sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O MONSTRO DA 5 DE OUTUBRO


Minha crónica no "Público" de hoje:

A palavra “monstro” para designar o Ministério da Educação é muito anterior ao mandato dos actuais ocupantes da Avenida 5 de Outubro. Numa entrevista ao “Expresso” o Eng.º Belmiro de Azevedo usou-a há anos sem papas na língua: “O Ministério da Educação sempre foi um monstro dentro de outro monstro que é a administração pública. Esse Ministério é o maior empregador nacional e deve possuir o maior teor de burocratas no sistema. Continua a gerir numa lógica de continuidade aquilo que existe, em vez de gerir numa lógica de base zero, por reformular o sistema por completo. Não têm existido verdadeiras reformas educativas.” Inquirido sobre a solução, respondeu: “Devia haver uma reforma que abrisse e descentralizasse o sistema de ensino. O Ministério devia ser um regulador, validador de currículos, da qualidade do exame e deixar o sistema funcionar, descentralizado.”

Mas o problema é que pouco mudou nos últimos tempos: o monstro continua monstruoso, com DREs, despachos, circulares, grelhas, etc. A pseudo-avaliação burocrática de professores que ele pretende impor a todo o país provém de uma velha e enorme máquina, que já devia ter sido esboroada. Parafraseando Kafka, burocrata é alguém “que escreve um documento de dez mil palavras e lhe chama sumário”. E os “sumários” não cessam de jorrar...

Os professores, que, na sua esmagadora maioria, marcharam em protesto em dois fins de semana sucessivos (num com e no outro sem sindicatos) pelas ruas de Lisboa, vieram dizer uma coisa muito simples: querem ensinar sem o monstruoso sufoco de que são vítimas. De facto, ensinar é o que sabem e gostam de fazer e é, aliás, o que é preciso que eles façam. O Ministério devia querer isso deles, mas a palavra parece banida do seu vocabulário. Se ele quisesse ensino, então precisaria mesmo deles, pois não há, obviamente, ensino sem professores.

Entre os professores, os melhores são os mais precisos. Para o seu apuramento é mister um processo de destrinça e de recompensa. Quero crer que a maioria dos docentes aceita um método de avaliação sério e competente, mas esse método terá pouco a ver com o caos que, burocraticamente, o monstro está a instalar nas escolas. Por outro lado, parece-me claro que os sindicatos não querem avaliação nenhuma, quanto mais não seja porque muitos dos seus dirigentes já não ensinam há muito tempo, e ficariam decerto chumbados se a qualidade do ensino fosse o factor decisivo na avaliação. O governo tem todo o direito de combater os sindicatos, cujos desígnios políticos estão bem à vista. Mas já não tem o direito de confundir reiteradamente os sindicatos com os professores e de agredir indiscriminadamente os segundos descarregando a sua raiva aos primeiros. Governo e sindicatos são dois monstros em luta pelo poder e nem professores nem alunos deviam ser vítimas dessa luta.

Certo é que muitos dos nossos melhores professores, para preservar a sua saúde mental, estão a abandonar a profissão, com manifesto prejuízo da qualidade do ensino público. O Ministério, ao deixar que os melhores mestres se afastem, comete um erro que irá custar caro ao nosso ensino, que irá custar caro a todos nós. Permite que o privado se distancie mais do público. Que os alunos mais desfavorecidos fiquem ainda mais desfavorecidos.

A Escola Infanta D. Maria, em Coimbra, que é a melhor escola pública de acordo com os "rankings" dos exames do 12.º ano, já decidiu suspender o processo de avaliação para não se degradar. Se todas as escolas seguissem esse exemplo, o actual impasse poderia cessar com a vitória das escolas e do ensino, e não dos sindicatos. O monstro da 5 de Outubro, por muitos tentáculos que estendesse, não conseguiria chegar a todo o lado e punir a esmo. De realçar que, ao arrepio de falsas divisões que foram cultivadas, os pais confiam nos professores e estão com eles. A Associação de Pais do D. Maria foi bastante clara: “Não queremos que esta escola perca a qualidade que tem”. Seria trágico se um processo que pretende assegurar a qualidade acabasse afinal com ela.

9 comentários:

  1. Ferreira-Pinto (Quintino),

    Recomendaram-me a leitura deste artigo.
    Devo dizer que gostei do que li, embora pudesse pontualmente aduzir um ou outro argumento a favor ou contra alguns aspectos focados.
    MAs, na sua essência, é digno de ser lido.

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  2. Seria bom para variar. Já não consigo ver os debates televisivos. Alguém viu ontem o "corredor do poder"? Aquele imbecil a falar nos "detalhes que geram entropias"? Já não bastava usarem "mais-valia" em lugar de "vantagem", agora a ministra também adaptou o "valor acrescentado". Parece um idioma autista. Eu sinceramente não retiro pívia do que aquela gente diz da boca para fora.

    Era bom, para variar que alguém usasse argumentos.

    Repare-se na bestialidade: ouvia eu ontem que o ME "avançou" ao fazer as tais "correcções" e que agora era a vez dos sindicatos "avançarem", etc.

    Mas a questão é muito mais simples: o modelo é mau? Por que razão? Que argumentos tem a seu favor e que argumentos tem contra. No final do saldo, independentemente de quem defende o quê, se o modelo não tem sustentação racional, abandona-se e acabou a conversa. Quando percebemos que não há justificação para algo que estamos a fazer ou que esse algo é imoral ou prejudicial, não há conversa sobre "avanços" ou "compromissos", pára de se fazer isso e ponto final. Faz-se outra coisa.

    Mas as pessoas ainda vão ter de evoluir muito até chegar aqui. Os governos então...

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  3. Sem dúvida um texto digno de ser lido. Mas pelas incongruências que revela.

    Afirma CF:

    “Os professores, que, na sua esmagadora maioria, marcharam em protesto… pelas ruas de Lisboa…”
    “A maioria dos docentes aceita um método de avaliação sério e competente…”
    “Certo é que muitos dos nossos melhores professores… estão a abandonar a profissão…”
    “ Os pais confiam nos professores e estão com eles…”

    Assinadas por qualquer outra pessoa estas frases assim debitadas seriam assumidas por retórica normal. Mas assinadas por um cientista credenciado, parece legitimo solicitar que lhes sejam associados os estudos que fundamenam as conclusões que retira. A menos, claro, que o “olhómetro” tenha sido promovido a ferramenta cientifica e eu não tenha dado por nada.

    Afirma ainda CF:

    ( Os professores )“ vieram dizer uma coisa muito simples: querem ensinar sem o monstruoso sufoco de que são vítimas. De facto, ensinar é o que sabem e gostam de fazer …”

    O depoimento é particularmente curioso porque surge na sequência de outros em que o seu autor protesta fragorosamente contra a má preparação da mole humana que desagua na sua Universidade !!!

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  4. O que acontece é que a Fenprof é um sindicato que trabalha como se os professores configurassem os proletários do séc. XXI, apesar da figura do proletário ter morrido no séc passado.

    Posto isto, assistimos à proletarização dos professores, e, por extensão e contágio, também à proletarização dos alunos. É nesse âmbito e nessas águas que a Fenprof se movimenta. Vislumbra a escola como uma fábrica onde os proletários-professores seriam panopticamente classificados, com um instrumento que parece pesado e impraticável, mas ao qual deu o seu aval.

    Por isso assistimos a um jogo de actores desencontrados. Quando a Fenprof manifesta que o modelo classificativo deve ser abandonado põe-se no papel do actor que não participou na sua elaboração, depois de o ter assinado, acordado e ratificado.

    Neste quadro, faltava à Fenprof a moral para criar uma manifestação contra o Ministério, porque manifestamente seria também contra a própria Fenprof.
    Que fazer? Esperar pelas reacções dos professores, ou espreitar por um evento que lhes permita salvar a face.

    Perante uma Fenprof que apresentava duas faces como Janus, a Ministra sentir-se-ia incómoda e desconfortável para dialogar com pessoas que fazem o mal e a caramunha, e que olham para o lado como uma carta fora do baralho viciado.

    No meio destes dois jogadores - Ministério e Fenprof - que jogavam sozinhos o jogo do diálogo-monólogo concordante,os professores, despidos da roupa de proletário, examinaram o modelo classificativo, e perante o consumismo de tempo exigido, verificaram que afinal tinham três antagonistas: Ministra, Fenprof e Modelo. Tinham estado fora do jogo porque não tinham sido convidados a participar. Eram peças fora do tabuleiro.

    Indefesos, os professores não proletários, sem representatividade credível e fiável, encontraram uma forma de demonstrar, aos dois jogadores solitários - Ministra e Fenprof - a impraticabilidade do modelo que lhes consumiam o tempo e a paciência, indubitavelmente mais necessários e úteis na relação com os alunos; e essa forma foi uma manifestação no dia 15 de Novembro.

    A Fenprof, num golpe de asa, aproveitou o momento esperado para salvar a face, a coberto dessa manifestação. Isto para dar a entender à Ministra que continuava fiel ao modelo subscrito, mas a manifestação, marcada para 15, como podia verificar, nem tinha sido convocada pela Fenprof.

    Simplesmente, a Fenprof teve a agudeza de discernir que esta manifestação era contra a própria Fenfrof, além de contra a Ministra, e contra o modelo.

    Ora isto era uma afronta à Fenprof, e, ser desautorizada pelos professores não proletários, era uma iniquidade pantanosa. Como ultrapassar esta afronta? Muito simplesmente aproveitar esta onda convocatória dos professores não proletários, cumulativamente com o burburinho que ela provocou, e, a coberto dessa diversão, antecipar uma manifestação para o dia 8, para recuperar os professores-proletários, não fossem eles partilhar com os professores não proletários a manifestação do dia 15, o que seria um desastre e total descredibilização para a Fenprof.

    Perante este quadro a Ministra foi posta a jogar o jogo sozinha, porque a Fenprof está atada, mais do que à sua incapacidade de dialogar, à incapacidade de apresentar modelos alternativos. E a única forma de esconder essa incapacidade assenta na única formulação em que faz o seu caminho de sobrevivência, e para a qual está vocacionada: acabar com todo e qualquer modelo de avaliação.

    Fazer trabalho de casa é muito difícil. A Ministra que o faça porque isso não é a vocação da Fenfrof.
    É mais fácil discursar, dar entrevistas, e alugar transportes para os professores-proletários fazerem manifestações, fornecer bandeiras, panfletos, frases sonantes, de preferência rimadas e ritmadas.

    Assim também sou capaz de criar uma Fenprof. Faço barulho, barafusto, reclamo, mas... apresentar modelos alternativos... os professores e a Ministra que os realizam

    A Ministra, ao apresentar alterações, independentemente da sua suficiência, aparece agora como mais flexível e dialogante, e a Fenprof, inflexível, porque incapaz.

    O ente capaz e com capacidade para dialogar com a Ministra, tem de estar ao nível da craveira da Ministra. E a Fenprof não o tem, porque, o que o berço deu, a tumba o leva.

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  5. Não se pense que o problema se resume à questão da avaliação. É muito mais que isso. Olhar para a cárie sem querer saber do abcesso que está formado, é um erro.

    Este abcesso tem muitas ramificações, cada uma delas associada a uma diferente causa. A que mais está em cima da mesa de discussão é o Estatuto da Carreira Docente. Mas, por favor, não se deixem iludir: as razões são várias e de diferentes naturezas.

    Luís Ferreira

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  6. De todas as incongruências deste modelo de avaliação, faço as seuintes questõies, que me parecem pertinentes:

    Como posso ser avaliado por um Professor Titular, distinguido como tal pelo seu tempo de serviço e não pelo seu mérito? (Quem está na escola percebe bem esta situação)

    Como podem o Avaliador e o Avaliado concorrer para uma mesma classificação?

    É IMPOSSÍVEL existir uma avaliação nestes moldes!

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  7. Os professores deveriam ser avaliados pelas notas dos alunos em exames nacionais. Poder-se-ia passar um tempo interessante a tentar arranjar um modelo estatístico que ajustasse as realidades diferentes.
    Fora disto não faz sentido. Ainda não tive tempo de ver a grelha de avaliação que foi proposta, mas estou curioso, o que distinguirá um bom professor ? assiduidade ? trabalhos ? as opiniões dos colegas ?.

    O papel de um professor é ensinar, é pago com dinheiros públicos para isso e deve cumprir esse objectivo.

    No sector privado há muito que existe avaliação, mais cedo ou mais tarde a nossa função pública tinha de entrar nos desafios do novo século.

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  8. Acho que Nuvens de fumo aponta na direcção certa, uma avaliação relacionada com o fim último do professor, ensinar. Só peca, acho, porque vai usar uma medida absoluta final, o exame nacional. Penso preferível pensar num diferencial, um exame no principio do ano para ver onde os alunos estão e um exame no final, para ver onde chegaram. No entanto, observe-se, que esta ideia é "facilmente" descarrilada por professores que treinem os seus alunos, quais macaquinhos, para se "safarem" em exercícios tipo ao invés de criarem gentes com espírito critico. Não há belas sem senão...

    O outro comentário que faço, sem ser professor é certo, é que o sistema de avaliação devia ser não intrusivo (ao contrário dos correntes que existem na função pública) e neutro, realmente orientado ao mérito e ser dificil de manipular por favoritismos e pressões sociais...

    e, como os américas dizem, são os meus 5 cêntimos (de dólar)

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  9. Excelente texto o Blog Em Defesa da Escola Pública republicou-o...

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