domingo, 30 de novembro de 2008

Liberdade e ambiente de confiança favorecem a criatividade



Crónica de Norberto Pires de hoje (30 de Novembro) no Jornal de Notícias:

Esta semana assisti a uma conferência interessante sobre empreendedorismo e inovação. Em Portugal esse tipo de assunto acaba geralmente na discussão de aspectos culturais e organizacionais da sociedade portuguesa, nomeadamente em contraponto com sociedades consideradas mais evoluídas (geralmente da América do norte e Europa do norte), tentando com isso explicar os nossos fracos resultados em termos de iniciativa e risco.

Um dos tópicos de discussão é geralmente o da segurança do emprego, considerado como um aspecto negativo da nossa legislação e uma das razões do nosso crónico problema de competitividade. A lógica baseia-se no seguinte raciocínio simples: o excesso de segurança significa acomodação, menor empenho e iniciativa pessoal, ausência de proactividade, baixa procura de formação complementar o que tem em conjunto um efeito muito significativo no desempenho global e numa certa aversão à mudança.

É preciso algum cuidado com este raciocínio, porque se o excesso de segurança do emprego é prejudicial e tem efeitos óbvios na capacidade das organizações, a ausência de segurança é ainda muito pior. A ausência de segurança tem efeitos negativos, podendo ser um factor muito limitativo da capacidade de inovar e de empreender nas empresas. O que esperamos das pessoas é que pensem naquilo que fazem, que estejam prontas a criticar de forma construtiva e a discernir sobre as melhores opções e propostas: esta é uma forma de confronto que tem de ser bem gerida. A liberdade e o ambiente de confiança são fundamentais para os espíritos criativos, os quais constituem os principais agentes da inovação. E isso não é essencialmente um risco, mas antes uma mais-valia muito importante que as empresas devem proteger e gerir.

No entanto, é óbvio que existe em Portugal excesso de segurança do emprego sendo absolutamente urgente introduzir mecanismos que instabilizem e diferenciem de forma positiva, isto é, fazendo com que cada pessoa perceba que o seu desempenho, a forma como contribui para o sucesso da sua organização tem impacto no seu salário e na posição que ocupa na organização.

Em termos gerais, tenho para mim que são necessárias quatro condições para promover e incentivar o empreendedorismo, todas elas de alguma forma relacionadas com segurança: uma segurança social forte, que dê garantia ao empreendedor de não estar a arriscar de forma decisiva o futuro da sua família; um sistema de justiça célere e eficaz, que seja o garante das liberdades e garantias dos cidadãos; um sistema de saúde com as coberturas necessárias, para que o empreendedor perceba que não está a colocar em causa a saúde e bem-estar da sua família; um sistema de educação pública competitiva, tendencialmente gratuita, que seja uma garantia de uma educação eficaz. Não é por acaso que os países mais empreendedores, também são aqueles que têm estes sectores bem organizados e a funcionar eficientemente.

Os empreendedores são pessoas que gostam do risco, percebem que há oportunidades na boa gestão do risco, que vivem como pensam sem pensar como viverão. Mas para isso precisam de saber que não estão a colocar em causa o essencial, que a educação e saúde dos seus não estão em risco, e que existe um sistema de justiça que lhe dá garantias de celeridade e resolução de conflitos. São pessoas livres, disruptivas, dinâmicas e que tendem a estudar até à exaustão as coisas ou as actividades em que se envolvem. Precisam de ambientes mais flexíveis, livres, que incentivam a discussão, a crítica, o confronto de ideias, e que diferenciam pelo desempenho. Precisamos desta forma de instabilidade, mas sem exageros, e muito menos importando modelos do exterior.

J. Norberto Pires

10 comentários:

  1. Aposto que estes senhores que peroram contra o excesso de segurança no emprego são pessoas bem instaladas, que, como é óbvio, garantiram o seu poleirinho sem grandes complicações.
    Outras pessoas como eu, que não conseguimos sair do ciclo dos recibos verdes e do trabalho temporário, podem ter um outro ponto de vista...

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  2. É preciso, distinguir duas situações: os empreendores fora de Portugal e os dentro de Portugal. É que enquanto existem empreendores fora de Portugal, cá dentro eles (quase) não existem. Em Portugal talvez hajam cerca de 5 empreendores. Porque digo isto? Digam-me lá quantos Professores Uni. sairam dos seus lugares "garantidos" para terem uma posição chave na empresa ao qual estão associados? Quantos negócios em Portugal são feitos sem o chapéu do Estado a dar "garantias"?
    Desculpem-me a sinceridade e a brutalidade, mas estou cansado de ouvir Portugueses com os seus "lugares" e "negócios" garantidos a falar de empreendorismo e de risco. Venham os Americanos, os Ingleses, os Holandeses, os Nórdicos e até mesmo os Italianos e Espanhois para nos ensinar alguma coisa.... Para histórias da carochinha já perdi a paciência....

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  3. Já agora, as condições que Norberto Pires apresenta caiem por terra quando olhamos para o sistema Norte-Americano. Um dos países com maiores niveis de empreendorismo e menor protecção social... Seguros de saúde e educação paga a peso de ouro.....

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  4. Bom dia,
    A visão do empreendedorismo em Portugal não é tão negativa. De facto temos dificuldades, mas também excelentes exemplos: muito mais que 5.
    Os países mais empreendedores tendem a ter mecanismos de protecção social muito interessantes. Nisso o norte da europa é de facto um exemplo. A Suécia é o país que apresenta maior desempenho no empreendedorismo.

    Os EUA são um mau exemplo, por várias razões. As pessoas estão habituadas a mudar de estado, levando toda a família (cultura de mobilidade bem marcada, que não acontede na Europa e em Portugal), e em muitas áreas são muito conservadores (basta ver que em certas indústrias perdem relativamente à Europa e Japão: automóvel, aeroespacial, etc.): ou seja, o empreendedorismo acontece com relevo em algumas áreas, mas menos noutras.
    Portugal tem uma cultura própria, onde cabem alterações, mas não queremos prescindir dela. Queremos que o país funcione melhor, tenha melhores resultados, mantendo o essencial daquilo que nos destingue (e à Europa) e que custou muito tempo a obter: protecção social, liberdades e garantias, saúde, justiça e educação. É nesse modelos que podemos e devemos trabalhar, optimizando-os e tornando-os mais eficazes.

    Cumpts,

    J. Norberto Pires

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  5. Caro Noberto Pires, concordo consigo quando diz que um sistema "social" forte pode ajudar o empreendorismo. Prova disso, é a Dinamarca, apresentado na OCDE como um dos países com melhores níveis de competitividade. Agora, não me parece que seja uma condição "necessária". Repare, não afirmo que o modelo dos EUA é melhor que o Nórdico, simplesmente, que apesar de não ter um modelo social "forte" não deixa de ter um empreendedorismo forte. E aqui, não concordo consigo. Basta, olhar para o Silicon Valley (e como todo o mundo o tenta imitar, desde o TagusPark até Bengalore) para ver o que é o empreendorismo. A quantidade de marcas americanas que invadiram o mundo nas últimas décadas, demonstram bem o que é o empreendorismo norte-amecirnao. Google, Microsoft, MacDonalds, HP, só para mencionar algumas...
    O empreendorismo quase não existe em Portugal porque não se educa nesse sentido. É a acima de tudo uma questão de mentalidade. Talvez, imposta durante 40 anos por regime de horizontes limitados, admito-o,mas não deixa de ser um problema de mentalidade.

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  6. Depois de ter estudado o tema num outro país Europeu e de recentemente ter contactado com a mentalidade norte-americana, aqui deixo algumas das minhas opniões sobre a falta de empreendorismo em Portugal:

    1) A responsabilidade economica: em Portugal não existe uma cultura de responsabilidade dos mais ricos. As doações e a criação de fundos de risco são diminutos. Este papel está entregue à banca.

    2) A educação (geral): em Portugal não se educa para o risco e a para o erro. Em Portugal, a utopia que "tem que sair tudo bem à primeira" é uma constante.

    3) A educação superior: o ensino superior português está cheio de "académicos", ou seja, pessoas que estão fortemente ligadas às universidades e com muito pouca experiência empresarial. É raro encontrar pessoas que tinham saído da carreira académica e voltado a entrar, e "professores convidados" ligados às empresas.

    4) A criação de produtos: em Portugal raramente se pensa em produtos "vendáveis". Muitos projectos de investigação deixam a parte comercial para "outras núpcias". Não faltam relatórios e teses fechados em gavetas.

    5) A cobiça do lucro fácil: quando "cheira" a lucro todos querem a maior parte do bolo (tendo legimitimo direito ou não), razão pela qual algumas start-ups morrem antes de nascerem. Falta de transperência e de definição clara dos direitos e deveres de cada participante num dado projecto.

    6) Barreiras burocráticas: a OCDE num estudo recente aponta a principal razão para a falta de competividade nacional a burocracia.

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  7. Boa Tarde,
    Em Portugal e na Europa estamos pouco despertos para a temática do empreendedorismo, mas as coisas tendem a mudar, apesar do problema ser cultural, e portanto, um processo lento por natureza.

    Eu já escrevi sobre isso. Aqui fica um dos links:
    http://robotics.dem.uc.pt/norberto/nova/da_mesa_do_director/textos/editorial2.pdf

    Cumpts,

    J. Norberto Pires

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  8. Foi com agrado e prazer que li o seu artigo, com o qual concordo em grande parte.
    No entanto, digo-lhe que Portugal tem ainda assim algum atraso em relação ao resto da Europa. Dou-lhe como exemplo a minha experiência Erasmus. Efectuei a disciplina de "Empreendorismo" numa Uni. Italiana, disciplina essa leccionada por um presidente de uma empresa da minha área de estudos como professor convidado. Algo que estranhei de imediato, pois durante os meus estudos em Portugal nunca tinho uma experiência semelhante. Quando regressei a Portugal, descobri pelos meus colegas que na disciplina equivalente (em Portugal) se dava como caso de estudo a "banca", completamente "ao lado" da nossa área de estudo. Assim, enquanto na disciplina que frequentei aprendi algo em concreto sobre a indústria em que ia trabalhar (e sobre a legislação laboral italiana), os meus colegas em Portugal, ficaram-se por um caso de estudo que pouco lhes servirá na sua vida profissional, quanto mais como empreendedores.
    Enquanto houverem casos destes, o empreendorismo português ao nível universitário não vai muito longe....

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  9. :-)
    Sim, existe um caminho a percorrer, mas as coisas estão a avançar. Em várias universidades. Por exemplo, na minha universidade, existem cursos que prestam atenção ao empreendedorismo e dedicam-lhe disciplinas. No curso de Engenharia e Gestão Industrial, por exemplo, existem várias, mas uma delas denominada "Novas Ideias Empresariais" o objectivo é ter casos-de-estudo de empresas leccionadas pelos empreendedores que as conduziram: desde a ideia até ao plano de negócios, e à realização. Esse mesmo curso oferece um "menor" em empreendedorismo, 5 disciplinas, que pode ser incluído em qualquer plano de curso da Universidade (substituindo 5 disciplinas por essas 5: economia, análise financeira, novas ideias empresariais, gestão de recursos humanos, gestão da produção).
    Ao que sei várias universidades estão a avançar com programas deste tipo.
    E existem parques de ciência e tecnologia, onde se pretende dar corpo às ideias (veja iParque, TagusPark), e incubadores (veja IPN), etc. Falta muito caminho, mas estamos a caminhar... só gostava que fosse mais depressa, mas não sou eu que mando :)

    Cumpts,

    J. Norberto Pires

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