Em comentário ao texto Levar o latim às escolas, o leitor Carlos Pires faz notar que não é apenas a área disciplinar da Cultura e Línguas Clássicas que corre o risco de ser afastada ou desvirtuada nos sistemas de ensino, a História e a Filosofia correm igual risco. Acrescento, todas as Artes. E, acrescento, também, as vertentes das Ciências para as quais não se vislumbre (um certo tipo de) funcionalidade.
Entendo que o problema da escolha curricular não está tanto numa preferência pelas Ciências em detrimento das Humanidades e das Artes, mas no "valor do conhecimento" que guia.
Efectivamente, a análise curricular deixa perceber a falta a referência ao seu "valor intrínseco". Saber por saber, porque o saber existe, é uma ideia ausente das directrizes e orientações para os vários patamares e vertentes de escolaridade. Sobressai o seu "valor instrumental" ou, melhor, uma vertente deste: a que remete para a resolução de situações familiares, do dia-a-dia, muitas delas ligadas ao mundo laboral (em detrimento da que remete para o desenvolvimento de capacidades de pensamento, traduzidas, naturalmente, em acção).
A relação entre estes dois tipos de valor não tem ser de ordem antinómica: o conhecimento a que se imputa "valor em si" não exclui o conhecimento a que se imputa "valor instrumental" e vice-versa. Porém, não é isso que tem acontecido. Como consequência de uma "batalha" sem sentido, em que muitos ficam a perder, o valor instrumental (sobretudo de carácter social e pessoal) tem sido imposto. Imposição que, verdade seja dita, tem tido um acolhimento muito confortável por parte da comunidade em geral e dos educadores em particular. Sinais dos tempos, sem dúvida.
Nesta linha, tem-se entendido que são as Ciências que melhor cumprem tal desígnio e daí a sua sobreposição relativamente às Humanidades e às Artes, mas, aprofundando, vemos que elas têm sido depuradas em função desse tipo de valor. Mais: se dermos a mesma atenção às duas outras áreas vemos que a sua legitimação passa igualmente pela função social e pessoal que possam ter. Parafraseando Manuel Rocha, as Humanidades e as Artes servem para tudo menos para aprender Humanidades e Artes.
Esta nota a propósito da reintrodução do Latim em diversos sistemas de ensino. Estou de acordo com isso, claro; neste blogue há muito que manifesto preocupação pelo seu afastamento do currículo. Mas a razão que vejo invocada é sobretudo a da "serventia": o Latim ajuda a escrever melhor e a estruturar o pensamento e isso permite aos países e às escolas obterem melhor posição nas avaliações externas e internas. É uma razão muito redutora e, confesso que não me agrada que apareça sozinha.
Mas não são apenas os responsáveis por políticas e medidas educativas que despertam para os milagres que esta língua possa fazer, os pedagogos, os psicólogos e os neurocientistas acompanha-nos e passam a reconhecer-lhe facetas terapêuticas e de desenvolvimento da inteligência (um artigo interessante sobre esta tendência pode ser lido aqui). Ainda que somando esta razão àquela, continuo a considerar que falta reconhecer uma vertente valorativa fundamental ao conhecimento clássico.
E a todo o outro conhecimento, bem entendido...
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
"A escola como plataforma do comércio"
Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...
-
Perguntaram-me da revista Visão Júnior: "Porque é que o lume é azul? Gostava mesmo de saber porque, quando a minha mãe está a cozinh...
-
A falácia do espantalho , uma das mais utilizadas pelos que que não conseguem sequer compreender os temas em debate, basicamente consiste em...
-
Outro post convidado de Rui Baptista: Transformou-se num lugar-comum atribuir às gerações posteriores a responsabilidade pela perdição do mu...
4 comentários:
No entanto, devemos render-nos ao pragmatismo, resumido numa frase redutora: "Um curso que não dá emprego não interessa". É redutor mas pragmático. Não vivemos de ideias! E, citando JC: "Não adianta pregar a estômagos vazios". Enfim, ciência e conhecimento, sim, mas que possam alimentar o estômago...
Sempre houve pessoas a preferir o valor instrumental do conhecimento ao seu valor intrínseco e que desprezavam conhecimentos que não lhes pareciam ter utilidade. Aristóteles começou a Metafísica dizendo que todos os homens desejam naturalmente saber, mas sempre houve muitos contra-exemplos a esse "todos". O que parece ser novidade é o facto de a maioria das pessoas com poder para tomar decisões com alcance educativo pensarem desse modo.
Não concordo em que se diga que "o valor instrumental (sobretudo de carácter social e pessoal) tem sido imposto. Imposição que, verdade seja dita, tem tido um acolhimento muito confortável por parte da comunidade em geral e dos educadores em particular." A matemática, as ciências e a tecnologia são sempre o primeiro alvo de tais críticas, sem se querer conhecer o que realmente defendem cientistas e educadores dessas áreas, muito menos dando importância ao que dizem e escrevem. Mas quando são as próprias universidades a dar exemplo da falta de diálogo e conhecimento das diferentes áreas, promovendo raras ações em comum, então é normal que se aceitem frases tão redutoras como as que citei (e poderia citar de muitos outros locais, sobretudo a nível da comunicação social).
Tem que se colocar toda esta questão em termos diferente.
- Será que as pessoas querem tornar-se máquinas ou permanecer humanos?
Após uma resposta esclarecedora a esta questão todas as outras serão automáticas. Estamos perante uma encruzilhada evolutiva, se haverá escolha real ou não , essa é outra questão!
Enviar um comentário