quarta-feira, 25 de abril de 2012

Se toda a gente vai à escola, se toda a gente sabe ler...


Na sequência do texto de João Boavida, mas questionando a dificuldade de, na Europa deste início de século, se operacionalizarem os desígnios da educação aí discutidos, deixo um apontamento inquietante dum filósofo - Rob Riemen - que, reconhecendo não ser pedagogo, assim se refere à educação que, como europeus temos e/ou proporcionamos:
“A actual classe dominante nunca será capaz de resolver a crise, porque ela é a crise! E não falo apenas da classe política, mas da educacional, da que controla os media, da financeira, etc. Não vão resolver a crise porque a sua mentalidade é extremamente limitada e controlada por uma única coisa: os seus interesses. Os políticos existem para servir os seus interesses, não o país. Na educação, a mesma coisa: quem controla as universidades está ali para favorecer empresas e o Estado. Se algo não é bom para a economia, porquê investir dinheiro? (…)
Relembremos uma grande verdade do poeta Octávio Paz: «Uma crise política é sempre uma crise moral». Quando reconhecemos a verdade nisto, percebemos que a crise financeira é também ela uma crise moral. E aí devemos questionar de que tipo de valores universais estamos a precisar e o que é que devemos ter na sociedade para confrontar isto. Aí percebemos que há coisas erradas no sistema de educação. (…) 
[Quem o controla] não está interessado na pessoa que tu és, mas no tipo de profissões de que a economia precisa. Se o preço é falta de qualidade, se o preço é falta de dignidade humana, é haver tanta gente jovem sem instrumentos para lidar com a vida e para descobrir por si própria o sentido da vida ou que significado pode dar à sua vida, então criamos o «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley. Aqui surge a sociedade kitsch. E a dada altura já é segunda-feira, a festa acabou, chegou a crise financeira e as pessoas já não conseguem pagar esta sociedade e surgem políticas de ressentimento, que é o que fazem os fascistas (…) 
O que temos de enfrentar é: se toda a gente vai à escola, se toda a gente sabe ler, se tanta gente tem educação superior, como é que continuam a acreditar nestas porcarias sem as questionar? E porque é que tanta gente continua a achar que quando X ou Y está na televisão é importante, ou quando X ou Y é uma estrela de cinema é importante, ou quando X ou Y é banqueiro e tem dinheiro é importante? A insanidade disto... Se tirarmos as posições e o dinheiro a estas pessoas, o que resta? Pessoas tacanhas e mesquinhas, totalmente desinteressantes. Mas mesmo assim vivemos encantados com a ideia de que X ou Y é importante porque tem poder. É a mesma lengalenga de sempre: é pelo que têm e não pelo que são, porque eles são nada. E a educação também é sobre o que podes vir a ter e não sobre quem podes vir a ser. (…) 
Eu não sou pedagogo e quero mesmo acreditar que existe uma variedade de formas de chegar ao que penso que é essencial: que as pessoas possam viver com dignidade, que aceitem responsabilidade pelas suas vidas e que reconheçam que o que têm em comum – quer sejam da China, Índia, África ou esquimós – é que somos todos seres humanos. Sim, há homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, pessoas de várias cores, mas somos todos seres humanos. Não podemos aceitar fundamentalismos e ideologias e sistemas económicos como o capitalismo, mais interessados em dividir as pessoas do que em uni-las. (…) 
[A união] só pode ser baseada na aceitação de que existem valores universais. A Europa é um exemplo maravilhoso disso: há esta enorme riqueza de tradições e línguas e histórias, mas continuamos a conseguir estar abertos a novas culturas e é onde pessoas vindas de qualquer parte podem tornar-se europeias. Mas isto só acontece se valorizarmos e protegermos o espírito democrático. A democracia é o único modelo aberto e o seu espírito exige que percebamos que Espinoza estava certo, que o difícil é mais interessante que o fácil, que não devemos temer coisas difíceis porque só podemos evoluir se estivermos abertos ao difícil, porque a vida é difícil. Que para lá das habilidades de que precisamos para a profissão em que somos bons, todos precisamos de filosofia, todos precisamos da arte e da literatura para nos tornarmos seres humanos maduros, para perceber o que as nossas experiências internas encerram. É para isto que existem as artes, é por isso que vais ver um bom filme e ouves boa música e lês um poema. 
(…) Temos de investir no futuro. Como? Investindo numa educação como deve ser, que garanta seres humanos bem pensantes e não apenas os interesses da economia (...). 
O dinheiro que demos aos bancos é milhões de vezes superior ao que é preciso para as artes, a cultura, a educação...

3 comentários:

  1. Admirável texto! Subscrevo. E isto só (?) acontece porque se desvalorizaram as Humanidades. Agora o que interessa é ter cursos de Economia, de Gestão e de Informática que são os que "dão". Mas a Filosofia, a Literatura e as Artes são para os "indigentes" que não têm jeito para Matemática e que não têm média para entrarem em...

    Execrável Mundo Novo!

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  2. Infelizmente, as ideias fascistas do autor implicam a imposição aos outros do que ele prefere. Implica impor aos outros a apreciação das artes e da filosofia, da ciência e da história, porque ele pensa que o que ele pensa é o que toda a gente deve pensar, porque ele pensa que o que ele prefere é o que toda a gente deve preferir. Com pensadores deste calibre não vamos longe. Estes pensadores são o problema, e não a solução.

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  3. "Infelizmente (...) implica impor aos outros a apreciação das artes e da filosofia, da ciência e da história"

    Bem, após tanta exclusão, fica alguma sugestão do que "impôr" ou sugerir aos outros?

    Talvez alguns dos "valores" que nos conduziram até aqui, o fanatismo, a intolerância, a ignorância, a ganância...talvez um certo modelo anarquista que recuse qualquer identidade cultural e nos faça regressar aos tempos das cavernas, em que a força era a lei (no fundo já não estamos muito longe disso)...

    Dervich

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