ou já passámos), dum modelo de "homem-que-conhece" para um modelo "de homem-que-faz", como referiu António Manuel Baptista. Vale a pena ler o enquadramento destas expressões:

"Sabemos que a instituição universitária, de que a actual é herdeira, nas suas linhas fundamentais, tem as suas raízes na Idade Média, no século XII. Destacamos a sua importância capital por ter contribuído principalmente para fazer a ligação do mundo clássico greco-romano, através dos Árabes, ao mundo ocidental e decisivamente para o surgimento de uma cultura científica (…).

A ideia de universidade moderna que chegou até aos nossos dias foi implantada por Alexander von Humboldt na Alemanha no século XIX (…). Fundamentalmente, via-se a universidade como uma instituição de ensino superior onde se ia criando o conhecimento novo que iria sendo transmitido aos alunos, formando-se uma comunidade de escolares numa atmosfera propícia para a obtenção e propagação desse conhecimento (…).

A ênfase fundamental era colocada mais no homem-que-conhecia do que no homem-que-fazia.

Os problemas da competência do professor e das capacidades dos estudantes eram, de certa maneira, simplificados, pois, com o desenvolvimento científico, foi-se estruturando, regradamente, uma comunidade internacional com hierarquias próprias. Polany chamar-lhe-ia, mais tarde, a república da ciência na sua dimensão internacional. Essa república haveria de estabelecer os seus próprios padrões de excelência, em que se valorava primariamente a criatividade científica e os modos de a apreciar e estimular. Assim se desenvolveram e criaram instituições variadas, com as revistas especializadas, com o seu corpo editorial e árbitros, conferências, seminários, etc., envolvendo toda a actividade com uma vigilância bastante eficaz.

O conhecimento era considerado o produto por excelência das instituições universitárias (…). O espírito universitário radica fundamentalmente neste respeito pelo conhecimento e sua fruição como valor próprio absoluto (…). Assim, a universidade responde a uma necessidade real das comunidades e surge como meio de responder a esse anseio cultural, para lá da formação de profissionais. A universidade, em princípio, está onde estiver este amor ao conhecimento e à sua aquisição e transmissão (…). Considerava-se que os jovens formados numa atmosfera em que se valorizasse o conhecimento desta forma, com as suas exigências intelectuais, poderiam depois, nas suas profissões particulares, desempenhar cabalmente as diversas funções que a sociedade lhes exigisse para a realização dos seus fins, fossem estes quais fossem.

Estamos, efectivamente, a tentar identificar o cerne vital da instituição que, naturalmente, seria sempre um organismo muito mais complexo na satisfação de outros objectivos da sociedade onde estava inserida e que, pelo seu apoio, a tornava possível. Mas digamos que tudo o que afectava esse núcleo essencial da formação e transmissão do conhecimento novo era resistido como uma ameaça à integridade da instituição (…)."

Referência completa: Baptista, A. M. (1998). Ciência, universidades e universidades portuguesas. A. M. Baptista. A ciência no grande teatro do mundo. Lisboa: Gradiva, Capítulo 6, páginas 171 e seguinte.

20 comentários:

  1. Falo SÓ de Engenharia. É um campo que exige aos seus profissionais serem homens ou mulheres que conhecem mas também que fazem. Sabem aplicar os conhecimentos científicos nos projectos de engenharia, tanto melhor quanto o souberem fazer de uma forma criativa, segura, económica, ou seja, deverão também saber fazer. Se não forem capazes ou não gostarem, dedicam-se à investigação, se tiverem qualidades para tal.

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  2. Como dizia um grande amigo meu, Presidente de um Instituto Politécnico na altura:

    "Com a proliferação indiscriminada e irracional de instituições de ensino superior e em consequência de cursos. As instituições terão que se transformar numa espécie de escolinhas de segunda com cursos de terceira e alunos de quarta divisão. O facilitismo será a regra e a exigência uma excentricidade e o caminho do lobby das "ciências" da educação encontrará mais um mercado."

    Parece que estas ideias datadas de 1996 se estão a confirmar.

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  3. Sou o Anónimo das 09:48.

    Esqueci-me de escrever que muito admiro o Professor e Físico António Manuel Baptista.

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  4. Hoje em dia está muito em voga o fazer. Saber para quê? Isso é para os teóricos, que não fazem nada, já fizeram algo que mostre que valem alguma coisa?

    Sai borrada? ehh isso é culpa do computador, que eu não tenho que saber, só tenho que fazer, fazer, sem saber, que só se perde tempo e dá muito trabalho a estudar. Carrega-se numas teclas e já está, dá resultado, é como se soubesse, e finge tão completamente, que chega a convencer-se que sabe, aquilo que deveras ignora.

    É o que acontece quando não há accountability, e é particularmente verdade no nosso querido País, a terra do faz-tudo e sabe tudo, reino do espertalhão e do treinador de bancada, a bitaite land!

    SNG

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  5. Será que se pode fazer sem se conhecer?... JCN

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  6. José Batista da Ascenção27 de agosto de 2010 às 15:50

    Olá, boa tarde a todos.

    Na sequência do que afirma SNG: O "homem que faz" só faz bem se for um "homem que sabe". Na primeira pessoa: só faço bem se sei bem porque aprendi bem. Mesmo que a aprendizagem tenha sido conduzida por mim próprio, à custa de muita dedicação e esforço. Dedicação e esforço que estão na base de qualquer (boa) aprendizagem. Tudo o que não vá por aqui, parecem-me apenas modos mais ou menos diversos de tentar a "quadratura do círculo".
    Quem tiver dúvidas que atente nos resultados das escolas portuguesas: todo o tipo e categorias de escolas portuguesas. Ou será por defeito genético que, queira-se ou não, vamos, em termos genéricos, sempre umas carruagens atrás no combóio do conhecimento, de certa forma à espera do que os outros descobrem?

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  7. José Batista da Ascenção27 de agosto de 2010 às 15:56

    Já agora, pedindo perdão por poder ser chato, julgo que o meu comentário anterior se resume no comentário-frase de João de Castro Nunes (JCN), o qual apareceu imediatamente após ter enviado o meu para apreciação.

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  8. Sabemos que a noção de competência não se encontra estabilizada nem provavelmente se conseguirá atingir esse objectivo. Mas esta entrada pode ser lida como querendo significar que o conhecimento das diversas disciplinas que se aprendem no ensino superior só é válido desde que seja um conhecimento susceptível de ser aplicado à resolução de problemas concretos e reais, nomeadamente aqueles em que não existe uma resposta pré-formatada e imediata. Como afirmou o primeiro comentador existem áreas do conhecimento que se aprendem no ensino superior em que objectivamente a mobilização de conhecimentos, procedimentos, atitudes, etc. perante problemas concretos, ou seja, a utilização de competências, constitui uma finalidade incontornável da formação recebida. Um engenheiro civil pode ter adquirido uma enorme quantidade de conhecimentos ao nível da física, da resistência de materiais e de todas as disciplinas que se aprendem nessa formação, mas terá que as saber utilizar quando tem um problema concreto para resolver (calcular a profundidade de um alicerce tendo em conta a composição do solo, etc.). Um médico pode ter sido um aluno brilhante no decurso da sua formação mas chegará o tempo em que, primeiro acompanhado e depois sozinho, terá que saber ouvir as queixas de um doente, identificar os sintomas, fazer um diagnóstico e estabelecer uma terapêutica.
    Todavia, a noção de competência não esgota saber fazer concreto. Ela pode e deve ser aplicada ao conhecimento que não tem qualquer aplicação prática. Porque o princípio básico de uma educação de qualidade deve pressupor o valor intrínseco do próprio conhecimento. As disciplinas da área das humanidades raramente têm uma aplicabilidade prática à semelhança dos exemplos que atrás mencionei. No entanto, ao nível destas disciplinas, o objectivo do professor não se deve esgotar na transmissão de conhecimentos, embora esta constitua uma dimensão estruturante na educação. Ele deve ambicionar desenvolver processos cognitivos e de outra natureza nos seus alunos como, por exemplo, pensar de uma forma mais clara, argumentar de forma mais consistente, contrastar diferentes perspectivas sobre um determinado assunto, desenvolver capacidades de estudo autónomo e em grupo, etc., etc.
    Recentemente coloquei num comentário que fiz a uma entrada anterior uma frase retirada de uma entrevista dada no ano passado ao portal Educare pelo Professor Professor José Tribolet na qual afirmava. "O que de mais importante podemos fazer pelos jovens não é enfiar-lhes matéria na cabeça. É dar-lhes disciplina, método, capacidade intelectual, capacidade de pensar, de formular problemas, de estruturar metodologicamente a procura de soluções. E isto faz-se fazendo." Não deixa de ser curioso que esta opinião venha de alguém da área de engenharia onde se poderia pressupor que a aplicação prática do conhecimento fosse mais marcada. Em três frases e 28 palavras a noção de competências (que não a sua definição) e a forma como estas podem ser desenvolvidas, independentemente da área do conhecimento em questão, é sintetizada de forma excelente.

    PJ

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  9. Ao Dr. José Batista da Ascenção, em consonância:

    Ninguém faz o que não sabe:
    para se ser carpinteiro
    e afeiçoar uma trave
    há que ir à escola primeiro.

    JCN

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  10. Concordo inteiramente com a frase do JCN, pois ela sintetiza a primazia do 'saber fazer' sobre o 'saber'. Dito de outra forma, é infinitamente mais fácil parecer que se 'sabe', recitando, do que demonstrar que se sabe, fazendo.

    Mais digo, um saber que não seja exercitado é um saber inocente e quem o detém, nessa forma primária, devia desconfiar daquilo que sabe, pondo-se à prova, tentando usar o saber.


    Nota: quando falo em aplicações do saber, refiro-me a um espaço alargado de aplicações, isto é, tanto a aplicações no domínio das ideias (experiências conceptuais) como a aplicações no domínio da natureza.

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  11. "Será que se pode fazer sem se conhecer?... JCN"

    Então não? Todos os dias vemos leis feitas sem quem as fez perceba o que está realmente a fazer (embora neste particular, alguns saibam o que fazem...), trabalhos - escolares ou não - que vivem do corta/cola não reflectido e muito menos compreendido, exames produzidos a la cábula (que depois dão profissionais encartados), orais para safar (algumas quisá feitas ao Domingo...), construções que cairão ao primeiro abanão ou enxurrada, dinheiro dos outros (ou de nós todos, no caso do Estado) perdido por incúria, a lista é interminável.

    E há também o saber de computador, o programa milagroso comprado lá fora que dá sempre um resultado, incompreendido e tantas vezes errado - não por culpa do programa mas de quem o opera sem compreender - lá diz o ditado: garbage in, garbage out.

    E mais fácil ainda é enganar o público... e olhem ali, lá vai o campeão que chegou primeiro ao resultado, produz que nem um leão, é o maior. Pena é estar errado, mas ganhou!

    Ganhou ao que resolveu estudar mais e ter a certeza do resultado. De segundos lugares não reza a história nem o dinheiro do projecto, que o cliente não pode parar nem gastar muito dinheiro. E a chatos que só vêm com complicações de quem se deu ao trabalho duro de aprender e que não deixam as coisas avançar a direito para os amanhãs que cantam ainda menos.

    SNG

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  12. José Batista da Ascenção27 de agosto de 2010 às 19:33

    Sim, sim, caríssimo Doutor João de Castro Nunes, penso que é em traves afeiçoadas de conhecimento que podemos assentar firmemente o chão das nossas competências. Caso contrário é às cegas que vamos dando voltas ao sol. E, nesse caso, se acertamos, é por acaso, por sorte. Mas, como alguém disse, a sorte só favorece os espíritos bem preparados. E preparar bem os espíritos dos nossos jovens é o que precisamos fazer. Seguramente, eles ficariam mais apetrechados para carpinteirar a vida habilmente. Como o Senhor faz com as palavras e ideias que tão harmoniosamente dispõe em versos.

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  13. Lapidar, Caro JCN:

    "Será que se pode fazer sem se conhecer?..."

    Acrescento apenas dois aspectos:

    1º Quem acredita que as competências se adquirem numa escola, está enganado. As competências adquirem-se depois de se ter bebido MUITO da fonte do conhecimento nas escolas e em seguida aplicar esse mesmo conhecimento de forma repetida e em problemas diferenciados. Isto só se consegue depois de muitos anos de trabalho árduo no mundo do trabalho e apenas no mundo do trabalho. Seria óptimo, fantástico e extraordinário conseguir isto numa escola, mas tal está muito próximo da impossibilidade técnica, por falta de recursos económicos (especialmente), técnicos (em enorme medida) e humanos (de forma clara). Portanto, este assunto é uma utopia. O pior é que ainda há quem acredite que as utopias são alcançáveis e tem o poder para mandar executar essas mesmas utopias e experimentar as mesmas nos filhos dos outros...

    2º Ao obrigarem as escolas a satisfazer as utopias e os caprichos de uns quantos, fizeram com que as mesmas andem esgotadas a tentar alcançar o inalcançável e sem energias para se dedicarem ao seu core business: a transmissão do conhecimento e da cultura duramente conquistados pelas gerações anteriores.

    Precisamos, urgentemente, de voltar ao básico.

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  14. Uma coisa é fazer bem,
    outra coisa é fazer mal:
    fazer mal não falta quem,
    eis a questão principal!

    JCN

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  15. «Um médico pode ter sido um aluno brilhante no decurso da sua formação mas chegará o tempo em que, primeiro acompanhado e depois sozinho, terá que saber ouvir as queixas de um doente, identificar os sintomas, fazer um diagnóstico e estabelecer uma terapêutica.»

    Totalmente de acordo.

    Há um ditado alemão que traduzido à letra diz: «O diabo está nos detalhes».

    Anónimo das 09:48 e das 11:29

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  16. Ir mais além do normal,
    daquilo que se conhece,
    só quando se é genial
    o fenómeno acontece.

    JCN

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  17. O GÉNIO

    Tudo o génio supera: sem barreiras
    ele se afirma inquestionavelmente.
    tanto na pátria como além fronteiras,
    pelo talento que lhe inunda a mente!

    Assim Verróquio, face a Leonardo,
    os seus pincéi pousou desiludido
    e, a fazer fé nas impressões que guardo,
    deixou Van Dick a Rubens confundido.

    Onde aprendeu Camões?... Sabe-se lá!
    O certo é que ninguém se abalançou
    às altas cumeadas que alcançou.

    Mistério dos mistérios que só Deus,
    como disse o Poeta, entenderá
    para pasmo de crentes e ateus!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  18. Sobre o homo sapiens e o homo faber

    Ai que prazer
    Não cumprir um dever,
    Ter um livro para ler
    E não o fazer!
    Ler é maçada,
    Estudar é nada.
    O sol doira
    Sem literatura.
    O rio corre, bem ou mal,
    Sem edição original.
    E a brisa, essa,
    De tão naturalmente matinal,
    Como tem tempo não tem pressa...

    Livros são papéis pintados com tinta.
    Estudar é uma coisa em que está indistinta
    A distinção entre nada e coisa nenhuma.

    Quanto é melhor, quanto há bruma,
    Esperar por D. Sebastião,
    Quer venha ou não!

    Grande é a poesia, a bondade e as danças...
    Mas o melhor do mundo são as crianças,
    Flores, música, o luar, e o sol, que peca
    Só quando, em vez de criar, seca.

    O mais que isto
    É Jesus Cristo,
    Que não sabia nada de finanças
    Nem consta que tivesse biblioteca...

    Fernando Pessoa

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  19. Caro Dr. João Boaventura: onde situa o "homo chapiens"?... JCN

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  20. Sem destinatário:

    CHÁ DE TÍLIA

    Que sabes tu, Pessoa, de crianças,
    tu que jamais o foste certamente
    e nunca esteve em tuas esperanças
    com elas partilhar a tua mente?!

    Nunca embalaste um berço, nunca deste
    a criança nenhuma o biberon,
    nunca a mudar as fraldas aprendeste
    nem do seu choro aguentaste o som!

    Não fales, pois, sem ter experiência
    daquilo que não sabes nem conheces,
    porquanto nenhum crédito mereces!

    Fala da tua insípida existência
    quase sem pátria, quase sem família,
    e para insónias.. toma chá de tília!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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