quinta-feira, 14 de junho de 2007

VALE A PENA LER

- Elysio de Moura, “Anorexia Mental (1947). Edição fac-similada”, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2005.

Em 1947, ano do Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia de Egas Moniz, publicou a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, na sua prestigiada colecção “Acta Universitatis Conimbrigensis”, uma pequena monografia de um dos médicos mais notáveis do século XX português, o Doutor Elysio de Moura. O título era “Anorexia Mental” e, logo a abrir, uma “advertência” informava que “este trabalho não foi escrito para ser publicado, mas sim apresssadamente escrito para (...) um dos Cursos de Férias anualmente organizados pela Faculdade de Medicina de Coimbra”. O que é certo é que o trabalho, anunciado assim de forma tão despretensiosa, sobreviveu à erosão do tempo e foi republicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra (que em 1947 estava extinta) em colaboração com a Sociedade Portuguesa para o “Estudo da Doença Mental”.

Não sou, evidentemente, especialista no assunto mas diz quem sabe que o livro se mantém em larga medida actual. Não podendo apreciar o conteúdo posso, pelo menos, apreciar o estilo. A linguagem com que está escrito é belíssima, sendo por isso perene. Atente-se no seguinte exemplo:

(...)o anoréxico mental – esqueleticamente descarnado – mas de espírito tranquilo, faz lembrar o crente de alma cândida e heroica humildade franciscana, que, de costas voltadas para todos os prazeres mundanois, contempola, dia a dia, com místico deleite, o corpo devastado de penitências e acaba, em êxtase beatífico, a vida terrena, como antegozando a bemaventurança celestial”.

Ou nestoutro:

Nada pode proporcionar ao médico um êxito tão revigorante e consolador como a cura de uma anoréxica mental: rapidamente, sem a administração de medicamento algum, sem nenhuma prescrição dietética, sem a aplicação de qualquer agente físico, sem a mais insignificante intervenção sangrenta, sem sequer roçarmos, ao de leve, com a popa de um dedo mindinho no corpo da doente, podemos salvar-lhe a vida”.

Elysio de Moura ganhou fama em curar dessa maneira... Falava de milagre quem não sabia a ciência que estava por detrás. Foi essa fama, muito bem lembrada pelo médico psiquiatra Adriano Vaz Serra na sessão de apresentação do livro, que tornou Elysio de Moura uma lenda da medicina e que torna este livro um clássico da psiquiatria.

3 comentários:

  1. Elysio de Moura é daqueles exemplos de pessoa que muito lastimo não ter conhecido. Conheci, felizmente, muitas pessoas que o conheceram e a minha admiração pela Pessoa Humana que ele foi, não pára de crescer.

    Uma das histórias que recordo ouvir contar com mais piada referia-se a uma doente do norte, que estava paralisada numa cama há muitos anos. A família, depois de ter médicos a descartas todas as possíveis causas da paralisia, considerou a hipótese psiquiátrica e chamou o Professor Elysio de Moura.

    O insigne professor apanha um comboio, pede para o irem buscar à estação e, no caminho para casa da paciente, só referia ao seu familiar que tinham de se despachar, pois tinha de apanhar o comboio de volta daí a poucas horas.

    Isso deixou muito sobressaltada a família, pois não esperavam que se resolvesse em poucas horas aquele problema que se arrastava há anos.

    Chegado ao quarto da doente, Elysio de Moura ter-lhe-á simplesmente ordenado que se levantasse e saísse da cama. A doente terá começado a explicar que não o podia fazer por ser paralítica.

    Sem pestanejar, Elysio de Moura terá dito: "Está bem. Se a Senhora não sai da cama, entro para lá eu." Gesto imediato começa lentamente a despir-se à frente da doente e da estupefacta família. Reza a história que não terá tido de passar muito além do casaco pois já a paciente "paralítica" estava a fugir a correr pelo outro lado da cama...

    Outros tempos, de pudor social. Será que a mesma terapêutica ainda funcionaria hoje em dia?

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  2. De facto, a psiquiatria, como outras ciências humanas modernas, tem de "lidar" com fenomenologias para as quais o denominado "conhecimento científico" tem óbvias indeterminações e incógnitas. E é por isso que, tanto ontem como hoje, são indiscutivelmente utilizáveis pelos cientistas mais insignes abordagens e "manipulações" que, se explicadas à luz dos métodos estritos e usuais de fazer ciência, antefiguram algo que "não é ciência" ou está para além dela. No mínimo tal "status quo" coloca sempre a interrogação sobre o absolutismo científico no tratamento das envolvências da "natureza e da condição humana". Portanto, há que manter abertos os espaços dialógicos entre os "mundos"...!

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  3. dalia da conceição loureiro de azevedo3 de agosto de 2011 às 20:04

    Tive a honra de conhecer o Dr. Elysio de Moura,pois fui uma das crianças que viveu na Casa da Infancia com o seu nome.Lembro-me da sua barba branca,do seu cabelo desalinhado e a samarra cinzenta.Quando estavamos no recreio ele aparecia quase sempre para nos mimar com frutos secos (figos amendoas etc.)e beijar as nossas faces com o carinho e amor que dele transbordavam.Hoje especialmente lembrei-me dele e vim aqui pesquisar,fiquei contente por ver que ele é lembrado e reconhecido não só pela a sua vida académica e cientifica, mas tambem por essa obra que ele tamto amava. dalia azevedo

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