quinta-feira, 22 de setembro de 2022

APELO A UM SOCIÓLOGO DA LITERATURA

Por Eugénio Lisboa

Meu Caro João Pedro George, 

Venho fazer-lhe um apelo e dar-lhe uma dica que definitivamente lhe poderá dar um lugar único (e merecido) na história da sociologia da literatura. Você tem mostrado ser um destemido escafandrista das águas pantanosas do nosso milieu literário. Além de destemido, é bem informado, escreve admiravelmente e é inteligente. Por isso lhe dou uma dica de enorme magnitude e assustadora dificuldade. E muito trabalho. 

Trata-se de desvendar um caso altamente intrigante de sucesso literário mundial, de dimensões pantagruélicas. Embora eu seja um leitor treinado e muito dado a leitura compulsiva, desta vez, desisto de compreender e peço-lhe que me ajude. Não, repare, que me ajude a compreender a obra assim catapultada aos mais remotos sítios do mundo. Essa, quanto a mim, distribui-se por quatro tabuleiros distintos: o do provincianismo douto, o do pretensiosismo parolo, o da infantilidade embevecida e o da imbecilidade inconsciente. Não, repito. Não me ajude a compreender a obra, nem esse é o seu ofício. Ajude-me, simplesmente, a compreender os mecanismos do mercado que assim catapultaram a dita obra para destinos que nem os muito traduzidos Pessoa e Ferreira de Castro sonharam. Não se ponha a salivar, já lhe digo de que obra se trata. De resto, Você, como adestrado sociólogo da literatura, já percebeu a quem me refiro, porque não pode ser outro. SIMPLESMENTE NÃO HÁ OUTRO. Desde que Portugal é Portugal, nunca se viu coisa assim. E suponho que, nos próximos mil anos – se a vida no planeta durar mil anos – não se verá nada como o êxito literário de que estamos a falar. É d’arromba! É uma coisa tão desmedida, que se não percebe o carão fechado, ressumando amargura existencial desvairada, do autor da obra : sempre com o ar de lhe ter sido revelado um segredo sinistro por uma pitonisa que só fala com ele! Falo, claro está, de Gonçalo Joyce Tavares, também conhecido como Gonçalo M. Tavares e dos cinquenta e tal livros que já publicou, traduzidos em 43 línguas e 71 países. Tudo isto publicado em vinte anos por um homem com pouco mais do que cinquenta anos. Só Balzac! Mesmo assim, convém não exagerar: não consta nenhuma edição nas ilhas Maurícias (que se devem contentar com a edição francesa) nem num atol desabitado do Pacífico. (Também não consta nenhuma tradução feita nas Ilhas Desertas).

Seja como for, meu caro sociólogo, peço-lhe que investigue a máquina promotoria deste singular caso de promoção literária. Ele é prémios, ele é traduções, ele é viagens, ele é fotos (sempre de carão fechado), ele é autógrafos, desmaios de admiração, qualquer dia é o Prémio Nobel. Então, a sociologia, diante disto tudo, está calada? Para que diabo serve ela se não se deixa deslumbrar por aquele mapa a duas páginas, que mostra, no último JL, a esmagadora geografia de Gonçalo? Gonçalo fecunda todo o globo. Não há sítio decente e habitado que não acolha Gonçalo. Gonçalo é mais conhecido do que a vaquinha do presépio! 

Meu caro João Pedro George, medite bem nisto. Camões e Pessoa são, ao lado de Joyce Tavares, aprendizes de escritor. Salve a honra da sociologia e mostre à pátria lusa como um filho seu chegou a mares nunca dantes navegados! Dê à sociologia o que é da sociologia, para que se perceba finalmente como é que o que é de Tavares é também do mundo! Tavares é o mundo e o mundo é de Tavares. Parafraseando o embirrento Almada, eu diria que Tavares é que é, o resto é caca! 

Eugénio Lisboa,
aguardando resposta!

2 comentários:

  1. O Nobel José Saramago no discurso de atribuição do Prémio ao romance "Jerusalém", disse:

    «'Jerusalém' é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!»

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  2. Numa página alheia do Facebook escrevi: «Quem leu o magnífico "Jerusalém" de Gonçalo M. Tavares confia em que João Pedro George o tenha lido também.»

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