quarta-feira, 7 de setembro de 2022

DEVEMOS FICAR TRANQUILOS QUANDO CONFIAMOS A EDUCAÇÃO ESCOLAR A PROFESSORES QUE O NÃO SÃO?

Quem ouviu ou leu as declarações do Ministro da Educação, feitas na sessão solene de abertura deste ano lectivo, sobre o recrutamento de professores e o que a tutela está a fazer "para mitigar as carências que existem” destes profissionais, ficará com a ideia de que, caso os horários disponíveis sejam rapidamente ocupados, não há problemas de maior (ver, por exemplo, aqui e aqui).


E talvez não haja! 

Talvez não haja problema algum numa sociedade, que vai além da nossa, que
- quer que os professores deixem de ser designados como tal e passem a ser designados por tutores, mentores, orientadores...
- rejeita o ensino, sustentando que a aprendizagem pode acontecer sem a intervenção pedagógico-didática do professor;
- cria escolas que publicitam como sua mais-valia o desaparecimento das aulas, a negação do ensino e a transformação do papel do professor.
Nesta sociedade, de que fazemos parte e na qual temos responsabilidade, não se vê propriamente com maus olhos que quem se apresente, em contexto escolar, com funções educativas a um grupo de crianças ou adolescentes não seja bem professor, basta que seja mais ou menos capaz de estar perto deles... Não sabemos bem para quê...

Dizia na televisão, há uns dias, um comentador de economia, a propósito da falta de médicos: "este é um problema sério pois substituir um médico não é a mesma coisa que substituir um professor". E a conversa continuou como se o dito fosse uma evidência.

Portanto, se não faltarem muitos "professores" o ano abre tranquilo. Ou seja, nós, sociedade, ficamos tranquilos e damos tranquilidade ao ministro. 

PS: Não entendi, nas notícias, a ligação entre "tranquilo" e "sem ilusões". É possível ficar-se tranquilo "sem ilusões"?

4 comentários:

  1. Estes textos sucedem-se como se realmente houvesse alternativas. 1) Quase todos os professores que estão no activo mais velhos, não têm "mestrado em ensino de", portanto também não devem ser "professores", pela definição da autora.... Muitos vieram do antigo magistério e até foram formados a partir de tele-escola depois do PREC e tal... e agora quer-se passar uma esponja sobre este assunto. Portanto dá a ideia então que todos estes professores devem ser uns incompetentes... E como sabem que são incompetentes têm medo que os seus sucessores sejam tão incompetentes como eles, apesar de terem mais habilitações (ao menos os de agora até já vêm com licenciaturas e mestrados e até doutoramentos, versão científica). 2) Ou será que acham que são bons professores, e que se tornaram professores, aprendendo no terreno, e depois com formação ao longo da vida? É assim tão criminoso usar a mesma bitola que já foi usada no passado? É assim tão trágico aceitar licenciados, mestres e doutores com a via científica para dar aulas, e confiar que vão aprender em contexto prático, com ajuda e supervisão dos pares, e depois com profissionalização em serviço as pedagógicas? Isto não é um retrocesso, isto é que seria um avanço! É que estamos a falar de meia dúzia de cadeiras pedagógicas, quão difícil acham que isso é? 3) Os "mestrados em ensino de", porque é disso que realmente se trata, são uns mestrados de chacha, convenhamos. O que lá se aprende não é realmente o que faz a grande diferença entre ser-se um bom ou mau professor, sobretudo se desgarrado da prática. Há realmente muita falta de ciência nessas cadeiras, parece que toda a gente tem teorias de como se deve ensinar, muito poucos sobre como os alunos realmente aprendem, que é o que mais interessa. Portanto, isto é uma obsessão ridícula. Tudo o que supostamente se aprenderia nessas cadeiras pedagógicas pode ser ensinado melhor no terreno e em aulas pós-laborais enquanto se está no período probatório. 4) o ponto central, é mesmo: Não HÁ ALTERNATIVA. Estamos a aceitar professores sem a habilitação profissional, reconhecida por lei desde 2007, porque não existem candidatos suficientes com ela, pelo menos nas zonas geográficas pretendidas. Ok? Isto não é difícil de entender. Se não os aceitarmos a alternativa é os alunos ficarem sem aulas, ou ir tudo corrido a tele-escola desde já. É isso que se pretende? Qual é a solução pragmática para os próximos 5 anos? Expliquem-nos lá... 5) Quem fala do caso dos médicos, talvez não se tenha apercebido que já andamos a fazer isso há anos também. Temos inúmeros casos de médico indiferenciados, sem a especialidade, já no sistema, sobretudo como médicos de família. E temos já casos relatados de alunos do último ano, nas urgências, a cobrir buracos de especialistas. Porque a alternativa era realmente ficarem buracos, por falta de médicos. O problema é similar. E vai estender-se a muito mais áreas. 6) Isto não tem só a ver com baixos salários ou carreiras pouco atractivas, tem também a ver com o Inverno demográfico e a migração de pessoas qualificadas para outras paragens. Simplesmente há demasiados trabalhos no mundo a exigir pessoas qualificadas, e não há pessoas no mundo com essas qualificações para os executar. Ao invés, temos muitas pessoas qualificadas noutras áreas, para as quais não há procura nem necessidade. Isso tem também a ver com a noção de que "estudem o que quiserem, podem ser quem quiserem" tão fomentada no ocidente. Abriram-se numeros clausus a mais, em imensos cursos - sobretudo nas ciências sociais, humanidades e artes - para os quais não existe oferta de emprego. E há falta gritante de gente qualificada e oferta de trabalho, em serviços que precisam de ser feitos, mas falta de pessoas que estejam motivadas ou qualificadas para os fazer. 7) O facto do título do post ter gralhas também não abona muito à exigência de rigor que pretende impor aos outros (Esta é mesquinha eu sei, mas não resisti)...

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    1. Prezado Miguel
      O argumento que usa – argumento TINA (There is no alternative) – tem sido sobejamente usado não só, mas também, na Educação. Os Estados deixam chegar, em diversos aspectos, os sistemas educativos a um tal estado de necessidade que, num determinado momento, não se vê qualquer alternativa capaz de a superar que seja diferente daquela que os Estados “sugerem” (o que não significa que não exista). No caso, o aspecto é a falta de professores. Ora, a falta de professores está há muito diagnosticada, tanto em Portugal como em muitos outros países. Por razões que temos apontado neste blogue (orientações supranacionais, pressões empresariais, financiamento, etc.), os países não têm tomado medidas compatíveis com o diagnóstico. E, portanto, estamos agora nesta situação que é uma situação gravíssima e, nessa medida, merece a melhor atenção da sociedade.
      Quanto às questões específicas que coloca.
      1) Nunca afirmei, aqui ou noutro lado, existir uma relação directa entre a formação de professores e a sua competência profissional (sendo que esta expressão está longe de ser linear). Por certo, haverá professores que tiveram formação nos contextos que refere e que estaríamos de acordo em considerar competentes, como haverá professores que passaram por contextos muito refinados de formação e que estaríamos de acordo em considerar pouco competentes ou, mesmo, incompetentes. Mas isso não justifica, de modo algum, anular a importância de uma formação que temos por adequada. Em complementaridade, devo esclarecer que nunca afirmei, aqui ou noutro lado, que os “mestrados em ensino” representam “o” modelo de formação de professores, modelo de tal forma excelente que nenhuma crítica lhe passa ser feita. Na verdade, muitas e diversas críticas lhe podem (e devem) ser feitas, mas sempre com o sentido de formar professores competentes: a educação escolar é nada menos do que fundamental na vida de cada um e da sociedade pelo que entregar, de ânimo leve, os educandos a professores incompetentes é um risco elevado, que seria sensato não estarmos dispostos a correr. Contudo, apesar dos males que os “mestrados em ensino” tenham (e têm-nos), eles representam um patamar de profissionalização que, depois de momentos conturbados de formação, conseguimos alcançar. A partir dele, não deveríamos regredir; deveríamos progredir (ou seja, aplicar os melhores esforços na sua melhoria). Penso que se perceberá melhor o que acima disse se fizermos um paralelismo da formação de professores, com a formação de médicos, de pilotos de aviação e de outros profissionais a que imputamos grande responsabilidade.
      (continua...)

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    2. (continuação)
      2) No respeitante ao segundo tópico que refere, e ligando ao que acabei de escrever, aceitaria que um médico ou piloto de aviação, depois de uma preparação teórica, aprendessem “no terreno” e “ao longo da vida” a sua profissão? Além do mais, temos aqui um problema ético de monta: seriam os doentes, os passageiros que, como sujeitos de primeiras experiências profissionais, sofreriam as consequências e os profissionais, caso tivessem consciência, também não ficariam indiferentes.
      3) Noto no respeitante ao terceiro tópico que, realmente, as cadeiras/ disciplinas/ unidades curriculares são mais ou menos o número que refere, mas a prática supervisionada (que, lamentavelmente, não é estágio) está contemplada. Não sei em que se baseia para dizer que essas cadeiras pedagógicas (que também são de didáctica) têm “muita falta de ciência”. De resto, elas repartem-se pelas áreas da Ciência e da Filosofia (não sendo esta menos relevante do que aquela).
      4) Saltando um tópico (para evitar repetir-me), não posso deixar de reconhecer, com grande preocupação, que o problema de que estamos a falar se estende (já) aos médicos e talvez em breve saberemos de outras áreas em que faltam profissionais. Mas não será com um problema gravíssimo que se justifica outro de igual gravidade, passando adiante.
      6) Quanto ao sexto tópico, as questões que levanta são muitas e de resposta difícil, exigem mais ponderação do que a que poderia aqui deixar. Noto, porém, que a “utilidade” (em função de critérios de empregabilidade, estabelecidos nem sempre em função da ideia de serviço à comunidade) não pode (não deve) ser a única a orientar a educação e a formação, no caso a formação de profissionais. O que seria do mundo sem arte e sem humanidades?
      Finalmente, agradeço a anotação ao título do post. Não se trata de uma anotação mesquinha, como diz, trata-se de um favor: a detecção erros permite superá-los.
      Cordialmente, MHD

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  2. Os grandes princípios orientadores do ensino infantil e secundário, em Portugal, são:
    1.º - Os professores e os educadores de infância, ou seja lá quem for, não devem ensinar;
    2.º - O ensino é obrigatório, para crianças, adolescentes e jovens, até aos dezoito anos de idade.
    3.º - Na escola obrigatória, é secundário se os alunos aprendem pouco, ou nada, porque é mais do que satisfatório que "melhorem a sua aprendizagem". Esta "melhoria da aprendizagem" resume-se, muitas vezes, na leitura, perante o Conselho de Turma, de um relatório médico que atesta as dificuldades de aprendizagem do aluno. Ou seja, o sucesso escolar também é obrigatório!
    Não é fácil mudar um sistema de ensino que se baseia na hipocrisia (υποκριτής).

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