quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A Minha Pátria é a Língua Inglesa

Por Eugénio Lisboa
Ressuscito este meu texto, publicado há muitos anos, no quinzenário JL, por me parecer que a sua pertinência não é hoje menor do que nessa altura. Ainda não há muito, em determinada situação particular, o nosso MNE, que tutela o Instituto Camões (promotor da língua portuguesa) instruía que cidadãos portugueses se lhe dirigissem EM INGLÊS.
Bons tempos em que era possível a Pátria de Fernando Pessoa ou a de qualquer outro cidadão de Portugal ser a língua portuguesa! E note-se que o Fernando, assim agarrado a essa bóia de salvação identitária, até dominava perfeitamente a língua inglesa, em clave arcaizante. Mas não, agarrou-se, tenazmente, ao idioma de Vieira, a quem chamava, com orgulho e carinho, imperador da língua! E fez, da língua portuguesa, a sua nave de argonauta. Hoje, vivemos em tempos bem diferentes.

Na época em que vivia e operava o poeta da Mensagem, o inglês era, em Portugal, uma língua falada por poucos, entre os quais, em grande evidência, ele mesmo. Mais tarde, o Jorge de Sena ainda atirava à cara dos portugueses o inglês que ele traduzia (ficcionistas, poetas e historiadores da literatura), enxovalhando-os com a sua (deles) ignorância desse idioma imperial. O inglês era apenas para os “happy few”, que se gabavam de o possuir, como relíquia fora do alcance dos outros, num país de pacóvios, que viviam à custa de um francês mal amanhado, mas que ia permitindo uma certa “actualização” muito reduzida – era, enfim, o que se podia arranjar. O francês, seja como for, dominava e qualquer gato-pingado se julgava capaz de ser tradutor (com os resultados que frequentemente se viam). 

Hoje, as coisas mudaram: o francês, literalmente, desapareceu do horizonte cultural e também dos outros horizontes lusíadas, e o português está em vias de extinção. O português “não rende”, não permite “fazer figura”. Falar português é, para os snobs de hoje, o que era, para os de ontem, andar de botas cardadas: é rústico, é ridículo, não se usa. Só para labregos. O inglês é que se tornou a nossa língua para todo o serviço. 
Já não há firmas de limpeza, há, sim, “cleaning companies”. Ontem, por exemplo, fui ao centro comercial de Oeiras, situado, não no “Parque de Oeiras”, mas sim no “Oeiras Parque” (bem à inglesa). Logo no topo de tapete rolante de acesso ao centro, topei com uma agência de viagens com o nome esplendidamente britânico de Best Travel. Mas, antes disso, ainda antes de me meter no tapete, dera já com um empregado que empurrava os carrinhos para compras vazios, ostentando uma solar camisa amarela com a seguinte inscrição nas costas: “Outsourcing paquete”. Num percurso de não mais de cinquenta metros, a caminho do cinema (quase totalmente tomado de assalto por filmes falados em inglês), deparei com várias jóias, que dão testemunho de que “a minha pátria é a língua inglesa”: “Zara Home”, “Love Sex”, “Shop on Line”, “Hot Hot Promotions”, “Rituals – Home and Body Cosmetics”, “Silver Field”, Stone by Stone”, “Português Café” (em vez de, tal como em português caseiro e saudável, “Café Português”), “Sacoor Brothers – Woman and Kids” (ainda por cima, com um erro: “woman” em vez de “women” – não tem grande importância, o Hemingway também não sabia que o plural de “woman” era “women”...), “Spring in the City”, “Colors of the Spring Are in the Air”, etc. etc. 
Como disse, tudo isto, num percurso de 50 metros. Se desse a volta ao centro todo, esgotaria, por certo, o glossário da língua de Shakespeare! Já de regresso a casa, embora não pudesse desviar muito os olhos para os lados, por causa da condução do carro, ainda fui dando com uns testemunhos da mudança da língua, em Portugal: 
“We Can Dance”, “Tenda Bar” e por aí fora...
Há dias, num noticiário qualquer da televisão (uma televisão qualquer, tanto faz), tomei conhecimento de um jovem cantor português (portuguesinho da Costa, que se lhe via no porte, na tez e no falar), que se chamava, curiosamente, Richie Campbell! Estranho, não é? Mas não tem grande importância: os nossos “pivots” da televisão e os nossos políticos e “comentadores”, todos descendentes, na língua e não só, dos romanos, têm muita vergonha de dizer “os media” (do latim) e preferem dizer, com uma grande iluminação nos olhos, “os mídia”, à inglesa (os ingleses, é bem sabido, inglesam tudo, porque, além do mais, não são latinos e não sabem latim: perdoa-se-lhe a calinada. Agora, nós... Qualquer dia, leremos Beauchamp, dizendo, não Bôcham, como deve ser, mas sim Bítcham, como dizem os ingleses, totalmente daltónicos para línguas!).

Quando me encontrava em Londres, como Conselheiro Cultural da nossa Embaixada, acontecia-me frequentemente receber cartas de bolseiros ou outros portugueses acabados de chegar à loura Albion... escritas em inglês (razoavelmente mau). Eu, em geral, acusava a recepção dessas cartas, indicando, sibilinamente, que o virem em inglês para a Embaixada de Portugal, oriundas de portugueses, teria ocorrido “por lapso”. Um dos correspondentes, embaraçado, explicou-se: é que, estando a viver em Inglaterra (há poucas semanas), o português “já lhe não vinha com facilidade”... 

É desta massa que se fazem os melhores pacóvios. A verdade é que este nosso provincianismo – irremediável? – está a provocar este facto curioso: se a língua nacional de Portugal é ainda o português, a língua “de facto” está cada vez mais a ser o inglês. Falar inglês, ter grande dificuldade em encontrar o termo português – é “chic”. “Management” é melhor do que “gestão”. CEO é sempre preferível a “Administrador Executivo” ou, simplesmente, “Director”. E por aí fora.

Há, no entanto, palavras que permitem algum resgate do luso orgulho: palavras apenas insinuadas (com as letras substituídas por pontinhos...), como, por exemplo, “F...”, que dão igualmente para as duas línguas. Fuck!, ao menos nestas, safamo-nos de sermos humilhados!

2 comentários:

  1. Excelente artigo e de grande atualidade. É de facto vergonhoso e supinamente parolo o que por aí vai. É na televisão, entre os comentadores, nas lojas, nas empresas, nos vestuários, nas inscrições, nos encontros científicos e artísticos, nos concertos pop, enfim, por todo o lado.
    Mas, pior ainda, hoje, os artigos científicos de universitários e investigadores, para terem valor curricular terão que ser escritos em inglês e publicadas num certo número de revistas em inglês
    O que significa uma desvalorização brutal e brutalmente injusta em relação a algumas revistas científicas portuguesas onde sempre se publicaram artigos, muitos deles de grande mérito, e agora desvalorizados quase completamente.
    Outro sinal de parolismo é dizer que é por ausência de termos em português para expressar as complexas ideias de tão altas mentes. É certo que há termos novos, sobretudo nas tecnologias, para os quais é preciso encontrar palavras portuguesas. Mas muitas vezes já as temos, simplesmente a ignorância ou a preguiça levam ao uso do inglês, por tudo e por nada.
    Ora, o português é uma língua rica - vem do latim, é bom não esquecer - com recursos vocabulares imensos - sopesem um bom dicionário e terão uma ideia - e é capaz, pela sua ductilidade sintática e capacidade lexical, resolver todos os problemas. E uma língua a que não se exige a expressão dos raciocínios mais complexos, e fica reduzida às falas correntes, cada vez mais pobres, como se verifica já, a prazo está condenada. O certo é que os jovens já usam com o maior dos à vontades um português entortado e invertido por influência do inglês. O português é uma língua nobre! Nunca lhes ensinaram isto?

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  2. O País é Pequeno e a Gente que nele Vive também não é Grande

    Em tempos disse que Portugal estava culturalmente morto. Talvez o tenha dito em determinado momento, mas também o diria hoje porque Portugal não tem ideias de futuro, nenhuma ideia do futuro português, nem uma ideia que seja sua, e vai navegando ao sabor da corrente. A cultura, apesar de tudo, tem sobrevivido e é aquilo que pode dar do país uma imagem aberta e positiva em todos os aspectos, seja no cinema, na literatura ou na arte - temos grandes pintores que andam espalhados pelo mundo. Mas o Almeida Garrett definiu-nos de uma vez para sempre e de uma maneira que se tem de reconhecer que é uma radiografia de corpo inteiro: «O país é pequeno e a gente que nele vive também não é grande.» É tremenda esta definição, mas se tivermos ocasião de verificar, desde o tempo do Almeida Garrett e, projectando para trás, efectivamente o país é pequeno (...), mas o que está em causa não é o tamanho físico do país mas a dimensão espiritual e mental dos seus habitantes.

    José Saramago, in 'Uma Longa Viagem com José Saramago (2009)'

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