domingo, 30 de agosto de 2009

"Um filósofo espanhol é como um toureiro alemão"

Numa determinada ocasião, o Centro de Estudos Ibéricos ofereceu-me o primeiro volume da sua revista Iberografias, onde se dá conta duma iniciativa desse Centro, intitulada A Ibéria no Contexto Europeu. Nela releio a intervenção bem humorada mas profunda de Fernando Savater intitulada Identidade e Cidadania, da qual deixo aos leitores do De Rerum Natura alguns extractos que captam a linha de pensamento daquele filósofo e ensaista espanhol.

“Eu estava com um amigo francês, professor de Filosofia, uma pessoa muito culta, e eu argumentava, fazia-lhe notar o escasso interesse que mostrava pelas produções dos professores e escritores que escreviam sobre Filosofia em Espanha. E dizia-lhe que não creio que o que fazemos seja nada de especial, nada fora do normal, mas creio que, em geral, há coisas interessantes, ao mesmo nível que as coisas interessantes que se fazem em Inglaterra ou na Alemanha ou em outros países. Então, não estou muito de acordo com essa sua precaução contra tudo o que é Filosofia se vier da parte de um espanhol. Parece-me um pouco exagerada. E ele dizia-me: «Eu compreendo que seja uma desvantagem. Mas há desvantagens, digamos, impossíveis de vencer. Por exemplo, tu. Se te disserem que vai tourear numa praça de touros um toureiro alemão, irias ver um toureiro alemão?» Apesar de me custar imaginar a ideia de um toureiro alemão, digo-lhe: «Bom, então, para mim, um filósofo espanhol é como um toureiro alemão».

Assim, neste caso, falo-vos como toureiro alemão. E, essas marcas, esses rótulos que se põem, essas especialidades que se criam, essas, especialidades culturais faz com que se veja com muitos maus olhos quando as pessoas tentem escrever ou interpretar fora do marco que se criou, digamos, para uso cultural. Durante muitos anos sobretudo nos últimos anos do Franquismo e dos primeiros do Pós-Franquismo, alguns escritores, intelectuais, éramos convidados, de vez em quando para falar num fórum europeu. Mas sempre se dava por adquirido que teríamos de falar de uma série de coisas que já estavam determinadas. Podia-se falar de Dom Quixote.

Evidentemente, quer dizer, todos os espanhóis podem falar de Dom Quixote! Ainda que, como a maioria dos espanhóis não tenham lido Dom Quixote! Mas podem falar de Dom Quixote. Admitia-se que pudéssemos falar da Guerra Civil. Somos especialistas em guerras civis! Podemos falar de guerra civil. Podemos falar de Garcia Lorca. Evidentemente Garcia Lorca entra dentro das especialidades. Mas pouco mais. Então, eu, numa ocasião, fui convidado para um fórum em França e pus-me a falar de Diderot. Criei um clima em que as pessoas me olhavam e diziam: «Este senhor porque fala de Diderot? Porque não fala de Garcia Lorca, de Santa Teresa?» E eu disse: «Bom, não sei, ocorreu-me falar de Diderot! Penso que posso dizer qualquer coisa a este respeito». Esse pressuposto de que certas culturas estão constrangidas ao peculiar e que outras estão destinadas ao universal não faz estranhar que um professor inglês fale de Quixote, de Esadekeils, de Diderot ou do que lhe entenda. Em contrapartida, estamos vinculados a uns determinados temas. Escutam-nos desde que não falemos mais do que das coisas que obrigatoriamente temos de falar. E quando queremos falar um pouco do universal ou aspirar a temas, digamos, não estritamente da nossa área, despertamos imediatamente, um… bom, convertemo-nos em toureiros alemães, como dizia o meu amigo francês!

(…) Eu penso que, em certa medida, todas as pessoas cultas da Europa vivem uma unidade de interesses por tudo o que se faz culturalmente na Europa. Quer dizer, eu não conheço europeus cultos que não leiam Dostoievski, que não leiam Dante, que não leiam Shakespeare, que não leiam Voltaire.

Creio que, como europeus, praticamos uma certa cultura. Dentro de cada um de nós, de alguma maneira, se concretizou essa unidade cultural europeia e todos consideramos que, por muito diferentes que sejam os autores, constituem parte de um património que manejamos. Se queremos dar à Europa um peso maior que não seja meramente económico nem assente na reiteração individual dessa unidade (…) haveria que criar um cidadão europeu, quer dizer, alguém que viva com uma mentalidade (…) inspirada não na etnia, não em rótulos de grupo, não nos regionalismos culturais, mas na partilha de algumas leis e direitos comuns (…).

Quer dizer, criar essa imagem de cidadão, de cidadão que não se limite a prolongar a tribo na cidadania (…) que se identifique com a cidadania e não com os seus traços tribais (…). Criar essa imagem seria, no meu entender, a grande contribuição europeia, fundamental num século que eu temo que se torne dominado pelos rótulos, pelas etnias, e pelas limitações, digamos, regionais.

(…) Não há qualquer argumentação para enfrentar os rótulos e as etnias. Ou se pertence a um certo grupo ou se está definitivamente excluído (…) as etnias são forçosamente fanáticas porque não permitem a adesão, a integração de outras pessoas no grupo. Quer dizer, as etnias só servem para criar estrangeiros. Uma etnia não serve para mais nada a não ser para criar estrangeiros. Os seus argumentos são: tu não podes entrar aqui, tu não és digno de crédito para entrar aqui.”

Referência bibliográfica:
- Savater, F. (2005). Identidade e Cidadania. Iberografias. Ano 1, n.º 1, páginas 27-31.

7 comentários:

  1. Pois, o problema maior - e que acho que o Savater não percebeu pois não estava a pensar nisso - é que um filósofo formado numa universidade inglesa, por exemplo, sabe falar tanto de Espinosa como de Russell, Hegel ou Francisco Sanches, ao passo que um filósofo formado numa universidade portuguesa não sabe falar de nada.

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  2. Prezado Rolando Almeida,

    Não exageremos! Claro, está a ser brincalhão… Percebo onde quer chegar. Mas acho que o Savater tem razão no diagnóstico, embora me pareça que não vale a pena procurar a terapêutica para essa doença. O que se passa com filósofos, ou com toureiros, passa-se com muitos outros. Claro que o toureiro está em vias de extinção, e ainda bem! Quem é que conhece, por exemplo, Ungulani Ba Ka Khosa, pseudónimo de Francisco Esaú Cossa, e autor de, entre outros, “Orgia dos Loucos” ou “No Reino dos Abutres”?

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  3. Já dizia o Caetano naquela canção espectacular, a "Língua":

    Se você tem uma idéia incrível
    É melhor fazer uma canção
    Está provado que só é possível
    Filosofar em alemão

    luis

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  4. Os toureiros não estão em vias de extinção, e ainda bem.
    Claro, um filósofo acha que ser-se filósofo é que é bom. Mas um toureiro também acha que ser-se toureiro é que é bom. E agora? Que resposta me dá, caro filósofo?
    (E que me dirá o caro toureiro?)

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  5. Concordo com Savater. Certo dia uma personalidade francesa dirigiu-se a António Lobo Antunes dizendo-lhe que teve uma criada portuguesa. A resposta de Lobo Antunes veio de seguida: «A minha família teve uma empregada francesa». A personalidade francesa ficou, segundo o relato de Lobo Antunes, um bocadinho indignada. A Europa só se começa a construir quando aceitarmos que se pode fazer filosofia em Portugal, em Espanha, como se pode fazer ciência em qualquer parte. Lembro-me de uma afirmação curiosa de Eduardo Lourenço: Só começamos a ter consciência europeia quando, num jogo do campeonato do mundo de qualquer modalidade em que entrem em confronto uma equipa europeia e outra de outro continente, nós europeus torcermos pela equipa europeia. Não sei se será possível.

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  6. Acho que é possível desde que exista uma equipa europeia. Por enquanto só existem equipas portuguesas, espanholas, francesas, etc.

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