sábado, 10 de setembro de 2022

O CIENTISTA «PATRIARCA DA INDEPENDÊNCIA»


Meu artigo no último JL:

A sua imensa popularidade no Brasil contrasta com o seu quase desconhecimento entre nós. Por isso, nos duzentos anos da independência do Brasil, vale a pena lembrar um cientista brasileiro formado em Portugal que, tornando-se político, instou o futuro imperador D. Pedro a dar o «grito do Ipiranga». José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) merece ser conhecido pela sua intensa e diversa actividade: nascido em Santos, concluiu na Universidade de Coimbra os cursos de Filosofia Natural e de Direito, sendo logo admitido na Academia de Ciências de Lisboa; no final de uma longa viagem científica pela Europa identificou, numa mina da Suécia, a petalite, que foi o primeiro mineral contendo lítio; de regresso à sua alma mater, foi professor de Metalurgia, Intendente Geral de Minas e Metais do Reino e dirigente de várias minas; combateu os invasores franceses integrando o Batalhão Académico; entrando na política brasileira, foi conselheiro de D. João VI e D. Pedro, ministro do primeiro governo brasileiro e membro da Assembleia Constituinte, fazendo jus ao cognome de «patriarca da Independência»; exilado em França pela interrupção forçada dos trabalhos da Constituinte ocupou-se das belas letras; de volta à pátria, foi perceptor do infante, mas caiu de novo em desgraça, morrendo pobre numa sua casa em Niterói, Rio de Janeiro. Em contraste com o médico Egas Moniz, que começou por fazer uma carreira política e depois teve uma fulgurante carreira científica, José Bonifácio conheceu primeiro enorme êxito na ciência para depois enveredar pela política.

Vejamos a sua vida em maior pormenor. Oriundo de uma família rica da capitania de São Paulo, José Bonifácio formou-se em 1787 na então recente Faculdade de Filosofia, que tinha sido instituída pela Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra de 1772 (há 250 anos!) e um ano depois, num complemento invulgar, na Faculdade de Direito. Em 1790 iniciou, com um subsídio estatal, um périplo pela Europa, que lhe proporcionou contactos com alguns dos melhores centros científicos da Europa: visitou a França, Itália, Alemanha, Dinamarca, Holanda, Suécia, Grã-Bretanha, etc. Em Paris, então no auge da  Revolução Francesa, aprendeu Química com dois continuadores de Lavoisier – Jean-Antoine Chaptal e Antoine François de Fourcroy. Centrando-se no estudo dos minerais, foi discípulo de René Just Haüy, o fundador da Mineralogia em França, e aprendeu Metalurgia com Baltazhar-Georges Sage, director da Escola de Minas de Paris. Na Escola de Minas de Freiberga, perto de Dresden, foi discípulo do geólogo alemão Abraham Gottlob Werner e colega do grande naturalista também alemão Alexander von Humboldt (irmão do filósofo Wilhelm, que, em Berlim, haveria de fundar a universidade moderna). A descoberta da petalite foi anunciada em 1800, no Allgemeines Journal der Chemie, de Leipzig, em conjunto com a de outros onze minerais. O seu currículo internacional valeu-lhe a entrada em várias academias científicas do mundo.

Quando José Bonifácio regressou a Coimbra aos 37 anos, ocupou uma cátedra de Metalurgia criada especialmente para ele (nas obras do Laboratorio Chimico da Universidade foi descoberto um forno metalúrgico onde ele deve ter trabalhado) e a diversos trabalhos de campo. Estávamos na época em que começava a Revolução Industrial e, com ela, o interesse pelas riquezas da Terra. Além de ter desempenhado o cargo de Intendente Geral de Minas e Metais do Reino, administrou as minas de carvão de Buarcos, no Cabo Mondego, e de S. Pedro da Cova, em Gondomar, e as Reais Ferrarias da Foz do Alge, um afluente do Zêzere. Chefiou um laboratório na Casa da Moeda.

Foi José Bonifácio quem usou pela primeira vez entre nós a palavra «tecnologia», vertida da língua germânica. Quando, em 1808, as tropas de Napoleão invadiram Portugal, ele não hesitou em pegar em armas com colegas e estudantes. Chefiou o quartel de Peniche até os franceses se retirarem. Publicou em 1815 o livro Sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal, no qual falava da «economia da Natureza» (a que hoje chamamos ecologia).

José Bonifácio voltou ao Brasil em 1819, aos 56 anos. D. João VI, antes de voltar a Portugal em 1821, delegando o poder em D. Pedro, nomeou-o conselheiro. Numa época assaz tumultuosa, José Bonifácio defendeu a unidade do Brasil e os direitos dos índios e escravos negros. Quanto à questão da independência, os acontecimentos levaram-no a tomar uma posição clara que, no Verão de 1822, comunicou a D. Pedro, numa carta enviada a «mata-cavalos»: «O dado está lançado e de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores. Venha Vossa Alteza quanto antes e decida-se, porque irresoluções e medidas d'água morna, à vista desse contrário que não nos poupa, para nada servem e um momento perdido é uma desgraça». A resposta, com data de 7 de Setembro, hoje consagrado como dia da independência do Brasil, foi curta e decisiva: «É tempo! Independência ou morte! Estamos separados de Portugal». O mineralogista tornou-se ministro do Interior e dos Negócios Estrangeiros e, no ano seguinte, membro da Assembleia Constituinte.

Com a dissolução da Constituinte ordenado pelo próprio D. Pedro I, José Bonifácio foi preso e embarcado para o exílio europeu. O seu destino não foi Lisboa, mas sim, após uma revolta a bordo, Vigo, de onde lhe foi permitido seguir para Bordéus. Foi no ambiente girondino que descobriu uma vocação de poeta, mostrando que as artes e as ciências não têm que star desavindas. Publicou em 1825 em Bordéus Poesias Avulsas, sob o nome de Américo Elísio. Mas não foi um grande poeta.

Só passados seis anos pôde regressar ao Brasil, tendo a esposa falecido durante a viagem. Reconciliado com o imperador, foi nomeado por este tutor do filho, o futuro D. Pedro II. Mas a vida política voltou a não lhe sorrir. Envolto em confusões, foi de novo preso, vendo-se obrigado a prisão domiciliária.   

Tem uma estátua no centro de Nova Iorque, mas nenhuma em Portugal. A casa onde viveu em Santa Clara, em Coimbra, está meio em ruínas. E até a Galeria de Minerais com o seu nome, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, está obscurecida por um inefável «Gabinete de Curiosidades» (alguém inventou algo que nunca existiu em Coimbra). Pobre José Bonifácio!

1 comentário:

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