domingo, 10 de junho de 2007

Os Contos de Cantuária

Quando o chuvoso Abril cortou feliz
A secura de Março pela raiz,
E banhou cada veia no licor
Que tem o dom de produzir a flor;
Quando Zéfiro com o alento doce
Para as copas e os campos também trouxe
Tenros rebentos, e o sol de pouca idade
Do curso em Aries percorreu metade,
E a passarada faz o seu concerto,
E dorme a noite inteira de olho aberto
(Que a natureza acende o coração),
Então se vai em peregrinação,
E até nos mais inóspitos confins
Aos santuários chegam palmeirins;
Enquanto em Inglaterra toda gente
Visita Cantuária especialmente,
A fim de conhecer a sepultura
Do santo mártir que lhes trouxe cura.

Geoffrey Chaucer - Prólogo dos Contos da Cantuária, 1386.

Henrique II de Inglaterra foi conde de Anjou e de Poitiers, duque da Normandia e o primeiro rei da dinastia angevina, os Plantagenetas. O seu filho Ricardo I, mais conhecido como Coração de Leão, é uma figura celebrizada na literatura europeia desde 1377, data do poema épico «Piers Plowman», de William Langland que introduz a figura, muito provavelmente lendária, de Robin Hood.

Henrique Plantageneta está igualmente subjacente à obra mais conhecida do «pai» da língua inglesa, Geoffrey Chaucer, Canterbury Tales ou «Os Contos de Cantuária» (disponível para download através do Projecto Gutenberg). Até Chaucer, existiam três idiomas escritos e falados na Inglaterra: o franco-normando, usado pela aristocracia, o latim pelos eclesiásticos e, finalmente, o saxão, comum ao povo. Nos contos, Chaucer consolida o idioma que destronaria o francês, nomeadamente depois do Estatuto de Pleading, de 1362, a partir do qual o inglês passou a ser a língua «oficial» na Grã-Bretanha.

A forma original a que Chaucer recorreu para introduzir a «nova» língua escrita assenta na peregrinação ao túmulo de São Thomas Becket de representantes das várias classes sociais - baixa aristocracia (o Cavaleiro), do clero (entre outros, a Abadessa, o Monge, o Frade, a Freira e o Vendedor de Indulgências), da burguesia (o Mercador, o Médico, o Advogado, o Proprietário e a Fabricante de Tecidos, a impagável Mulher de Bath penta-viúva e peregrina experimentada, que fora três vezes a Jerusalém, rezara em Roma, Bolonha, Colónia e em Santiago de Compostela) e das classes inferiores (como o Moleiro, o Feitor, o Carpinteiro, o Tapeceiro, o Marinheiro, o Cozinheiro, o Camponês e vários outros).

O rei Plantageneta surge nesta história porque foi ele o «criador» do santo, que enquanto seu chanceler, não teve problemas em cobrar ao clero o tradicional imposto de protecção do reino contra invasores, mas se envolveu num conflito de poder com Henrique II depois de este o ter recompensado nomeando-o arcebispo de Cantuária em 1162. Henrique, que mandou coligir o primeiro livro de leis inglês e descentralizou a justiça - dotando os magistrados com poderes de agir em nome da coroa e implementando o julgamento por júri-, determinou igualmente em 1164 que os membros do clero que tivessem cometido crimes de direito comum fossem julgados por tribunais civis e não eclesiásticos.

Thomas Becket, recusou assinar as constituições de Clarendon, «Constitutions of Clarendon», que cerceavam claramente os privilégios e poder da Igreja e diminuiam a influência de Roma na política inglesa. A diatribe entre Becket e o rei, que o papa Alexandre II tentou diplomatica e infrutiferamente mediar, agravou-se em 1170 quando Henrique II resolveu coroar o seu filho homónimo numa cerimónia consagrada pelo arcebispo de York. Becket, que se encontrava fora do país, mal regressou a Inglaterra tratou de excomungar os bispos envolvidos na coroação. Os termos em que Henrique II manifestou a sua exprobração quando soube da nova foram interpretados literalmente por quatro dos seus nobres que em 29 de Dezembro de 1170, entraram na catedral e assassinaram Becket. O irascível clérigo foi canonizado três anos depois por Alexandre II e o seu túmulo tornou-se rapidamente um dos mais populares locais de peregrinação em Inglaterra.

Voltando à obra prima de Chaucer, os peregrinos nela retratados (trinta, incluindo Chaucer) reúnem-se por acaso na taberna do Tabardo (Tabard Inn), no sul de Londres, e resolvem cavalgar juntos. O taberneiro sugere que cada um conte duas histórias na ida e duas na volta, prometendo um opíparo jantar ao melhor narrador. Os contos que resultam são uma crítica muito apurada à sociedade da época que reflectem o equílibrio instável entre a velha ordem feudal, assente no poder inquestionado e inquestionável da Igreja, e uma nova ordem que começava a surgir das cinzas dos cerca de 25 milhões mortos na epidemia de peste negra, aproximadamente um terço da população europeia. Nova ordem que em breve culminaria na revolução cultural e social renascentista.

14 comentários:

  1. Já agora, talvez fosse interessante fazer notar que Henrique II foi casado com uma das mais notáveis mulheres que a Europa medieval conheceu, Leonor (ou Alionor) da Aquitânia, anteriormente casada com Luís VII de França. Os títulos Conde de Anjou e de Poitiers são dela. Como provavelmente a ela se deve o extraordinário legado literário da corte de Henrique II, que inclui ainda as mais antigas versões literárias da saga do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda. Mulher de grande cultura, Alionor era neta do primeiro trovador conhecido (exactamente em língua vernácula, no caso, o provençal), Guilhem IX, Duque de Poitiers.
    Marvl

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  2. Para quem tiver curiosidade, aqui deixo cópia do início e do final de um poema escrito em provençal por Ricardo I, enquanto estava preso na Áustria, vindo da Terra Santa. Note-se a metáfora final, usada pelos poetas de todos os tempos. (Farei a tradução a seguir à transcrição.)
    Ja nuls òm pres non dirà sa razon
    Adrechament, si com òm dolens non;
    Mas per conòrt deu òm faire canson.
    Pro n'ai d'amis, mas paure son li don;
    Anta lur es si, per ma rezenson,
    Soi çai dos ivèrs pres.

    Suer comtessa, vòstre Prètz sobeiran
    Sal Dieus, e gart la bèla qu'ieu am tan
    Ni per cui soi ja pres.


    Jamais um homem preso dirá a sua razão
    Francamente, senão como homem afligido;
    Mas como conforto deve fazer uma canção.
    Tenho muitos amigos, mas pobres são os dons;
    Vergonha para eles se, para obter o meu resgate,
    Estou aqui prisioneiro dois invernos.

    Irmã Condessa, que o vosso mérito soberano
    Deus guarde, e proteja a bela dama que eu amo tanto
    E pela qual já antes fui preso.

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  3. Encontrei um site bastante engraçado que desmonta muito dos mitos da idade média.

    http://web.maths.unsw.edu.au/~jim/medmyths.html

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  4. É, um site muito engraçado. De uma fanático católico que à boa maniera católica lá curte uma de cristianovitimização contra os malvados, imorais e malévolos mações que "impuseram" a educação secular.

    O artigo "CATHOLICS VERSUS MASONS" no Journal of the Australian Catholic Historical Society é um mimo.

    mais os malvados filósofos que andam a corromper os jovens, como diz no livro:

    «CORRUPTING THE YOUTH: A HISTORY OF PHILOSOPHY IN AUSTRALIA»

    quando o que é preciso é o que ele diz noutro livro:

    «Catholic Values and Australian Realities»

    Está-se mesmo a ver que o dito cujo tem uma visão muito imparcial da História...

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  5. Ah! E a defesa da posição da Igreja em relação ao preservativo e à contracepção é outro mimo (Aquinas Academy Jubilee lecture, 9 Mar 2005)!

    Muito actual o que o senhor quis mostrar:

    • The basics of scholastic philosophy, especially its views on the natural law foundation of ethics, are right and we cannot do without them.

    Vatican pronouncements on contraception, euthanasia, gluten-free hosts and so on are still driven by deductions from the scholastic philosophy of Thomas Aquinas and his followers.


    Para variar, o dito cujo vai buscar os nazis para explicar por oposição porque é que a ICAR é dona e senhora da verdade e morais absolutas.

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  6. Rita

    o tipo só por ser católico e pensar diferente de si é fanático. É sempre fácil fazer um ataque ad hominem do que discutir as ideias em causa.

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  7. Acho que o claudio pascoal não sabe o que é um ataque ad hominem.

    eu dei-me ao trabalho de ler as tretas que o senhor publicou e comentei essas tretas.

    não fiquei bem impressionda com as teorias da conspiração contra o catolicismo que congemina. lendo o que ele escreve está em curso uma conspiração gigantesca de filósofos, historiadores, cientistas, comunistas, mações, naturalistas, you name it, contra o catolicismo.

    Pelo que escreve é tipo Franck Tipler só que católico em vez de evangélico. Não me espanta mesmo nada que o claudio pascoal o considere o máximo

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  8. rita

    Já agora investigue sobre o nome «Régine Pernoud».

    Não a Rita a senhora esteve a ler tudo menos aquilo que eu lhe indiquei. Desviou conversa e falou de algo que não estava a ser discutido.

    »Não me espanta mesmo nada que o claudio pascoal o considere o máximo.» Este é uma afirmação idiota, eu não o considero um máximo nem sequer disse que concordava com tudo o que ele disse.

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  9. "Não a Rita a senhora esteve a ler tudo menos aquilo que eu lhe indiquei."

    Eu diverti-me imenso a ler as teorias da conspiração do senhor, então sobre os "mitos" da Idade Média foi rir de uma ponta à outra. Como é óbvio para ele enquadram-se na tal gigantesca conspiração contra o catolicismo, desta vez dos malvados historiadores.

    nas palavras do senhor o mito da "Renaissance" foi "put about by a gang of anti-Catholic art historians".

    Acho que não é preciso dizer mais nada...

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  10. rita, por favor não deixe de pensar enquanto ri

    a Palmira termina o seu post com;

    «Nova ordem que em breve culminaria na revolução cultural e social renascentista.»

    É óbvio que não nego a importância na renascença. Aliás a Igreja em grande parte patrocinou a Renascença apoiando as obras de arte que nela foram produzidas.

    Basta ir ao wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Renaissance) e verificar que a produção cientifica durante a renascença não foi excepcional.

    Mais duvidoso a inda é a chamada revolução. Francesco Petrarca seria um renascentista? Giotto seria um renascentista? Na realidade contesto abertamente a dita revolução, desde o início da Idade Média Alta que a Europa evolui em termos científicos, culturais e económicos.

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  11. Pois, já se tinha percebido que o claudio pascoal tb é adepto da teoria da conspiração contra o catolicismo. não passam de uma cambada de anti-católicos os que falam nas trevas da idade média e na revolução que foi o renascimento.

    toda a gente sabe também que os churrascos de cientistas e hereges são invenção dessa cambada anti-católica e que na realidade o renascimento foi feito pela igreja. ateia paciência...

    convinha era dar uma de mais erudito sobre a época e não se baralhar com os termos. a alta idade média (até mais ou menos ao século XX) foi uma época de total estagnação dominada pelo sapientia dei do Agostinho.

    O que o claudio chama alta idade média é a baixa idade média...

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  12. alta idade média - até ao século X

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  13. rita

    vamos ao wikipedia

    «High Middle Ages»

    The High Middle Ages were characterized by the urbanization of Europe, military expansion, and intellectual revival that historians identify between the 11th century and the end of the 13th.

    Já investigou o nome de «Régine Pernoud»?

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  14. Também acho que a wikipedia é o supra sumo da batata...Aliás, estudei toda a minha biologia pela wikipedia e não percebo porque raios se continua a insistir em revistas científicas e assim quando temos a wikipedia...

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