sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A PERFEIÇÃO

Por João Boavida

O conceito de perfeição é subtil. Não necessariamente complexo, embora habitualmente o seja também, mas sobretudo subtil porque requer um apreciador com um quadro valorativo esclarecido. É um limite que a pessoa que aprecia estabelece subtilmente, segundo uma escala de avaliação que pressupõe, mesmo que a não reconheça com nitidez, e que, por sua vez, exige um gosto educado. Quase podemos dizer que não há perfeição sem alguém que seja capaz de pensar o topo de um domínio de execução artística. Por isso é também, em grande medida, pessoal porque duas pessoas de gosto igualmente educado podem não apreciar o mesmo produto estético. 

Em suma, a perfeição é algo que o objeto pode alcançar aos olhos de alguém; não é independente da ação de apreciar, e esta depende do apreciador e do cânone segundo o qual é apreciado. É portanto algo que depende de muitos fatores e é, por isso, também complexo.

Mas além da perspetiva do apreciador temos de considerar a do artista, até mais esta que aquela. O artista pode intuir o grau de perfeição que quer alcançar, pode sonhá-lo mas, em verdade, nunca o alcança. E como há artistas que põem nisso a principal preocupação, e outros não, podemos pensar em obras que nos parecem mais próximas da perfeição do que outras.

Eça de Queirós, por exemplo, coloca no trabalho oficinal muito mais esforço e cuidado que Camilo Castelo Branco, mas isso não retira qualidade a este que vai buscar as suas vantagens a outros campos pelos quais supera Eça. É portanto mais fácil falar em perfeição em Eça, que em Camilo, mas isto não é tudo. 

Por isso, o conceito de perfeição é algo perigoso, porque pode ser limitativo, na medida em que é subjetivo.

Vejamos ainda, aproveitando exemplos de artigos anteriores: aquilo que é “perfeito” em Aquilino Ribeiro é menos perfeito em Agustina Bessa Luís; e aquilo que é quase perfeito nesta é imperfeito naquele. São processos de construção muito diferentes, com dinâmicas e enquadramentos diferentes e, portanto, com tendência a manifestar-se cada um deles em certos aspetos e não noutros e a ter valorizações específicas que tornam difícil a comparação. As suas obras são universos distintos unidos pela mesma língua.

Os gregos ligavam à ideia de perfeição a de acabamento e finitude, e a de imperfeição ao não acabado, como se verifica ainda, entre nós, com a designação de “Capelas Imperfeitas” ao inacabado Panteão de D. Duarte, no Mosteiro da Batalha, as quais, em termos de perfeição, são tão perfeitas como o resto, e com o todo do mosteiro formam uma unidade estética coerente.

Mas entre os gregos era sobretudo a ideia de um objeto que alcançou o seu fim. Em Aristóteles, o perfeito é o melhor do seu género e nada o pode superar. Uma frase literária, um trecho musical, uma pincelada, podem alcançar um nível insuperável e, portanto, serão considerados perfeitos porque, alterar alguma coisa, seria estragá-los. A obra-prima será, pois, aquela em que não é possível acrescentar nem tirar nada.

Mas não será só isso, tem também a ver com a construção e, portanto, a obra-prima é aquela em que o funcional se articula com o estrutural, isto é, em que a função atua em ordem à estrutura, e dentro dela, e, esta, o que subjaz àquela, o que a orienta e lhe dá razão de ser. Podemos relacionar isto com a ideia escolástica de identificação da perfeição com ato, em que a perfeição absoluta é a que exclui qualquer potência, ou seja, a que já não tem potência em ação, isto é, qualquer imperfeição a exigir aperfeiçoamento pois a potência, na teoria aristotélica, é o que dinamiza os aperfeiçoamentos, e a obra perfeita é a que já os dispensa.

Por isso, enquanto o conceito de perfeição implica a ideia de ascensão, processo de aperfeiçoamento cada vez mais exigente, em ciência o que é determinante é a correção ou incorreção dos cálculos e das fórmulas, a verdade ou a falsidade das suas proposições. São, pois, universos valorativos diferentes. 

Mas esta ideia grega de perfeição como algo acabado coloca ainda outro problema: se alcançarmos a perfeição seremos sempre levados a pensar no mais além disso. De facto é sempre difícil saber, no processo de criação de uma obra, onde está o seu ponto culminante; o artista terá sempre as suas dúvidas, e os apreciadores sempre podem descobrir imperfeições, reais ou imaginárias. Mas o que sobretudo nos leva a ultrapassar esta ideia é que ela foi profundamente abalada pelo mundo moderno e pela libertação dos quadros que vigoraram desde a Antiguidade Clássica até finais da Idade Média, e que entraram em crise a partir daí.

A nossa mundividência moderna é muito diferente da clássica. Eles tinham uma ideia de cosmos finito, e de uma Terra no centro desse cosmos; nós hoje sabemos que o universo é infinito ou a tender para isso, e a Terra não é mais que um pequeno grão perdida na imensidão dos astros. Por outro lado, tudo na realidade é dinâmico, interativo e muitas vezes dialético, e os movimentos artísticos seguiram esta tendência sobretudo a partir do Romantismo, que rompeu com as métricas e a noção de perfeição do Barroco. Mas não só, idêntico movimento deu-se na pintura, na música, na literatura, na pedagogia e até na libertação da Natureza das condicionantes divinas, e o que isso implicou em termos de desenvolvimento científico e de autonomização da consciência moral.

Contudo, nem isto é muito correto porque, em termos literários, pelo menos, há uma série de obras que vêm detrás, obras “inacabadas”, ou, pelo menos, suscetíveis de serem desenvolvidas quase indefinidamente, e que pressupõem formas de fazer bastante “imperfeitas” em relação à forma clássica. 

As Mil e uma Noites, por exemplo, conjunto de histórias indianas, persas e árabes, coligidas a partir do século IX; Os Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer, em finais do século XIV, na linha do Decameron, de Giovanni Bocaccio; a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, e o D. Quixote de la Mancha, de Cervantes, do século XVI / XVII; A vida e opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, em pleno século XVIII; o Manuscrito encontrado em Saragoça, de Jan Potocki, do século XVIII / XIX, ou até Charles Dickens, já no século XIX, nos Cadernos de Pickwick, são obras abertas, cuja estrutura é determinada pela sequência dos acontecimentos e não por uma ideia prévia de acabamento.

Vão-se concretizando, aparentemente sem grandes preocupações de perfeição; imaginamos, pelo menos, que poderiam ter sido continuadas sem perda. Nos nossos dias é um bom exemplo, a obra 2666, de Roberto Boloño (1953-2003) e cuja maior “perfeição” está na riqueza imensa e contínua dos acontecimentos, múltiplos e cruzados, e onde talvez não se possa falar de perfeição porque não é preciso, a sua grandeza ultrapassa muitos cânones.

De resto, todo o movimento das artes plásticas na modernidade rompe com o conceito de perfeição clássico, embora, mesmo que não queira, aponte no sentido de outros, porque toda a obra humana pressupõe aperfeiçoamentos possíveis e estes, um limite que, como tal, é insuperável.

Por fim, e voltando a uma perspetiva filosófica, algo pode ser perfeito por aquilo que é, como o conceito de Deus que é perfeito em si mesmo, e por aquilo que vale, como uma obra de arte que alcançou, na consideração geral, valor insuperável. 

Mas também por aquilo que é e por aquilo que vale, numa espécie de síntese ontológica e axiológica, que é a obra humana depois de feita. A qual, embora ainda suscetível de aperfeiçoamento, rompe, pela sua envergadura e poder, os cânones anteriores e solicita outros que, mais tarde ou mais cedo, aparecerão, exigindo outra ideia de perfeição que será deles, idealmente, coroamento e ápice. 

João Boavida

1 comentário:

  1. A ideia de Deus, que aparece no texto, é filosófica e teológica, e só foi referida como exemplo de um ente perfeito; pelo menos é assim que o entendemos modernamente. Se existe ou não é uma questão que para o caso não tem interesse. Em todo o caso, mostra que há em nós uma ideia de perfeição, inacessível, mas de que não conseguimos libertar-nos facilmente. E tê-la produzido o género humano é um maravilhoso sinal das nossas possibilidades e das nossas aspirações. Deus é onde o melhor de nós se reflete . A arte, como criação e aspiração não anda longe desta desta vontade e desta ânsia.

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