terça-feira, 13 de setembro de 2022

Digitalização da escola: uma volta sem retorno

Por Cátia Delgado

Já sabíamos que a digitalização dos manuais escolares era um empreendimento central na transformação da escola prevista no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito do Programa de Digitalização para as Escolas. O que nestes dias se descortinou, entre linhas, numa entrevista do Ministro da Educação à Agência Lusa e num podcast do Expresso, foi a previsão de, até 2026, todos os alunos do sistema nacional de educação estudarem por manuais escolares digitais. 

De um projeto-piloto, iniciado em 2020/2021, ano de pandemia, com a participação de 9 escolas, num ápice se generaliza a medida, porque “os manuais digitais tiveram uma 'belíssima adesão' por parte dos alunos, professores e das famílias”. 

É esta a conclusão de um estudo que avaliou a implementação do projeto-piloto nas 9 escolas, justificando, rapidamente, a transposição desta medida, altamente disruptiva, para um universo de cerca de 800.

Ainda assim, João Costa reconhece algumas desvantagens deste tipo de ferramentas:

No caso dos primeiros anos de escola (...) acredita ser vantajoso para as crianças terem manuais em papel para, por exemplo, trabalhar a motricidade fina.” 

Acrescenta: 

“para muitos alunos, infelizmente, é o primeiro contacto com o livro em papel e é preciso também não perder esta dimensão fundamental das nossas vidas e, portanto, este trabalho vai ser feito em parceria com as editoras nos próximos meses.”

Como já é habitual, há incongruências no discurso do Ministro. A medida é para todos, mas:

-  é vantajoso que os alunos tenham, nos primeiros anos, livros em papel;
- é preciso não perder esta dimensão (do livro em papel). 

Aguardemos, pois, os resultados das negociações com as duas grandes editoras.

7 comentários:

  1. Exige-se hoje este desmontar das narrativas. Serviço público em defesa da democracia.

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  2. A ciência não está do lado desta medida, e isto é tanto mais grave em crianças pequenas, e o ministro sabe disto a avaliar pelo discurso dele. Portanto, isto é apenas ceder ao economicismo. Sabemos que retemos informação através de inúmeras pistas sensoriais e não apenas visuais: o cheiro e textura do papel, a margem das folhas, as diferentes fontes, a iluminação, temperatura e ambiente em que lemos. Quando mais único for um livro, mais pistas sensoriais cria para ajudar a compreensão e memória. Livros digitais, em e-readers que perdem informação e uniformizam impossibilitam a apreensão desta forma. Isto vem-se juntar à questão já antes levantada, também, de como o uso de écrãs em tenra idade vai modificando a estrutura neuronal dos cérebros e pode modificar o "attention-span". Será preciso confrontar os intervenientes em qual o racional da medida perante a evidência científica conhecida.

    https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1747938X18300101

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  3. Caros Leitores, 
    este Ministro tem uma grave fixação em colocar Portugal no mapa da educação internacional. 
    Com estas medidas, só nos está a dizer uma coisa: em nada importa se os alunos aprendem, desde que Portugal responda, de forma altamente eficaz, às demandas externas. 
    Naturalmente que a digitalização dos manuais escolares, em particular, é extremamente preocupante, pois, ao contrário do que o Ministro refere, estes são, de facto, o único contacto com livros que muitas crianças e jovens têm em casa. Não sendo o único instrumento de que o professor dispõe, ao ter que optar por outros, caso tenha consciência dessa necessidade, verá o seu trabalho duplicado.
    Já para não falar no grande comprometimento das aprendizagens em ambientes hiper estimulantes, que induzem à multitarefa e à distração, pela velocidade com que apresentam a informação a processar, gerando um nível mais rasteiro de compreensão (hipótese da superficialidade, Annisette, L. E., & Lafreniere, K. D. 2017). 

    https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0191886916300988?via%3Dihub 

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  4. Ainda estamos a tentar perceber o que é que aconteceu à Escola, aos professores, ao ensino, com o advento do digital.
    Ainda não tivemos tempo para respirar e entender por que razões o nosso deslumbramento nos tornou (aos professores) sucessivamente enfraquecidos perante as estruturas ordenantes ou directivas.
    Ainda não percebemos como é que as facilidades e as vantagens do digital e da informática se tornaram num pau de dois bicos, empoderador para uns, para quem manda, menos empoderador para outros, para quem está sujeito ao cumprimento de objectivos, e aqui incluo também os alunos. Ainda não sabemos como é que o potencial inimaginável das tecnologias digitais se transformou num impensável e não expectável tormento para professores e alunos.
    As coisas aconteceram tão rapidamente, os ritmos e os processos e os modos de intervir e de decidir e executar, tomarram de tal modo a dianteira, que os professores perderam o controlo da situação e não tiveram, nem têm ainda, quem resolvesse esse problema.
    Não foi por o carro à frente dos bois, foi o carro atropelar os bois, como tantas vezes acontece por excesso ou desequilíbrio da carga.
    Os professores começaram por perceber que as suas funções iriam ser incrementadas de um modo nunca antes experimentado.
    Eu vivi esse tempo de entusiasmo e de deslumbramento que, ainda hoje, não me parece ter sido exagerado.
    Mas víamos cada vez com mais preocupação que o centro de gravidade se deslocava dos fins para os meios e isso, que nos apanhou de surpresa, tirou-nos o tapete.
    Hoje assistimos e vivemos um processo de doloroso inconformismo, em que uns tomam os meios pelos fins, outros não trocam os fins pelos meios, e a maior parte não compreende ainda por que é que os meios se revelaram tão inadequados, ou inaptos, a realizar o milagre das tecnologias digitais nas escolas, em que todos ainda acreditam.

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  5. Caro Leitor,
    a pressa é uma das estratégias políticas mais recorrentes na atualidade educativa, aliada ao silêncio dos processos, apenas revelados quando praticamente terminados ou colocados em prática em projetos-piloto, para não da aso à discussão nem ao questionamento. Os professores só se apercebem das reformas quando já estão instaladas, validadas por algumas (poucas) escolas criteriosamente selecionadas e, aí, dá-se lugar à resignação de já nada se poder fazer. As "revoluções silenciosas", como catalogou o primeiro-ministro, estão, realmente, a comandar os desígnios da educação.
    Cumprimentos, Cátia Delgado

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  6. Se as autoridades do ministério da educação dizem que avaliação dos alunos com base no aproveitamento e comportamento é retrógrada, que a avaliação de cada aluno deve incluir uma parafernália delirante de domínios, sudomínios, rubricas, temas, descritores de nível de desempenho, grelhas de múltiplas entradas e saídas, com imensas ponderações percentuais, e entrando em linha de conta com o Perfil Normalizado do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória e as Aprendizagens Essenciais, muitos professores têm vergonha de assumir que não entendem esta farsa, dado que nas universidades, onde se formaram, só aprenderam a ensinar, e justificam a sua adesão a métodos de avaliação delirantes e inexequíveis, sem recurso à fraude, com a expressão dogmática "Ministro Dixit", papagueando o Magister Dixit da Idade Média.

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    1. Caro Anónimo
      Posso estar errada, mas considero que a adesão de muitos professores ao que vem de instâncias (que consideram) superiores (internacionais e nacionais, como organizações, fundações, tutela, universidades...) tem a ver com a falta de preparação e de crítica que a formação deveria facultar e não faculta (pelo menos como devia). Tenho estado atenta ao fenómeno que refere e o que vejo é as escolas complicarem o que lhes chega já complicado (e sem sentido). Se os professores estivessem mais seguros, em termos de conhecimentos profissionais, em relação ao que se lhes pede ou exige, aconteceria o contrário. Pode-se dizer que contra mim falo, pois trabalho na formação inicial e contínua de professores, mas há que encarar o problema pois é de um verdadeiro problema que se trata.
      MHDamião

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