domingo, 9 de novembro de 2008

Quem pode, foge

Recebi, na minha caixa de correio, um artigo de Manuel António Pina, publicado recentemente no Jornal de Notícias. Tomo o liberdade de aqui o reproduzir, pois sobre o assunto eu não escreveria mais nem melhor.

Bem sei que já conhecemos a realidade que nele se retrata, mas é preciso que se fale nela, que se fale bastante nela, que se fale, sobretudo, nos enormes prejuízos que, por certo, acarreta para os alunos, que são aqueles que, como sociedade, deveríamos ter a preocupação de proteger, ensinando-os em condições adequadas (isto para não falar nos prejuízos para a própria sociedade).

Não parecem restar dúvidas de que nas presentes condições criadas pela tutela, mesmo aqueles que assumem estoicamente a sua profissão, têm as maiores dificuldades em a exercer.

As razões são várias, como Manuel António Pina refere, começam os professores por não ter tempo para preparar o ensino nem para ensinar, encontram-se sob supeita contante, não compreendem qual é, ao certo, a função da escola, nem o seu papel na mesma...

Algumas razões são antigas, reconheço, mas há algo que me parece novo: é a sua concertação e agudização. Como se alguém tivesse a intenção deliberada de desacreditar uma profissão por inteiro.

"Quem pode, foge. Muitos sujeitam-se a perder 40% do vencimento. Fogem para a liberdade. Deixam para trás a loucura e o inferno em que se transformaram as escolas. Em algumas escolas, os conselhos executivos ficaram reduzidos a uma pessoa. Há escolas em que se reformaram antecipadamente o PCE e o vice-presidente. Outras em que já não há docentes para leccionar nos CEFs.
Nos grupos de recrutamento de Educação Tecnológica, a debandada tem sido geral, havendo já enormes dificuldades em conseguir substitutos nas cíclicas. O mesmo acontece com o grupo de recrutamento de Contabilidade e Economia. Há centenas de professores de Contabilidade e de Economia que optaram por reformas antecipadas, com penalizações de 40% porque preferem ir trabalhar como profissionais liberais ou em empresas de consultadoria.
Só não sai quem não pode. Ou porque não consegue suportar os cortes no vencimento ou porque não tem a idade mínima exigida. Conheço pessoalmente dois professores do ensino secundário, com doutoramento, que optaram pela reforma antecipada com penalizações de 30% e 35%. Um deles, com 53 anos de idade e 33 anos de serviço, no 10.º escalão, saiu com uma reforma de 1500 euros. O outro, com 58 anos de idade e 35 anos de serviço saiu com 1900 euros.
E por que razão saíram? Não aguentam mais a humilhação de serem avaliados por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Não aguentam a quantidade de papelada, reuniões e burocracia. Não conseguem dispor de tempo para ensinar. Fogem porque não aceitam o novo paradigma de escola e professor e não aceitam ser prestadores de cuidados sociais e funcionários administrativos.
Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável 'pastiche' de Woody Allen 'Para acabar de vez com o ensino', a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano. Os professores falam de 'desmotivação', de 'frustração', de 'saturação', de 'desconsideração cada vez maior relativamente à profissão', de 'se sentirem a mais' em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender.
Algo, convenhamos, um pouco diferente da 'escola de sucesso', do 'passa agora de ano e paga depois', dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?'

7 comentários:

  1. É óbvio que ninguém suporta ser avaliado por colegas mais novos e com menos habilitações académicas. Para além das dúvidas que se podem pôr acerca da isenção do avaliador, que é, ou pode ser, um concorrente directo, a subjectividade de todo este processo é inaceitável.

    O que não deixa de ser surpreendente, quando no ensino existe uma forma de avaliar os professores com objectividade, concretamente, os resultados dos alunos, obtidos em provas concebidas e avaliadas por terceiros.

    De um modo geral, os processos de avaliação são considerados, por alguns, como uma ferramenta indispensável, sobretudo em instituições e empresas com alguns milhares de pessoas.

    Obviamente, o interesse é apenas dos gestores, uma vez que os processos são sempre controlados por quem gere, o que permite promover ou afastar determinadas pessoas e, principalmente, limitar o volume da massa salarial.

    Nas empresas pseudo privatizadas, aquelas em que o Estado vendeu uma parte, mas continua a ter uma participação determinante, nas quais se encontra normalmente um grande número de trabalhadores, a avaliação está implementada há já alguns anos. É o caso, por exemplo, da EDP, da REN e outras.

    Mas não se notam grandes perturbações. Por dois motivos. Por um lado, nessas empresas os trabalhadores ganham relativamente bem. Muito mais do que os professores. Por outro lado, as pessoas sabem que a avaliação tem a intenção de sustentar e formalizar decisões previamente tomadas, que são normalmente conhecidas e esperadas por todos.

    Porque essas empresas estão há muito dominadas pelo Partido Socialista, que nelas soube implementar uma teia tão eficaz que não há mudança partidária no Governo que lhes cause grande perturbação. Nessas empresas, os avaliadores não são os pares. São os elementos da hierarquia directa, os colegas que passaram à frente dos outros. Colegas que demonstrarem possuir um QI mais elevado.

    Parece mais correcto do que no caso dos professores, certo? Pois parece, mas o significado de QI não é o que estão a pensar, mas sim “Quem Indica”. E quem indica são os elementos da estrutura socialista da empresa. O país está nas mãos desta cambada. É urgente uma desinfecção.

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  2. Quem pode foge...mas os mais novos não podem ou não querem fugir...não hão-de calar as nossas vozes de protesto. Alguém porá cobro a esta situação fantástica pelo absurdo...a UNIÃO FAZ A FORÇA e ao contrário do aquela sra. diz..., não são os sindicatos nem os Partidos da oposição que nos manipulam...somos seres pensantes e com vontade própria...e haja esperança na desifestação nas próximas eleições....mas até lá não vamos vergar...e o sr. "Engº" Sócrates tem de recuar no seu autismo.

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  3. "Algumas razões são antigas, reconheço, mas há algo que me parece novo: é a sua concertação a agudização. Como se alguém tivesse a intenção deliberada de desacreditar uma profissão por inteiro."

    E não haverá desde algum tempo para cá a intenção deliberada de desacreditar não só os professores como a escola pública?
    A melhor maneira de privatizar a escola pública é descredibilza-la ao maximo, oferecendo alternativa sustentada pelo estado através de cheques educação para as escolas privadas que vão começar a florescer como cogumelos assim que a escola pública for destruda, então a segunda fase é cortar os ditos cheques de educação, ou por que o estado não poderá sustentar a despesa ou simplesmente porque não quer e depois o que acontece?

    Bem vindos ao admirável mundo novo, a neo liberalização ou lá o que queram chamar a isso, faz tudo parte de um plano mais vasto para uma regressão democrática no país, socrates é apenas um dos muitos salazarinhos que por ai andam, a diferença é que ele chegou a PM e os outros não.
    quem pode fugir foge, quem não pode tá lixado, é assim a vida.

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  4. adorei o seu blog!

    se tiver paciência passe no meu

    http://fogodeletras.blogspot.com/

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  5. (...) Quem a viu, ontem, nas televisões [à ministra da Educação] , a chispar ódio, a vomitar ressentimento e a destilar rancor por todos os poros, percebeu sem dificuldade que há nela algo de salazarento, como que um cheiro a bafio antidemocrático que nos faz recuar várias décadas, até ao tempo da outra senhora, em que prevalecia a ditadura do «quero, posso e mando». (...)

    Extracto da crónica «Bafio antidemocrático», de Alfredo Barroso, publicada ontem no seu blogue [aqui]

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  6. É preciso compreender a história da Ministra que viveu em regime de internato, de clausura.

    Não sei se se deu bem ou mal.
    Se se deu bem, pensa que todos os alunos vão sentir-se bem se passarem a regime de internato.

    Se se deu mal, aplica o mesmo regime, para os alunos ficarem a saber os trabalhos por que ela passou.

    Há explicações para tudo

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  7. É preciso compreender a história da Ministra que viveu em regime de internato, de clausura.

    Não sei se se deu bem ou mal.
    Se se deu bem, pensa que todos os alunos vão sentir-se bem se passarem a regime de internato.

    Se se deu mal, aplica o mesmo regime, para os alunos ficarem a saber os trabalhos por que ela passou.

    Há explicações para tudo.

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