quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

DARWIN SOBRE DEUS


Darwin sobre Deus na sua "Autobiografia":
"Outra fonte de convicção quanto à existência de Deus, ligada com a razão e não com os sentimentos, influencia-me como tendo muito mais peso. É uma questão da extrema dificuldade, ou melhor, impossibilidade, de conceber este imenso e maravilhoso universo, incluindo o homem com a sua capacidade de olhar para o passado distante e para o futuro longínquo, como sendo o resultado do acaso cego ou da necessidade. Quando começo a reflectir assim, sinto-me obrigado a recorrer a uma Causa Inicial que possua uma mente inteligente, até certo ponto análoga à mente do homem; e mereço ser chamado Teísta.

Esta conclusão estava fortemente implantada na minha mente, tanto quanto me posso recordar, pela altura em que escrevi "A Origem das Espécies"; e foi depois disso que se tornou gradualmente mais fraca, com muitas flutuações.

Mas então surge a dúvida - será que a mente do homem, que se desenvolveu, como creio sem reservas, a partir de uma mente tão primitiva como aquela que o animal mais primitivo possui, é de confiança relativamente à sua capacidade de inferir conclusões tão grandiosas? Será que não são simplesmente o resultado da ligação entre causa e efeito que nos impressiona como sendo necessária, mas provavelmente depende apenas da experiência herdada? Nem devemos deixar de considerar a probabilidade de que a constante inculcação da crença em Deus na mente das crianças possa produzir um efeito tão intenso, e talvez herdável, nos seus cérebros ainda não completamente desenvolvidos, que depois é tão difícil para elas abandonarem a sua crença como é para um macaco abandonar o seu medo intenso e instintivo de cobras. Não posso pretender lançar luz dobre problemas tão abstrusas. O mistério do início de todas as coisas é insolúvel para nós; e por isso contento-me em permanecer Agnóstico"
- Charles Darwin, "Autobiografia", Relógio d' Água, Lisboa, 2004, tradução, introdução e notas de Teresa Avelar (original de 1887, publicado postumamente pelo seu filho Francis, que cortou partes do texto, satisfazendo pedidos da sua mãe Emma e sua irmã Henrietta, que eram crentes).

4 comentários:

  1. a constante inculcação da crença em Deus na mente das crianças

    Hummm... se assim era há mais de um século atrás, tal verifica-se muito menos já. De qualquer forma, Darwin conclui muito bem que o mistério do início de todas as coisas é insolúvel para nós, o que permanece inteiramente válido ainda agora, pese embora as especulações científicas de inspiração teísta, como o modelo hipotético do Big Bang e respectiva criação "ex-nihilo", onde a única certeza é a de que a matéria teve um início e, consequentemente, terá um fim.

    Mas continua a ser clara a impossibilidade de conceber este imenso e maravilhoso universo (...) como sendo o resultado do acaso cego ou da necessidade. A simples conclusão deste raciocínio aponta para a tão temível inteligência ou ordem natural como tendo um papel determinante na evolução do cosmos. Mais do que mera abstracção metafísica, esse conceito é perfeitamente mensurável a partir de uma outra grandeza conceptual bem controversa, que é a entropia.

    Por fim, a mente inteligente da Causa Inicial não é propriamente análoga à mente do homem, este falacioso e ilógico antropocentrismo é que deita tudo a perder!

    Aliás, a ridícula e primitiva representação popular que é feita de possíveis seres inteligentes extra-terrestres, logo demonstra como este tacanho egocentrismo humano é um óbice à compreensão do universo.

    Pelo menos, até ao nosso aparecimento como espécie recebemos aquilo que o universo nos concedeu, talvez a partir de agora possamos também devolver um pouco daquilo que nos foi ofertado.

    Logo, não é a inteligência do universo que é análoga à nossa mas sim o oposto, fomos criados à sua semelhança, um produto desse longo projecto inteligente que se manifestou presente!

    E um outro Darwin o dirá...

    Rui leprechaun

    (...e o círculo se fechará! :))

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  2. Acho muito interessante a sua conclusão, que está, creio, mais perto da tradição cristã, do que da perspectiva que Darwin nos apresenta. De qualquer forma, entendo melhor a ideia cristã de que fomos criados à Sua (de Deus) imagem e semelhança; e percebo melhor a ideia que Darwin nos quer transmitir (talvez?), do que a sua ideia – de que fomos criados à imagem e semelhança do Universo ou, pelo menos, como afirma, “a nossa inteligência”. Porque não podemos afirmar que somos "semelhantes, análogos e criados à Sua imagem" (do Universo), só por a matéria ter a mesma origem. Da inteligência "não consciente" que o universo possui, nasceu uma inteligência "consciente" que o consegue ir interpretando, de acordo com as suas limitações e sempre com a sua visão do "cosmos". A frase de Darwin parece, neste sentido, apontar para uma perspectiva idealista que pode ser ou não considerada de antropocentrira. No entanto, penso que este não é o cerne da questão. E não sei se Darwin estava preocupado com ela, porque pode simplesmente querer dizer que existe uma analogia e, como afirma, “até certo ponto”, não se preocupando de onde é originária a "cópia/imitação/semelhança". Pois para se dizer que existe uma analogia, não é necessário referir onde está a sua origem: se no Universo, se no Homem. É irrelevante a origem para o facto de existir uma semelhança. Pelo menos assim me parece.

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    1. Então se o Homem foi criado á imagem de Deus, porque é que há guerras, fome e outros tipos de injustiças.

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  3. Anônimo, nunca ouviu falar do Diabo? É engraçado ver que as pessoas só lembrem de Deus... porém esquecem que tem o príncipe do Mal, e acham que ele não faz nada... e ah, se perguntar: 'Então porque Deus não nos protege?' Ele nos protege, mas muitas vezes recusamos a sua ajuda, pois temos livre-árbitro... ou seja, temos o direito de fazer escolhas... e é claro que com o mal no nosso pé, muitas vezes erramos...

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