sexta-feira, 30 de março de 2007

Livros e ministério da educação

"Ministério da Educação" não rima com "livros". Os livros, na mentalidade do ministério, são "redutores" e, além disso, elitistas. Acho que nunca nenhum técnico ministerial algum dia lhe ocorreu que a qualidade do ensino passa pela qualidade dos livros que se estudam. Tudo são actividades lúdicas, tudo são competências, tudo é muito complicado e muito pimba e muito “eduquês”. Aposta-se na Internet e nos CD-ROMs, na idioteira da expressão "novas tecnologias" e em formação a metro para os professores aprenderem a fazer brincadeiras nas bibliotecas e para saberem mandar e-emails.

O mais simples de tudo — pôr os professores e estudantes a estudar por bons livros, promover a edição de bons livros para professores e estudantes — é coisa que não lembra aos originais pedagogos que mandam no ministério. É caso para dizer que com cães destes mais vale ir à caça com gatos.

Imagine-se como seriam as coisas se desde há 20 anos o Ministério da Educação se tivesse limitado a fazer a gestão das colocações dos professores e a mandar pintar paredes e mudar sanitas partidas, sem fazer qualquer intervenção no ensino propriamente dito — sem mexer nos programas, nos manuais, no desenho curricular, em nada que diga respeito ao ensino propriamente dito. Está a imaginar? Óptimo. Agora pergunte-se isto: seria possível estarmos hoje pior do que estamos? Eu não tenho dúvidas de que estaríamos pelo menos, na pior das hipóteses, na mesma. Mas quero crer que estaríamos bem melhor, pois no nosso país, os muitos professores de alto profissionalismo — e que estudam por bons livros, sobretudo estrangeiros — têm de lutar contra o ministério da educação para fazer um bom trabalho. Se os pedagogos do ministério estivessem quietos, tudo andaria sobre rodas. Nomeadamente porque os muitos professores de excelência que temos por esse país fora teriam mais tempo para estudar por bons livros estrangeiros e assim preparar aulas de excelência, em vez de andarem afogados em nova legislação todas as semanas, novos programas, novos manuais, novas brincadeiras na biblioteca, novas disciplinas de fantasia.

17 comentários:

  1. Se não fosse os pedagogos do ministério, todos os filósofos saberiam escrever "quero crer" e jamais escreveriam "quero querer".

    Luís Lavoura

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  2. Caro Luís

    Obrigado pela correcção. Se não fosse os pedagogos do ministério, os documentos do ministério estariam escritos em língua de gente, e não em "eduquês".

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  3. Sou professor (F/Q) há 23 anos. Quando comecei, se tinha dúvidas, socorria-me do livro adoptado e, na maior parte das vezes, ficava esclarecido. Ainda hoje o manual de Física de Luís Silva e Jorge Valadares, para o 12º, ano é um livro de referência. Agora, todos os dias tenho de alertar os alunos para os disparates que os manuais contém.
    Para lá do facto de ninguém saber até onde se deve ensinar. Os programas referem uns conteúdos vagos, cada autor de manual faz a sua interpretação, pelo que o grau de desenvolvimento de cada conteúdo acaba por ser, muitas vezes, o do manual adoptado. Ou então, quando não se adoptou o manual dos autores do programa, carrega-se com mais esse para tentar perceber o que se deve acrescentar ou cortar no adoptado.

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  4. Bom dia Desidério:

    Sou levado concordar consigo.

    Penso que todos teríamos a ganhar se, de uma vez por todas, o M.E. saísse do seu autismo (eu diria deste quase solipsismo), e reunisse uma equipa, pluridisciplinar, de gente realmente competente, que elaborasse currículos que não fosse necessário mudar a cada par de anos e que promovessem realmente a excelência no ensino.

    Ainda mais: penso que o principal problema do "eduquês" foi ter confundido os meios de educar (as teorias da psicologia, as novas tecnologias ao dispor dos alunos, etc...), com os fins do ensino.

    Cumprimentos,
    José Oliveira
    Tomar

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  5. Aproveito para deixar um convite e um comentário.
    1- Convite - Que o Caro Luís passe a revisor literário do Rerum Natura ou então que se meta ao trabalho da escrita diária. Facilmente verá que as gralhas acontecem em maior número do que desejaríamos.
    2- Comentário - Como professor de filosofia do ensino público português, identifico o maior obstáculo a um ensino de maior qualidade: Ministério da Educação. E dou alguns exemplos: com o Ministério tornou-se hábito chegar a Março ou Abril e nem sequer saber dizer aos alunos se vão ou não fazer um exame e em que condições. Curiosamente esta tendência agravou-se nos últimos dois anos. O caso recente com as OLPF (Orientações de leccionação do programa de filosofia) é gritante. O ME homologou este documento em Setembro de 2005 retirou-o sem qualquer justificação em Agosto de 2006 mas nunca chegou uma justificação às escolas. Curiosamente pegou no documento e reformulou-o para orientações de exame a fazer em Julho de 2007. Confusos? Eu também. E o grave é que sou professor de filosofia. Resta observar donde vem a confusão! Mas há mais: os alunos chegam ao ensino secundário claramente vazios de conhecimentos. Faz a norma responsabilizar os alunos porque não estudam. Mas claro que os alunos não estudam porque não são estimulados para tal, com programas que remetam para a exploração de conteúdos precisos. Culpar o aluno é a via mais fácil. No meio disto tudo tenho uma experiência curiosa: basta pegar numa turma com alunos de 15 anos, trabalhar conteúdos científicos com rigor e clareza e não é que os alunos gostam!!! A qualidade que um aluno ainda mais aprecia num professor é que o professor domine bem os conteúdos da sua disciplina. A conversa do «eduquês» das competências tem vindo a degradar o ensino e a sua qualidade. E há que fazer denúncia pública destes aspectos. As consequências socias do «eduquês» são das mais graves que existem. Senão reparemos: é comum no discurso político que a "salvação" nacional passa pela educação. E passa! Mas então o que condiciona a que os alunos cheguem ao 12º ano vazios de conteúdos? É um terrenos arriscado apontar para as famílias ou os professores. A explicação pode passar por aqui, mas subjaz a explicação maior que se chama Política Educativa. O grave que se passa no ensino básico e secundário é que os professores são pressionados a passar alunos valorizando o seu comportamento, ainda que a maior parte das disciplinas do secundário atribuam pesos relativos de 10% ou 30% ao comportamento, ou aquilo que chama atitudes e valores. O actual Ministério não teve ainda uma única medida para contornar este problema. Mas teve uma série de medidas para agravar esta tendência, nomeadamente responsabilizando os professores pelo insicesso. Acabam-se com os exames, passam-se os alunos sem saber e a realidade dos números do insucesso deixa de ser uma vergonha, somente porque se criaram medidas impositivas que vestem a casaco de peles luxuoso, um cadácer esquisito. Isto é infantil e não deveria passar-se em qualquer sociedade de pessoas adultas e responsáveis, bem como empenhadas em melhorar a qualidade de ensino. Em síntese: prolifera aí a ideia ignorante que o saber e a ciência é coisa muito complicada e impossível de ensinar aos putos de bairro. Então, há que investir na moralzinha idiota das competências. Curiosamente só quem nunca leu um ou dois livros de introdução à ciência ou à filosofia, é que pode pensar assim. Bastaria observar que o professor Carlos Fiolhais consegue ensinar ciência a crianças. Um homem só consegue fazer aquilo que um Ministério inteiro não sabe fazer. Porque é ignorante.
    Abraço
    Rolando Almeida

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  6. *onde se lê cadácer deve ler-se "cadáver". A janela dos comentários é pequena e reparei, após postar que há outras gralhas. Peço desculpa por tal. Não prometo que não volte a acontecer.
    Abraço
    Rolando Almeida

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  7. Felicito-o. Costumo dizer que já não sou professor, sou reunidor. Depois, ocupo-me ainda de papéis vários, relatórios infindáveis, programações, planificações, definição de estratégias de remediação, processos disciplinares, etc. Findo isto, ocupam-me o tempo em brincadeiras desnecessárias: Estudo Acompanhado, Área de Projecto, Educação Cívica. O tempo e as energias que sobram servem então para ensinar História de Portugal. Denuncie agora, caro Desidério Murcho, mais uma razão pela qual o "Botas" ganhou aquela inanidade daquele conscurso.

    P.S. E ainda há-de vir a Educação Sexual

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  8. (Não) Gosto destes defensores bacocos da politica ministerial, que atacam a ortografia de um texto, para tentar descreditar a valia intelectual das pessoas que o escrevem!
    Nenhuma das alminhas que trabalha nesse ministério tem 1% da valia intelectual de um senho chamado Niels Bohr, que lhes aconselho vivamente investigarem um bocadinho na net, pois não lhes vou explicar quem era, mas, que ditava o seu trabalho para a esposa escrever, pois praticamente não sabia escrever. Nessa altura reconhecia-se o mérito e não a aparência formal.
    Se o senhor Luis Lavoura deseja passar atestados de incompetência, está no sitio errado. Aqui aprecia-se a qualidade intelectual dos conteudos, sem preocupação pela perfeição formal da escrita.
    Está visto que que não percebe mesmo a natureza desta "coisa". . É pena...

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  9. Começa a detectar-se três situações preocupantes nos jovens que frequentam o ensino secundário:
    1) A recusa em procurar informação em livros.
    2) A dificuldade de, numa biblioteca, pesquisar livros que contenham informações sobre um determinado tema.
    3) A incapacidade de encontrar, num livro fornecido, a informação que se procura.

    Se não existir uma mudança nas indicações metodológicas, quase obrigatórias, que o Ministério da Educação emite, associadas a um investimento na compra de livros, científicos, técnicos, de divulgação, ensaios, etc, pelas bibliotecas escolares, a situação tenderá a agravar-se.

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  10. O que o António chama "aparência formal" chamam os professores de Português (que também há) "não escrever com os pés": "... Niels Bohr, que lhes aconselho vivamente a investigarem um bocadinho"? Mas que raio de sintaxe é esta? Não quererá o caro António solicitar à sua esposa o mesmo?
    Posto isto, gralhas acontecem em todo o lado (e erros involuntários também) e o Desidério tem toda a razão: os livros são, na generalidade, péssimos. Infelizmente, helàs, são todos feitos por professores (ok, em todas as profissões há desgraças)

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  11. Eu diria que será assim tão fácil avaliar as competências dos alunos, como também a dos professores o que ainda seria mais vergonhoso, de facto ambos estão muito relacionados e não é por acaso.

    Mas que algo corre mal a nível geral é verdade.

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  12. Já agora, um bom pedagogo, penso eu, não discute pedagogia de forma tecnicista, pratica-a com toda a competência possível e, mesmo assim ,nunca está seguro disso. Os frutos do trabalho, para um pedagogo, não são imediatos, mas a longo prazo.

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  13. alguns dos escritores que mais gosto poderiam ter sido de facto dislexicos.

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  14. Na minha primeira aula deste semestre, fiz-me acompanhar de quatro livros. São apenas quatro os livros que recomendo oficialmente. E consegui assim - embora não fosse meu intento - deixar os alunos (supostamente universitários) em pânico.

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  15. Exma. "marvl",
    Efectivamente, gralhas há em todo o lado, quando não se revê o que se escreve.
    O que seria bom era haver mais "Niels Bohrs", que eventualmente lhe solicitassem o mesmo.
    A má qualidade dos livros ainda é o menor dos males do ensino. A redução do nível de exigência na avaliação, a impossibilidade de chumbar um aluno a quem se deu positiva no primeiro periodo, a notória falta de conhecimentos de alguns professores, etc. Já para não falar da vocação, pois creio que alunos de média 11 ou 12, como aqueles que entram para os cursos de professores do ensino básico, não são propriamente a aposta certa para o futuro. Outra aberração do nosso sistema, é que durante anos foram despejados alunos na área de humanisticas, que apenas queriam (e podiam) fugir da matemática. Alguns deles foram evitando sucessivamente as dificuldades até acabarem em cursos que não tinham saida profissional. Restou-lhes, seguir uma carreira no ensino.

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  16. Caro Sr. Dr. Desidério

    Concordo com essência do seu post, mas

    "[...]os muitos professores de alto profissionalismo — e que estudam por bons livros, sobretudo estrangeiros — [...]" e "[...]Nomeadamente porque os muitos professores de excelência que temos por esse país fora teriam mais tempo para estudar por bons livros estrangeiros[...]"

    Livros estrangeiros?! Foi necessário adjectivar os livros? Ou Portugal, para si, é só o lugar onde mora, paga impostos e beneficia da Segurança Social? Acha que Portugal não tem, para além de professores excelentes, excelentes conhecedores de pedagogia?

    Não sou da área, não lhe consigo dar exemplos, mas acho que não lhe fica bem o elogio ao (livro) estrangeiro.

    Cruz Gaspar

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