terça-feira, 20 de setembro de 2022

Os "Objetivos de Desenvolvimento Sustentável" continuam a marcar a agenda educativa em todo o mundo

Por Cátia Delgado

Terminou ontem a Transformating Education Summit, da ONU, em Nova Iorque, uma conferência que convocou os líderes mundiais e jovens para debater possíveis respostas à crise atual no domínio da educação. 


Considera-se que esta crise está a ter um “efeito devastador no futuro de crianças e jovens de todo o mundo”, apelando-se ao envolvimento de todos para a sua mitigação. A partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, definidos por este organismo, em 2015, foram constituídos agora 5 temas de ação, a saber:
- Escolas inclusivas, equitativas e saudáveis;
- Aprendizagem e competências para a vida, trabalho e desenvolvimento sustentável;
- Professores, ensino e a profissão docente;
- Aprendizagem e transformação digital;
- Financiamento da educação.
Como tem sido apanágio da ONU, a primazia discursiva foi dada aos jovens, com destaque para Malala Yousafzai, Prémio Nobel da Paz e Mensageira da Paz da ONU: 
“Se levam a sério a criação de um futuro seguro e sustentável para as crianças, então levem a sério a educação.”
Também o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, se expressou no mesmo sentido:
“Sem educação, onde estaria eu?” 
E prosseguiu, desta vez, colocando a tónica na urgência de mudança
“Mas também sabemos que precisamos de transformar a educação, porque a educação está numa profunda crise. Em vez de ser um grande facilitador, está a tornar-se, rapidamente, num grande limitador.”
No que diz respeito aos professores, como vem sendo hábito das grandes organizações mundiais, que desconhecem o verdadeiro trabalho levado a cabo por estes profissionais, começa por valorizá-los, mas depressa subverte o seu papel, descredibilizando-os:
“Os professores são o sangue vital dos sistemas de educação.”
MAS...
precisam de ser facilitadores na sala de aula, promovendo a aprendizagem em vez de meramente transmitirem respostas. / Devem ajudar os estudantes a adaptar-se a um mundo de trabalho em rápida mudança.”
Além destas contrariedades, não posso, também, deixar de notar uma sensação de vazio em todos estes discursos. Possivelmente por verificar que, na realidade escolar, a inclusão faz-se pela distribuição de computadores a todos (resume-se a isto?); o foco nas aprendizagens para a vida desvirtua a formação humanista dos indivíduos, tão necessária numa sociedade tendencialmente parca de valores; a valorização dos professores fica, essencialmente, pelas palavras, bastando olhar para a crise global de falta de interessados em seguir a profissão; a transformação digital das escolas contribui para o desacelerar da aprendizagem dos conteúdos e conhecimentos basilares, comprometendo, de forma evidente, a continuação de um legado cultural e científico que tantos anos demorou a construir e o futuro das sociedades; finalmente, o apelo ao financiamento vem entregar, ainda mais, a educação nas mãos dos que dominam o mercado, pelo que, sendo o mercado de tal modo assimétrico, a educação jamais será equitativa.

6 comentários:

  1. Assim, os professores e alunos atuais desempenham o papel de cobaias na experimentação de modelos educativos que possam vir a substituir a "velha escola". Até ao momento presente, esses modelos "inovadores", só conseguiram impor o sucesso escolar universal e fraudulento, por meio da anarquia e estupidez que vieram instalar no sistema de ensino.
    Por exemplo, as ordens transmitidas pelo ministério da educação aos professores, de uma forma sub-reptícia e hipócrita, vão no sentido de estes ensinarem o menos possível para que cada um dos alunos possa ser avaliado tão exaustivamente, desde a criatividade até ao seu perfil expectável de cidadão à saída da escolaridade obrigatória, que o professor não tem outra opção senão fingir que avalia muito positivamente o aluno em variadíssimos "domínios" para além dos retrógrados conhecimentos escolares.
    António Guterres não é filho da alta burguesia. Para estar onde está, teve de frequentar uma escola em que se dava valor ao estudo e à inteligência.

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  2. Caro Leitor,
    de facto, os critérios de avaliação atuais são tão amplos que permitem sempre valorizar o aluno, independentemente do seu desempenho académico, tal como inscrito no Perfil, de tão abrangente e disperso que é. Estamos a avaliar com base na potencialidade, em vez da capacidade de concretização. Trata-se de uma estratégia a partir da qual o sucesso é quase 100% provável, o recurso a um "guarda-chuva" linguístico no qual todos cabem.
    Cumprimentos,
    Cátia Delgado

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  3. Manter o máximo de abertura possível a teorias plausíveis e implausíveis, numa fase preliminar de indagação e de sufrágios acerca das propostas a escolher, não é, por princípio, má política e até pode ser boa. Não obstante, deparamos com irredutíveis visões, até de professores e de directores, para não dizer de governantes, que têm acrescidas preocupações discursivas, tão dogmáticas que, na sua forma, exprimem o conceito de simplex na educação, numa versão de utilizador, que nos remetem para tradições passadas de discriminação por tipologias biológicas e morfológicas, para não dizer subsidiárias do eugenismo, implicações estas de que estão longe de ter conhecimento ou consciência.
    O assunto não é tão complexo como parece. É simplex para a educação.
    O professor e o aluno não são segredo para ninguém que acredite num determinismo natural que dita no berço o que a cova tira.
    Sabe-se o que o aluno pode e deve fazer. Sabe-se o que o professor pode e deve fazer. Mas há uma diferença fundamental que coloca o ónus sobre o professor, que desonera os governos e as direcções das escolas até, e apenas, quando surgem as responsabilidades políticas destes. E com responsabilidades políticas todos lidam mais ou menos airosamente.
    Essa diferença fundamental é que, nesse quadro que se configura determinista, o professor é o único factor decisivo, não totalmente, porque só é decisivo nos casos em que os resultados não correspondem ao esperado. O expectável é um problema que nem se coloca neste modo de pensar as variáveis e os intervenientes no processo ensino-aprendizagem.
    Então, o problema que colocam ao professor é o seguinte, e não podia ser mais simples: um aluno chega à sua turma com uma determinada avaliação, que vem de anos anteriores. Se for de 20, tens de o avaliar com 20, porque é aluno de 20. E assim sucessivamente. Tudo o mais são incapacidades, inabilidades, incompetências, insuficiências, do professor, porque, qualquer que seja a conduta, o envolvimento do aluno, ou as contingências e acidentes do processo, o professor não terá justificação para que um aluno de 20 não tenha vinte, a não ser que se declare incompetente.
    Quem diz chegar com uma avaliação escolar, por maioria de razão, diria com testes psicotécnicos, ou relatórios da especialidade.
    Não é o professor que diz ao aluno a classificação que vai ter. É o aluno que dita ao professor a classificação que este lhe deve dar, se não quiser levantar problemas completamente desnecessários e inoportunos para si próprio.

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    1. Caro Leitor,
      agradeço a sua exposição que dá um claro exemplo, não da mudança de papéis a que se tem vindo a assistir na educação, mas da sua inversão, o que é ainda mais ilegítimo. Vale muito a pena pensar nisto, não só no que toca à avaliação, mas também, como já aqui referi, à definição dos próprios currículos. Da aprendizagem centrada no aluno passámos rapidamente, e de ânimo leve, à escola centrada no aluno. É preocupante!
      Cumprimentos, Cátia Delgado

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  4. A independência política e económico-financeira de Portugal é muito limitada. Por exemplo, no que concerne à política educativa, quando os estrangeiros mandaram centrar a escola no aluno, em Portugal, os portugueses obedeceram imediatamente. Há poucos anos, as autoridades lá de fora decretaram a suspensão de feriados e a alteração dos nomes e territórios de freguesias em Portugal, e que remédio tivemos nós senão cumprir as ordens?!

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  5. Caro Leitor,
    Portugal tem particular apetência para a subserviência, mas não fica por aí. Além do "recomendado" por instâncias externas, consegue, sobretudo em matéria educativa, acrescentar mais uns pontos, como é o caso da "escola centrada no aluno". A título exemplificativo, como se não bastasse cumprir as orientações que nos chegam, de forma acrítica e descontextualizada, ainda "inovamos", com a pretensão de deixar uma marca e sermos reconhecidos nos círculos internacionais, e damos a possibilidade aos alunos de tomar decisões curriculares.
    Cumprimentos, Cátia Delgado

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